sexta-feira, julho 06, 2012

PALÁCIO RATTON - Uma jóia arquitectónica

Construído entre 1816 e 1822, o Palácio Ratton deve o nome a Diogo Ratton (1765-1822), seu primeiro proprietário, um importante industrial descendente de empreendedores que vieram para Portugal a coberto da política activa de desenvolvimento económico prosseguida pelo Marquês de Pombal.
Em estilo neoclássico de influência francesa, constitui um belo exemplar da arquitectura lisboeta.
Alberga hoje o Tribunal Constitucional, instituição que, segundo se diz, a troika pretende avaliar numa das suas próximas deslocações a Lisboa.

quinta-feira, junho 21, 2012

MULHER NA PRAIA

"Mulher na Praia" (2011), Milu Petersen, http://www.artmajeur.com/milupetersen/

Por que marés de algas chegas até mim
à flor da praia? De que ilhas vens,
por correntes e ventos
que desconheço? Estendo a mão
para te apanhar, como a uma concha
estriada de luz sobre a areia húmida.
Mas não chego lá.

segunda-feira, junho 18, 2012

LUZ COADA POR FERROS

Leio o “Discurso Preliminar” que precede as Memórias do Cárcere. São cerca de trinta páginas que revelam, para além da reconhecida imaginação novelística, o pendor autobiográfico e memorialista da escrita de Camilo. 
“O criminoso é fácil de conhecer, porque tem buracos na cara.” – Assim rezava uma carta, saída de fonte da Justiça, que intimava os aguazis a deterem o adúltero nas Caldas das Taipas.
Em Amarante, por onde passara o fugitivo, são-lhe pedidos versos para as festas do Coração de Maria da irmandade de S. Gonçalo.
“– Queríamos uns versinhos para as cavalhadas do Coração de Maria.”
“ – Pois o Coração de Maria é festejado com cavalhadas em Amarante!? Conte-me isso, mestre. Como é que a irmandade mete cavalos e poetas na sua devoção?”
Pinto de Magalhães e Fanny Owen não são esquecidos: “Vi agora os retratos de ambos. Sempre que os contemplo, creio que me falam e dizem: ‘E tu vives ainda! (…)’.”
As Memórias do Cárcere foram escritas por Camilo “na convalescença duma grande enfermidade moral” (prefácio da segunda edição). Foram 384 dias que o escritor romântico passou na cadeia da Relação do Porto (em regime de prisão não muito severo, diga-se), conhecendo homicidas, ladrões, moedeiros falsos e outras castas de delinquentes. Escreveu sobre eles talvez com mais imaginação que preocupação realista. E também sobre si, memórias de si mesmo, autobiografia: no capítulo XII  evoca os amigos que o não esqueceram durante o longo tempo de provação; e no seguinte refere o encontro fortuito com a guerrilha miguelista do tenente Milhundres,  quando regressava de Coimbra a Vila Real, na companhia de um colega, por a universidade ter sido encerrada devido à revolta da Patuleia.
A luz que entrava da cadeia da Relação do Porto era uma “Luz Coada por Ferros”, titulo do livro de Ana Plácido, também ela sujeita aos rigores da reclusão. Uma frase em tudo camiliana.
CAMILO CASTELO BRANCO, Mémórias do Cárcere, fixação do texto e prefácio de Aníbal Pinto de Castro, Lisboa, Parceria A.M. Pereira, 2001.

sábado, junho 16, 2012

BREVE APONTAMENTO SOBRE ARTE POÉTICA

Há contentamentos nas minhas noites que se riem
da claridade dos dias.

Eu sei que não devia dizer isto no poema,
a voz tão próxima do eu que escreve, designada
nos compêndios como sujeito lírico, e tentar,
segundo o cânone da poética moderna, a despersonalização
ou o fingimento adequados aos fins em vista, pois o poeta
deve falar de si, sim, mas com a máscara de outro.

Porém, como renunciar ao nítido perfil do sonho?
Como não falar das mulheres que todas as noites
passam pela minha cama,
algumas que mal conheço, outras que conheço bem de mais:
um nu deitado de Modigliani, a Ester que vejo entrar no banho
no quadro luminoso de Chassériau,
o mármore branco de corpo feminino
com que me deparei  em certa tarde numa sala do museu de Orsay?

Sigo ao contrário da norma e pelo voo do sonho.

No cume da noite
abraço-me  ao corpo que dorme comigo, abro-lhe
a nuvem lúcida do seio
e respiro-o doridamente
até que a manhã desfaça o encanto.

sexta-feira, junho 15, 2012

QUASE EPIGRAMA

Tudo podia ter acontecido de outra maneira, dizes
com o desencanto de quem chega ao fim dum romance
e não se conforma com o desfecho da história.

Não sei se sabes, mas os romancistas lidam arduamente
com as personagens que criam.  Muitas vezes, contra tudo
o que esperam, são elas que galopam os corcéis da fábula,
que tomam conta dos fios da trama.

Que podias tu fazer, na tua ingénua simplicidade,
para segurares o curso da história que te meteste a escrever?
Onde tinhas o tear para urdir as ficções?
Onde estava o modelo que devias seguir?

