Sábado, Junho 02, 2012
Sexta-feira, Junho 01, 2012
TRABALHEM, MALANDROS!
Trabalhem e tirem o país do buraco em que o meteu a classe
política – os Relvas, os Sócrates, os Passos e os Cavacos. Trabalhem,
incompetentes, e não venham com
histórias da carochinha para justificar o injustificável: 36,6% de desemprego
jovem, 15,2% de desemprego em todas as faixas etárias, 1 200 000 desempregados
se se considerar os que já desistiram de procurar trabalho e que por isso não
entram nas estatísticas.
Há um ano, um agora ministro que tenta passar despercebido
aparecia indignado nos telejornais de cada vez que uma velhinha era assaltada
na rua pelo processo do esticão. Hoje assaltam-se bombas de gasolina à mão
armada, atacam-se à bomba as caixas multibanco, as máfias andam em roda livre –
mas o tal ministro anda mais calado que uma estátua de pedra.
Trabalhem, malandros! Não inventem desculpas! Ou então digam que não
são capazes e vão tratar da vidinha! Não tenham medo que não ficam no
desemprego como o cidadão comum: há sempre
uma colocação internacional ou a empresa dum amigo à vossa espera.
Quarta-feira, Maio 16, 2012
Segunda-feira, Maio 07, 2012
NO PIANO BAR
Gosto muito de cama, disse ela, a meio de uma conversa banal sobre um romance
de Philip Roth. Distraído como andava, ele começou por pensar que se tratava da
fala de alguma personagem, ali trazida à conversa para mais viva representação
da trama romanesca. Mas não, logo percebeu que não era possível, que a amiga falava
na própria voz, e, como homem sério não tem ouvidos, fez-se desentendido, tricando
o caju e escorrendo a cerveja, enquanto o pianista martelava um “Summertime” angustiado
e frouxo por entre espirais de fumo que
morriam nos exaustores cravados no tecto.
Estava cansado e com vontade de dormir. Passara a tarde de sábado em
Cascais, numa tertúlia vagamente literária, a que se seguira um jantar pacato com
um amigo. Depois, fizera a viagem de comboio até Lisboa, as luzes da margem
escorrendo para o rio com o perfil luminoso da velha ponte ao fundo, e agora ali estava, duas e tal da manhã, com uma
cerveja fria na mesa em frente de uma mulher quente que lia Philip Roth e
gostava muito de cama.
Há muito que estaria em casa se o telefone não tivesse tocado pelas dez
e tal. Sim, estou em Lisboa, acabei de sair do comboio no Cais do Sodré. Que
coincidência, retorquiu ela, eu estou na Brasileira, é só subir um pouco. De
aqui a dez minutos, então, anuiu ele.
Andava muito ocupado com a escritura de um romance. Já ia em trinta e
duas páginas, nunca tinha chegado tão longe, mas começava a baralhar-se com os desígnios das
personagens e os contornos da história, como se a vida nunca lhe tivesse ensinado
nada e nada conseguisse tirar dela para encher as suas fracassadas ficções.
Queria contar a história de dois amantes, mas não percebia nada de tal matéria.
O escritor só fala do que conhece, diz-se, e todas as relações amorosas lhe
tinham passado ao lado, como se apenas as tivesse vivido nas margens do rio (torrencial)
do amor, sem nunca chegar a meter os pés na água. A negação de Heraclito. O
telefonema da amiga quase lhe soube bem, quem sabe se não seria um empurrão
para conseguir sair da melancolia letárgica em que o seu romance se encontrava.
A amiga não era má de todo. Bons seios, boas pernas, um rosto
razoavelmente conservado à custa de muito cremes hidratantes e especiosos
esteticismos. Poderia vê-la até como uma mulher sensual, naquela acepção mais óbvia
da palavra, se ele não andasse tão arredado de vertigens sensualistas e mais
dado a arroubos contemplativos da beleza pura. E lá foi falando de Philip Roth,
que mal conhecia, dos seus romances e ensaios, grande virtude e prova de inteligência
é conseguirmos falar de livros que nunca
lemos.
Ainda tentou desviar a conversa com
impertinentes referências ao romance psicológico, à lírica barroca, à poesia
licenciosa de Catulo e às odes de Horácio. Ela julgou que estava a topá-lo, Philip
Roth ali à mão, e passou ao ataque: gosto muito de cama. Ele esmerdou-se, palavra que não deve vir no
dicionário Houaiss mas de que qualquer jongleur
do amor conhece bem o sentido.
O gajo é parvo, pensou ela, ou então já não aguenta uma noite com uma
mulher. Olhou para o relógio largo que usava no braço direito, fechou a pequena
cigarreira prateada, ajeitou a saia verde orlada de preto, sacudiu o colar,
afagou o peito como se buscasse no gesto uma ínvia compensação de algo, e fez
questão de pagar a conta. Fui eu que convidei, disse.
