domingo, novembro 07, 2010

MAGIA DE AFASTAMENTO

Não procures nem creias: tudo é oculto.
(Verso do poema “Natal” de Fernando Pessoa)


Numa noite do passado mês de Agosto estive numa vivenda de Sintra onde se realizam sessões de espiritismo. A vivenda é propriedade duma senhora inglesa que se dedica a estes jogos do oculto, sendo frequentada por médiuns, magos e outros agentes do sobrenatural. Por mim, nunca me apanhariam em tal carrossel, tendo aceitado ir apenas por insistência da minha professora S., investigadora da vertente esotérica da obra de Fernando Pessoa, que ali comparecia em demanda de subsídios para o seu trabalho de pós-doutoramento.
Pelo que nos foi dito, esperava-se naquela noite chegar à fala com o espírito de Henry More, filósofo inglês do século dezassete com quem o autor de “Mensagem” se correspondeu em certo período da vida, embora não estivesse posta de parte a hipótese de o espírito múltiplo de Pessoa, ele mesmo, poder também ser chamado ao diálogo mediúnico. A minha professora não acreditava cegamente nestes intercâmbios com o além, mas animava-a uma curiosidade intelectual, desejosa de ver até onde as coisas poderiam ir.
Chegámos à dita vivenda pelas onze horas da noite, depois de nos termos confortado com queijadas e chá num conhecido estabelecimento local que tem o nome dum pássaro. O ambiente estava carregado dos mais esquisitos cheiros, sentia-se um hálito do além, enjoativo e mágico. Um interlocutor astral praticava escrita automática, enchendo cadernos de papel quadriculado de copiosas frases garatujadas. Confesso que me intimidei com o aparato dos móveis, com a penumbra que descia pelas paredes cinzentas, com a palidez de certos rostos que vagueavam na casa.
Pouco mais vi para além do que acabo de relatar, tendo ficado grande parte do tempo numa pequena sala pesadamente mobilada, aguardando sentado o fim da sessão mediúnica a que a minha professora assistia.
Foi então que se abeirou de mim um jovem de calças de ganga e camisa às florinhas verdes e amarelas que se apresentou como mago, seguidor das ideias de Aleister Crowley. Sempre imaginara os magos com um trajo formal, mas, pelos vistos, até nesta classe se têm registado grandes alterações na maneira de vestir… Sentou-se ao meu lado e disse-me: “Dá-me os teus braços”. Embora estranhando o pedido, estendi-os na sua direcção. Ele segurou-os com os dedos na região dos pulsos, como se aferisse o ritmo cardíaco, fechando os olhos e sibilando impercebíveis vocábulos. E perguntou, ao fim de algum tempo, embora eu sentisse que não esperava qualquer resposta da minha parte: “Como está a tua vida conjugal?”. Fiquei calado. Então acrescentou: “Há uma mulher do Norte, amiga da metade de ti, que te traz sob o efeito de uma magia de afastamento”. Não sei se me deixei rir ou se me pus ainda mais sério. O mago, imperturbável, concluiu: “Interesses obscuros, inconfessados desígnios”. Posto o que girou para outra sala, deixando-me entregue ao seu enigmático oráculo.
A noite acabou sem mais sobressaltos. A minha professora saiu da sessão de espiritismo de faces afogueadas, vindo-me à ideia a pobre ceifeira do poema de Pessoa. Eu sempre imaginei as ceifeiras de faces afogueadas, ceifando à calma, embora a do poema se limite a cantar, na sua alegre e anónima viuvez, nada dizendo o poeta sobre as suas faces. Deixámos a vivenda silenciosos, sem comentarmos as incidências da noite. Levei-a a casa, onde, segundo me disse, o marido a esperava com ansiedade.
Hoje telefonei-lhe a contar umas certas coisas que me aconteceram, justificando-me do atraso do meu trabalho, um capítulo da tese que prometera entregar-lhe e que ainda não ultrapassara a dimensão de umas escassas páginas. Falei-lhe pela primeira vez da magia de afastamento descoberta pelo mago, a qual afinal dera resultado, e da mulher do Norte que eu identificava com alguém que conhecia como frequentadora de bruxas e videntes, leitora de livros herméticos e de outras inquietantes prosas. Então contou-me a minha professora que, naquela noite, também o mago lhe vaticinara um preocupante sucesso que tinha acabado de concretizar-se. Suspirou, e disse-me: “Sabes, Manuel, nós não acreditamos em bruxas, mas lá que as há, há”.

