sexta-feira, novembro 30, 2007

A SUBIDA DAS ÁGUAS ( 10 )

Quando a luz do sol se extingue muito para lá da aldeia e da grande massa de água que tomou conta das terras, encontro-me quase sempre sentado na varanda da pensão da vila, a uns cinco quilómetros de distância do meu local de trabalho, e, folheando um livro ou percorrendo num caderno as notas que me habituei a tomar, não deixo de pensar na tristeza das gentes que me rodeiam e na falta de sentido das suas vidas. Homens e mulheres bem adiantados na roda dos anos, os olhos gastos de tudo o que viram e deixaram de ver, a memória submersa, arrastando-se pelo traçado rectilíneo da nova aldeia, violentamente limpa, sem encontrarem os caminhos da felicidade.
É esta a massa em que todos os dias afundo as mãos no meu trabalho de psicólogo ao serviço do empreendimento. Estou nestas funções há pouco mais de um ano, desde a altura em que se trasladaram os restos mortais das campas do cemitério e os habitantes da aldeia começaram a mudar-se para as casas novas.
Vi coisas que não vou esquecer tão cedo, como o caso daquele homem que recusou levantar os ossos da mulher. Não se lhe conseguiu arrancar uma palavra de remição, nenhuma fresta se abriu naquela alma por onde se pudesse lobrigar uma mágoa ou um motivo para o insólito procedimento, nenhuma ajuda se lhe conseguiu dar. É por isso que, muitas vezes, descreio daquilo que faço: anos e anos a encher a cabeça de teorias, a afinar conceitos, a idealizar o momento de começar a aplicar os conhecimentos adquiridos, para, uma vez no terreno, não ser capaz de ajudar quem precisa.
Este homem foi o primeiro que, revoltado com as emissões diárias de propaganda a respeito dos benefícios do empreendimento, resolveu destruir o aparelho de televisão. Outros o seguiram. E, no entanto, bastava não ligarem os televisores ou deixarem de os sintonizar no respectivo canal para evitarem as promessas de progresso e felicidade com que os assediavam: uma nova aldeia com modernos equipamentos para toda a população, água em abundância para rega e produção de energia eléctrica, novas vias de acesso à região, melhor assistência médica. A destruição dos televisores foi alastrando de casa em casa numa espécie de automutilação sucessiva, como se os seus donos fossem incapazes de suportar ao pé de si, ainda que desconectados mas à distância de um distraído clique, aqueles aparelhos de onde poderia jorrar, a qualquer instante, o vómito abominável da falsidade. Acompanhei alguns destes casos. Não resolvi nenhum de forma aceitável.
Vou a caminho dos trinta e dois anos. Parece-me às vezes que sou ainda jovem, outras que já vi e vivi de mais. Não foi fácil chegar onde cheguei. Nunca conheci o meu pai, nunca me foi dito o seu nome, e da minha mãe não guardo mais que a vaga lembrança dos meus cinco anos de idade. Cresci agarrado às saias da minha avó, enquanto viveu. Depois ampararam-me e fui-me amparando. Fiz-me homem antes de tempo.
Um dia dei conta da solidão em mim e da nenhuma vontade em sair dela. Gosto de viver sozinho, nunca pensei em casar.
Agora que estamos no Verão costumo muitas vezes sair à noite. Atravesso a fronteira (outros caminhos, outros lugares) para ir cear aos restaurantes das cidades mais próximas do país vizinho, para tomar uma bebida num bar e, calhando, ter um encontro fugaz com alguém, longe do ambiente fechado da vila e da pensão onde resido, longe do meu local de trabalho, um desses encontros que duram um pedaço da noite e sempre me devolvem, no fim dos seus breves lampejos, à minha irrevogável condição de solitário. Regresso sempre à pensão a tempo de dormir umas horas, de tomar um duche, e às nove da manhã já estou no centro de apoio psicológico do empreendimento a fazer o meu trabalho.
Estas linhas são as primeiras de um diário que agora começo a escrever. Ainda que seja um diário sem datas, condenado a uma periodicidade irregular, ainda que, por isso mesmo, venha a ser tudo menos um diário, será uma forma de gravar os meus sentimentos, de me encontrar comigo, de acertar contas com a vida. Provavelmente falarei mais de aquilo que me rodeia e menos de o que em mim está. Tenho como certo que é pelos outros que passa o caminho para nós, e esta é apenas uma das muitas contradições que ainda não fui capaz de resolver.
D.E.

domingo, outubro 14, 2007

A SUBIDA DAS ÁGUAS ( 9 )

A mulher caminhava com uma criança nos braços sobre as pedras brancas e cinzentas do leito seco de um rio. Fazia-o com naturalidade, sem esforço, como se andasse sobre chão direito ou de há muito estivesse habituada à irregularidade daquele piso. Não dava para perceber que traços seriam os do seu rosto: uma folha de sombra caía-lhe do lenço da cabeça até à altura da boca, e apenas a delicadeza do corpo, vestido de saia e blusa, permitia colher uma vaga promessa de beleza.
A criança estava nua. Teria um ano, ou pouco mais.
A espaços, abriam-se no leito do rio grandes poças de água, olhos imóveis de um caudal antigo aprisionados na solidão das pedras. A mulher metia-se nessas ruínas da corrente pela altura dos joelhos, arregaçando a saia que apertava entre as pernas para que não se molhasse, e passava a criança pela água numa espécie de banho lustral: primeiro a cabeça com o seu tufo de caracóis castanhos-claros, depois todo o corpo até aos pequenos pés que se agitavam incessantemente. Podia ver-se, então, que era um menino. A sua cara saía das águas de olhos bem abertos, sem nenhum sinal de aflição, antes sorrindo, e com a língua de um vermelho vivo lambia os lábios e a região à volta da boca até encostar o corpo húmido ao peito da mãe que logo o começava a beijar na cabeça e nos ombros.
De um momento para o outro, porém, o céu turvou-se de grandes nuvens que obliteraram a luz do sol. Um bando de aves de penas eriçadas e bicos carregados de dentes veio poisar sobre os seixos do leito e beber sofregamente nas poças de água. Ao levantar voo, deixou sobre a pedras uma massa de excrementos que atraiu uma nuvem densa de insectos, obrigando a mulher a tirar o lenço da cabeça e a proteger com ele o rosto do menino.
Foi neste compasso do sonho que Josué lhe viu a cara – era Salomé. E acordou sobressaltado.
Levantou-se indisposto e veio para a rua apanhar o ar da noite. Um morcego passou-lhe sobre a cabeça num arremedo inquietante de voo e, por momentos, pensou que ainda balançava nas asas do sonho, e que nada do que via – as fachadas das casas, as copas das árvores, os muros dos quintais –, nada daquilo era fisicamente real, palpável, apenas imagens da vida reflectidas no espelho da alma, prontas a desfazerem-se à primeira luz da madrugada. E lamentou que um homem novo como ele, na força da vida, ficasse sobressaltado perante um sonho que parecia não dispor dos ingredientes necessários para se tornar pesadelo. É certo que havia os estranhos pássaros e a nuvem de insectos, ambos de certa forma ameaçadores, mas o que mais o perturbara fora a visão daquela mulher – a sua­ – com uma criança de tenra idade nos braços.
Josué sempre deu grande valor aos sinais do inconsciente. Durante os meses em que Salomé esteve fora de casa, sonhou uma vez com um mar que avançava sobre a aldeia até a submergir por completo, afogando-se nele as pessoas e os animais. E via os corpos sem vida a boiarem à tona de água, a serem comidos por aves necrófagas que desciam dos céus e por peixes enormes que vinham do fundo das águas com a sua gula de morte. Sentiu-se mal. Ao acordar parecia estar no prelúdio de um ataque cardíaco. Nunca mais esqueceria esse sonho mau.
O que o sobressaltou naquela visão da mulher e da criança, foi talvez o elo que estabeleceu, ainda que inconscientemente, entre o contorno do sonho e o que lhe dissera Salomé quando regressou a casa: “O menino morreu”. Tinha sido há um ano, ou pouco mais. Ele ouviu e nem questionou o que ela lhe dizia, limitando-se a aceitá-la com uma bonomia inexplicável, mas que talvez resultasse de a imaginar arrependida, destroçada pela perda do filho e carente de um arrimo certo.
Josué sabe agora, com a certeza que só os sonhos podem dar, a razão por que todos os meses se ausenta de casa a sua mulher. Leu os sinais dessa revelação naquelas imagens do leito seco do rio. Mas essa certeza é, por enquanto, algo que não se atreve a dizer a si mesmo, uma verdade que ainda não tem palavras para falar, e que nem sabe quando terá, embora esteja seguro de que elas virão um dia, lentamente, como uma maré, subindo aos poucos os degraus da alma até a cobrir por completo, tal como no sonho mau o mar cobria toda a aldeia. Será apenas uma questão de tempo. Salomé continuará a dormir na sua cama, a tratar-lhe da roupa, a cozinhar para ele, a meter-lhe o almoço e a merenda na lancheira, a beijá-lo quando chega a casa ao fim do dia e a dar-lhe novas da mãe sempre que regressa das visitas que em cada mês lhe faz. Continuará a ser sua esposa dentro e fora de casa, ninguém na aldeia dará por nada, tudo parecerá natural, dentro das normais relações entre marido e mulher, até ao momento em que a verdade revelada ganhe o poder da voz. Talvez Josué não esteja absolutamente certo daquilo que sabe. Talvez prefira ir deixando correr o tempo para que se separe o azeite da água, o certo do errado, e poder aceitar o sonho em toda a sua plenitude. Porque se há quem acredite em sonhos, há também quem veja neles não mais que um pálido reflexo da vida, uma emergência confusa e inconsequente de sentimentos que estão dentro da alma e que só obliquamente ganham o direito de expressão. Que conclusões se extraem deles? O leito seco de um rio representa a corrente existencial onde o amor se perdeu. Mas a mulher com a criança nos braços, dando-lhe banho, cobrindo-a de beijos, é uma imagem viva e poderosa do amor. Há amores mais robustos que moram para sempre no coração dos homens, enquanto outros se extinguem a qualquer momento nos lances inesperados da vida.
A madrugada adiantava-se com o seu odor subtil de orvalho e ervas. Josué sentia-se transportado numa corrente que lhe ia restituindo a calma, uma onda que o levava para fora de si, até lugares distantes em inimagináveis patamares do tempo. Foi serenamente que entrou em casa. Deitou-se ao lado de Salomé que não dera sequer pela sua ausência, e, com os olhos ainda doridos da revelação, ousou dormir até ao romper do dia.

D.E.

domingo, setembro 23, 2007

A SUBIDA DAS ÁGUAS ( 8 )

