segunda-feira, setembro 30, 2013

O PLUMITIVO E A SUA FAINA



“Elementar, meu caro Watson”, disse Silvério Hermes, detective particular, enquanto folheava o dossiê acabado de tirar do arquivador metálico.
“Contou-me a florista”, acrescentou, “que ela levou a vida sempre a fugir, dificilmente aguentando uma relação durante o tempo normal que as relações costumam ter.”
“Tempo normal?”, estranhou Watson, “então há um tempo normal para a duração das relações?”
“Claro, o tempo da paixão, do enamoramento e do amor, essas coisas de que falam os entendidos.”
Watson teve uma expressão de assentimento, enquanto o detective anotava umas palavras nas folhas do dossiê. Acabavam de deglutir a última fatia de pizza e Hermes extraiu de uma gaveta da secretária a garrafa achatada de brande.
“Ainda lhe vai fazer mal ao fígado, meu caro”, advertiu Watson, sem que as suas palavras causassem o mínimo efeito no bebedor.
Eram duas horas da tarde. O detective vestiu a gabardina, expirou uma voluta de fumo na mordedura branda do cachimbo, meteu no bolso o isqueiro e a embalagem de tabaco, parou uns segundos, pensativo, como se reflectisse sobre um assunto importante, e disse:
“Volto às cinco. Se o homem telefonar, diga-lhe que está tudo a andar e que pode passar para levar o recibo do adiantamento.”
“O homem?”
“Sim, o marido.”
“Ah!”, exclamou Watson, passando a mão pela cabeça num gesto indeciso e lento.

(...)

PALHAÇADAS (roubado no feicebuque)


INTERVENÇÃO DO CAVACO

a única que fez na noite eleitoral foi sobre TENIS na Malásia.

se estou em coma e isto é pesadelo traumático, desliguem-me a máquina.
 
 
 

domingo, setembro 29, 2013

A SEARA VERMELHA, O PORTO DA LIBERDADE E O PÂNTANO

A seara vermelha cresce nas planícies do sul, os liberais – desembarcados em um qualquer Mindelo – chegam às margens do Douro. O Senhor D. Miguel está em perigo.
Disse Marx em “O 18 do Brumário de Louis Bonaparte”: «Hegel faz notar, algures, que todos os grandes acontecimentos e personagens históricos ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.» 16 de Dezembro de 2001 e 29 de Setembro de 2013: os derrotados daquele tempo tiraram as consequências e demitiram-se; os de hoje assobiam para o lado e fazem de conta que o pântano não existe. Talvez rebentem por dentro como a fruta podre. Pum!

 

sexta-feira, setembro 27, 2013

"Les feuilles mortes", Yves Montand


Oh je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux où nous étions amis
En ce temps là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui
(...)

segunda-feira, setembro 23, 2013

CASA DE ANTERO DE QUENTAL em Vila do Conde

Retrato do "Grupo dos Cinco" - Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro - na casa onde residiu o grande poeta, recentemente aberta ao público. Note-se o descritivo, assinado por um tal Manuel Gonçalves Cerejeira, personalidade que costuma ser recordada só pelas más razões.

domingo, setembro 22, 2013

sexta-feira, setembro 20, 2013

domingo, setembro 15, 2013

SALOMÃO E SUBHRO


O ELEFANTE SALOMÃO E O SEU CORNACA ANDAM AÍ POR LISBOA, lembrando a histórica viagem para Viena. E também dom João III, dona Catarina e o arquiduque Maximiliano de Áustria, genro de Carlos V, chefe de uma superpotência mundial e imperialista. Grande milagre foi obrado em Pádua, Salomão ajoelhado diante da catedral de Santo António, prova irrefutável de que Deus existe e que, graças a Ele e à inspiração do Concílio de Trento, as boas almas dos povos da Europa não resvalarão nas delinquências do cisma luterano.
Os da Áustria – já não sei bem se eram da Áustria ou da Alemanha, mas deve ser tudo o mesmo –  mudaram os nomes do elefante e do cornaca: Salomão passou a chamar-se Solimão; o cornaca Subhro ficou Fritz. Hoje fazem coisas mais extraordinárias: mudam a vida dos homens dentro da sua própria casa! Felizmente que o elefante anda aí por Lisboa, e o elefante, como Deus, não dorme.

