segunda-feira, fevereiro 20, 2017

O TIRANO DEUS CUPIDO



Tendo professado no convento da Rosa de Lisboa, situado na Costa do Castelo e destruído pelo terramoto de 1755, sóror Violante do Céu (1607-1693) distinguiu-se pela sua poesia de expressão amorosa, não tanto de amor ao “Divino Amante”, como algumas religiosas suas contemporâneas, mas ao amante carnal que  se apresentava às grades do convento e nele era recebido como na intimidade de uma alcova.  Ora veja-se este belo soneto:

Que suspensão, que enleio, que cuidado
é este meu, tirano Deus Cupido?
pois tirando-me enfim todo o sentido
me deixa o sentimento duplicado.

 Absorta no rigor de um duro fado,
tanto de meus sentidos me divido,
que tenho só de vida o bem sentido,
e tenho já de morte o mal logrado.

Enlevo-me no dano que me ofende,
suspendo-me na causa de meu pranto,
mas meu mal (ai de mim) não se suspende.

Oh cesse, cesse, amor, tão raro encanto,
Que para quem de ti não se defende
Basta menos rigor, não rigor tanto.



sábado, fevereiro 18, 2017

CONGRESSO INTERNACIONAL "REVISTA PRESENÇA: 90 ANOS DEPOIS" - Anfiteatro III, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 9 e 10 de Maio de 2017

A série II da revista presença (apenas dois números, o primeiro publicado em Novembro de 1939 e o derradeiro em Fevereiro de 1940) foi a tentativa de reanimar uma revista esgotada em termos programáticos e de intervenção numa altura em que a censura do Estado Novo apertava o cerco às publicações não alinhadas pelos seus ditames ideológicos.

No editorial do nº 1 da série II – “Presença reaparece” – , um texto não assinado mas saído claramente da pena de José Régio, são convidados para a revista todos os «verdadeiros artistas, críticos ou pensadores de qualquer escola, idade, classe», convite extensivo à geração neo-realista que, aliás, havia já colaborado em números anteriores com textos poéticos de Joaquim Namorado, Fernando Namora, João José Cochofel e Mário Dionísio.  

Não se duvida da sinceridade da proposta, mau grado as divergências que se iam cavando entre Adolfo Casais Monteiro e João Gaspar Simões, servindo José Régio de mediador, na verdade nem sempre isento.

José Régio queria sangue novo na revista, e até “sangue velho”, se se tiver em conta o convite feito aos cisionistas de 1930 (Branquinho da Fonseca, Edmundo Bettencourt e Adolfo Rocha /Miguel Torga), convite que os dois primeiros se dispuseram a aceitar.

Roberto Nobre – artista plástico, cineasta e crítico de cinema –, grande amigo de Ferreira de Castro, era desejado por Régio na presença. Numa carta para Alberto de Serpa, datada de Junho de 1939, diz o poeta: «Quanto ao Roberto Nobre, não o convidei ainda, pelo menos categoricamente, porque exactamente o Adolfo não concordava. E sabes porquê? Porque o Nobre saíra do Diabo à chegada destes que lá estão agora; e o Adolfo não aprovara tal atitude, e achava que era “andarmos aos caldos” (a expressão é dele) convidarmos o nosso melhor crítico cinematográfico.  Calei-me… provisoriamente. Não desisto, nunca desistirei, de ver o Nobre na presença… se a presença resistir a estes embates.»

Não resistiu, acabou ao 13º ano de publicação. No próximo mês de Março completam-se 90 anos sobre o aparecimento da “folha de arte e crítica” coimbrã, estando anunciado para 9 e 10 de Maio um congresso na Faculdade de Letras de Lisboa, organização do Centro de Estudos Regianos e do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias daquela faculdade. Será a oportunidade de se realizar mais um debate sobre a vida e morte da revista que mostrou Fernando Pessoa aos leitores portugueses, tendo contribuído de forma decisiva para a renovação estética da arte e da literatura portuguesas no segundo quartel do século XX.     
 
 
 

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

A FLOR DO PRINCIPEZINHO

 

No asteróide do principezinho havia embondeiros, três vulcões e uma flor com quatro espinhos.