Agora não passa um mês que Salomé não vá visitar a mãe. Fica por lá três ou quatro dias, o tempo justo para não desorganizar a vida doméstica e continuar a cumprir com as suas obrigações de esposa e dona de casa que assume diligentemente desde que regressou e foi aceite pelo marido. Antes de sair, deixa feita uma panela de sopa, ou um guisado de carne, preparos que dão para três ou quatro refeições, o suficiente para o homem não ter de se preocupar com a cozinha como se não houvesse mulher que olhasse por ele. Em um ou outro dia, ao jantar, bastar-lhe-á um pão com chouriço ou um bocado de queijo, uma tigela de sopa e um copo de vinho, que boa boca tem Josué, homem habituado a comer de tudo, a não virar a cara a nenhum passadio por mais singelo e frugal que se apresente. Assim, com a comida feita, não lhe faltará o tempo para tratar da criação e da horta, para fisgar uns peixes no rio, para conviver com os amigos na sociedade recreativa. É espantoso como até para coisas tão simples como estas são necessários os cuidados de uma mulher.
Não menos espantosos são os desvelos filiais que Salomé demonstra para com quem a deitou ao mundo. Filhas assim, que deixam a sua casa, embora por poucos dias, para irem longe apoiar a progenitora idosa, são casos cada vez mais raros.
Naquele tempo ainda não havia na região qualquer registo de residências para a terceira idade ou lares de idosos. Os velhos permaneciam sozinhos nos seus domicílios ou, quando tal não era possível, vinham expiar o fardo dos anos em casa dos filhos. Andavam à vez pelas casas de uns e de outros, um mês em cada sítio, o tempo escrupulosamente contado, havia que dividir o mal pelas aldeias. Salomé não tinha irmãos ou irmãs. Se a mãe tivesse parido um rancho de filhos, poderia incumbir a filha mais nova de, ficando solteira, cuidar de si na velhice. Mas os tempos eram outros, já não vingavam esses costumes antigos com que se bordavam nos panos da vida o equilíbrio e a felicidade dos agregados familiares.
Uma vez, disse Josué:
“A velha que venha para cá. Escusas de andar de um lado para o outro.”
Salomé nem respondeu. Lançou-lhe um olhar de gelo, capaz de varar um homem, como se quisesse dizer tudo o que lhe ia na alma. A velha, como Josué lhe chamava, estava rija e sem os achaques que a idade naturalmente convoca, não tendo a mínima vontade de sair de sua casa. Se a filha a visitava com tão singular regularidade, não era para lhe dispensar cuidados de apoio domiciliário, que até nem resultariam a tempos tão espaçados, seria talvez por puro afecto, pela necessidade de reencontrar um ser amado de quem vivia apartada. São bonitos estes sentimentos que o marido parecia não entender na sua natural expressão.
Numa das visitas, porém, Salomé demorou-se mais que o tempo habitual, como se algo de imprevisto tivesse sucedido e ela se visse obrigada a prolongar a estadia. Estava fora já há uma semana quando telefonou para a mercearia com um recado para o marido: iria só na semana seguinte, na camioneta de terça-feira, a que chegava à aldeia por volta do meio-dia. E não deu mais explicações.
Durante o resto do dia e à noite Josué ruminou a dilação com um azedo no estômago, uma moinha nas têmporas, que até lhe custava encarar os amigos.
De falatórios andava a aldeia cheia, só que nada lhe chegava aos ouvidos.
“Mulher minha não procedia assim”.
Isto foi-lhe dito ao serão, na sociedade recreativa, durante uma partida de dominó, depois de uns tragos de aguardente de medronho, na altura exacta em que as línguas se soltam e o cérebro se demite das suas funções de comando. Foi Daniel ou Jonas, ou teria sido Jacob, ou Ruben? Ele nem percebeu de que lado fora atirada a frecha. Ester atravessava com o perfume da sua figura de mulher vistosa o grande salão onde os bailes se costumavam realizar.
Ainda se contará a história de Ester, mulher bela entre as mais belas que a aldeia tinha. E corajosa. Entregou-se a um poderoso senhor para salvar o seu povo.
Foi num tempo, lembra-se Josué, em que ainda era capaz de olhar de frente para uma mulher e sentir o apelo de uma atracção física puramente animal.
A sociedade recreativa fechou à meia-noite. Primeiro apagaram-se as luzes do salão de baile que, nos dias de semana, servia de espaço de convívio às mulheres, e, logo depois, as da sala de jogos e as do balcão das bebidas. Um membro da direcção ficou por mais um tempo, num pequeno gabinete, apurando a folha de caixa do dia. A porta fechou-se atrás dele e de Ester, os últimos a saírem, e os homens foram entrando na noite, uns montados em bicicletas, outros, que iam para mais perto, pelo próprio pé.
Seguiam os dois sozinhos, já separados dos companheiros que foram tomando o caminho de suas casas. Quando chegaram ao fim da rua, meteram-se pelo campo aberto do olival até à orla do mato. No céu corria a claridade da grande estrada de estrelas que tem o nome do Apóstolo. O rio cantava nos socalcos do leito. Abraçaram-se, e os corpos rolaram sobre a terra húmida, afrontando num estrepitoso festim o silêncio das árvores.
Quando Salomé voltou de casa da mãe, na data prometida, disse secamente a Josué, mostrando-lhe as roupas que ele despira na véspera:
“Cheiram às estevas do campo.”
E foi como se tivesse dito tudo com tão singelas palavras. Jantaram em silêncio à luz débil do candeeiro a petróleo, e, à hora de dormir, na cama, os seus corpos cansados de distância nem ousaram tocar-se.

D.E.

domingo, setembro 16, 2007

A SUBIDA DAS ÁGUAS ( 7 )

O achigã é um peixe voraz e belo, originário dos grandes lagos norte-americanos, cujo nome, na língua falada pelos índios do Canadá, tem o significado exacto de “aquele que salta”. Foi introduzido na Europa na segunda metade do século dezanove, apresentando semelhanças com a perca, uma espécie de barbatanas duras e espinhosas que, acredita-se, já cruzava as águas do Nilo em tempos tão remotos como o dos grandes construtores de pirâmides. Atira-se-lhe uma linha sem nenhum isco comestível, apenas com uma placa vagamente pisciforme, uma amostra, como se diz, com um riscado rômbico imitando escamas, e é ver o peixão a abocanhar o falso alimento, ficando preso no anzol na ponta do fio que o carrete enrola, debatendo-se contra a morte irremediável por entre golpes de cauda e brados surdos.
Jonas e Daniel interrogavam-se sobre donde poderia ter vindo aquela espécie. Já a conheciam de outras albufeiras, sabendo da excelência da sua carne muito apreciada por todos os amadores da pesca. Agora que o lago estava cheio e os achigãs apareciam a colonizar as águas, acreditavam ingenuamente que, à semelhança do que pensavam acontecer com as enguias, eles viriam pelos rios interiores, passando de um lago a outro, seguindo os caminhos dessa hidrografia subterrânea e profunda que pressentiam como misteriosa mas, ao mesmo tempo, plausível.
Era assim que todos os dias, pela manhã, ao demandarem as margens do lago, pareciam entusiasmados com a pescaria em perspectiva, fazendo apostas sobre o tamanho e o peso dos espécimes que esperavam capturar.
Josué não os acompanhava. Tinha-se ido muito abaixo com o episódio do televisor, arrastando-se agora entre psicólogos e médicos do centro de saúde a contas com severas prescrições de ansiolíticos que o deixavam trémulo e desmemoriado. Os companheiros tinham reagido melhor. Ao destruírem os seus televisores, não mais se preocuparam com as emissões de circuito interno produzidas pelos donos do empreendimento, ficando livres daquela acção psicológica dirigida a quem não pudera escolher o rumo das suas vidas, sempre a tentar persuadi-los de que estavam agora melhor que nunca, com uma aldeia nova e limpa, casas modernas, apoio social e assistência médica. Havia quem não entendesse por que razão tinham dado cabo dos aparelhos de televisão, quando bastaria, para não receberem as emissões, não os ligar no canal respectivo. Os que exprimiam tais juízos não compreendiam, porém, a real dimensão do mal que os assediava.
Assim, não passou muito tempo que Jonas não começasse a dar sinais de que algo errado se estava a passar consigo, convencendo-se de que havia um grande peixe no lago, tão grande e temeroso como as baleias que sabia existirem no alto-mar. E uma estranha fixação começou a dominá-lo: descobrir esse ser monstruoso cuja respiração sentia subir à superfície numa nuvem escura e húmida, e mostrá-lo a toda a comunidade como a maior aberração gerada pela subida das águas.
Foi quando deixou de se interessar pela pesca. Descia para o lago apenas para vigiar a planura das águas, os olhos bem abertos sob o azul líquido como se estivesse no cesto da gávea de um navio a perscrutar, por alvíssaras, as lonjuras do mar.
Então sucedeu que durante três dias e três noites ninguém soube nada dele. Daniel viu-o descer em direcção ao lago, foi o último a pôr-lhe a vista em cima antes de desaparecer. E todos deram como muito provável que pudesse ter-se afogado, pois sabia-se que ultimamente ficava longas horas sentado na margem sob um grande rícino que lhe fazia sombra mas que, entretanto, veio a secar, talvez por capricho de algum deus cruel. Passava então as tardes de cabeça ao sol, os olhos postos nas águas, e os amigos temeram uma insolação, um possível desmaio que o tivesse precipitado, de roldão, nas profundezas do lago.
Mandaram vir os bombeiros, mergulhadores de escafandro e garrafas de oxigénio, barcos de borracha com motores fora de borda que bateram as pequenas enseadas e os longos esteiros que se metiam como veias pelo corpo da terra. Esquadrinharam minuciosamente a superfície das águas, binóculos assestados sobre a vastidão, comunicando por rádio com a central. Uma ambulância permanecia de plantão num pequeno molhe de barcos de recreio, preparada para levar o ferido à urgência hospitalar ou o falecido à morgue. Um jipe da Guarda estacionara ao lado da ambulância para tomar conta da ocorrência, e o Presidente da Câmara apresentara-se no local para, com o seu interesse, tomar conta dos votos dos seus eleitores.
Não encontraram Jonas no primeiro nem no segundo dias. No terceiro chegaram os repórteres da televisão, os jornalistas da imprensa regional e das rádios locais, os ambientalistas de passagem para uma acção de destruição de uns hectares de milho geneticamente modificado, e peroraram sobre o monstruoso predador introduzido no lago, dizimando as espécies nativas e desassossegando os homens. Então os donos do empreendimento sentiram-se na obrigação de fazer um comunicado à imprensa, e asseveraram que nada de anormal estava a acontecer, que a espécie com que se povoara o grande lago era o conhecido achigã, habitante irrepreensível de outros lagos e albufeiras do país, de nome científico micropterus salmoides, também identificado pelas designações vulgares de perca americana, robalo negro, perca-truta e boca-grande, alimentando-se em grande parte de insectos aquáticos, dando também a sua dentada em algum peixe e uns tantos moluscos, assim os apanhasse a jeito, mas nada de colocar em perigo as pequenas espécies, um animal que só excepcionalmente poderia atingir os dez quilos de peso.
Ninguém ficou tranquilo com o comunicado, antes recrudesceram os boatos e especulações. Mas depois do terceiro dia, manhã cedo, Jonas apareceu na aldeia. Vinha transtornado e muito magro. Garantia ter sido engolido pelo grande peixe, em cujo ventre ficara durante três dias e três noites até o monstro o vomitar na orla do lago, e lá, no abismo das suas entranhas, pensara na vida e na maldade dos dias. E falava de coisas estranhas que nunca as gentes da aldeia tinham ouvido de si, como se falasse pela boca de outrem ou apenas emprestasse a sua a quem não a tinha para se exprimir perante os homens. Os amigos deram-lhe de comer e beber, aconselharam-no a ter calma, mas ele não voltou a ser o mesmo.
A meio da manhã, a ambulância subiu do molhe com o ruído da sua sirene e levou-o, manietado por dois auxiliares de enfermagem, para um destino por todos pressentido mas de que ninguém se atrevia a falar.
Nunca mais voltou à aldeia e, para toda a gente, era como se tivesse morrido. Foi a segunda vítima da subida das águas.
D.E.

quinta-feira, setembro 06, 2007

A SUBIDA DAS ÁGUAS ( 6 )

O Outono entrou de carranca, chuvoso, grandes cordas de água que desciam do céu e abriam sulcos na terra ainda há pouco ressequida da estiagem. O rio corria grosso, estrepitante, cobrindo na enxurrada as fragas que lhe marcavam o leito, ameaçando despedaçar as margens. Os homens da lavoura e os pescadores passavam os dias na sociedade recreativa ou nas tabernas, enredados em jogos e conversas mornas, impedidos de se moverem sob a inclemência dos astros. Os que trabalhavam na fábrica de papel, debaixo de telha, lá iam de madrugada, cobertos de grandes capas de borracha, as molas travando-lhes as bocas das calças, atravessando os caminhos em bicicletas sonâmbulas, oscilantes, com os faróis tremeluzindo ténues incandescências de vaga-lumes.
Foi quando as condições meteorológicas melhoraram, naquele tempo a que chamam o Verão de S. Martinho, que a gravidez de Salomé se revelou como uma evidência clara. E então, como se algo de extraordinário se tivesse passado, toda a aldeia começou a falar do caso. Uma coisa daquelas parecia nunca ter sido vista: cinco anos de tentativas vãs, de desconcertos, e de um momento para o outro, sem que nada o fizesse prever, despontavam as formas arredondadas do seu ventre maternal.
Um anjo apareceu em sonhos a Josué. Tinha o mesmo rosto, os mesmos anéis de cabelos de ouro daquele outro que figurava no quadro pendurado na parede de casa. Josué esperou dele uma revelação, uma palavra apaziguadora, mas os seus lábios permaneceram mudos e nenhuma voz perturbou a imponderabilidade do sonho. Poder-lhe-ia ter dito: “Josué, não tenhas medo do que vês no corpo de tua mulher, continua a recebê-la e a amá-la como esposa porque foi a tua semente que nela concebeu o fruto desejado”. Mas não. O anjo limitou-se a olhá-lo com um silêncio infinito, desafiante, onde se metiam todos os enigmas do mundo, todas as interrogações que a alma de um homem pode guardar. E ele acordou sobressaltado, com o coração a bater desordenadamente, o peito a doer-lhe, a cabeça pesada e um sabor azedo na boca.
Então decidiu falar com a mulher. Tinha de saber a verdade. A incerteza que o tomava raiava-lhe os olhos de sangue e abria-lhe as primeiras rugas na cara quando ainda não havia chegado aos trinta anos de idade. Mas no momento de descerrar os lábios, faltava-lhe a coragem. Ela fitava-o como se já conhecesse as palavras que ele lhe ia dizer, mas nenhum som lhe chegava vindo da sua boca. E viveu assim durante uma mão de dias e de noites, desesperado e ferido, incapaz de a enfrentar.
Um dia, foi ela que disse:
“Vou para casa de minha mãe, é melhor assim.”
Ele viu-a sair para a paragem da camioneta com um saco de roupa à cabeça, o guarda-chuva na mão, uma pequena mala preta enfiada no braço. E era como se um pedaço da sua carne se lhe soltasse do corpo, como se, de repente, lhe tivessem amputado um membro e ficasse aleijado para toda a vida. Por mais que tivesse desejado não foi capaz de chorar. Ficou a vê-la seguir no seu passo ágil e determinado, sem nunca olhar para trás, até dobrar a esquina da rua, até a perder por inteiro. Então entrou em casa e tirou da parede o quadro do anjo, extraiu com um martelo de orelhas o prego de aço que o sustinha. Depois esmigalhou o quadro com uma raiva serena, não deixando pedaço de metal, cartão ou vidro que pudesse ser aproveitado. Josué não podia saber que com esse mesmo martelo destruiria, trinta e tal anos mais tarde, em outro acesso de desespero, o seu aparelho de televisão. De resto, nem imaginava que pudesse vir a ter, um dia, um aparelho de televisão, e tão pouco que uma ferramenta tosca, de confecção quase artesanal, lograsse obrar tais destruições com tão amplo arco de tempo metido pelo meio.
Veio depois o Inverno e estendeu sobre o rosário dos dias uma atmosfera incrivelmente fria e seca. O rio, prematuramente torrencial, seguia agora brando, tropeçando nas pedras que se atravessavam na corrente, e os homens podiam montar as redes nos baixios e capturar grandes quantidades de pescado. De dentro das tabernas e das casas da aldeia saía o aroma álacre das fritadas de peixe, os subtis eflúvios dos molhos de escabeche: vinagre, cebola e alho, folhas de louro e pimenta. Salomé sabia cozinhar bem, pensava Josué enquanto seguia para casa com o cesto e os apetrechos da pesca. Como parecia tarefa fácil fazer uma fritura de peixe! No entanto havia que amanhá-lo, deitar-lhe o sal certo, cortá-lo em finas postas, cobri-lo de farinha. É também por coisas como estas que faz muita falta em casa uma mulher.
Estava agora entregue a si próprio. Tratava da sua roupa, comia sozinho as refeições que confeccionava. À noite, na cama de casal, alvoraçava-se a carne jovem, carente de fêmea e satisfação. Era então que Onan o visitava, uma assombração medonha e doce que saía das profundezas do Génesis para lhe serenar o fogo do corpo. Mas ele não tinha nenhuma mulher ao lado, estava completamente só naquela cama onde durante cinco anos dormira Salomé. Aparecia o espectro bíblico, sonegador de sémen, a quem durante cinco longos anos nunca deixara de o dar à sua esposa. Só que, em verdade, era como se o deitasse fora, não produzindo nenhum efeito naquelas entranhas entorpecidas por mais regado que fosse o vaso, por maior desejo com que o fizesse.
E assim se ia cumprindo a vida de Josué. Para grande espanto de todos, um dia, a mesma camioneta que levou Salomé numa manhã húmida de Outono, trouxe-a de novo quase um ano depois. Entrou em casa como se nunca dela tivesse saído e disse simplesmente:
“O menino morreu. Achei melhor voltar.”
Ele viu-a desfazer a trouxa da roupa e arrumar as peças nas gavetas com gestos naturais e precisos. Reparou no seu corpo que, apesar do sofrimento marcado no rosto, irradiava um inquietante perfume de sensualidade. Não foi capaz de pronunciar uma só palavra. Saiu para a rua e, como se não fosse senhor de vontade própria, deixou-se ficar, apático, enquanto os vizinhos iam chegando em busca de novidades. Bebia o ar quente da tarde, talvez chorasse.
D.E.

