domingo, março 11, 2007

NOVA E SURPREENDENTE HISTÓRIA DO LETRADO LUSCIÉNIO, PROCURADOR DO COUTO MINEIRO DE VIPASCA NO TEMPO DE AUGUSTO

Quem conta um conto, acrescenta um ponto.
(Adágio popular)
Lusciénio, letrado romano, filho de um liberto que enriquecera com um negócio de azeites rançosos e vinhos adulterados, cumpria desterro, por crime que adiante se conhecerá, no mais inóspito confim do Império, a remota Lusitânia, explorando uma concessão de cinco poços de cobre no couto mineiro de Vipasca , terra de gente bárbara e indolente que em outras eras viria a figurar nos mapas com o nome de Aljustrel. Chegou a Vipasca acompanhado da escrava Gláucida, prestadora de serviços domésticos e correlativos, tão apreciados pelo seu dono e senhor que até se colocou a hipótese de este a recompensar com a carta de alforria. Sendo um letrado, Lusciénio foi entretanto requisitado pelo governo de Emérita Augusta para exercer as funções de jurisconsulto da civitas de Pax Iulia, o que lhe proporcionou honra e acrescentamento, integrando-o na nata da sociedade local e permitindo-lhe firmar os seus créditos para se lançar em mais altos voos.
Apesar do travo do exílio, tudo estaria bem na vida de Lusciénio se este não se debatesse com um persistente distúrbio que lhe causava desgosto e vergonha. Moles como bichos lesmas, não se lhe endureciam as carnes da genitália por maior carga de excitação que lhe habitasse a massa do sangue. Incapaz de lhes dar outro fim, limitava-se a usá-las para verter as águas bexigais, sem delírios de volúpia ou arroubos de gozo. A razão deste desarranjo de ordem sexual – disfunção eréctil lhe chamarão mais tarde os entendidos – atribuía-se a um feitiço obrado pela lasciva Semprónia, mulher má que nas noites de Roma lhe secava as fontes seminais em imoderados festins de prazer, sempre insatisfeita e desejosa, tendo-se despeitado com o afecto que ele dedicava à escrava Gláucida. Sendo a lasciva Semprónia uma das concubinas de Augusto, sofreu Lusciénio a ira do Pater Patriae, que o enviou para o desterro lusitano no mesmo ano em que, provavelmente por análogas razões, despachou Ovídio para o exílio de Tomos.
Lusciénio não era parvo. De triclínio em triclínio, em luxuosos repastos, foi consolidando as suas amizades com os poderosos e influentes até chegar a procurador do couto mineiro de Vipasca. Ascendeu ao posto por mérito próprio, mas uma boa ajuda lhe foi dada por uma arca cheia de sestércios com que pagou , a quem de direito, o reconhecimento da sua aptidão para o provimento de tão rendoso cargo.
Estava Lusciénio já investido nas funções de procurador, fazendo vida de rico e tendo começado a construir uma vila com peristilo, jardim, lago de repuxos, triclínio, mosaicos pavimentares, banhos quentes e frios e outros cómodos, quando um legionário chegado de Roma para render um companheiro de armas que terminara a comissão de serviço, lhe entregou uma carta de seu pai.

Meu querido filho, muito tempo passou desde aquele dia em que de ti me apartei no cais do porto de Óstia, muita água correu sob as pontes do Tibre, muito sol queimou os telhados da nossa urbe e as copas das árvores que bordejam a via Ápia. Não voltei a receber notícias tuas dessa Hispânia onde te encontras, perguntando-me se sempre te fixaste na Lusitânia, como estava determinado e para onde te remeto a presente carta, ou se não te terás quedado pela Bética ou pela Tarraconense, províncias bem mais progressivas do que esse fim do mundo de bárbaros a que te condenaste. Meu filho do coração, quando providenciei para que tivesses os melhores mestres de Roma e zelei para que cumprisses dois anos de estágio em Atenas entre sábios e filósofos epicuristas, sempre pensei que, com tão robusto currículo, se abririam para ti as portas de uma rendosa carreira no foro, o que redundaria em teu benefício e em grande orgulho meu. Erros da juventude, meu filho, desviaram-te do caminho justo. Não é impunemente que se desafiam os desígnios do grande Pai da Pátria, o Imperador Augusto. Pagaste os errores cometidos, mas é chegada a hora de te dizer que, finalmente, há boas notícias. Poderás voltar a Roma, livre do opróbrio do exílio, logo que queiras. Vou explicar-te como consegui esta graça, mas antes, para que o possas entender, fica a saber que abandonei em definitivo as actividades mercantis ilícitas. Bom dinheiro me renderam, é verdade, mas mais cedo ou mais tarde, por evolução natural, teriam de ficar para trás. Hoje só trabalho com produtos alimentares de qualidade certificada: azeites da Hispânia e vinhos da Gália, tâmaras de Alexandria, ovas de esturjão do Cáspio, preparados de peixe de Gades, carne de vaca da Numídia. Tornei-me fornecedor das casas dos grandes patrícios de Roma, das tabernas do fórum, disponho de agentes comerciais nas grandes praças do mercado único do nosso Império. Foi assim que consegui, agora te explico, através das influências adquiridas no negócio, demover o Imperador. Em breve seguirá o decreto imperial que te torna livre para regressares à Pátria. Meu adorado filho, vê se voltas depressa para tomares conta dos nossos negócios, pois a minha idade, bem o sabes, é já avançada. Nada receies, meu amado filho. Poderás casar, constituir família com uma matrona que te respeite e dê filhos, nada poderá perturbar a tua felicidade e dedicação ao trabalho. O Imperador perdoou a tua ousadia, e Semprónia, a lasciva, causa da tua perdição, acaba de ser desterrada para a Trácia por ter sido apanhada em orgias com mulheres de condição livre e escravas. Augusto, o Pai da Pátria, não perdoa imoralidades públicas. Que os deuses te instruam, meu filho. Saúda-te o pai que muito te ama e deseja ver.