sábado, setembro 14, 2013

EM OSSELA, NO MÊS DE MAIO

Igreja onde foi baptizado o romancista de O Instinto Supremo. No claro-escuro da tarde que desmaia, distinguem-se uns quantos perfis de castrianos.
 

sexta-feira, setembro 13, 2013

quinta-feira, setembro 12, 2013

É O AMOR

 
Este Verão não vi A gaiola dourada, não vi O mordomo, acho que não vi ainda mais um par de coisas dessas que ninguém perde e que todos gabam. Paciência, é o problema de andar sempre a apanhar bonés, de não perceber muito bem o que está a acontecer.
Desesperado, ainda tentei, num cinema perto de mim, um filmezinho da Scarlett: Ghost world, Girl with a pearl earring ou mesmo Match point – tudo o que viesse à rede era peixe. Não consegui, as programações não estavam para aí viradas.
Salvei-me, já com o Outono à vista, com um filme do João Canijo: É o amor – uma história de mulheres da mítica e real Caxinas, uma freguesia de Vila do Conde, ali mesmo à beira da Póvoa de Varzim.
Como dizia José Régio:
 
Ia até Poça da Barca
Meu muito amado local,
(E quem diz Poça da Barca
Diz Caxinas, sua igual)
E parava a olhar de longe,
Estátuas de bronze a andar,
As belas gentes do mar…

“Romance de Vila do Conde”, Fado
 
 

É A FÉ

Caderno de súplicas exposto na catedral de Agen (Lot et Garonne). Desconheço se é prática corrente nos templos, mas acho muito boa ideia. Assim, Deus não poderá fazer orelhas moucas ou desmemoriar-se do que lhe pedem os pobres bichos da terra em sofrimento: fica tudo registado e só por maldade divina não atenderá o que lhe é pedido.
O rogo de uma italiana de nome Manuela: “Ti prego, Mio Dio, prend  il mio cuore.” Acho muito bonito, de uma grande pureza.  
Mais pragmática é a súplica de alguém que, se bem percebo, se assina por Flo: “Seigneur, priez pour que ma maison se vende (...) que mon fils Florian trouve l’ emploi.” A perversa crise do imobiliário e o flagelo do desemprego. Deus, se é amigo dos homens, deveria olhar por estas coisas.

quarta-feira, setembro 11, 2013

O CONHECIMENTO DA ABRÓTEA

Conheci-a no desmaiar de um equinócio antigo,
à luz das velas, num restaurante das margens
do rio Gilão ou Séqua. Não posso garantir,
mas acredito que uma lua em quarto crescente,
romântica e lenta como todas as luas,
feria de claridade o céu morno do Al-Gharb.
 
O seu corpo era brando como uma esponja
ou a concha que se abre ao rumor do mar.
Tinha sal na pele e o sol na púbis.
O resto não interessa. – Veio com batatas e legumes.
Lúbrico, um fio de azeite adocicara-lhe
a carne. Bebi vinho de Tavira, e depois dormi.
 
11-9-2013
 

"A VIAGEM DO ELEFANTE"

Já não era sem tempo: vou seguir a viagem de Salomão e do seu cornaca até ao coração da Europa. Tenho dois dias.
  

ESTADOS MÓRBIDOS

Sei bem quem me pegou o vírus. Mas vai passar.