quarta-feira, agosto 22, 2007

A SUBIDA DAS ÁGUAS ( 5 )

O cigano vinha às quintas-feiras. Percorria as ruas da aldeia com a sua carrinha de pintura debotada, mordida da ferrugem, e ia parando à porta das clientes exibindo os artigos que mercadejava: jogos de toalhas de pano turco, cobertas de cama, pijamas de homem e de mulher, roupa interior, peças decorativas e adereços baratos. Dizia-se que muito do que vendia era material de contrabando, mercadorias que dissimulava sob os bancos do veículo ou que metia num falso compartimento que passava por ser da roda sobressalente. Apresentava-se com um sorriso branco, a pele morena, vestia casaco preto e camisa de fantasia, trazia ouro ao pescoço e anéis fulgentes nos dedos. Não se lhe conhecia o nome ou o apelido de família, sendo suficiente o traço distintivo da sua etnia para uma clara e insofismável identificação pessoal. Não se sabia se tinha mulher ou filhos, de onde vinha e para onde ia. Certo e seguro era que às quintas-feiras chegava a Vilarinho do Rio à primeira hora da tarde, fazendo-se anunciar pela buzina da carrinha através de uma sequência de sons que não deixava dúvidas a ninguém.
O cigano tinha uma forma cantante de falar, repleta de expressões e pronúncias próprias das gentes do outro lado da fronteira. Mostrava uma combinação cor-de-rosa, com finas rendas, que retirava de uma caixa de cartão, e perguntava à cliente:
“Te gusta? Es preciosa!”
As mulheres, se ainda jovens, coravam de desejo perante aquelas peças maravilhosas com que se imaginavam, à noite, no fogo das alcovas, a deslumbrar os seus companheiros. E compravam muito, quase sempre a prestações, que de ninguém desconfiava o mercador, sempre disposto a conceder facilidades de pagamento sem o mínimo receio de ver pairar sobre o seu negócio a sombra odiosa do crédito malparado.
Só Salomé não se entusiasmava com as roupas. A maioria das vezes só tinha olhos para as molduras de estampas religiosas que se misturavam por entre a panóplia de artigos com que o cigano enchia a carrinha. Desejou muito um S. João Baptista representado no meio do rio Jordão, com a água pelos joelhos, dando o baptismo a Nosso Senhor. Quase se apaixonou pela serenidade daquele rosto de onde brotava o fulgor de uma santidade profunda, parecendo-lhe o de Cristo, ao pé do dele, pouco mais que uma vulgaridade. E pensava que quando lhe nascesse um filho – o que ia tardando –, lhe daria o nome daquele santo grandioso e belo que pregava no deserto da Judeia contra fariseus e saduceus, alimentando-se de gafanhotos e mel silvestre, vestindo uma rude roupa feita de lã de camelo cingida com uma tira de couro grosseiro. Porém, como não se decidira logo e, entretanto, fora vendida a moldura do baptista, acabou por comprar um quadro com a imagem de um anjo da guarda a proteger duas frágeis crianças que brincavam descuidadamente na margem de um rio. A cabeça do anjo era um novelo assexuado de caracóis de ouro, os lábios entreabertos como se sorrissem ou deixassem passar algum avisado conselho aos incautos infantes – um menino e uma menina – , as asas levantadas e os braços abarcando a iminência do perigo sob o resplendor do dia. Salomé trabalhara seis meses na fábrica de papel, tinha um dinheiro de parte, e pagou a pronto. Isso pareceu impressionar o cigano que se dispôs a entrar em sua casa munido da ferramenta adequada para colocar o quadro no sítio desejado pela cliente. Tanto a boa vontade do cigano, em que poderia ser vista sem maldade uma simples atenção comercial, como o assentimento dado por Salomé a que a ajudasse naquele trabalho, não agradaram às vizinhas que estavam por perto e puderam presenciar a cena. O que se passou lá dentro não lhes foi dado ver, pelo que se limitaram a calcular o tempo em que permaneceu o homem no interior da morada, uma enormidade de minutos que por pouco não faziam uma hora, um tempo desajustado ao fim em vista, para o qual, segundo elas, uns cinco minutos teriam sido suficientes. Isto foi o que disseram e depois correu por toda a aldeia, chegando aos ouvidos de Josué, embora não pareça de justiça acreditar em tudo o que se diz e se ouve. Se o cigano demorou dentro de casa mais do que os cinco minutos que pareciam bastar para a operação, foi porque alguma coisa deverá ter corrido mal, reclamando cuidados adicionais: um prego que se entortou, impedindo a imediata suspensão do quadro na parede, a necessidade de improvisar uma bucha para uma mais sólida fixação, enfim, quem lança as mãos à obra é que sabe as dificuldades com que se depara.
“Santo Deus, meter o cigano em casa com o marido fora.”
Josué afastava-se da aldeia que ia submergindo e galgava o aclive do monte por entre o odor poderoso e inebriante das estevas em flor. Quando ali voltasse não estaria nenhuma pedra à vista, estava seguro disso. E, de súbito, como uma frecha lançada de um passado distante, irrompeu-lhe na memória a visão daquele quadro que um certo dia, ao chegar a casa, quando regressava da pesca no rio, vira pendurado na parede fronteira à porta de entrada.
“Comprei-o ao cigano. É um anjo da guarda”, disse-lhe a mulher.
Salomé andava estranha, em frequentes visitas à igreja, a lavar-se de manhã e à noite com água da Fonte Santa, dizendo ter pedido uma graça à Senhora dos Milagres, e a razão, sabia-a ele, era essa dificuldade em emprenhar, cinco anos de matrimónio e nenhum resultado à vista. Josué também se sentia mal com a união maninha, mas que fazer? De um ou outro membro do casal teria de ser o problema, se calhar dos dois, ainda que fosse menos provável esta última hipótese. Sempre se deram casos destes em que a semente do macho, por defeito seu ou da fêmea que a recebe, não dá o fruto desejado. Não iria acabar o mundo por causa disso. E respondeu-lhe:
“Melhor gastasses o dinheiro em coisas de utilidade.”
E foi só isto que ele falou, nada mais, pois sabia que se se alongasse em outras considerações, Salomé aproveitaria para tentar discutir a questão da união infértil, e sempre que isso acontecia ele era acometido por um grande embaraço de macho ferido nas suas capacidades de reprodutor, um embaraço que o remetia para um persistente silêncio sobre tal assunto, como se soubesse de antemão que o mal era dele e só dele, sentindo-se diminuído perante a mulher e todos os que o rodeavam.
Então foi passar as mãos por água no lavatório. Sentou-se à mesa a sorver a sopa e a comer o pão do jantar. Tinha pressa de terminar. Acabou, e foi para a sociedade recreativa jogar dominó com os camaradas.
Quando voltou, perto da meia-noite, Salomé já dormia, enrolada sobre si como um feto. Nem se mexeu quando ele avançou por entre os lençóis e a enlaçou pela cintura, passando-lhe uma perna sobre as coxas. Ela contraiu-se um pouco, como se, inconscientemente, quisesse dar um sinal de algo que não deveria acontecer, e a sua respiração ganhou volumes de um silvo agreste e inesperado. Nenhum perfume de desejo emanava daquele corpo desgastado de desilusão e mágoa.
Josué lembrava-se bem: foi no dia seguinte que partiu para a faina das vindimas, para ganhar um dinheiro suplementar, uma oportunidade que lhe surgira da parte de um antigo patrão dos seus tempos de solteiro. Esteve fora de casa duas semanas. Foi quando regressou, ao fim desse tempo, que Salomé lhe disse:
“Este mês não me vieram os sangues.”

D.E.

quinta-feira, agosto 09, 2007

A SUBIDA DAS ÁGUAS ( 4 )