Foi por entre um remoinho de sentimentos contraditórios que Lusciénio leu a carta do pai. Era já noite. Afastou-se das lucernas que iluminavam o escrito e pôs-se a pensar. Desejava muito voltar a Roma, mas a verdade era que estava a consolidar a sua vida naquelas paragens lusitanas onde ganhava bom dinheiro e via correr os dias sem tribulações. Habituara-se à índole pachorrenta dos povos que habitavam as grandes planícies do Sul, debruçados sobre as searas com todos os vagares do mundo, cantando sempre dolentes modas, pedindo licença a uma perna para mexer a outra, como se andassem cansados desde o princípio dos tempos, apascentando rebanhos de ovelhas e vigiando com os olhos dormentes as varas de porcos pretos focinhando a nutriente bolota sob os ramos dos chaparros. Habituara-se a apreciar a flora e a fauna locais, o olor e a luz das estevas em flor, o voo da abetarda e da cegonha. O sul da Lusitânia era uma terra de horizontes largos, de estranhos monumentos de pedra que se recortavam na paisagem clara, uns apontando os céus como dedos hirtos, outros em forma de templo na sua massa tosca, erguidos por antiquíssimos povos, muito anteriores aos celtas e cónios que a civilização de Roma ali viera encontrar. Partir era bom, ficar também. E depois, de que lhe serviria casar se não seria capaz de cumprir as obrigações exigidas a um pater familias? Mantinha-se o distúrbio sexual que o acometera, e Lusciénio rememorou todas as tentativas feitas para o superar: a medicina convencional e as terapias alternativas não resultaram; não resultou igualmente a poção receitada por um druida gaulês que Fortuna da roda alada e da cornucópia colocara no seu caminho, penando três dias com as tripas doridas e o ânus assado, os ingredientes bárbaros a revolverem-lhe as entranhas, e as carnes penianas permanecendo, teimosamente, sem vida; depois foi a peregrinação ao santuário do deus Endovélico, as ofertas votivas, as preces a Iupiter Optimus Maximus e os rogos a Prosérpina, deusa infernal, esposa de Plutão, para que contrariasse a maldição que sobre si se abatera; frequentou bruxos, visitou mulheres de virtude, tentou excitar-se em lupanares e em orgias. Tudo fizera Lusciénio para tentar recuperar a virilidade perdida, e nada conseguira. Chegava a casa, aninhava-se nos braços da escrava Gláucida, e não ia além de umas carícias, de uns beijos ternos.
Algum tempo depois de haver recebido a carta do pai, teve Lusciénio de enfrentar uma grave contrariedade, esta de natureza diferente, a primeira que lhe surgia na sua carreira de funcionário do Império. Vindos da margem esquerda do grande rio que banhava Myrtilis, porto de embarque de todo o minério, hordas de bandoleiros descendentes dos antigos turdetanos da Bética assaltavam as caravanas que saíam de Vipasca e desviavam o produto metalífero para fundições ilegais. O estado e os concessionários que exploravam os poços de minério começaram a perder muito dinheiro, a braços com aqueles díscolos que assolavam as rotas de escoamento e ameaçavam levar o couto mineiro à falência. O minério que saía pelo porto fluvial de Myrtilis era baldeado para embarcações de longo curso nos portos de Ossónoba ou Lacóbriga, as quais logo seguiam as rotas do mar em direcção às colunas de Hércules, engolfando-se no grande mar interior em cujas margens se situavam os centros consumidores. Lusciénio largou a pena, desvestiu o trajo togado, e, empunhando o gládio, cavalgou os caminhos de pó da planície ao lado dos legionários, dando caça à malandragem, perseguindo-os muitas milhas além de Vipasca. No Castelo da Lousa, na margem esquerda do grande rio, pernoitava Lusciénio com os legionários durante as expedições punitivas, não podendo saber que, vinte séculos mais tarde, barrado o curso do rio com um grosso paredão, toda aquela vasta área ficaria sepultada sob as águas de um