ANDRÉ DE GOUVEIA, BORDÉUS E OS BORDALESES


ANDRÉ DE GOUVEIA, nascido em Beja, talvez em 1497, fez os seus estudos superiores no Colégio de Santa Bárbara, em Paris, tendo sido escolhido para dirigir o Colégio de Guyenne, em Bordéus.
É de Bordéus que vem para Portugal, a convite de D. João III, para dirigir o Colégio das Artes de Coimbra.
Tentou, com os colegas bordaleses que o acompanharam, a reforma do ensino superior em Portugal, numa altura em que se confrontavam os saberes da escolástica com os dos humanismo nascente.
Dele disse D. Gonçalo Pinheiro, bispo de Safim, em carta a D. João III, datada de 1539: Mestre Dieguo de Gouvea, homem bem docto e de virtude, (…) he principal do Colegio de Bordeos e me dizem estes comissairos del rei de França que he de tanta seueridade e exempro que os estudantes aproueitam muito mais com seu temor que com a doctrina.
Falecido em 1548, presos pelo Santo Ofício os seus mais directos colaboradores (João da Costa, Diogo de Teive e Jorge Buchanan) o ideal erasmiano e humanista passou a ser visto como heresia. E o Colégio Real das Artes foi entregue à Companhia de  Jesus.
Flèche Saint Michel
Cathédrale Saint André
Porte de Bourgogne

ANABELA, "Pensando em Ti"


terça-feira, setembro 10, 2013

GISELA JOÃO - "Meu Amigo Está Longe"


ESCREVER NA NOITE

Diz-se que havia em Alexandria, na célebre biblioteca destruída por um incêndio já não sei bem em que século, um pergaminho versando em tratado as patologias do amor e, o que é mais surpreendente, prescrevendo  remédios para tão insidiosos males.  
Borges, o argentino, terá tido uma visão fugaz do misterioso rolo  ao contemplar, numa dobra do tempo de Deus, o Aleph da cave da Rua Garay  de Buenos Aires.
Um pouco mais para trás, um mensageiro  que veio anunciar o Quinto Império à corte de D. João V, por isso mesmo relaxado em carne, depois de torturado  e obrigado a falar pelos esbirros da Santa Inquisição, trouxe notícia do documento, salvo das chamas por um poeta neotérico cujo nome se perdeu na voragem dos séculos.
Ninguém levou a sério o mensageiro, o que acho natural.  
Por mim, ainda não desisti  de o encontrar, mas desiludam-se os ingénuos: só me move a vaidade intelectual da pesquisa, pois há muito que deixei de acreditar no amor.

segunda-feira, setembro 09, 2013

"BOMBA RELÓGIO", este domingo

"O teu amor quando palpita / verdade seja dita / põe rastilho no meu peito / trinta batidas num só beijo / sem defeito / (...) faz-me o corpo todo um baque / e toca e foge e toca e foge / é uma bomba relógio." CRISTINA BRANCO, letra de SÉRGIO GODINHO.
 

domingo, setembro 08, 2013

sábado, setembro 07, 2013

HOJE E AMANHÃ, NA FESTA DA MARGEM ESQUERDA


COMO CHEGAR A ST MICHEL DE MONTAIGNE

A estação está desactivada, mas é servida, como apeadeiro, duas vezes ao dia. Fica a pouco mais de 3 quilómetros de St Michel de Montaigne, Dordogne. Depois é ir a pé, bebendo a poesia dos campos como os pastores da Arcádia.

terça-feira, setembro 03, 2013

ROMANCEIRO

(...)
- «Renego de ti, demónio,
Que me estavas a atentar!
A minha alma é só de Deus;
O corpo dou eu ao mar.»
Tomou-o um anjo nos braços,
Não no deixou afogar,
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a nau Catrineta
Estava em terra a varar.

"A NAU CATRINETA"

segunda-feira, setembro 02, 2013

ISABEL DE ARAGÃO ou RAINHA SANTA ISABEL (Saragoça, 1271 - Estremoz, 1336)

O milagre da consorte do nosso rei trovador evocado num vitral da Cathédrale Notre-Dame Ste-Marie de Dax (Landes):
SEIGNEUR DIT ELISABETH
CE SONT DES ROSES
 

domingo, setembro 01, 2013

SETEMBRO


Agosto acabou como um milagre inconsútil,
com os seus teares de luz extinguindo-se
na trama roxa da noite.
Continuarei a sentar-me diante do mar,
mas escusas de vir: bastam-me,
na promessa do novo mês,
o sol e o sal sobre a pele,
o triângulo duma vela de barco,
fendendo, como numa epopeia,
a superfície rasa das águas.


1-9-2013