quarta-feira, novembro 03, 2010

A FORMOSA LUSITÂNIA - TOMAR


Do blogue http://www.camilo20.wordpress.com/ de Luísa Alvim.
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Chegamos a Píalvo (Paialvo) estação da interessantissima cidadesinha de Thomar. Os arrabaldes são bonitos, com graciosas estradas enverdecidas, e toda a campina em redor ás ondulações graciosas. O arvoredo é magnifico. Como os olhos se refrigeram n’aquellas copas de folhagens!
A terra faz muita differença do que é lá para Santarem. Aqui não ha aquelle faiscar cauzado pelas scintillações do saibro branco tão incommodas para a vista. Feracissima vegetação, flores e fructos por toda a parte em abundância. Desejava que visse os esplendidos cachos de uvas que comprei n’esta estação, a uma rapariga rozada, de ollios ardentes e chapéu desabado e empennachado demurtha e cravos.
O cacho estava mais perto de pesar dous arráteis que um. Os bagos todos perfeitos e grandes, verdes e levemente tintos de azul. «Quanto é?» perguntei eu quando ella m’o chegou a portinhola da carruagem, «é uma pataca, minha senhora». Uma pataca é quarenta reis. Eu poderia obte-lo por trinta, se regateasse, mas apenas encolhi os hombros, a la portugaise, e respondi: «Caro, muito caro». Ao que ella redarguiu com razão: « Porém, é tão boa». Estufa nenhuma ainda produziu mais perfeita pintura, nem mais delicioso sabor.
Tencionara eu, n’esta direcção, estender a minha viagem a Thomar, que contém diversos edifícios antigos, e outras relíquias do passado. Em uma das suas eminências está o convento de Christo, outrora habitado pelos cavalleiros d’aquella ordem militar.
É uma caza immensa com um templo notável por copiosas esculpturas no imaginoso estylo manuelino. Porção d’este grande senhorio monacal foi comprado pelo conde de Thomar, que actualmente rezide no castello de Gualdim Paes, primeiro mestre do Templo, que o arrancou aos mouros.
Ha aqui fabricas de fíação, e uma de papel.
O tortuozo rio Nabão deriva por meio da cidade, dividindo-a quazi a meio e dando-lhe um aspecto de Veneza em miniatura, com o seu largo canal.
Os moradores passam em botes, de um lado para o outro, e abordam ás ilhotas que estanceam na corrente. O canal forma onde quer que seja uma catarata, que se despenha sobre uma açude resvaladia.
Estas estradas aquosas são uma delicia no verão, quer a gente se vá de passeio por aquellas margens floridas, quer deslize em barco na limpida corrente.
O Nabão no inverno sobrepuja as margens e inunda ruas e cazas, mas, nos mezes estivos, é sitio lindo onde se pode viver, quazi de graça, do néctar e ambrozia dos seus fructos e flores. No frescor da manhã, póde-se subir em peregrinação até á Piedade, linda ermida no topo de uma montanha, para onde se sobe por duzentos e cincoenta degráos. De dez em dez, ha um patamar e um banco de pedra onde a gente pôde descançar e dar graças a « Nossa Senhora» que nos permitte ir chegando mais perto do seu relicário. Chegar lá acima não é medíocre proeza com tal clima; porém, quem o consegue é liberalmente recompensado com a belleza da capella e o magnifico ponto de vista.
Que aprazível me seria, deter-me ali!