lago, tão grande e profundo que nenhum homem da sua era poderia imaginar. Lusciénio chegou a pensar em alterar as rotas do minério, já conhecidas dos bandoleiros, fazendo-o seguir para um porto seguro naquele rio que subindo de sul para norte, ao contrário de todos os outros rios da Lusitânia, dirigia o seu curso para a próspera Salácia das cegonhas e das pinhoadas e se entregava ao mar, entre golfinhos e viveiros de ostras, numa baía azul onde se erguia a promissora Cetóbriga. Daí poderiam partir os barcos de mercadorias para o grande mar interior, onde encontrariam todos os ventos que Ulisses conhecera no caminho de Ítaca: o Bóreas, o Noto, o Zéfiro, o Euro. Mas logo concluía pela dificuldade do projecto, pelos custos de transporte que acresceriam em tal empresa: uma longa viagem atlântica de enormes riscos, a necessidade de contornar o Promotorium Sacrum com o seu mar alteroso, antes de se poder navegar à vista daquela costa amena, virada a sul, com as suas arribas rendilhadas e as praias de areias de ouro.
Foi numa dessas noites em que pernoitava com os legionários no Castelo da Lousa que Lusciénio, excitado das correrias da jornada, deu em reparar, com um inusitado interesse, nos grossos chumaços das genitálias sob as tangas dos militares. Retirados os uniformes, pernas e troncos ao léu, os corpos abandonados em repouso à luz dos archotes da caserna, arregalavam-se os olhos de Lusciénio para os generosos volumes entre coxas, uma singular atracção que começava a sentir e que não sabia bem aonde o poderia levar. Tal era a insistência com que o fazia que logo suscitou motejos da parte dos castrenses, uns claramente assumidos como machos, outros, se calhar, nem tanto, pois é sabido que a diferença de orientação sexual não era impeditiva, na sociedade romana daquele tempo, de se empunhar o gládio e a lança em defesa da Pátria.
A partir de aqui não voltaria a ser o mesmo o letrado Lusciénio. Detinha-se frequentemente a avaliar a musculatura dos trabalhadores braçais do couto mineiro, como se, na qualidade de procurador, quisesse certificar-se de que os homens ao seu serviço estavam em perfeitas condições físicas para o rude labor da extracção metalífera. Nos banhos, deixava o recato do reservado que as suas altas funções lhe haviam outorgado e misturava-se com militares e cidadãos comuns, com capatazes e homens de ofício, buscando a proximidade dos corpos, tocando e deixando-se tocar, em públicos deleites a que já não sabia resistir. Gláucida deixou de ser chamada para a sua cama, passando de escrava para todo o serviço a uma singela prestadora de trabalhos domésticos, completamente desqualificada perante o novo escravismo macho com que entretanto se adornara a casa. O preferido de Lusciénio, nesta nova fase da sua vida, era um rapagão de procedência norte-africana, de nariz esborrachado e músculos lustrosos, adquirido a um mercador de Olisipo especializado no fornecimento de escravos de prazer. E começou a correr, célere como o cavalo de Fama, a notícia da condição de effeminatus do procurador de Vipasca, assim como dos esquisitos festins que tinham lugar com regularidade no espaço deleitoso da sua vila. Bem pensado, que outra saída poderia haver para um homem a quem os deuses, impiedosos, haviam roubado a virilidade?
Quando, por um dia quente já muito próximo das calendas de Julho, chegou a Vipasca o decreto imperial que abolia a pena de desterro do letrado Lusciénio, este mandou expedir um agradecimento ao Imperador, Pai da Pátria, mas invocando conveniência de serviço e os superiores interesses do Império, pediu licença para se manter em funções, não abandonando o couto mineiro.
Diz-se que viveu feliz o resto da vida na remota Lusitânia. E isso é afinal o mais importante. Seja onde for, seja como for.
D.E.

1 comentário:

gois disse...

uma historia sem duvida a desenvolver