Saíram do piano bar. Ele acompanhou-a ao parque de estacionamento,
apanhou um táxi e rumou a casa. Apetecia-lhe dormir, descansar até altas horas
de domingo. À sua maneira, também ele gostava muito de cama.
Quinta-feira, Maio 03, 2012
CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (11)
Sinto que passaste por mim como um pequeno rio
de que apenas ouvi o murmúrio, ou como a música
dum coreto distante trazida no bojo dos ventos
em entrecortados soluços. Nunca soube nada de ti,
nem das ciências inexactas do amor. Sei, no entanto,
que me enchias o tempo duma alegria breve,
eternizada de cada vez que chegavas a casa
com a singela disposição dos teus modos
no sorriso do olhar e da voz, no anel da tua cintura
que o fogo-fátuo da minha carne nunca tangeu
na plenitude. Por isso escrevo o poema deste tempo
de reencontro com o que nunca fui, nesta sala
povoada de livros, pó e algumas sombras,
no prazer quase mórbido da tua ausência.
de que apenas ouvi o murmúrio, ou como a música
dum coreto distante trazida no bojo dos ventos
em entrecortados soluços. Nunca soube nada de ti,
nem das ciências inexactas do amor. Sei, no entanto,
que me enchias o tempo duma alegria breve,
eternizada de cada vez que chegavas a casa
com a singela disposição dos teus modos
no sorriso do olhar e da voz, no anel da tua cintura
que o fogo-fátuo da minha carne nunca tangeu
na plenitude. Por isso escrevo o poema deste tempo
de reencontro com o que nunca fui, nesta sala
povoada de livros, pó e algumas sombras,
no prazer quase mórbido da tua ausência.
"CAPITÃES DA AREIA"
Do filme de Cecília Amado
Museu do neo-realismo em Vila Franca de Xira
Romance
engajado e militante duma literatura que influenciou decisivamente o
neo-realismo português, conforme pode ser apreendido na célebre polémica de
1939, nas páginas da “Seara Nova”, entre José Régio e o jovem Álvaro Cunhal. Já houve quem notasse a correspondência de “Esteiros”
de Soeiro Pereira Gomes (publicado em 1941), um romance de meninos operários,
com a narrativa dos meninos da rua de Salvador da Bahia: Gineto no Ribatejo e
Pedro Bala na região nordestina do Brasil. Homens que
nunca foram meninos ou meninos que sempre foram homens, a contraditória disjuntiva
que exprime uma opressão social e política que teve lugar de ambos os lados do
Atlântico. Por isso é bom ler Jorge Amado no ano do seu centenário e tentar conhecer
o neo-realismo português cujo romance inaugural – “Gaibéus” de Alves Redol – se
publicou em 1939, dois anos depois de “Capitães de Areia”.
Quarta-feira, Maio 02, 2012
ENSAIO SOBRE A CUPIDEZ
Loja Pingo Doce da Av. Almirante Reis, de portas fechadas e sob aparato policial, à hora em que desfilavam os manifestantes do 1º de Maio.
As cenas reais bem poderiam
pertencer a um romance que Saramago nunca escreveu, mas que seria no género de
“Ensaio sobre a Cegueira” ou “Ensaio sobre a Lucidez”: uma turba ávida,
descontrolada, lançando-se sobre as prateleiras dos supermercados para
beneficiar de um desconto de metade do preço nos produtos adquiridos. Na
voragem cúpida, levam o que precisam e o que não precisam, porque o importante
é atingir o valor mínimo que dá direito ao desconto. Os gerentes dos
supermercados exultam, os clientes grunhem e a polícia é chamada para serenar
os ânimos.
E assim queimam um dia de
descanso, que daria para passear ou ir ao cinema, em longas filas de espera
para os talhos e peixarias, roubando dos carrinhos dos competidores produtos já
esgotados nas prateleiras, envolvendo-se em desacatos, soltando impropérios, carregando
as bagageiras dos automóveis para logo voltarem de olhos baços ao rodízio
consumista.
O gerente duma loja de Sintra,
entrevistado pela televisão, dizia que os clientes tinham respondido
positivamente ao aproveitarem a boa oportunidade de negócio que se lhes
deparara. E pelo negócio lá se foi o ócio, pela picanha e pelo uísque de 12
anos perderam um feriado, trocaram o ar fresco e luminoso do dia pelas luzes
das lojas e o delírio dos escaparates.
Tudo isto enquanto o
primeiro-ministro dizia tranquilamente, numa assembleia do seu partido, que os portugueses deveriam preparar-se para
níveis de desemprego ainda mais altos, para maior austeridade. Esta gente que irá suportar mais desemprego tem
a austeridade de que precisa e no poder os governantes que merece. É sabido que
nas próximas eleições vão tirá-los de lá, não por convicções políticas, mas por
simples ganância: porque lhes foram aos ordenados e ao preço do bife. Se o merceeiro Alexandre Soares dos Santos viesse
a candidatar-se, teria fortes probabilidades de ganhar.