(A Formosa Lusitania / por Catharina Carlota Lady Jackson ; versão do inglez, prefaciada e annotada por Camillo Castello Branco . – Porto : Livraria Portuense, 1877 . – 448 p., [20] grav. ; 25 cm.)

quinta-feira, outubro 21, 2010

A CABEÇA DA GÁRGULA


No romance “A Noite do Oráculo”, de Paul Auster, há um episódio em que a cabeça duma gárgula de pedra se desprende da fachada de um prédio de apartamentos, passando a poucos centímetros do crânio de Nick Bowen, uma personagem da narrativa que atravessa certas dificuldades no seu relacionamento conjugal.
A pedra que só por acaso não o matou, deu a Nick Bowen o ensejo de rapidamente reflectir sobre a vida e os seus imponderáveis. Devia estar morto, mas escapou ileso, pelo que a situação se lhe afigurou como uma segunda oportunidade de vida que lhe era concedida. Então, em rotura com o passado, resolveu não voltar a casa, tomando um avião para Kansas City, o primeiro que saía do aeroporto de La Guardia naquela noite em que ali chegou. Ia viver a sua segunda vida num lugar que lhe era inteiramente desconhecido, com pessoas que nunca tinha visto, partindo do zero ou de pouco mais. A dificuldade por que acabara de passar dera-lhe um suplemento de coragem para uma nova existência.
Assim, a cabeça da gárgula de pedra é uma boa metáfora para certos momentos das nossas vidas. Todos temos um tempo em que somos surpreendidos pela provação: uma doença grave, a morte de um filho ou de uma pessoa muito querida, ou essas outras formas de morte que são o afastamento e a separação. Felizmente que a cabeça da gárgula nem sempre nos despedaça o crânio. Ainda incrédulos e assustados, olhamos em volta como se não víssemos nada, sacudimos o pó das roupas, contemplamos os estilhaços de pedra no chão e acreditamos ainda mais nas nossas forças. É então que tomamos o avião para a nossa Kansas City, sabendo que nenhuma viagem é mais importante que aquelas que fazemos dentro de nós.

domingo, outubro 17, 2010

OS CADERNOS PORTUGUESES

Paul Auster (Newark, 1947)
Eu sabia que acabaria por comprar um caderno português: bastaria pegar num deles, bastaria senti-lo nas minhas mãos e eu não resistiria. Não havia neles nada de luxuoso, nada que desse nas vistas. Não, aqueles cadernos eram muito simplesmente um artigo prático – resistente, despretensioso, útil, de maneira nenhuma o livro em branco que poderíamos escolher como prenda para um amigo.

(Paul Auster em “A Noite do Oráculo”)


Procurem-se os ditos cadernos numa pequena papelaria do Largo do Calhariz, em Lisboa, ao lado do elevador da Bica. À semelhança do que aconteceu com Sidney Orr, narrador e protagonista do romance de Paul Auster, eles poderão propiciar encontros felizes com a escrita.

domingo, outubro 10, 2010

ACADEMIA SUECA - A MADRASTA


A ideia do título surgiu-me por ter lido, durante as férias, o “Elogio da Madrasta” de Mario Vargas Llosa. Embora neste livro se fale de uma madrasta benigna, mãe e amante dum enteado afinal bastante perverso, há literaturas para as quais a Academia Sueca tem sido uma madrasta das autênticas.
Tome-se como exemplo as literaturas de língua portuguesa, contempladas com o único prémio de José Saramago em 1998. Mário Vargas Llosa, peruano, é o sexto Nobel de língua castelhana depois de cinco escritores espanhóis, alguns praticamente desconhecidos do grande público: José Echegaray (1904), Jacinto Benavente (1922), Juan Ramon Jiménez (1956), Vicente Aleixandre (1977) e Camilo José Cela (1989). Nos trinta e três anos que vão de 1956 a 1989, a Espanha teve três laureados com o Prémio Nobel da Literatura, o que me leva a pensar que Portugal e o Brasil mereciam ter pelo menos mais um ou dois escritores entre os premiados da Academia Sueca.
Já cerca de 1960, conforme leio no diário de José Régio, se agitava o nosso meio literário face às personalidades portuguesas indicadas para o prémio Nobel. Miguel Torga fora proposto pelo professor e historiador francês Jean-Baptiste Aquaronte, e os nomes de Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro eram igualmente falados nos jornais como nobelizáveis. De Régio, porém, nem sequer se lembravam, conforme nos revela o próprio em magoada nota naquele seu diário.
Hoje, doze anos depois de Saramago, ocorre-me o nome de Agustina Bessa-Luís para preencher um dos lugares do Nobel que temos em falta. A sua escrita é poderosa e paradoxal, de difícil assimilação, embora nunca deixe de nos surpreeender e estimular. Mas que pensará Agustina do prémio da Academia Sueca? Proust, James Joyce e Jorge Luis Borges nunca o receberam e não deixaram por isso de figurar entre os maiores. Sartre foi nomeado em 1964 e recusou. Prémios são prémios, fazem parte de um certo mundanismo que se estabeleceu na instituição literária e que nem sempre se afirma pelas melhores razões. Porém, além das inerentes vantagens materiais, eles constituem um reconhecimento de facto e fazem luz sobre escritores e literaturas que apesar das suas valias não lograram chegar até ao grande público. Por isso sou por Agustina para Nobel da Literatura, embora receie poder ser já demasiado tarde para se lhe fazer essa justiça.