Durante quarenta dias e quarenta noites as águas cresceram muito sobre o corpo da terra. Um dilúvio silencioso, nascido do chão, batia no paredão da barragem e, refluindo, estendia-se pelos vastos campos ainda povoados de todas as classes de criaturas: animais puros e impuros, répteis e aves do céu, insectos rastejantes e voadores – humildes seres em cujas narinas havia sido depositado o sopro da vida.
Com as raposas, os texugos, as abetardas e as cegonhas não se tinham preocupado muito os donos do empreendimento, mesmo apesar de todo o assédio que lhes fora movido pelas organizações de defesa do ambiente, ciosas da preservação das espécies e do equilíbrio dos ecossistemas. Foram outros e mais fundos os seus cuidados: os autarcas que não cessavam de reclamar benesses pela propaganda feita em prol da obra, a satisfação das exigências dos que teriam de deixar as suas casas, as pressões do governo para a rápida conclusão da empreitada. Como se estava em ano de eleições, era preciso converter em votos o sucesso do empreendimento, mostrando às populações o número de postos de trabalho que seriam criados na região e a prosperidade induzida que resultaria do regadio e da futura instalação de um pólo agro-industrial. Os animais, portanto, que cuidassem de si. À medida que as águas lhes entrassem nas tocas ou nos ninhos, logo demandariam outros lugares de poiso, que nisso eram bem mais aptos do que os indivíduos do frágil género humano, sempre necessitados de auxílio para responderem a incidentes como os que agora se atravessavam nas suas vidas.
Naquele dia, ao fim da quarentena de água, Josué atravessava sozinho a floresta de estevas, atalhando pelos sinuosos caminhos de pé posto que desciam da nova aldeia para as margens do lago em enchimento. Um vizinho que viera lá de baixo dissera-lhe que as águas estavam a subir de forma inesperadamente rápida. Já lambiam os muros do velho cemitério, não tardaria muito e toda a aldeia seria engolida pela massa líquida.
“É uma diferença enorme de ontem para hoje, até nem dá para acreditar. Só vendo!”
Josué queria ver. Enquanto firmava o pé moído, inseguro, na terra escorregadia do caminho, lembrou-se da frase com que Salomé o acolhera, num fim de tarde, há mais de quarenta anos. Ele tinha acabado de transpor a porta da casa de chão térreo, de uma só divisão. Salomé estava ao lume, mexendo a panela da sopa, os fogachos da lareira atiravam sobre as paredes de adobe reflexos de uma luz bruxuleante. E disse:
“Este mês não me vieram os sangues.”
Josué sentiu que resvalava no pó do carreiro, agarrando-se, para evitar a queda, à rama pegajosa de um pé de esteva.
“Como foi isso, mulher?”, perguntou.
E ela respondeu sem sequer o fitar:
“Já levamos cinco anos, homem, alguma vez teria de ser.”
Josué levantou-se, sacudiu as calças, cuspiu nas mãos para desfazer o visco que lhe colava os dedos, e perante os seus olhos apareceu, de súbito, como uma epifania tormentosa, a mancha clara do lençol de água. Avançava sobre o dorso dos campos com os seus esteiros tentaculares, rodeando as colinas, preparando-se para submergir tudo o que era obra de Deus e do Homem. Parecia que se tinham aberto as fontes de um grande abismo ou rompido todas as cataratas do céu para formar o grande lago – mas estes não eram os genuínos pensamentos de Josué, homem simples entre os mais simples, habituado desde sempre às palavras chãs com que se escrevem os dias de trabalho, antes o que estava escrito nos livros sagrados desde o princípio dos tempos, agitando-lhe o espírito como se o chamasse para uma grande missão ou lhe enviasse um sinal premonitório.
Josué, por esta altura, ainda não tinha destruído o televisor com o vigor do seu martelo. Recebera a nova casa sem formular nenhuma exigência, limitando-se a aceitar aquilo que lhe queriam dar. O Presidente da Câmara veio à aldeia com os donos do empreendimento para entregar as chaves das casas, em sessão solene, aos deslocados de Vilarinho do Rio. Josué recebera-as com o reconhecimento próprio de quem há muito se habituara a obedecer. Por esta altura, ainda ele não tinha proferido o sinistro vocábulo “retaliação”.
“Como é possível, mulher?”, insistiu.
“Sabes bem que fiz uma promessa à Senhora dos Milagres. Sabes bem que me lavei, por baixo e por cima, durante todo o mês, com água da fonte.”
Josué deu conta de que a Fonte Santa, assim chamada pelas curas extraordinárias que as suas águas sempre fizeram, já tinha sido completamente engolida pelo crescendo do lago. O povo ainda quis levar as pedras para a nova aldeia, reconstruí-la com as suas bicas de mármore por onde escorria saúde em estado puro e aquela lápide tosca onde quatro algarismos, 1918, atestavam o tempo prodigioso da sua construção. Nenhum habitante da aldeia morrera naquele ano com a terrível epidemia de gripe que assolara o país, e isso só poderia ser o resultado do poder salutífero das águas. Por isso o povo a queria levar, mesmo sabendo que, apartada do manancial que lhe dava a vida, mais nenhuma cura milagrosa sairia das suas bicas, e que, para continuar a ser uma fonte, teriam de lhe canalizar a água dos serviços públicos de abastecimento, essa mesma água carregada de metais, proveniente de humildes represas espalhadas pela região mas que, muito em breve, segundo se dizia, jorraria directamente do grande lago, em quantidade e em qualidade, bastaria abrir as torneiras a qualquer hora e em qualquer época do ano. Só que os donos do empreendimento não estiveram pelos ajustes. Já tinham aceitado o encargo de levar as pedras da igreja matriz e da capela, as lajes sepulcrais do cemitério, um antiquíssimo monumento funerário que desde tempos imemoriais estava cravado no chão a uns cem metros da aldeia. A fonte seria sacrificada numa escala de valores para cuja definição pouco contara a vontade do povo.
Quando Josué, seguindo pela borda do lago em formação, se aproximou do velho cemitério, um veio de água, brilhante como metal, já tinha atravessado os melancólicos portões e começava a espalhar-se por cima do chão das antigas sepulturas.
Poderá não ter passado de um ilusório reflexo do sol sobre o espelho das águas, uma falsa aparência induzida pelo seu sentido da visão já bastante senil, mas pareceu-lhe perceber, por cima do lugar onde jaziam os restos mortais de Salomé, uma nuvem branca que vogava na claridade do dia como uma chama extinta ou uma alma desabrigada. E saiu dali tão depressa quanto pôde.

D.E.

quinta-feira, agosto 02, 2007

A SUBIDA DAS ÁGUAS ( 3 )

Eram dezenas ou centenas de rebanhos conduzidos por pastores assombrosamente desnutridos, as mãos escuras arrimadas aos cajados, seguidos de matilhas de cães que afrontavam a luz do dia com a impertinência dos seus ladridos. Meteram-se pelo asfalto das ruas como se pisassem a erva tenra de um prado, dispostos a saciar uma fome bíblica.
Os moradores, ainda mal refeitos dos incidentes da mudança, viram chegar aquela vaga de lã que infundia respeito e temor. Ester, que estava sentada na soleira da porta, saltou para dentro de casa e assistiu a tudo da janela do quarto, por detrás dos vidros, persignando-se nervosamente como quem esconjura um mal ou pede o auxílio divino. Igual refúgio procuraram Jonas, Daniel e Ruben, cada qual em sua casa, tapando os ouvidos com as mãos ante o balido ensurdecedor que trespassava os ares.
Homens e animais, tomados de um desígnio aparentemente inexplicável, espalharam-se como azougue por todos os espaços da aldeia. Ocuparam as ruas, o jardim e o largo do mercado, rodearam a igreja, o salão paroquial e o edifício da sociedade recreativa.
Os terrenos baldios onde os donos do empreendimento tinham decidido erguer a nova aldeia, eram fruídos há muito tempo, em regime comunitário, por aquele estranho povo de pastores. Isso aconteceu no decurso de várias gerações. Quantas, ninguém sabia ao certo, mas não teriam sido tantas como as catorze que na história do povo de Deus se sucederam de Abraão a David, ou, em igual número, as que tiveram lugar de David até ao exílio de Babilónia. De qualquer forma, permaneceram ali os pastores por um tempo suficientemente longo e continuado para merecerem que se lhes fosse outorgada, por usucapião ou qualquer outra figura de direito, a posse legítima das terras de pastoreio.
Disse quem estava ao corrente do assunto que, nesta matéria, os donos do empreendimento haviam falhado rotundamente. Tão preocupados andavam com os deslocados de Vilarinho do Rio que desprezaram os direitos adquiridos por aquela gente escura, de pele mordida pelos sóis inclementes, arrastando permanentemente atrás de si ovelhas de úberes túmidos, vivendo de leite e queijo como se não houvesse outros alimentos à face da terra. O resultado estava agora à vista: a ocupação da aldeia pelo povo escorraçado, decidido a fazer valer, no calor da luta, os seus ancestrais direitos.
A Guarda foi chamada pelos donos do empreendimento para restabelecer na plenitude a ordem vacilante. Perante o argumento da força, recuaram os despojados para fora do perímetro da aldeia, mas aí ficaram, sobre a linha divisória entre os dois mundos, vigiando na noite que crescia os movimentos dos moradores. Quando, pela madrugada, se deu a retirada da força policial e as gentes de Novo Vilarinho se dispuseram a demandar o sono, choveu sobre as casas e as ruas uma saraivada de pedras como nunca se vira, até parecia que as mesmas eram arremessadas por sofisticadas máquinas de guerra e não por modestas fundas de pobres guardadores de gado.
O assédio dos pastores não cessou ao longo dos dias que se seguiram. Num crescendo da revolta, encheram as paredes das casas de severas inscrições e palavras de ordem, exigindo a entrega de uma área de pastoreio igual à que fora objecto de espoliação. Depois, foram mais longe: começaram a deixar as ovelhas doentes, com a vida já por um fio, à porta de casa dos habitantes; vazavam grandes quantidades de leite azedo nos locais públicos por eles frequentados; e sujavam os bancos do jardim de pestilentos excrementos de animais. Quando muito bem calhava, voavam grossas pedras de encontro aos telhados das casas.
Tudo isto acontecia de noite, quando a população se rendia ao sono. A aldeia acordava sobressaltada em cada manhã, descobrindo a face de um terror que crescia como uma árvore medonha diante dos olhos aflitos de todos os habitantes. Tinham vindo eles do deserto das águas para aquela terra prometida e, afinal, sem que nada tivessem feito para isso, deparavam-se com tão grandes e injustas tribulações.
A Guarda não tinha mão na fúria dos pastores. Daí que, entre os homens da aldeia, se tenha começado a falar de retaliação. Ninguém sabia como surgira tão imprevisto vocábulo em bocas habituadas a pronunciar palavras dóceis, palavras que não feriam, como as que usavam para chamar os filhos ou nomear as aves que voavam no céu. A verdade é que não se oferece um peixe a quem dá uma serpente. Ao mal só se pode responder com o mal, uma outra forma de exprimir a conhecida máxima: olho por olho, dente por dente; o oposto de se dizer: se te baterem numa face, oferece a outra para que nela te façam o mesmo.
Foi assim que, numa noite, um grupo dos mais jovens homens da aldeia, ou, melhor dizendo, dos menos velhos, pois o que de mais havia entre a população era gente adiantada na roda dos anos, muitos deles já com os pés para a cova, ainda por cima de ânimos abalados pela mudança imposta nas suas vidas, um grupo de homens, armado de facas de mato e provido de bolas de carne envenenadas, afoitou-se pelo território do estranho povo. Com a carne envenenada eliminaram os sabujos, e com as facas degolaram tantas ovelhas quantas puderam, até os rebanhos enlouquecidos pelo cheiro do sangue desatarem num clamoroso coro de balidos que correu os montes e despertou os pastores.
Só então os expedicionários regressaram a casa, onde foram recebidos com as manifestações de apreço que se prestam aos heróis. A partir daquela noite, no tempo que se seguiu à breve euforia das gentes da aldeia e ao adivinhado desânimo dos pastores, uma espécie de perturbação nos mais elementares princípios do entendimento impedia que se distinguisse, com claridade, onde estava a razão. Se do lado dos infelizes deslocados acolhidos nas novas casas naqueles terrenos maninhos, se do lado dos pobres pastores alijados das suas terras pela fria gestão dos donos do empreendimento. À medida que crescia o conflito de interesses entre os vizinhos, olhava-se para uns e para outros, tomados de um ódio profundo e recíproco, e não se conseguia perceber quem eram as vítimas e os algozes.

D.E.

sábado, julho 21, 2007

A SUBIDA DAS ÁGUAS ( 2 )

Quando correu a notícia de que iam fechar as comportas, os homens precipitaram-se para a aldeia abandonada com uma urgência que não sabiam explicar. Desceram por carreiros escorregadios entre matagais de estevas, como se lhes deparasse a última oportunidade de reverem as suas casas, não ignorando eles, por tudo o que tinham ouvido nas sessões de esclarecimento e pelos folhetos copiosamente distribuídos entre a população, que seria lenta a subida das águas, demorando várias semanas, talvez meses, até atingirem a cota em que se firmava a aldeia.
Chegaram, e puseram-se a andar pelas ruas, detendo-se nos lugares onde costumavam marcar encontro, o mercado, o largo da taberna, a sociedade recreativa, descobrindo nas antigas residências objectos e pertences de que se haviam esquecido durante a mudança, ou aos quais, ao carregarem as camionetas, não haviam dado o devido valor: um vaso com uma planta, um cesto de verga, a lâmina de uma enxada.
No vale, o rio continuava a correr com a sua língua estreita de água, gorgolejando por entre rochas escalvadas, carregado de espuma e limos. Os homens perguntavam-se como seria possível fazer nascer um grande lago daquele caudal tão frouxo. Mas esta interrogação interior, a que nenhum deles ousava dar voz, batia-lhes na alma como um pensamento sem sentido, uma ilusão que só podia ser alimentada por quem perdera o direito à esperança e buscava nos mais ínfimos indícios, fora de toda a racionalidade, uma fantasia ou uma crença a que se arrimar. No fundo, eles sabiam que os técnicos ao serviço do empreendimento nunca poderiam ter-se enganado. Tinham feito laboriosos cálculos, conheciam bem as potencialidades do projecto, a energia eléctrica que seria possível produzir, os hectares de terra que esperavam poder irrigar. Sempre falaram de um lago enorme, de uma mancha azul que, pela sua extensão, poderia ser vista da Lua.
Impressionou-os muito o lixo. Em todas as ruas se acumulavam detritos, peças de roupa sem préstimo, restos de móveis que haviam sido abandonados quando da saída dos moradores, sem que o pessoal do empreendimento, assoberbado de trabalho, tivesse tido tempo de os recolher. Falava-se que para preservar a qualidade da água todos aqueles despojos seriam levados, em tempo útil, para uma lixeira. Pela mesma razão tratariam de arrancar e remover as árvores, para que os seus corpos mortos não ficassem a apodrecer no fundo do lago, inquinando de matéria orgânica em decomposição a vigorosa claridade da grande massa líquida.
Entretanto, estavam sobre a hora do almoço. O sol estendia-lhes sobre os ombros o calor de um abraço, os estômagos começavam a pedir sustento. De vez em quando, um pássaro nervoso, saído da copa de uma árvore ou do beiral de um telhado, batia asas sobre as suas cabeças. Gatos famélicos, atordoados com a passagem do inesperado grupo, saltavam de cima dos muros para o refúgio seguro dos quintais, no vazio da sombra. Então, cada um dos homens puxou de uma bucha e bebeu de uma garrafa que um deles trazia num saco de plástico, mas nem pararam para merendar, que grande era a pressa de percorrerem todos os lugares, de gravarem nos olhos as perecíveis imagens do dia.
Foi quando saíam da rua principal, estrada fora, que repararam nas oliveiras. Tinham sido arrancadas do solo à custa de poderosas máquinas, as pás escavadoras rodeando os antiquíssimos troncos, desprendendo as raízes. Estas haviam sido metidas dentro de grandes sacos de terra para conservarem a lentura da vida até ao momento da transplantação. As árvores estendiam-se, jacentes, ao longo da estrada, aguardando transporte que as levasse para as suas novas moradas. Era sabido que fora uma exigência das organizações de defesa do ambiente que, com proficiente actuação, tinham pressionado os donos do empreendimento para não deixarem morrer uma única oliveira. A mesma sorte não calharia às árvores de outras espécies, condenadas à fogueira ou às lâminas das serrações. A mesma sorte não teriam as casas, que sendo feitas de pedra, tijolo e cal, matérias praticamente incorruptíveis, nenhum perigo representavam para a saúde das águas. Por isso lá iriam ficar no fundo do lago, como uma cidade perdida, qual Atlântida, assim se chamava, sepultada sob o mar oceano. Se algum dia, por qualquer razão, as águas viessem a descer, emergiriam as casas com as suas paredes verdes escorrendo lodo, as telhas desalinhadas pelas correntes do fundo, restos de uma civilização riscada do mapa pela ambição dos homens.
Carregados de pensamentos, nem deram conta de que se dirigiam para o velho cemitério. Pararam diante dos portões de ferro, como quem faz uma pausa numa caminhada grande. Moldados na chapa escura, num baixo-relevo ingénuo, dois prodigiosos esqueletos pareciam sorrir, segurando gadanhas de longas e curvas lâminas. Um arco que sobrepujava os portões mostrava em filactério a seguinte inscrição:

ESTE É O LUGAR DESTINADO AOS MÍZEROS MORTAES

FEITO À CUSTA DO POVO DA FREGUEZIA

ANNO DE 1879

Olharam assombrados o sorriso da morte. E viram, por entre a profusão de campas revolvidas e lápides quebradas, os sete palmos de terra de Salomé, intactos, desafiando o abismo das águas que vinha a caminho. Josué voltou a cabeça a tempo de evitar os olhares de reprovação que os companheiros lhe lançavam.

D.E.

domingo, julho 15, 2007

A SUBIDA DAS ÁGUAS ( 1 )

No dia em que Josué, de martelo em punho, reduziu a uma pilha de cacos o aparelho de televisão, houve quem visse naquele desvario uma genuína manifestação do síndroma do deslocado, designação criada pelos psicólogos que acompanhavam o povo da aldeia para classificar de forma científica e rigorosa os estranhos comportamentos observados nas gentes de Vilarinho do Rio.
Na nova aldeia, construída de raiz para os que foram obrigados a deixar o chão ancestral, Josué vivia tempos de melancolia, a memória dos antigos lugares aprisionada na tristeza da casa que lhe fora atribuída, um espaço que cheirava violentamente a novo, sem larguras de terra onde plantar uns pés de roseira ou semear umas vagens.
Josué é homem bem entrado na idade, viúvo, sem filhos, com cabelo e sobrancelhas que dão para uma casa de família, o nariz vagamente adunco, lábios finos e cova no queixo, estatura meã, pele tisnada. Todo o Inverno veste calças escuras e camisola de gola alta, e em dias de chuva enverga uma capa de borracha que lhe foi deixada por um embarcadiço seu amigo. Usa botas grossas, faz a barba dia sim dia não, e não é capaz de olhar de frente para uma mulher. Pescador em outros tempos, quando os barbos e as carpas corriam na babugem do rio, vivia do rendimento da pesca e do pouco que tirava da criação de patos e galinhas, trabalhando a horta para consumo próprio.
A porta da sua nova casa dá para uma calçada de pedra escura que margina o asfalto da rua. Nas traseiras há um quintal exíguo, onde, sob um telheiro, se guardam redes e outros apetrechos de pesca, umas enxadas e um ancinho. Ao lado da sua rua há mais duas, uma de cada lado, dispostas em paralelo, e a meio delas uma outra que as atravessava e vai dar ao largo onde foi reedificada a igreja matriz. É a esta geometria de ruas e casas brancas de traço monotonamente igual que dão agora o nome de Novo Vilarinho.
Josué foi ainda capaz de varrer os destroços do televisor, manobrando a vassoura e a pá com a destreza própria de quem não tem mulher em casa, sacudindo o tapete na soleira da porta, e, tomado de singular consciência ecológica, separou o metal, o plástico e o vidro, depositando em cada um dos contentores do lixo aquilo que lhes estava destinado receber. Parecia forte, mas deixou-se abater quando os vizinhos saíram à rua e começaram a abraçá-lo, recomendando-lhe calma e consolando-o com palavras amigas.
Josué foi o primeiro a escaqueirar o televisor, mas outros o seguiram. Jonas, também antigo pescador, teve o seu momento de cólera num dia húmido, pelas cinco da tarde, quando começavam as emissões diárias de circuito interno, explicando ao povo as vantagens do empreendimento. Depois foi Ruben, o carpinteiro. E Ester, e Daniel. Jacob, que se dizia ser um pouco tonto, agiu com grosseira violação das normas de segurança e foi electrocutado pela voltagem do aparelho. Ficou para a história como a primeira vítima da subida das águas, e há quem garanta sentir a sua alma, à noite, a deambular pelas ruas da aldeia.
Tudo isto se passava enquanto o povo menos consciente, ou talvez menos preparado para enfrentar o sofrimento, enganava a amargura dos dias na nova sociedade recreativa, jogando às cartas ou assistindo aos programas de televisão captados por antena parabólica, desafios de futebol, touradas, filmes às vezes um bocado picantes que as mulheres fingiam não ver e os homens só desfrutavam com satisfação quando elas não estavam presentes. Os psicólogos verificavam com a alegria própria do dever cumprido a integração destes deslocados nos novos espaços sociais. Não sabiam ao certo quantos eram, mas estavam seguros de que apenas uma pequena parte dos habitantes não se adaptara à nova situação. Tudo fora feito para suavizar os problemas da mudança, desde a entrega de casas novas, segundo as necessidades de cada família e a área das suas antigas habitações, até à reconstrução da igreja matriz, desmontada e montada pedra por pedra. Os restos mortais dos familiares foram exumados na antiga necrópole e sepultados nas campas e ossários do novo cemitério. Da cidade veio um entendido em assuntos de morte e sentimentos de perda para ajudar com o seu conselho os que poderiam deixar-se abater em tão doloroso transe. Nada foi deixado ao acaso pelos donos do empreendimento.
De entre todos os habitantes da aldeia, só Josué se recusou a levantar os ossos da mulher. Salomé se chamava ela, lá ficou sob o manto de água.

D.E.

quinta-feira, julho 12, 2007

UM DESTINO INEXORÁVEL

Ela conhecia os matizes da dor que via estampados nos rostos dos familiares. Não se surpreendia com as palavras condescendentes ou as expressões de desdém que acolhiam as suas arrojadas certezas. E compreendia bem a indulgência dos que não queriam contrariá-la, receosos de verem agravado o seu estado de saúde. Sentia-se fraca, talvez por efeito da medicação que lhe era imposta, mas à sua volta nada acontecia que a deixasse indiferente. Estava sempre atenta às notícias dos jornais e da televisão, inteirava-se de tudo o que dizia respeito às pessoas da família, arriscando juízos e premonições como se de uma pitonisa se tratasse. Naquela mente que os médicos insistiam em caracterizar como perturbada, fervilhavam convicções poderosas e formas desmedidas de ver o mundo. Ela que sempre fora uma pessoa sem ideias próprias, acostumada a guiar-se pela cabeça dos outros, sentia-se de repente singularmente segura de tudo o que pensava e dizia, parecendo querer recuperar do seu longo passado de apatia.
No pico das noites, quando era hora de dormir e o sono teimava em não lhe procurar o refúgio dos olhos, tinha visões de estepes geladas por onde corriam cavalos de crinas ao vento, recortando-se na linha do horizonte manchas de bandos de aves, um sol alaranjado, o vulto de um deus revoltado com a imperfeição dos homens. Ela contava estes sonhos – assim lhes chamava – à irmã com quem vivia desde que se separara do marido. A irmã traía num esgar a crispação dos músculos da face, fazia-se lívida, afastava-se com o rumor dos pensamentos a fustigar-lhe as têmporas, e era incapaz de responder ou de avançar com uma palavra de alento.
Há muito que aquele mal – ou aquela diferença – se disseminara no magma genético da família, irrompendo com regularidade pelo menos uma vez em cada geração. Todos conheciam a ameaça em suspenso, a espada de Dâmocles que traziam por cima das cabeças, interrogando-se permanentemente sobre quem seria o próximo a sofrer o assédio.
Num dia em que ela, no cume do delírio, degolou o canário de canto mavioso a que a irmã tanto se afeiçoara, uma ambulância de onde saíram dois homens de bata branca e bíceps protuberantes, levou-a, num aparato de sirenes e correrias desrespeitadoras das regras de trânsito, para um pavilhão sombrio de um hospital psiquiátrico.
Então, enquanto toda a família sofria as ondas de choque do desenlace e se desdobrava na procura de soluções, a irmã distanciava-se do problema, agindo como se ele não existisse ou como se, existindo, não lhe dissesse respeito.
Houve quem manifestasse pesar por tão invulgar alheamento, quem se insurgisse pela falta de solidariedade, aduzindo argumentos recriminatórios. Não entenderam a questão para além de aquilo que se firmava diante dos olhos. O que pesava na atitude da irmã não era a falha do amor fraterno ou a quebra dos naturais sentimentos regidos pelo altruísmo. O problema era outro. Ela sentia-se já no declive por onde tinham resvalado, em sucessivas gerações, tantos membros da sua família. Por isso, e só por isso, num natural reflexo de autodefesa, lhe era impossível enfrentar a face do mal e lidar com as suas infinitas expressões. No fundo, era como se recusasse encarar antecipadamente o destino que sabia estar guardado para si.
D.E.

domingo, junho 17, 2007

A SOBERBA IRONIA DE UM SORRISO

O primeiro sinal de que algo de estranho se passava com ela foi dado pelo desaparecimento dos livros, um conjunto de doze lombadas que desde sempre tinha ocupado lugar de destaque na biblioteca do casal. O marido deu pelo buraco negro aberto no miolo da estante e perguntou-lhe pelo paradeiro dos volumes. Ela respondeu que os tinha arrumado em outro sítio e não deu mais explicações.
Todos os livros desaparecidos, desde uma colectânea de poemas de amor a vários romances de autores contemporâneos, tinham-lhe sido oferecidos por ele nos momentos mais marcantes de um percurso amoroso entre o enamoramento e o matrimónio na igreja.
Ainda hoje o marido não conseguiu perceber por que motivo se decidiu ela pelo sumiço dos livros. Agita a memória desses tempos e não encontra um nexo, uma razão lógica, uma ideia explicativa para tão singular procedimento. Certo e seguro é que entre o casal havia silêncios maiores e mais pesados que todo o acervo de livros da biblioteca. Ele gastava o serão fumando cachimbo e folheando jornais; ela pintava ou moldava peças de barro num ateliê improvisado no sótão da casa.
Já então se entregava a um estilo de pintura aparentemente incompreensível, usando cores estranhas, aproveitando apenas uma metade da tela para exprimir a sua arte. Pintava essa parte e deixava em branco o resto, fosse a metade à esquerda ou à direita, a da parte de cima ou a de baixo. Por vezes dividia a tela pela diagonal e deixava correr os pincéis apenas em um dos triângulos formados. O contraste entre as metades, uma estranhamente pintada e a outra completamente vazia, deixava intrigados os amigos e familiares que ocasionalmente observavam os seus trabalhos.
Nas obras de cerâmica moldava rostos femininos com expressões de grande beleza, as bocas e os olhos serenos, mas depois de cozidas as peças deitava-as ao chão e fazia-as em cacos, para em seguida unir os estilhaços por meio de laboriosas colagens, umas correctas, outras propositadamente imperfeitas, introduzindo nos rostos disformidades e arestas que lhes fixavam indescritíveis traços de dor, indizíveis expressões de sofrimento.
Perante tais manifestações artísticas, o marido não permitiu que ela levasse os quadros e as obras de cerâmica à exposição de arte. Depois transigiu, mas pôs como condição a reposição na estante dos livros desaparecidos. A verdade é que os quadros e as peças de barro lá ficaram, longe dos olhos do público, enquanto os livros continuaram a morar em parte incerta.
Todos o dias, ao fim da tarde, o marido chegava a casa, tomava um banho, vestia roupa lavada, sorvia um vinho aperitivo e perguntava: O que é que há para jantar? Ela respondia quase sempre com uma ou duas palavras. Comiam em silêncio por entre o tinido dos talheres e o rumor das loiças.
Um dia, talvez desiludida por ninguém apreciar a sua arte, deixou de trabalhar no ateliê e passou a ocupar o tempo com inesperadas leituras, devorando livros que ninguém sabia de onde provinham, edições completamente desconhecidas, romances policiais sem crimes, histórias de amor onde os amantes não se beijavam uma única vez. O marido desconfiou daqueles livros cujos conteúdos perversos não auguravam nada de bom, e decidiu confiscá-los. Eram leituras perigosas, dessas que abalam as mentes frágeis das pessoas, em especial as mentes frágeis das mulheres.
Impedida de ler os seus livros, agarrou-se à escrita. Passou a ocupar as tardes e as noites sentada ao computador, compondo os textos mais extraordinários que é possível imaginar, textos onde em cada linha se elidiam letras, sílabas e palavras completas, de tal forma que o sentido dos mesmos ficava totalmente incompreensível, reduzido a uma amálgama de caracteres, a um exercício críptico de decifração impossível. Houve quem dissesse então que ela tinha um amigo a quem enviava esses textos e que esse amigo, sim, era capaz de os decifrar, e que por cada texto hermético que recebia lhe enviava outro onde os sentimentos se exprimiam de forma clara, e isso era o suficiente para ela depois refazer o seu e implantar sentido onde antes não existia. O marido não suspeitava de nada, mas um dia, percorrendo os arquivos do computador, deparou com uma escrita de arrebatadas expressões, com palavras carregadas de afectos, e achou por bem tomar uma atitude de homem.
Foi por esta altura que ela começou a mentir. Nunca até aí se atrevera a tão desmedida desfiguração da verdade. Sempre que era questionada sobre uma matéria e não queria ou podia responder com rectidão, tinha artes de tornear a pergunta, de exprimir uma meia verdade, nunca dando o não pelo sim ou o sim pelo não. Essa sua maneira de ser alterou-se completamente. Passou a mentir de forma tão sistemática e com tal competência que ela própria acreditava nas falsidades por si criadas. À noite, nos serões silenciosos, enquanto ele fumava cachimbo e folheava os jornais, ela que já não pintava, moldava, lia ou escrevia, limitava-se a trucidar a verdade em cada um dos seus gestos, em cada expressão do seu olhar, como se vivesse na dependência de uma droga e já dela não pudesse fugir.
Um dia, ao fim da tarde, quando o marido chegou a casa e perguntou, como era habitual, O que é que há para jantar?, ela não lhe deu qualquer resposta. Havia nos seus lábios a soberba ironia de um sorriso, uma desfaçatez sem limites que causavam perplexidade e dor. Então o marido, perante tão flagrante violação da normalidade, fez aquilo que, talvez em consciência, lhe competia fazer: telefonou para uma clínica psiquiátrica e pediu um internamento de urgência.