Fizeste-te personagem trágica dum romance fechado
e nenhum deus ex machina veio em teu auxílio.

quarta-feira, junho 13, 2012

domingo, junho 03, 2012

CAROLINA E A RAZÃO

Florival Aureliano tinha um caderno de argolas, assim do tamanho de um livro grande, em que ia anotando poemas, impressões de leituras, ditos pitorescos que ouvia nas ruas e nos transportes públicos. Tive o privilégio de ver esse caderno ao fim da tarde do dia 6 de Junho de 2010, sentado com o seu detentor num café da Avenida de Berna, ali mesmo ao lado da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, enquanto fazia horas para o jantar de aniversário duma amiga de infância, Maria Carolina, por quem sempre tive um certo fraquinho e que a rapaziada brava costumava arreliar com aquela conhecida canção:
A saia da Carolina
Tem um lagarto pintado
Sim Carolina ó - i - ó - ai
Sim Carolina ó - ai meu bem.
O dono do caderno de argolas era um tipo um bocado estranho, de idiossincrasias raras. Nunca saía à noite, mesmo no Verão, sem enfiar pela cabeça um grosso pulôver; só bebia cerveja morna e preferia o vinho tinto ao branco; gostava de mulheres inacessíveis; e se algum homem lhe punha a mão afectuosa sobre o ombro tomava-o um arrepio de nervos capaz de produzir um efeito trágico. Sabia-se que tinha medo de adoecer e que era vagamente homofóbico.
Uma nota curiosa, logo nas primeiras páginas do caderno, referia as perseguições de Diocleciano  na civitas de Olisipo (anos 303 a 305) e os mártires Máximo, Severo e Júlia, o que demonstra o interesse do anotador por assuntos históricos e religiosos. Seguia-se a transcrição duma passagem da alegoria da Caverna, extraída de Platão, um poema do próprio Florival a uma sua amada que simplesmente o ignorava, e uma conversa entre duas comadres ouvida no eléctrico da Graça:
“- Pois nem queira saber ao que aquilo chegou.
- Alguma coisa má, comadre?
- Má? Se o é! Uma pouca vergonha! Descobri que ele é homem-sexual.”
Para além destes apontamentos esparsos, frutos da poliédrica inquietação de Florival Aureliano, o que mais me entusiasmou  foi um conjunto de páginas preenchidas com quadros de dupla entrada, uma espécie de fichas para um estudo sociológico inédito. Na horizontal, indicação de lugares, datas e horas correspondentes a observações realizadas; na vertical, duas simples colunas: “loiras falsas” e “loiras verdadeiras”.
Apresento um exemplo:
Data, local e hora da observação
Loiras falsas
Loiras verdadeiras
15 de Maio, Café Bijou, entre as 10 e as 11 horas
3
1
16 de Maio, Jardim de Oeiras,
entre as 18 e as 19 horas
7
0
Florival explicou-me tudo. Há muito que se interessava pela cor dos cabelos das mulheres. Tinha como quase certo que em Portugal  haveria noventa e cinco por cento de mulheres morenas (de cabelos pretos ou castanhos) e apenas cinco por cento de loiras. As ruivas nem dava para considerar, tão exíguo era entre nós esse tipo feminino, embora se percebesse que as mesmas exerciam sobre si algum fascínio: havia no caderno um poema de Florival com o sugestivo título de “A uma cenourinha bonita que passa por mim sem olhar”. A questão que se colocava é que já não se conseguia saber quais eram as loiras e as morenas, tais os artifícios capilares em uso, chegando-se ao cúmulo de não se excluir a hipótese de também algumas loiras  autênticas, por razões que a própria razão desconhece, poderem pintar os cabelos de preto ou castanho. Era a confusão completa e Florival tinha resolvido tirar tudo a limpo. Deixando de parte a questão das falsas morenas, atirou-se às loiras, autênticas e fingidas, e assim encheu mais de trinta páginas dos  seus gloriosos hypomnemata. Este termo, aqui lançado como prova da vasta intelectualidade do escrevente, foi recuperado por Michel Foucault no século XX, correspondendo aos apontamentos tomados em pequenos cadernos pelos gregos letrados da Antiguidade. Para que se saiba e se pasme.
Como é que Florival estatuía a condição verdadeira ou falsa das loiras? Ora aí é que está o busílis da questão. Posso adiantar que era a partir de demoradas e penetrantes observações do objecto em análise: comparação com os pêlos das sobrancelhas  ou dos braços, se os havia, com o tom da pele e a cor dos olhos. Mais longe não podia ir, embora talvez desejasse, mas mesmo assim havia os seus riscos. Uma jovem que se sentava com uma amiga, numa manhã de sábado,  num café do centro comercial, levantou-se abruptamente ao fim de quinze minutos de assédio visual e disse para quem a quis ouvir:
 “ - O velho deve ser tarado! Vamos mas é embora que estou farta de anormais”.
O observante, impávido, anotou: “loira falsa”. Outra vez, no mesmo café, uma senhora de cerca de cinquenta anos, por sinal muito desfavorecida de beleza, loira igualmente espúria, mandou-lhe um papelinho enrolado com um número de telefone, mas Florival fez-se sabiamente desentendido, limitando-se a anotar o resultado da sua observação.
Episódio nada agradável registou-se com uma loira genuína que seguia acompanhada do marido no comboio para Lisboa. Florival passou Paço d´Arcos, Caxias e Algés com o olho posto na mulher. Quando chegou à estação do Cais do Sodré, o varão, enciumado, acercou-se dele e quase lhe deitou as mãos aos gorgomilos. O observante apoucou-se perante o ímpeto do capanga, justamente receoso que lhe dentassem a febra com os olhos. Aguentou os impropérios que o outro lhe dirigiu e alegrou-se interiormente: já tinha observado e anotado no seu caderno o brilho veraz daqueles cabelos de oiro.
Fiquei até ao cair da noite a percorrer as páginas do caderno, a ouvir as explicações de Florival. Este, entretanto, mandara vir mais uma cerveja morna, mastigara um rissol de camarão, não sem que antes perguntasse ao empregado se o marisco era de confiança. Só depois é que me contou, em tom lamentoso, o episódio da enfermeira, uma loura assim-assim com quem aprazara vários encontros sem resultados palpáveis. Era fascinante escutar Florival e perceber a singularidade que emanava da sua pessoa.
Às nove e tal dei por mim. Corri para o restaurante onde se realizava o jantar de aniversário de Maria Carolina. Encontrei-a furibunda pelo meu atraso, tendo ao seu lado o execrável António Abel, meu rival de sempre, com quem ela fugira em certo Verão para uma semana de férias escaldantes na Île de Ré. Engoli contrafeito os bifinhos com cogumelos, abusei do tinto de Pegões, vinguei-me da privação no pudim caseiro e sorvi sem moderação uma aguardente envelhecida em cascos de carvalho. Parecia-me que o António Abel, assim como quem não quer a coisa, palpava as coxas de Maria Carolina enquanto davas vivas à aniversariante. Enfim, uma noite para esquecer.
Guardei desse 6 de Junho a memória da conversa solar com Florival Aureliano. Nunca mais soube nada dele. Desapareceu das tertúlias que frequentávamos como quem já não cabe nelas e se eleva ao empíreo da inteligência e do pensamento audaz, talvez também do sofrimento e da solidão, a única forma de superarmos as nossas limitações. Não voltei à festa de aniversário de Carolina: à de 2011 e, seguramente, também não irei à que se fará este ano. Conservo dela as três cartas que há muito tempo me escreveu: uma delas para dizer que não esperasse nada de si, que continuaria amiga, mas que eu não era homem que pudesse servir-lhe. Por muito que me custe admitir, acho que estava cheia de razão.