«Nunca lhe devia ter dados ouvidos», dizia ele sobre a flor, para logo continuar: «Nunca se deve dar ouvidos às flores. Deve-se é olhar para elas e cheirá-las. A minha, perfumava-me o planeta todo, mas eu não era capaz de dar valor a isso.»
Sim, é certo que há flores com espinhos, mas o pior que pode acontecer é não se chegar a cheirá-las, belas e assustadoras que tantas vezes se apresentam. E acrescentava: «Não fui capaz de entender nada. Devia tê-la avaliado não pelas suas palavras, mas pelos seus actos. Ela perfumava-me e dava-me luz! Eu nunca devia ter fugido! Devia ter sido capaz de perceber toda a ternura escondida naquelas suas pobres manhas. As flores são tão contraditórias! Mas eu era novo de mais para saber amar.»
O principezinho fugiu por não saber amar. Esta não parece ser uma história para crianças e, no entanto, como tal foi recebida em Nova Iorque naquele ano de 1943, quando não se sabia bem para que lado das trincheiras cairia o vasto planeta chamado Terra, mundo infinitamente maior e mais complicado que o asteróide dos embondeiros, dos três vulcões e da flor com quatro espinhos.
José Régio chamou ao seu livro O Príncipe com Orelhas de Burro uma história para crianças grandes. O Principezinho, para além de interessar aos mais pequenos, é uma história para homens que não perderam a memória de terem sido crianças, ou, de outra forma, para a criança que há dentro de cada homem, assim sejam eles capazes de a encontrar.
Na Terra, o principezinho viu campos com milhares de rosas e compreendeu que nenhuma se comparava à sua flor de quatro espinhos. Às vezes acontece compreender-se demasiado tarde o que está mesmo diante dos olhos.



terça-feira, fevereiro 14, 2017

FRAUTA MINHA, QUE TANGENDO (2)

Foto de 14-2-2017

Lido em Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro: « (…) ainda que fosse possível imaginar um mundo sem arte, sem obras que a exprimissem, jamais seria imaginável um mundo entendido fora do sentimento estético, fora da qualidade emotiva que no-lo explica  à nossa relação humana com ele.»
 
O rio com os seus veios de sal e escamas. Uma bátega pontilhando de azul a superfície da água. Ao longe, sobre a campina, revoluteia um bando de estorninhos. Dois caiaques passam junto à margem em remadas rápidas. Como um barco, a tarde aponta a proa de sombra à foz do dia.   

 

quarta-feira, novembro 23, 2016

KANDINSKY e a música de SCHÖNBERG


«O som musical tem um acesso directo à alma. E nela encontra a sua ressonância, porque o homem possui "a música em si mesmo".» -- W. KANDINSKY, Do Espiritual na Arte, capítulo VI.

quarta-feira, novembro 16, 2016

«FRAUTA MINHA, QUE TANGENDO» (1)

FRANZ MARC, As formas combatentes, 1914
Diz-se um nome como que a  procurar esquecê-lo. Que palavras? Que vozes? A vontade de não achar, a sensação da indescritível ausência. A poesia não se nutre de cravos, nem de sóis, apenas de uma água de desejo que não se chega a beber.

sexta-feira, novembro 11, 2016

ÍCARO AGRILHOADO

Na boca do rio, os dias riscados de grades numa febre
de asas, os braços do dragoeiro levantados ao céu,
o rumorejo lento de águas e limos. Nuvens roxas
sobre o Labirinto amuralhado, vertigem de Ícaro,
catábase. Ouvias na noite a música do mar e dos campos,
a clara liberdade do vento de uma manhã por chegar.
Pássaro ferido sobre as rochas da praia,
que destino singrou, como barco, no teu corpo amável!
Levou-te a patrulha da denúncia ignóbil entre a floresta
de punhais e gládios. As boas mulheres choraram, vestidas
de negro como viúvas, e traziam pela mão as crias
pequenas, mudas e sentidas, de olhos abertos
como que para um livro onde o amanhã se escreve
e os homens aprendem a ler para lá dos signos.