D.E.

quinta-feira, maio 10, 2007

A RESIGNAÇÃO DOS DESISTENTES

No princípio preocupava-se muito com o corte das camisas e o padrão das gravatas. Tinha a certeza de que o verde não condizia com o azul, que umas meias cinzentas caíam bem sobre sapatos pretos e que a bracelete do relógio dialogava com o cinto das calças. Vestia a preceito e raramente comprava roupa em lojas de pronto-a-vestir: tinha alfaiates certos, artesãos escolhidos segundo o seu estilo pessoal ou os ditames da moda que decidia acolher.
Saíam com frequência aos fins-de-semana, estrada fora, a percorrer o país monumental: gótico flamejante, vitrais, arcobotantes e botaréus, arcos de volta perfeita do românico, abóbadas de berço, capitéis historiados. Almoçavam em restaurantes com portentosos cardápios e pernoitavam em pousadas históricas, castelos ou palácios adaptados às exigências da hotelaria moderna, velhos mosteiros com as antigas celas transformadas em agradáveis aposentos, as portas abrindo-se para claustros com jardins e lagos de repuxos, o silêncio da antiga clausura dando lugar à alegria ruidosa dos que viajavam.
Não se deixavam seduzir pelos fins-de-semana românticos em Paris ou Viena que as agências de viagens tentavam vender-lhes. À monumentalidade das grandes cidades ou a esses programas turísticos que chamam “de sonho”, preferiam a sobriedade do “saia para fora cá dentro”, aqueles lugares onde a maravilha se serve em doses equilibradas, sem empanturrar os olhos e a alma, não deixando embotar os corações de deslumbramento. Tinham-se apercebido disto quando passaram uma semana de férias em Roma: Capitólio, Via Veneto, Fonte Trevi, Basílica de Santa Maria Maior, Praça Navona, e quase não tiveram tempo para o amor, faltavam os olhos para si próprios, esbugalhados naquele torvelinho de novidade e beleza que submergia o fulgor dos afectos.
Durou pouco ou muito tempo esta fase das suas vidas? É difícil responder. A partir de certa altura, nas saídas que faziam, começaram a levar livros dos quais apenas liam, à noite, passagens esparsas. Enredavam-se em entretenimentos e jogos de palavras, compondo acrósticos, procurando vocábulos e frases que pudessem ser lidos sem alteração de significado da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, os chamados palíndromos, palavras como “radar”, “osso” e “rir”, frases como “Roma é amor”. Não era fácil. Passavam depois aos lipogramas, arquitectando textos onde nunca entravam determinadas letras, tendo chegado a escrever umas trinta linhas sem um único registo da vogal “a” e da consoante “b”. Chegavam, por fim, aos anagramas, a ver quantas palavras podiam construir com as mesmas letras de outra palavra, e tiravam Natércia de Caterina, fazendo batota, claro, que a invenção era de Camões e a patente estava registada há vários séculos.
Já por essa altura lhes parecia que alguma coisa não estava bem, que as mãos e as bocas tinham deixado de falar os dialectos de antigamente. Aconteceu estarem um fim-de-semana completo numa cidade histórica e não terem visitado a catedral. Uma vez, em Junho, seguiam por uma estrada bordejada de cerejeiras carregadas de frutos e não conseguiram sentir a beleza e o perfume exalados pelas árvores. Quando paravam em alguma zona de descanso, junto de um parque de merendas com uma fonte que bebia a água da serra, mal se lembravam da última igreja que tinham visitado, se era de estilo gótico ou românico, se tinha uma ou três naves, se era de transepto inscrito ou saliente. Sentiam que, cada vez mais, lhes fugia a memória, ficando-lhes uma vaga reminiscência de manhãs carregadas de luz, de palavras e pedras rendilhadas, portais, rosáceas, absides, coruchéus, uma vaga reminiscência, apenas, na planura insondável do tempo presente.
Depois ele passou a preocupar-se cada vez menos com aquilo que vestia. Não ligava às cores e aos padrões, era capaz de pôr uma gravata de riscas sobre uma camisa de quadrados. Já lhe servia qualquer peça de roupa, mesmo dessas que se vendem no hipermercado, penduradas em tristes varões atrás de escaparates de mercearias, garrafas de vinho e detergentes, provadas no silêncio de minúsculos gabinetes com uma cortina de correr, um cabide e um espelho de vidro com a largura de um corpo, o pagamento feito na caixa, à saída, juntamente com o peixe, as hortaliças e o leite. E se, por força do hábito, ainda faziam alguma saída de fim-de-semana, era para voltarem sempre ao fim do dia, como se não fossem capazes de aguentar o peso de uma noite fora de casa ou já não soubessem fugir à sensaboria dos monótonos serões, o sono domando-lhes o corpo à boca da madrugada, até se resolverem a ir para a cama, um de cada vez, para dormirem mais uma noite sem chama, cansados da previsibilidade dos dias e da sua irremediável feição.
Os roteiros das viagens, as brochuras turísticas, os postais ilustrados dos monumentos e paisagens jaziam por esse tempo na mais triste prateleira da estante, como papéis imprestáveis. Já não passavam os olhos sobre eles para fazer perdurar a lembrança de tantas viagens por territórios felizes. Já só se entretinham com leituras ligeiras e jogos de palavras cruzadas, o jornal dobrado no colo, a caneta apontada à malha das quadrículas, única forma de comunicar que ainda lhes restava. Ele perguntava: arco quebrado da arquitectura gótica, cinco letras? Ela perguntava: é fogo que arde sem se ver, quatro letras? Mas por mais voltas que dessem à cabeça, por mais pistas que tentassem cruzar entre verticais e horizontais, nenhum deles era capaz de responder. E com a resignação dos desistentes estupidamente abrigada nos olhos, espreitavam as soluções no fundo da página.

D.E.

domingo, maio 06, 2007

SÉGOLÈNE ROYAL



Confesso que tive pena. A França perdeu a oportunidade de ficar com a Presidente mais bonita do mundo.

domingo, abril 29, 2007

UMA LUZ INDIZÍVEL NOS OLHOS

Nenhuma mulher escapava ao seu olhar de fera desapiedada, de animal insaciado, congeminando lascívias em cada hora do dia por mais trabalho que o prendesse ou maior canseira que lhe morasse no corpo. Chico Gostoso, talhante de profissão, trinta anos de idade, cingia carcaças de borrego e porco, alombava com pesadas pernas de bovino dos frigoríficos para a mesa de desmancha, cortava bifes e costeletas, picava carne, usava a faca e o cutelo com inexcedível mestria – era um amante das carnes, mais das vivas que das mortas.
Trabalhava no mercado. Através da montra aberta sobre os lugares dos vendeiros, procurava com os olhos a Isabel Alface ou a Rita Marmota, peixeira esta, vendedora de frutas e hortaliças aquela, às vezes era alguma freguesa – das mais jovens às mais entradas no abismo da idade, fossem solteiras ou casadas – que lhe despertava a atenção e as libidinosas pulsões. Chico Gostoso ia a todas.
Era voz corrente no mercado que desfrutava, em concomitância, tanto a Rita do peixe como a Isabel das hortaliças, mas nenhuma delas parecia acreditar em tão arrojada deslealdade. Se lhe pediam para jurar, jurava: que era mentira e inveja, nunca fora homem de se comprometer, ao mesmo tempo, com duas mulheres.
Rita era uma mulheraça, trinta e muitos, de boas carnes, desamigada de matrimónios e compromissos estáveis, despachava caixas de carapau e sardinha como quem bebe um copo de água, conhecia à distância as cores de todos os peixes e os cheiros exalados pelas suas entranhas, arrepiava pescadas, escamava abróteas e garoupas como quem limpa o rabo a meninos, era exímia na arte de descongelar e recongelar. Isabel era peça mais delicada e de viçosa idade, uma falsa magra, a cintura fina, as pernas bem torneadas, os seios redondos como meloas, tinha um olhar dengoso que desnorteava e fulgia, a boca era apetecível como um pomo maduro.
Para além destas duas havia a Maria Leiteira, dona de uma venda de queijos e enchidos regionais – morcelas, alheiras de Mirandela, paios e chouriços da Beira Baixa, queijos flamengo, Rabaçal e tipo Serra –, uma rapariga anódina, sem graça, já um pouco atrasada para o sacramento do matrimónio, que a pouca beleza do rosto e as carnes direitas do corpo não puxavam os homens para namoros ou vívidos relacionamentos. Chico Gostoso cortara-lhe uma vez um quilo de fígado de porco, era na hora em que o estabelecimento estava quase a fechar, não havia ninguém por perto, de sorte que, ao entregar-lhe o saco de plástico com o avio, deteve-se a sua mão na da triste feia, de forma tão carinhosa e inesperada que a rapariga subiu aos céus de consolação. A partir desse momento tomou-a um fraquinho pelo oficial das carnes, onde ele estivesse e o pudesse lobrigar lá estavam os seus olhos tristes. Ele é que fez logo marcha atrás com quanta força tinha, arrependendo-se do mau passo : com tanto gado de primeira para lidar, logo havia de ir desinquietar aquela rês famélica e descorçoada.
Os companheiros do mercado – o Zé dos bolos, o Manel dos congelados, o Paulo dos secos – gozavam com Chico Gostoso: É pá!, uma boa posta de peixe há-de ser sempre acompanhada de umas batatas novas e de uns legumes viçosos, só com acompanhamento é que a comida sabe bem; uma fatia de queijo para sobremesa também não vai mal, mas aqui o amigo Chico parece ter medo desse alimento: é que o queijo é magro e mal curado, deve ser por isso.
Durante algum tempo repartiu-se Chico Gostoso entre a dama do peixe e a jovem das frutas e hortaliças. Saía do pé de uma para se encontrar com a outra, lá ia chegando para as encomendas, nenhuma se queixava, que o homem era tão exímio nos volteios do amor como no manejo do cutelo e da faca de desossar.
Quem lhe estragou o arranjinho foi o Joca dos salgados, um sujeito miudinho e invejoso que mercadejava rissóis, chamuças, bolinhos de bacalhau e pastéis de massa tenra, e que, além disso, mau grado as dificuldades do intricado negócio, ainda ficava com tempo para vazar a gula dos olhos sobre as formas deliciosas da Isabel Alface. Despeitado pela má distribuição da riqueza que lavrava naquele mercado – um figurão batendo-se com duas mulheres, quando a ele não lhe tocava nada – resolveu bufar às damas as infidelidades do açougueiro, avançando com dias, horas, sítios em que as mesmas se cometiam, sem margem para dúvidas ou refutações, que para tal andou armado em espia durante um largo período de tempo.
As mulheres conferenciaram entre elas. Se o promíscuo assim agia, gozando com ambas de forma tão leviana, teria de levar uma lição. E em momento azado, quando o Chico Gostoso se fazia a mais um encontro amoroso com uma delas, em vez de encontrar uma encontrou as duas, que logo ali se dispuseram a render-lhe conjuntamente os especiosos favores que antes lhe dispensavam em separado.
Perante o imprevisto triângulo amoroso, vacilou o pinga-amor, aturdido, abalada a sua segurança de macho proficiente, ele que se habituara a conduzir e não a ser conduzido, apavorado com a possibilidade de não dar conta do recado. Ficou gelado, o membro frouxo num grande desconcerto vascular que lhe causou vergonha e medo.
No dia seguinte, todo o mercado comentava o sucedido, rindo de Chico Gostoso e da sua falsa prosápia. Rita Marmota e Isabel Alface, se o viam, chispavam-lhe olhares de escárnio. Alguns, depois dos primeiros momentos de gozo, chegaram a ter pena dele, tão enfiado que o viam, atrás do balcão do talho, lidando a custo com as grossas peças da alcatra e da vazia, levantando a cara, a medo, para as clientes que antes costumava despir com os olhos lúbricos. Chico Gostoso era um animal ferido, parecia que todos lhe tinham perdido o respeito. No entanto, quem passasse pelo lugar da Maria Leiteira e reparasse na triste vendedora de queijos e enchidos, notaria no seu rosto, como coisa nunca vista, uma rara expressão entre a esperança e a felicidade, um desses indefiníveis reflexos da alma que só raramente se fixam no semblante dos mortais, uma luz indizível nos olhos, como se começasse a apreciar a vida ou a acreditar no amor.