sexta-feira, junho 01, 2012

TRABALHEM, MALANDROS!

Trabalhem e tirem o país do buraco em que o meteu a classe política – os Relvas, os Sócrates, os Passos e os Cavacos. Trabalhem, incompetentes,  e não venham com histórias da carochinha para justificar o injustificável: 36,6% de desemprego jovem, 15,2% de desemprego em todas as faixas etárias, 1 200 000 desempregados se se considerar os que já desistiram de procurar trabalho e que por isso não entram nas estatísticas.
Há um ano, um agora ministro que tenta passar despercebido aparecia indignado nos telejornais de cada vez que uma velhinha era assaltada na rua pelo processo do esticão. Hoje assaltam-se bombas de gasolina à mão armada, atacam-se à bomba as caixas multibanco, as máfias andam em roda livre – mas o tal ministro anda mais calado que uma estátua de pedra.
Trabalhem, malandros!  Não inventem desculpas! Ou então digam que não são capazes e vão tratar da vidinha! Não tenham medo que não ficam no desemprego como o cidadão comum: há sempre  uma colocação internacional ou a empresa dum amigo à vossa espera.

segunda-feira, maio 07, 2012

NO PIANO BAR


Gosto muito de cama, disse ela, a meio de uma conversa banal sobre um romance de Philip Roth. Distraído como andava, ele começou por pensar que se tratava da fala de alguma personagem, ali trazida à conversa para mais viva representação da trama romanesca. Mas não, logo percebeu que não era possível, que a amiga falava na própria voz, e, como homem sério não tem ouvidos, fez-se desentendido, tricando o caju e escorrendo a cerveja, enquanto o pianista martelava um “Summertime” angustiado e frouxo por entre espirais de fumo que  morriam nos exaustores cravados no tecto.
Estava cansado e com vontade de dormir. Passara a tarde de sábado em Cascais, numa tertúlia vagamente literária, a que se seguira um jantar pacato com um amigo. Depois, fizera a viagem de comboio até Lisboa, as luzes da margem escorrendo para o rio com o perfil luminoso da velha ponte ao fundo,  e agora ali estava, duas e tal da manhã, com uma cerveja fria na mesa em frente de uma mulher quente que lia Philip Roth e gostava muito de cama.
Há muito que estaria em casa se o telefone não tivesse tocado pelas dez e tal. Sim, estou em Lisboa, acabei de sair do comboio no Cais do Sodré. Que coincidência, retorquiu ela, eu estou na Brasileira, é só subir um pouco. De aqui a dez minutos, então, anuiu ele.
Andava muito ocupado com a escritura de um romance. Já ia em trinta e duas páginas, nunca tinha chegado tão longe, mas  começava a baralhar-se com os desígnios das personagens e os contornos da história, como se a vida nunca lhe tivesse ensinado nada e nada conseguisse tirar dela para encher as suas fracassadas ficções. Queria contar a história de dois amantes, mas não percebia nada de tal matéria. O escritor só fala do que conhece, diz-se, e todas as relações amorosas lhe tinham passado ao lado, como se apenas as tivesse vivido nas margens do rio (torrencial) do amor, sem nunca chegar a meter os pés na água. A negação de Heraclito. O telefonema da amiga quase lhe soube bem, quem sabe se não seria um empurrão para conseguir sair da melancolia letárgica em que o seu romance se encontrava.
A amiga não era má de todo. Bons seios, boas pernas, um rosto razoavelmente conservado à custa de muito cremes hidratantes e especiosos esteticismos. Poderia vê-la até como uma mulher sensual, naquela acepção mais óbvia da palavra, se ele não andasse tão arredado de vertigens sensualistas e mais dado a arroubos contemplativos da beleza pura. E lá foi falando de Philip Roth, que mal conhecia, dos seus romances e ensaios, grande virtude e prova de inteligência é conseguirmos  falar de livros que nunca lemos.
Ainda tentou desviar a conversa com impertinentes referências ao romance psicológico, à lírica barroca, à poesia licenciosa de Catulo e às odes de Horácio. Ela julgou que estava a topá-lo, Philip Roth ali à mão, e passou ao ataque: gosto muito de cama.  Ele esmerdou-se, palavra que não deve vir no dicionário Houaiss mas de que qualquer jongleur do amor conhece bem o sentido.
O gajo é parvo, pensou ela, ou então já não aguenta uma noite com uma mulher. Olhou para o relógio largo que usava no braço direito, fechou a pequena cigarreira prateada, ajeitou a saia verde orlada de preto, sacudiu o colar, afagou o peito como se buscasse no gesto uma ínvia compensação de algo, e fez questão de pagar a conta. Fui eu que convidei, disse.  
Saíram do piano bar. Ele acompanhou-a ao parque de estacionamento, apanhou um táxi e rumou a casa. Apetecia-lhe dormir, descansar até altas horas de domingo. À sua maneira, também ele gostava muito de cama.

