domingo, janeiro 29, 2012

A MORTE DE AL BERTO

Al Berto (Coimbra, 11 de Janeiro de 1948 - Lisboa, 13 de Junho de 1997)

Não foi como a de Rimbaud: a noite não estendeu
o seu manto sobre a copa das árvores,
a luz que tomou conta do tempo não sossegou
o coração dos pássaros,
não suspendeu os jogos das crianças.
À tua frente havia um mar de que não sabias
o nome, um pélago onde chegavam rios esquálidos
que abraçavam a voragem.

O chicote da tosse rachava-te as arcadas
do peito, doía-te como a febre ou o sono,
enquanto na cidade havia uma alegria de asas
sobre as cabeças dos homens,
algazarras de meninos,
brandas conversas de tertúlias.
Quando a dor cessou por completo,
ainda viste sair de ti a nuvem da alma.

Van Gogh, de quem eras íntimo, veio receber-te.
Podia ter sido no céu de Arles, ou de Lisboa,
ou de Paris. Mas não:
foi num campo amarelo de trigo, algures
num patamar do tempo
entre a poesia muda da cor.
Trazia numa mão a última carta escrita a Theo
e na outra o brilho metálico dum revólver.
E tu entraste no campo de trigo:
uma tela que ondulava ao vento
com revoadas de corvos escuros
esburacando a claridade dos astros.

Sumiste-te por aquele espaço
em que se imagina estar a ceifeira.
Era Verão.

Feito em 13 de Junho de 2007, no décimo aniversário da morte do poeta.

4 comentários:

Maria Amélia disse...

Muito Belo.

Maria José disse...

Manuel, deves ter uma arca de escritas...é simpático que partilhes estas criações.

Ricardo António Alves disse...

Bravo!

Ricardo António Alves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.