D.E.

domingo, abril 15, 2007

PRETEXTOS...

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«O Morto é só um pretexto» - pelo Grupo de Teatro do ISCTE - mISCuTEm

Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) 30-03-2007 a 22-04-2007 6ª-Sab: 21h30; Dom: 19h00 Entrada: EUR 3,00 (geral) / EUR 2,00 (estudantes) / EUR 1,00 (sócio) Reservas: 217903000 / 217935000

Grupo de Teatro do ISCTE - mISCuTEm Carla Rodrigues (Coreografia) Ana Isabel Augusto (Encenação)

A peça «O Morto é só um pretexto - Os bivalves andam sempre aos pares e os tremoços são singulares», é uma produção do Grupo de Teatro do ISCTE - mISCuTEm, com encenação de Ana Isabel Augusto

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PARABÉNS À CARLA E A TODOS OS ELEMENTOS DO GRUPO DE TEATRO POR ESTE EXCELENTE PRETEXTO.

CONFESSO QUE O NOME DO MORTO ME PERTURBOU UM POUCO. MAS ACABEI POR ME ENCHER DE CORAGEM: ENTREGUEI O ÓBOLO E ATRAVESSEI O ESTIGE EM COMPANHIA DO BARQUEIRO CARONTE.

ESTAVA LONGE DE IMAGINAR QUE O REINO INFERNAL FICAVA NO BAIRRO ALTO.

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domingo, abril 01, 2007

UM SEBO DE SÃO PAULO E O MEU AMOR EM PERIGO ( 4 )

Um perfeito disparate – foi assim que Cláudia classificou a empresa em que eu me metera, deixando a casa e o emprego para ir em demanda de um hipotético manuscrito de Camões, como se o trabalho de investigar sobre tal matéria pudesse ser levado a cabo por alguém destituído de formação e experiência para o fim em causa. Que ela pesquisasse sobre os entrechos da expansão portuguesa no Oriente, nenhuma admiração, pois era labor próprio da sua condição de universitária e doutoranda; agora eu, um zé-ninguém metido dentro da farda de uma empresa de segurança, arrastando as horas de vigília nocturna com os olhos dormentes e a cabeça dolorida de sono, a querer armar-se em descobridor de manuscritos perdidos, era coisa que não lembrava ao diabo. E, com grande frieza, deu-me ordem de regresso, sob pena de o meu dislate conduzir a desentendimento grave e, admiti eu, a uma muito provável separação.
Dei comigo a pensar sobre os sacrifícios que fazemos para conservar a estabilidade dos nossos afectos. Tantos sonhos que abandonamos, tantos momentos da vida em que saímos do nosso caminho para seguir a luz do outro. A vida a dois é feita de cedências e ajustamentos, de renúncias recíprocas em vista da felicidade comum. Só que, no nosso caso, parecia-me ser eu o único a renunciar, aquela metade que tinha sempre de se acomodar à vontade da outra.
E lembrei-me de um episódio da vida de casado do meu tio Gilberto. Tinha-me sido contado por ele há uns bons anos, pois a grande amizade que tinha por mim levava-o sempre a procurar transmitir-me, com exemplos da vida, os ensinamentos de que eu carecia para a minha formação como homem. Apresentando-me esse episódio como uma experiência de onde era possível retirar uma lição, ironizava ao mesmo tempo sobre as peripécias e o desfecho do mesmo, como se, depois de tanto tempo, já não passasse de um incidente menor da sua vida, algo que, apesar da importância que tivera, o tempo se havia encarregado de situar no plano das coisas que já não tinham o poder de o afectar.
Na juventude, a minha tia, mãe daqueles incríveis primos a que me referi, era muito possessiva e assaz exigente na reivindicação dos seus direitos matrimoniais, prendendo o meu tio em casa, ao pé de si, tanto quanto podia. Durante os dias de semana, nas poucas horas que lhe sobravam do seu labor de funcionário público, ela lá ia conseguindo segurá-lo com aquelas artes que as mulheres possuem e já nascem com elas. Ao domingo, porém, tudo lhe saía ao contrário. O meu tio Gilberto tinha o gosto do futebol – uma inclinação que lhe ficara dos tempos de rapaz – e não passava um santo dia do Senhor que não se encontrasse com o seu grupo de amigos para um jogo matutino – uma espécie de partida de solteiros contra casados – seguindo-se o almoço entre camaradas e, durante a tarde, exacerbados entusiasmos de bancada no estádio do clube. Semana sim, semana não, a equipa de futebol do clube ia jogar fora, aos estádios ou aos singelos campos da bola dos adversários, e ele lá seguia em excursão até esses lugares, não sei se como membro de alguma ruidosa claque ou apenas como espectador sereno. Todo o dia de domingo era assim passado em convívios, entretenimentos e práticas desportivas de bancada, enquanto a minha tia ficava em casa, sozinha, sob a custódia dos Lares. Ela aguentou um certo tempo, tentando perceber até onde chegava o atrevimento, sempre à espera de o ver reconsiderar e arrepiar caminho, mas como não houvesse melhoras e muito menos sinais de arrependimento, leu-lhe a cartilha: ou acabava o futebol, ou acabava ela. Foi remédio santo, que aquilo era mesmo um casamento de amor e o meu tio não a queria perder.
Também eu, seguindo o exemplo do meu tio, cedi a Cláudia. Cheguei envergonhado ao pé do representante do sebo e dei o dito por não dito: ele que procurasse sozinho o manuscrito de Camões, bem podia ficar com os louros da descoberta todos para si, que eu, por imperiosos motivos familiares, me via obrigado a regressar a casa. O homem ainda tentou contrariar os meus propósitos de desistência, aduzindo formidáveis convicções e inexpugnáveis certezas, dizendo encontrar-se na pista certa, à beira de encontrar o que tão ansiosamente procurávamos, e lembrando-me os proveitos que daí adviriam para ambos. A minha decisão, no entanto, estava tomada, e isso ele acabou por compreender.
Deixei Salamanca, a cidade que a uns sara e a outros manca, como diz o velho adágio, e meti-me à estrada. Ia meditando na minha vida e no meu casamento, sentindo que a partir daquela experiência falhada já nada voltaria a ser como dantes. Acabara por descobrir em Cláudia uma mulher fria e intransigente, criticando o arrebatamento que me tomara quando eu apenas pretendia sair da sombra e chamar a sua atenção sobre a minha pessoa. Afinal, o que via Cláudia em mim? Que futuro poderia ser o da nossa relação? E comecei a valorizar certos sinais, pequenos incidentes que antes havia encarado com bonomia e desprendimento, como se não tivessem nada a ver com a essência dos nossos afectos e fossem apenas o resultado de desiguais ritmos de vida, de diferentes projectos profissionais que exigiam a um o que não se pedia ao outro, mas que afinal continham o germe de uma união fracassada, que dificilmente iria longe. Por que razão Cláudia nunca me apresentava aos seus colegas da universidade? Como explicar o desinteresse que me dedicava, mal se aproximando de mim dias a fio? E que dizer das vezes em que não vinha dormir a casa, ficando toda a noite, segundo dizia, na universidade, preparando a matéria da sua tese, fazendo directas ou limitando-se a dormir umas escassas horas, sobre a madrugada, encostada a um maple do seu gabinete? Se me fosse possível mudar alguma coisa na minha atitude – como em tempos fizera o tio Gilberto ao deixar o seu grupo de amigos e entregando-se por inteiro ao remanso doméstico em companhia da sua esposa– certamente o faria. Mas eu não tinha nada que, de imediato, pudesse ou devesse mudar. Só queria que Cláudia se sentisse bem ao pé de mim. Não tinha amigos que me afastassem de casa e a única vez que a tinha deixado sozinha fora nessa triste demanda que me levara a Salamanca e de onde regressara de orelha murcha, com o ego desfeito. Nunca poderia alterar de um dia para o outro a pequenez da minha estatura intelectual nem a configuração das minhas limitações. Ou Cláudia me aceitava tal como era, ou não havia nada a fazer. E decidi que teria de me entender com ela logo que chegasse a casa. Estaria disposto a tudo para não a perder, apresentar-lhe-ia um plano de reabilitação da nossa relação. Seria capaz de voltar à universidade para reiniciar os estudos interrompidos, tentando dessa forma superar o desnível de habilitações que existia entre nós. Talvez, quem sabe, terminada a licenciatura, pudesse também fazer um doutoramento. Estava disposto a esquecer tudo, a pôr de parte as dúvidas que me assediavam e a acreditar de novo no nosso amor.
Cheguei a casa e fui recebido por Cláudia com absoluta normalidade. Isso desarmou-me. Nos dias seguintes, retomado o meu trabalho de vigilante nocturno, foi-me faltando a coragem para lhe falar e debater com ela aquilo a que me obrigara em pensamento.
Hoje, passados vários meses sobre a minha ida a Salamanca, a nossa forma de vida não sofreu alteração. Com os horários de trabalho trocados, eu entro em casa, de manhã, quando ela acaba de sair para a universidade. Vejo-a escassamente durante os dias da semana, e aos domingos, à medida que se aproxima a data de apresentação da sua tese, cada vez lhe noto menos disponibilidade e maior dose de impaciência para comigo. Sinto que esta situação não poderá continuar por muito tempo e algum dia teremos de discutir a sério a nossa relação. Poderá ser na próxima semana, poderá ser no próximo mês, quando me sentir capaz de falar com ela. Até lá, faço por acreditar que algum facto inesperado, algum sopro de vida podem ainda surgir e salvar o nosso casamento do coma profundo em que se encontra. Entretanto, hei-de passar um dia destes pelo alfarrabista do Bairro Alto. Pode ser que ele tenha notícias do representante do sebo e que algo se descubra sobre o Parnaso de Luís de Camões. Estou convencido de que isso modificaria muito, para melhor, a opinião de Cláudia a meu respeito.
D.E.

quinta-feira, março 22, 2007

Ainda o DIA MUNDIAL DA POESIA

Para comemorar o Dia, que também se apresentava como sendo da Árvore e, quiçá, da Primavera, estive na Bibiloteca Municipal de Alverca, a partir das 21 horas, onde estava marcado encontro com o poeta Gastão Cruz, nascido em 1941, personalidade ligada ao movimento Poesia 61 (com Casimiro de Brito, Fiama, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta) e autor de vasta obra poética.
Éramos nove, incluindo-se neste singelo número o poeta, a responsável da biblioteca e a senhora vereadora do pelouro da cultura.
Mesa fraca para tão saboroso repasto.

Aqui fica um poema de GASTÃO CRUZ:


OUTRO TEMPO


Ficávamos de tarde com a música
na escuridão dos quartos repassados
de secura
como se a luz atravessasse
sem claridade a casa


O corredor
alargava junto às salas
fechadas a maior acabava num
púlpito debaixo
do torreão em forma de coroa da casa


Durante horas a música lançava
obscuras vagas
o futuro
tão perto já cavava
covas nas salas nunca usadas

quarta-feira, março 21, 2007

DIA MUNDIAL DA POESIA

Se eu nunca disse que os teus dentes
São pérolas,
É porque são dentes.
Se eu nunca disse que os teus lábios
São corais,
É porque são lábios.
Se eu nunca disse que os teus olhos
São d'ónix, ou esmeralda, ou safira,
É porque são olhos.
Pérolas e ónix e corais são coisas,
E coisas não sublimam coisas.
Eu, se algum dia com lugares-comuns
Houvesse de louvar-te,
Decerto que buscava na poesia,
Na paisagem, na música,
Imagens transcendentes
Dos olhos e dos lábios e dos dentes.
Mas crê, sinceramente crê,
Que todas as metáforas são pouco
Para dizer o que eu vejo.
E vejo lábios, olhos, dentes.