quinta-feira, maio 03, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (11)


Sinto que passaste por mim como um pequeno rio
de que apenas ouvi o murmúrio, ou como a música
dum coreto distante trazida no bojo dos ventos
em entrecortados soluços. Nunca soube nada de ti,
nem das ciências inexactas do amor. Sei, no entanto,
que me enchias o tempo duma alegria breve,
eternizada de cada vez que chegavas a casa
com a singela disposição dos teus modos
no sorriso do olhar e da voz, no anel da tua cintura
que o fogo-fátuo da minha carne nunca tangeu
na plenitude. Por isso escrevo o poema deste tempo
de reencontro com o que nunca fui, nesta sala
povoada de livros, pó e algumas sombras,
no prazer quase mórbido da tua ausência.

"CAPITÃES DA AREIA"

                                      Do filme de Cecília Amado                                                          
  Museu do neo-realismo em Vila Franca de Xira
Romance engajado e militante duma literatura que influenciou decisivamente o neo-realismo português, conforme pode ser apreendido na célebre polémica de 1939, nas páginas da “Seara Nova”, entre José Régio e o jovem Álvaro Cunhal.  Já houve quem notasse a correspondência de “Esteiros” de Soeiro Pereira Gomes (publicado em 1941), um romance de meninos operários, com a narrativa dos meninos da rua de Salvador da Bahia: Gineto no Ribatejo e Pedro Bala na região nordestina do Brasil. Homens que nunca foram meninos ou meninos que sempre foram homens, a contraditória disjuntiva que exprime uma opressão social e política que teve lugar de ambos os lados do Atlântico. Por isso é bom ler Jorge Amado no ano do seu centenário e tentar conhecer o neo-realismo português cujo romance inaugural – “Gaibéus” de Alves Redol – se publicou em 1939, dois anos depois de “Capitães de Areia”.

quarta-feira, maio 02, 2012

ENSAIO SOBRE A CUPIDEZ

Loja Pingo Doce da Av. Almirante Reis, de portas fechadas e sob aparato policial, à hora em que desfilavam os manifestantes do 1º de Maio.

As cenas reais bem poderiam pertencer a um romance que Saramago nunca escreveu, mas que seria no género de “Ensaio sobre a Cegueira” ou “Ensaio sobre a Lucidez”: uma turba ávida, descontrolada, lançando-se sobre as prateleiras dos supermercados para beneficiar de um desconto de metade do preço nos produtos adquiridos. Na voragem cúpida, levam o que precisam e o que não precisam, porque o importante é atingir o valor mínimo que dá direito ao desconto. Os gerentes dos supermercados exultam, os clientes grunhem e a polícia é chamada para serenar os ânimos.
E assim queimam um dia de descanso, que daria para passear ou ir ao cinema, em longas filas de espera para os talhos e peixarias, roubando dos carrinhos dos competidores produtos já esgotados nas prateleiras, envolvendo-se em desacatos, soltando impropérios, carregando as bagageiras dos automóveis para logo voltarem de olhos baços ao rodízio consumista.
O gerente duma loja de Sintra, entrevistado pela televisão, dizia que os clientes tinham respondido positivamente ao aproveitarem a boa oportunidade de negócio que se lhes deparara. E pelo negócio lá se foi o ócio, pela picanha e pelo uísque de 12 anos perderam um feriado, trocaram o ar fresco e luminoso do dia pelas luzes das lojas e o delírio dos escaparates.
Tudo isto enquanto o primeiro-ministro  dizia tranquilamente, numa assembleia do seu partido,  que os portugueses deveriam preparar-se para níveis de desemprego ainda mais altos, para maior austeridade.  Esta gente que irá suportar mais desemprego tem a austeridade de que precisa e no poder os governantes que merece. É sabido que nas próximas eleições vão tirá-los de lá, não por convicções políticas, mas por simples ganância: porque lhes foram aos ordenados e ao preço do bife.  Se o merceeiro Alexandre Soares dos Santos viesse a candidatar-se, teria fortes probabilidades de ganhar.

terça-feira, abril 03, 2012

O MENTALISTA

A surpreendente Teresa Lisbon (Robin Tunney), agente da CBI (Agência de Investigação da Califórnia), e o seu sagaz colaborador Patrick Jane (Simon Baker). Programa obrigatório às segundas-feiras (RTP2) para quem recusa o furor orgíaco dos cem canais da TV por cabo e começa a ficar cansado da Fátima Campos Ferreira e dos seus bonecos falantes.