REINALDO FERREIRA

(Barcelona, 1922 - Lourenço Marques, 1959)

domingo, março 11, 2007

NOVA E SURPREENDENTE HISTÓRIA DO LETRADO LUSCIÉNIO, PROCURADOR DO COUTO MINEIRO DE VIPASCA NO TEMPO DE AUGUSTO

Quem conta um conto, acrescenta um ponto.
(Adágio popular)
Lusciénio, letrado romano, filho de um liberto que enriquecera com um negócio de azeites rançosos e vinhos adulterados, cumpria desterro, por crime que adiante se conhecerá, no mais inóspito confim do Império, a remota Lusitânia, explorando uma concessão de cinco poços de cobre no couto mineiro de Vipasca , terra de gente bárbara e indolente que em outras eras viria a figurar nos mapas com o nome de Aljustrel. Chegou a Vipasca acompanhado da escrava Gláucida, prestadora de serviços domésticos e correlativos, tão apreciados pelo seu dono e senhor que até se colocou a hipótese de este a recompensar com a carta de alforria. Sendo um letrado, Lusciénio foi entretanto requisitado pelo governo de Emérita Augusta para exercer as funções de jurisconsulto da civitas de Pax Iulia, o que lhe proporcionou honra e acrescentamento, integrando-o na nata da sociedade local e permitindo-lhe firmar os seus créditos para se lançar em mais altos voos.
Apesar do travo do exílio, tudo estaria bem na vida de Lusciénio se este não se debatesse com um persistente distúrbio que lhe causava desgosto e vergonha. Moles como bichos lesmas, não se lhe endureciam as carnes da genitália por maior carga de excitação que lhe habitasse a massa do sangue. Incapaz de lhes dar outro fim, limitava-se a usá-las para verter as águas bexigais, sem delírios de volúpia ou arroubos de gozo. A razão deste desarranjo de ordem sexual – disfunção eréctil lhe chamarão mais tarde os entendidos – atribuía-se a um feitiço obrado pela lasciva Semprónia, mulher má que nas noites de Roma lhe secava as fontes seminais em imoderados festins de prazer, sempre insatisfeita e desejosa, tendo-se despeitado com o afecto que ele dedicava à escrava Gláucida. Sendo a lasciva Semprónia uma das concubinas de Augusto, sofreu Lusciénio a ira do Pater Patriae, que o enviou para o desterro lusitano no mesmo ano em que, provavelmente por análogas razões, despachou Ovídio para o exílio de Tomos.
Lusciénio não era parvo. De triclínio em triclínio, em luxuosos repastos, foi consolidando as suas amizades com os poderosos e influentes até chegar a procurador do couto mineiro de Vipasca. Ascendeu ao posto por mérito próprio, mas uma boa ajuda lhe foi dada por uma arca cheia de sestércios com que pagou , a quem de direito, o reconhecimento da sua aptidão para o provimento de tão rendoso cargo.
Estava Lusciénio já investido nas funções de procurador, fazendo vida de rico e tendo começado a construir uma vila com peristilo, jardim, lago de repuxos, triclínio, mosaicos pavimentares, banhos quentes e frios e outros cómodos, quando um legionário chegado de Roma para render um companheiro de armas que terminara a comissão de serviço, lhe entregou uma carta de seu pai.

Meu querido filho, muito tempo passou desde aquele dia em que de ti me apartei no cais do porto de Óstia, muita água correu sob as pontes do Tibre, muito sol queimou os telhados da nossa urbe e as copas das árvores que bordejam a via Ápia. Não voltei a receber notícias tuas dessa Hispânia onde te encontras, perguntando-me se sempre te fixaste na Lusitânia, como estava determinado e para onde te remeto a presente carta, ou se não te terás quedado pela Bética ou pela Tarraconense, províncias bem mais progressivas do que esse fim do mundo de bárbaros a que te condenaste. Meu filho do coração, quando providenciei para que tivesses os melhores mestres de Roma e zelei para que cumprisses dois anos de estágio em Atenas entre sábios e filósofos epicuristas, sempre pensei que, com tão robusto currículo, se abririam para ti as portas de uma rendosa carreira no foro, o que redundaria em teu benefício e em grande orgulho meu. Erros da juventude, meu filho, desviaram-te do caminho justo. Não é impunemente que se desafiam os desígnios do grande Pai da Pátria, o Imperador Augusto. Pagaste os errores cometidos, mas é chegada a hora de te dizer que, finalmente, há boas notícias. Poderás voltar a Roma, livre do opróbrio do exílio, logo que queiras. Vou explicar-te como consegui esta graça, mas antes, para que o possas entender, fica a saber que abandonei em definitivo as actividades mercantis ilícitas. Bom dinheiro me renderam, é verdade, mas mais cedo ou mais tarde, por evolução natural, teriam de ficar para trás. Hoje só trabalho com produtos alimentares de qualidade certificada: azeites da Hispânia e vinhos da Gália, tâmaras de Alexandria, ovas de esturjão do Cáspio, preparados de peixe de Gades, carne de vaca da Numídia. Tornei-me fornecedor das casas dos grandes patrícios de Roma, das tabernas do fórum, disponho de agentes comerciais nas grandes praças do mercado único do nosso Império. Foi assim que consegui, agora te explico, através das influências adquiridas no negócio, demover o Imperador. Em breve seguirá o decreto imperial que te torna livre para regressares à Pátria. Meu adorado filho, vê se voltas depressa para tomares conta dos nossos negócios, pois a minha idade, bem o sabes, é já avançada. Nada receies, meu amado filho. Poderás casar, constituir família com uma matrona que te respeite e dê filhos, nada poderá perturbar a tua felicidade e dedicação ao trabalho. O Imperador perdoou a tua ousadia, e Semprónia, a lasciva, causa da tua perdição, acaba de ser desterrada para a Trácia por ter sido apanhada em orgias com mulheres de condição livre e escravas. Augusto, o Pai da Pátria, não perdoa imoralidades públicas. Que os deuses te instruam, meu filho. Saúda-te o pai que muito te ama e deseja ver.


Foi por entre um remoinho de sentimentos contraditórios que Lusciénio leu a carta do pai. Era já noite. Afastou-se das lucernas que iluminavam o escrito e pôs-se a pensar. Desejava muito voltar a Roma, mas a verdade era que estava a consolidar a sua vida naquelas paragens lusitanas onde ganhava bom dinheiro e via correr os dias sem tribulações. Habituara-se à índole pachorrenta dos povos que habitavam as grandes planícies do Sul, debruçados sobre as searas com todos os vagares do mundo, cantando sempre dolentes modas, pedindo licença a uma perna para mexer a outra, como se andassem cansados desde o princípio dos tempos, apascentando rebanhos de ovelhas e vigiando com os olhos dormentes as varas de porcos pretos focinhando a nutriente bolota sob os ramos dos chaparros. Habituara-se a apreciar a flora e a fauna locais, o olor e a luz das estevas em flor, o voo da abetarda e da cegonha. O sul da Lusitânia era uma terra de horizontes largos, de estranhos monumentos de pedra que se recortavam na paisagem clara, uns apontando os céus como dedos hirtos, outros em forma de templo na sua massa tosca, erguidos por antiquíssimos povos, muito anteriores aos celtas e cónios que a civilização de Roma ali viera encontrar. Partir era bom, ficar também. E depois, de que lhe serviria casar se não seria capaz de cumprir as obrigações exigidas a um pater familias? Mantinha-se o distúrbio sexual que o acometera, e Lusciénio rememorou todas as tentativas feitas para o superar: a medicina convencional e as terapias alternativas não resultaram; não resultou igualmente a poção receitada por um druida gaulês que Fortuna da roda alada e da cornucópia colocara no seu caminho, penando três dias com as tripas doridas e o ânus assado, os ingredientes bárbaros a revolverem-lhe as entranhas, e as carnes penianas permanecendo, teimosamente, sem vida; depois foi a peregrinação ao santuário do deus Endovélico, as ofertas votivas, as preces a Iupiter Optimus Maximus e os rogos a Prosérpina, deusa infernal, esposa de Plutão, para que contrariasse a maldição que sobre si se abatera; frequentou bruxos, visitou mulheres de virtude, tentou excitar-se em lupanares e em orgias. Tudo fizera Lusciénio para tentar recuperar a virilidade perdida, e nada conseguira. Chegava a casa, aninhava-se nos braços da escrava Gláucida, e não ia além de umas carícias, de uns beijos ternos.
Algum tempo depois de haver recebido a carta do pai, teve Lusciénio de enfrentar uma grave contrariedade, esta de natureza diferente, a primeira que lhe surgia na sua carreira de funcionário do Império. Vindos da margem esquerda do grande rio que banhava Myrtilis, porto de embarque de todo o minério, hordas de bandoleiros descendentes dos antigos turdetanos da Bética assaltavam as caravanas que saíam de Vipasca e desviavam o produto metalífero para fundições ilegais. O estado e os concessionários que exploravam os poços de minério começaram a perder muito dinheiro, a braços com aqueles díscolos que assolavam as rotas de escoamento e ameaçavam levar o couto mineiro à falência. O minério que saía pelo porto fluvial de Myrtilis era baldeado para embarcações de longo curso nos portos de Ossónoba ou Lacóbriga, as quais logo seguiam as rotas do mar em direcção às colunas de Hércules, engolfando-se no grande mar interior em cujas margens se situavam os centros consumidores. Lusciénio largou a pena, desvestiu o trajo togado, e, empunhando o gládio, cavalgou os caminhos de pó da planície ao lado dos legionários, dando caça à malandragem, perseguindo-os muitas milhas além de Vipasca. No Castelo da Lousa, na margem esquerda do grande rio, pernoitava Lusciénio com os legionários durante as expedições punitivas, não podendo saber que, vinte séculos mais tarde, barrado o curso do rio com um grosso paredão, toda aquela vasta área ficaria sepultada sob as águas de um lago, tão grande e profundo que nenhum homem da sua era poderia imaginar. Lusciénio chegou a pensar em alterar as rotas do minério, já conhecidas dos bandoleiros, fazendo-o seguir para um porto seguro naquele rio que subindo de sul para norte, ao contrário de todos os outros rios da Lusitânia, dirigia o seu curso para a próspera Salácia das cegonhas e das pinhoadas e se entregava ao mar, entre golfinhos e viveiros de ostras, numa baía azul onde se erguia a promissora Cetóbriga. Daí poderiam partir os barcos de mercadorias para o grande mar interior, onde encontrariam todos os ventos que Ulisses conhecera no caminho de Ítaca: o Bóreas, o Noto, o Zéfiro, o Euro. Mas logo concluía pela dificuldade do projecto, pelos custos de transporte que acresceriam em tal empresa: uma longa viagem atlântica de enormes riscos, a necessidade de contornar o Promotorium Sacrum com o seu mar alteroso, antes de se poder navegar à vista daquela costa amena, virada a sul, com as suas arribas rendilhadas e as praias de areias de ouro.
Foi numa dessas noites em que pernoitava com os legionários no Castelo da Lousa que Lusciénio, excitado das correrias da jornada, deu em reparar, com um inusitado interesse, nos grossos chumaços das genitálias sob as tangas dos militares. Retirados os uniformes, pernas e troncos ao léu, os corpos abandonados em repouso à luz dos archotes da caserna, arregalavam-se os olhos de Lusciénio para os generosos volumes entre coxas, uma singular atracção que começava a sentir e que não sabia bem aonde o poderia levar. Tal era a insistência com que o fazia que logo suscitou motejos da parte dos castrenses, uns claramente assumidos como machos, outros, se calhar, nem tanto, pois é sabido que a diferença de orientação sexual não era impeditiva, na sociedade romana daquele tempo, de se empunhar o gládio e a lança em defesa da Pátria.
A partir de aqui não voltaria a ser o mesmo o letrado Lusciénio. Detinha-se frequentemente a avaliar a musculatura dos trabalhadores braçais do couto mineiro, como se, na qualidade de procurador, quisesse certificar-se de que os homens ao seu serviço estavam em perfeitas condições físicas para o rude labor da extracção metalífera. Nos banhos, deixava o recato do reservado que as suas altas funções lhe haviam outorgado e misturava-se com militares e cidadãos comuns, com capatazes e homens de ofício, buscando a proximidade dos corpos, tocando e deixando-se tocar, em públicos deleites a que já não sabia resistir. Gláucida deixou de ser chamada para a sua cama, passando de escrava para todo o serviço a uma singela prestadora de trabalhos domésticos, completamente desqualificada perante o novo escravismo macho com que entretanto se adornara a casa. O preferido de Lusciénio, nesta nova fase da sua vida, era um rapagão de procedência norte-africana, de nariz esborrachado e músculos lustrosos, adquirido a um mercador de Olisipo especializado no fornecimento de escravos de prazer. E começou a correr, célere como o cavalo de Fama, a notícia da condição de effeminatus do procurador de Vipasca, assim como dos esquisitos festins que tinham lugar com regularidade no espaço deleitoso da sua vila. Bem pensado, que outra saída poderia haver para um homem a quem os deuses, impiedosos, haviam roubado a virilidade?
Quando, por um dia quente já muito próximo das calendas de Julho, chegou a Vipasca o decreto imperial que abolia a pena de desterro do letrado Lusciénio, este mandou expedir um agradecimento ao Imperador, Pai da Pátria, mas invocando conveniência de serviço e os superiores interesses do Império, pediu licença para se manter em funções, não abandonando o couto mineiro.
Diz-se que viveu feliz o resto da vida na remota Lusitânia. E isso é afinal o mais importante. Seja onde for, seja como for.
D.E.