quinta-feira, março 29, 2012

PRAIA DA SALEMA

Leio no DN online uma notícia extraordinária:  – que a praia da Salema (Vila do Bispo) fora eleita como uma das melhores praias secretas do planeta pela revista americana “Travel&Leisure”, especialista em viagens e lazer.
Para mim, que sempre fui avesso às praias do Allgarve turístico (excepção feita aos Olhos de Água e à Falésia), há trinta e tal anos que tenho a praia da Salema como nada secreta.
Memórias de tempos em que nela fazia férias de Verão e de Páscoa, o ar carregado de sal, o perfume das estevas, e, em qualquer baiuca, o trago de medronho genuíno, esse sim, hoje secreto.

quinta-feira, março 22, 2012

A FICÇÃO E O MUNDO

Umberto Eco
Leio um texto de Umberto Eco: “O Estranho Caso  da Rue Servandoni”, relacionado com Os Três Mosqueteiros de Dumas, quinto capítulo de Seis Passeios nos Bosques da Ficção. Trata dos pactos ficcionais, das relações entre ficção e História, entre ficção e mundo real. E então coloca-se a seguinte questão: que diria o leitor de um romancista que numa das suas obras colocasse o Empire State Building em Berlim e a Alexanderplatz num bairro de Nova Iorque?  O processo de suspensão da incredulidade, que leva o leitor a aceitar o lobo falante do Capuchinho Vermelho ou a metamorfose de Gregor Samsa no livro de Kafka, parece não funcionar aqui. A não ser que se trate de ficção do género nonsense… Isto deu-me umas ideias para um certo trabalho sobre A Velha Casa.
ECO, Umberto – Seis Passeios nos Bosques da Ficção, DIFEL, 1995, pp. 103-122.

terça-feira, março 20, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (10)


Leio nas estrofes dum poema de Apollinaire
a inelutável revogação do amor: um rio
que passa na distância das margens
sob a sombra oblíqua duma ponte. Nas águas
passadas de outro rio, procuro os  lugares
e  paisagens de antigas viagens: fotografias
guardadas em velhos álbuns,
carcereiros taciturnos
de um tempo que só a imaginação
aprisiona : memórias
de quando os teus cabelos dormiam
espalhados na minha almofada
e as noites flamejavam como vitrais
o abraço cálido dos corpos.


Nota: a folha em que se encontra este poema está datada de forma singular: "Paris - Pont Mirabeau, Primavera - 9 de Abril do ano derradeiro".

sexta-feira, março 16, 2012

VOU LENDO: "O BARÃO DE LAVOS" (1891)

E assim, na nudez discreta da noite, na voluptuosa penumbra da saleta, aqueles dois esposos, na aparência tão próximos, ambos novos, ambos amantados na carícia do mesmo ambiente perfumado e morno,  obstinavam-se longe, muito longe um do outro; ele galopando o destrambelho do seu vício; ela deliciando a imaginação e envenenando os sentidos na tragédia dissolvente de Madame Bovary.
ABEL BOTELHO, O Barão de Lavos, Lisboa, Edição “Livros do Brasil”, s/d, p. 22.

terça-feira, março 13, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (9)

Aprendi com Orfeu que não poderei
olhar para trás, e que em frente há
a dolorosa extinção do meu canto,
o pérfido baile das bacantes.
Por isso não direi o amor
no pretérito do que fui, ou no futuro
daquilo que não voltarei a ser.
Entrego-me ao condicional
de todas as conjugações como
quem abre uma porta na pedra líquida
dos verbos, bastando-me sentir
que talvez continues em mim
tão presa e livre
como a folha de árvore que se solta e voa.

segunda-feira, março 12, 2012

PIAZZA DI SPAGNA

O editor deste blogue fotografado na escadaria da Piazza di Spagna a fazer horas para o concerto da Laura Pausini.

sexta-feira, março 09, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (8)

Conheço todas as palavras das cartas
que não me escreveste. Palavras cheias,  
tão copiosas que mal caberiam
dentro dos livros que levaste de casa,
ou dos cadernos dos tempos da escola
de que te esqueceste,  talvez por já nada
dizerem de ti nem serem capazes de falar
dos teus novos sonhos. Encontro  essas
palavras em cada verso que faço, em cada
linha que imagino escrever-te, e sinto-as
queimarem-me os olhos e ferirem-me
os dedos: palavras aparentes que fustigam
e doem, pássaros roxos voando em sombra
sobre as searas descontentes.

ESPÓLIO DE JOSÉ RAFAEL (1947-2010)

Uma das raras fotografias de JOSÉ RAFAEL. Tirada em local e data que não conseguimos determinar.

quinta-feira, março 08, 2012

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

APROVEITANDO UMA ABERTA
                              Para António Nobre
“Ó virgens que passais ao sol-poente”
com esses filhos família,
pensai, primeiro, na mobília,
que é mais prudente.
Sim, que essa qualidade,
tão bem reconstituída,
nem sempre, revirgens, há-de
proporcionar-vos  a vida
que levais.
Se um tolo nunca vem só,
quando não vem, não vem mais
ou vem, digamos, por dó…
E o dó doi como um soco,
até mesmo quando parte
de um tolo que a vossa arte
promoveu de tolo a louco.
Eu quando digo mobília,
digo lar, digo família
e aquela espiada fresta,
aberta, patente, honesta,
retrato oval da virtude,
consoladora do triste,
remanso, beatitude
para o colérico em riste.
Assim, sim, virgens sensatas!
(Nos telhados só as gatas…)
Pensai antes na mobília,
honestas mães de família,
E aceitai respeitos mil
do vosso   
              Alexandre O’ Neill!

("Poemas com endereço", Lisboa, Livraria Morais Editora, 1962, pp. 32 e 33)

Poema datado, mesmo assim digno de ser lembrado neste dia de celebrações emancipadoras. Tenho o livrinho comigo, uma jóia sem preço.

terça-feira, março 06, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (7)


Nunca percebi o que se passou naquela noite,
no hotel perto da estrada onde ficámos
depois de uma viagem de horas por entre
clâmides de searas  sob a luz e o vento
das planícies do sul. Os faróis dos carros
projectavam súbitas claridades nas paredes
do quarto, relâmpagos breves e surdos
como os de uma trovoada dentro de um sonho.
E então vi que choravas, um choro silencioso,
inexplicado, mas tão real que nos tolheu
por muito tempo os gestos do amor.
Penso hoje que teria bastado uma palavra tua,
ou minha, um compreensível sinal contra o silêncio
absurdo daquele prenúncio de distância.

sexta-feira, março 02, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (6)

Embora não o deseje, sei que me esperas
numa qualquer praça do tempo, e que ainda
conversaremos como dois amigos que se reencontram
depois de uma viagem ou de uma longa doença.
Mostrar-te-ei os meus versos, e tu me contarás
cada uma das ficções com que adornaste
a indiferença dos dias. Continuo a acreditar na verdade
singular da poesia, e apenas espero  ver cumprir-se
o meu livro para que possa entregar-me
ao silêncio definitivo de quem já fez
o que tinha a fazer.  Gostaria que fosse
por uma manhã cálida de Novembro, ao expirar
do Outono,  com os salgueiros respirando
nas margens do rio a prosopopeia dum choro.

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (5)

Em frente do mar, como Júdice

Na esplanada, em frente do mar, vejo-te
como naquela tarde em que te sentaste no muro
de pedra que dava para a praia, e gozando
o voo das gaivotas sobre o areal e a espuma,
levantaste a fímbria da saia um palmo acima
dos joelhos. Na minha mão despertou
a carícia que a tua pele insinuava, e tu riste
com a alegria de quem vê cumprir-se a promessa
dum afecto. Hoje pergunto-me como foi possível
chegarmos a este silêncio de olhos e vozes
que tomou conta de nós como um nevoeiro de gumes
insidioso e frio.  Estendo o braço sob a mesa
da esplanada à procura da carícia antiga.
Mas já não a encontro.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (4)


Falo de um livro em que escrevi
as palavras pinheiro, resina, agulha.
Um livro com uma dedicatória
de quando o teu ventre era vagem
e os teus seios breves pomos.
Falo de um livro antigo
como os que inventaram
a palavra pão ou a palavra amor.
Um livro que percorreu a memória
e os hexágonos do tempo
por entre desencanto e traição:
uma ferida e cicatriz de lume
(ajeno de placer y de contento)
na minha pele de bibliotecário cego.

Nota:
A palavra “ferida”, no décimo segundo verso do soneto monóstrofo, encontra-se no manuscrito  como “herida”. Tratando-se de um possível lapso,  adoptámos a correspondente expressão portuguesa. Já de mais problemática compreensão (ou talvez não)  é a inclusão parentética do verso castelhano que julgamos pertencer a San Juan de la Cruz.  

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (3)

Deixa-me acreditar, meu pequeno pássaro,
que voaremos ainda sobre os telhados
da nossa cidade desfeita, e que desenharás,
com os teus lápis de cor, os ilesos campos
que a ruína não logrou  tocar.
Aí ficaremos os dois, na manhã
que o teu traço anuncia, correndo e brincando
por entre as macieiras da verosímil imaginação,
até que cansados nos deitemos de costas,
a tua pequena mão no meu polegar,
as nossas cabeças juntas, sob o sol amarelo
que radia sonho e a alegria única
do nosso amor
contra as paredes hirtas da desilusão.

sábado, fevereiro 25, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (2)

Da próxima vez, não nos deitaremos
em leitos de penas nem cobriremos de sedas
o livor da indiferença.
A pele esperará pela outra pele,
a voz contará sempre com a outra voz.
Haverá ramos de árvores sobre
o beiral da casa, a chaminé transpirará
vagarosamente a excitação da noite,
e da praia virá, como um arrulho de ave,
o rumor incessante e renascente do mar.
Da próxima vez haverá poemas,
e no metal das palavras
conheceremos o perfil do amor.
Da próxima vez, se houver próxima vez.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

O QUE ELES INVENTAM!

Os desempregados inscritos nos centros de emprego vão ter um gestor de carreira para facilitar o regresso ao mercado de trabalho, anunciou hoje o ministro da Economia, no final da reunião do conselho de ministros.

(Notícia dn)

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (1)

Entras em todos os meus sonhos,
como um rio de lava doloso e lábil.
Vejo-te nos degraus da noite,
nas ágoras do dia, e sabes de mim
aquilo que nunca cheguei a dizer-te.
Devassas-me a imperfeição do corpo,
os escaninhos do ser, azougue
que me percorre e enche, desassossego
que se deita comigo, mão fria
que me violenta o sexo
e desafia a humanidade.
Mando-te embora, sombra lívida
que não tolero nem desejo.
Mas voltas sempre.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

JOSÉ RAFAEL

JOSÉ RAFAEL (1947-2010), poeta tomarense. Viveu ignorado e ignorado morreu numa manhã cálida de Novembro. Deixou um maço de poemas inéditos, em caligrafia espessa e desigual, de difícil leitura. As mais de trezentas folhas, sobrepujadas por uma placa de cartão que servia de capa, encontravam-se atadas por três voltas cruzadas de barbante. Sobre a capa de cartão estava escrito a marcador de tinta preta: CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL.

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

A LAMENTAÇÃO DE PROCUSTO

I
Reconheço os crimes que cometi, o terror que espalhei pela Ática, infligindo aos viandantes os suplícios do leito. Via-os chegar exaustos ao cais do porto onde os esperava, queimados de vento e  pó, as sandálias e as túnicas desfeitas, –  de bom grado aceitavam a miragem de repouso que lhes prometia.
II
Confesso que  sofria.  Perturbava-me a impiedade dos deuses, o fogo sombrio da desigualdade nos olhos dos homens, o rápido fluir da vida sob as pontes  do destino  absurdo. Mas o mal que pratiquei nunca me concedeu a satisfação, nunca tive prazer em ver no rosto das vítimas o reflexo cruel do pavor sem limites: fiz apenas o que estava destinado  fazer-se  desde o princípio dos tempos.
III
Capturou-me Teseu numa vereda que levava a  Elêusis. O dia era uma promessa de luz e havia no ar um cheiro brando a pinheiros. Eu tinha os olhos rasgados de viandantes e as mãos tolhidas de sangue.
IV
Morri no suplício do leito, mas os meus membros decepados,  vivos em metáforas, atravessaram o martírio da História por séculos de luz e de trevas.
V
Bastava o frio castigo de Teseu e a mortalha de silêncio sobre o meu ser desprezível:  a moeda ao barqueiro, o rio sem  regresso. Teria descido em paz ao reino das sombras, aliviado dos meus crimes e da tirania dos deuses.  Teria  descansado, enfim, no leito do olvido.

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

CAVACO SILVA CANCELA VISITA A ESCOLA POR CAUSA DOS PROTESTOS

Escola António Arroio, hoje (foto JN)
Os figurões têm medo. Perante os protestos dos alunos e da Associação de Pais por causa das condições da escola e dos preços dos passes de transporte, nada melhor que meter o rabo entre as pernas.

sábado, fevereiro 11, 2012

MULHERES EM LUTA

Manifestação da Intersindical em Lisboa - 11/2/2012
Eram, agora, ainda mais frequentes essas reuniões, que às vezes se prolongavam pela noite dentro. Vinha o Januário, o Zé Olívio, o Rúdio, – já velhos conhecidos. Vinha o Margarido, quase sempre acompanhado do Paulo Bastos, – mais recentes.  Apresentado por qualquer destes, de vez em quando vinha um desconhecido, que depois continuava de aparecer, ou não. Geralmente, era um camarada que, de passagem pelo Porto, fazia uma visita. Chegara, já, a vir um ou outro indivíduo com cara de estrangeiro. Maria Clara servia cafés a todos, Joaquim trazia do guarda-loiça a garrafa do conhaque. “Não são conversas de mulheres”, dissera Joaquim, uma vez que, mais por sondar que por outra razão, ela aparentara querer assistir a uma de tais reuniões. “Também há mulheres que se metem nessas coisas”, retorquiu ela. “Quais coisas?”. “Essas da política.” Bem se vê que tu não”, rematara ele. E, para rematar a contento dela: “Nem eu te queria metida nisto. Quero-te como és.” “Julgava que só os burgueses é que pensam assim das mulheres!” “Toma!”, exclamara o Januário, rindo.
JOSÉ RÉGIO, A Velha Casa, vol. IV, Obra Completa, Lisboa, IN-CM, 2003, pp. 245 e 246.

domingo, janeiro 29, 2012

A MORTE DE AL BERTO

Al Berto (Coimbra, 11 de Janeiro de 1948 - Lisboa, 13 de Junho de 1997)

Não foi como a de Rimbaud: a noite não estendeu
o seu manto sobre a copa das árvores,
a luz que tomou conta do tempo não sossegou
o coração dos pássaros,
não suspendeu os jogos das crianças.
À tua frente havia um mar de que não sabias
o nome, um pélago onde chegavam rios esquálidos
que abraçavam a voragem.

O chicote da tosse rachava-te as arcadas
do peito, doía-te como a febre ou o sono,
enquanto na cidade havia uma alegria de asas
sobre as cabeças dos homens,
algazarras de meninos,
brandas conversas de tertúlias.
Quando a dor cessou por completo,
ainda viste sair de ti a nuvem da alma.

Van Gogh, de quem eras íntimo, veio receber-te.
Podia ter sido no céu de Arles, ou de Lisboa,
ou de Paris. Mas não:
foi num campo amarelo de trigo, algures
num patamar do tempo
entre a poesia muda da cor.
Trazia numa mão a última carta escrita a Theo
e na outra o brilho metálico dum revólver.
E tu entraste no campo de trigo:
uma tela que ondulava ao vento
com revoadas de corvos escuros
esburacando a claridade dos astros.

Sumiste-te por aquele espaço
em que se imagina estar a ceifeira.
Era Verão.

Feito em 13 de Junho de 2007, no décimo aniversário da morte do poeta.

sábado, janeiro 21, 2012

"A FORMA DA ESPADA"


“A forma da espada” é uma ficção de Borges. As ficções – há muito que se sabe – são os mais verdadeiros dos textos literários.
Parece que certos sindicalistas em sede de concertação social conhecem bem o texto do escritor argentino: é fácil dizer “ele” ou “eles”, e tão difícil assumir a infâmia na primeira pessoa.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

ALBERTO JOÃO!

Podem-se-lhe imputar diatribes e atitudes espúrias, ditos grotescos e perversos cálculos, mas aí está a figura dum resistente! Contra os desígnios dum governo que quer reduzir o seu povo à indigência e ao descalabro moral, que verga os sindicalistas pelo medo e os trabalhadores pelo espectro da fome – força, força Companheiro Jardim!

terça-feira, janeiro 10, 2012

segunda-feira, janeiro 09, 2012

A RIQUEZA DAS NAÇÕES

A memória mais antiga que tenho de um merceeiro, é a do Sr. João, um comerciante simpático que tinha o seu negócio numa loja escura ao fundo da rua da minha infância. Desconheço-lhe o apelido e a biografia completa, mas fiquei com a ideia de que teria descido das Beiras ou do Minho, no princípio dos anos cinquenta, em demanda duma vida melhor. Era, portanto, um emigrante, aquilo que, nos tempos que correm, qualquer um de nós está habilitado a ser.
Ainda me recordo da sua loja, cuja peça mais extraordinária era a gaveta do dinheiro a que se acoplava um pequeno guizo. Ninguém, empregado ou familiar, podia abrir aquela gaveta sem que de tal se apercebesse o prudente comerciante.
O negócio do merceeiro corria, como se pode imaginar, sem grandes sobressaltos. O rendimento dos consumidores era parco, comprava-se uma quarta de feijão, meio litro de azeite, uma posta de bacalhau demolhado, lá de vez em quando um garrafão de vinho Sanguinhal ou Camillo Alves, mas tudo corria sem crédito da banca, não havia preocupações com o escudo, que era uma moeda forte, e o marçano-infantil-de-cesto-às-costas trabalhava pelo que comia mais uma nota de vinte escudos que mensalmente era enviada para os pais em Arcos de Valdevez .
O Sr. João tinha uma vida modesta e absolutamente normal. Não gozava férias, pagava as suas contribuições, fazia filhos à mulher, dava bodo aos pobres pelo Natal, votava como chefe de família para a Junta de Freguesia, e, julgo eu, nunca pensou expandir a actividade para além daquela viela e daquela loja escura onde ganhava o suficiente para si e para a sua prole.
Hoje, o negócio de mercearias transfigurou-se. Os merceeiros são gente fina, que dá entrevistas à televisão e tem artes de abalar qualquer governo democraticamente eleito. As lojas são amplas e bem iluminadas, expandem-se em rede por todo o país com agressivas campanhas de imagem e sensibilização dos consumidores. Recurso publicitário de efeitos garantidos é dizer-se que se aposta nos produtos nacionais, o-que é-nacional-é-bom, mesmo bom, mas dito a sério, não como na campanha daquele poeta-publicitário dos anos sessenta que quis convencer os consumidores de que “Bosch é brom”, felizmente que havia censura e não deixou passar o despautério.
Os merceeiros de hoje é vê-los de fatinho e gravata, engalanados como em dia de festa, criando esse-gê-pê-esses, trabalhando com o dinheiro dos bancos e dos fornecedores, abrindo lojas no leste da Europa, no Estreito de Magalhães ou no deserto da Namíbia, porque, conforme se diz, o capital merceeiro não tem fronteiras, conhece os corredores das bolsas, não há pê-esse-i-vinte que lhe resista.
Porém, nem tudo é fácil. Há as incertezas do euro, essa espécie de moeda que os governos insistem em dizer que é para continuar, mas de que os merceeiros desconfiam como Maomé desconfiava do toucinho e da entremeada. Há os impostos, coisas lixadas para qualquer merceeiro que se preze. Felizmente que o mundo é vasto e os caminhos fáceis de percorrer. Há paraísos que acolhem as drogas leves e despenalizam os capitais estrangeiros. Há ilhas caimão, aligátor, jacaré e gavial. Há montes de possibilidades para quem aposta na internacionalização.
Como nada percebo de economia e negócios, pouco mais sei dizer. Só sei que tenho saudades de mercearias como a do Sr. João, onde ninguém ia ao engano, onde todos sabíamos o que comprávamos: uma lata de sardinhas era uma lata de sardinhas, um chouriço era um chouriço, um quilo de batatas era um quilo de batatas. Hoje vamos a uma mercearia moderna e arriscamo-nos a comprar a queda do governo, a ruína da moeda única ou a derrapagem da nossa consolidação orçamental.
Por mim, estava-me marimbando para estes negócios de mercearias finas e deixava-os ir à vida na paz do Senhor. É certo que poderíamos perder alguns benefícios da internacionalização, como o salmão fumado da Noruega, as tâmaras não sei de onde ou os chocolates da Ferrero Rocher. Paciência. Continuaríamos bem servidos com a sardinha de Peniche, a broa de Avintes, o vinho tinto do Cartaxo e o porco preto alentejano.
Merceeiros há muitos, meu amigos, o que é preciso é conhecê-los, amá-los, e, depois… (aqui entraria uma palavra feia a que o escrevente não se atreve ). Houve um inglês que em tempos que já lá vão se pôs a discorrer sobre a riqueza das nações. Eu digo que a riqueza das nações, pelo menos a da nossa, não é nada disso. É, nesta situação de estarmos a ser lixados todos os dias, ainda sermos capazes de resistir pelo riso e por algo mais, como cruzar o braço com o punho, à Bordalo, para as caras gordas dos figurões. Ora tomem!

sábado, janeiro 07, 2012

FANTASIAS NOCTURNAS

Scarlett Johansson

Já não podia ver aquela cara barbada no topo do blogue. Assim está bem melhor.

sexta-feira, janeiro 06, 2012

BREVE APONTAMENTO SOBRE ECONOMIA E FISCALIDADE

Este rapazinho barbado, deputado do CDS, é um patriota! Indignado pela conduta do Sr. Alexandre Soares dos Santos, sugeriu no Parlamento que os consumidores podem (ou devem?) tirar consequências da decisão de deslocalização do seu grupo empresarial.
Por mim, já aderi. Nas mercearias do tal Alexandre, nem uma caixa de fósforos!
O Rei Mago é que não diz nada. Nem o Álvaro. Nem o Primeiro. Tanto têm defendido a emigração das pessoas, como podem estar agora contra a emigração das empresas?