terça-feira, outubro 05, 2010

terça-feira, setembro 21, 2010

MÁXIMAS

"É sabido que o orgulho da mulher, uma vez ferido, não cicatriza nunca."

Lido em Agustina Bessa-Luís, Fanny Owen.

domingo, setembro 19, 2010

CAMILO CASTELO BRANCO (1825-1890)


Em Camilo sempre me impressionou a sua capacidade de efabulação, o poderoso domínio da língua e o conhecimento que demonstrava ter dos grandes vultos da literatura do seu tempo, desde Eugène Sue, de quem foi largamente tributário, até ao Balzac da “Comédia Humana”.
Confesso que por vezes senti em relação ao escritor de S. Miguel de Ceide uma espécie de admiração envergonhada. Eça era sempre o Eça, mesmo com prosas bárbaras e histórias de santinhos milagreiros; Júlio Dinis, via-o como um astro desintegrado antes de chegar ao zénite; Garrett e Herculano, pais do nosso Romantismo, firmavam-se-me como combatentes da liberdade, exumadores da História e dos vínculos da nacionalidade portuguesa. Camilo, porém, o que era?
Em Agosto de 2009 e Maio de 2010 estive na Casa de Camilo em S. Miguel de Ceide. Talvez, dito de outra maneira, na casa do comerciante Manuel Pinheiro Alves, marido de D. Ana Plácido, mulher que pagou na Cadeia da Relação do Porto, tal como Camilo, o crime de adultério, intolerável à luz da moral burguesa do século. Um pouco antes, tinha lido “Camilo Broca” de Mário Cláudio e folheado “O Penitente” de Teixeira de Pascoaes, textos biográficos sobre o escritor de “Amor de Perdição”. Pela mesma altura, meti-me em “Eusébio Macário” e “A Corja”, novelas em que o ultra-romântico imita o estilo da nova escola realista de Eça de Queiroz. Escritos e publicados estes livros, parece que terá dito, em jeito de gozo, algo de parecido com o seguinte: “É tão fácil escrever neste estilo, que até eu consegui”.
Nestas últimas semanas, voltei ao convívio camiliano. Na Comunidade de Leitores de S. Domingos de Rana lê-se “Fanny Owen” de Agustina Bessa-Luís, drama vivido pelo novelista num triângulo amoroso que Manuel de Oliveira levou para o cinema com o título de “Francisca”. Em “Duas Horas de Leitura” e, sobretudo, em “No Bom Jesus do Monte”, Camilo explica-se, mas não convence. Pequenas não deverão ter sido as suas responsabilidades no desfecho da história de amor entre Francisca Owen e José Augusto Pinto de Magalhães.
Entretanto, por outras válidas razões, vieram-me às mãos os dois primeiros romances da trilogia camiliana a que Alexandre Cabral chamou o Ciclo da Felicidade: “Onde Está a Felicidade?”, que teve o acolhimento entusiástico de Herculano, e “Um Homem de Brios”. Deixei para outras núpcias o terceiro livro, “Memórias de Guilherme do Amaral”. Esta série romanesca, com laivos autobiográficos, é escrita em plena fase da sua maturidade literária. O escritor está no auge da criação, é uma figura reconhecida que publica nos jornais e edita em livro.
Conhecedor da literatura europeia, em especial da francesa, Camilo foi um homem que não viajou fora do país, assim como não viajaram José Régio e Fernando Pessoa (embora este tenha passado parte da infância e a adolescência na África do Sul). Além das fronteiras de Portugal, conheceu apenas, e por mero acaso, os caminhos entre Vigo e a província do Minho, quando, por morte do pai, deixou Lisboa para ser entregue a familiares de Vila Real e o vapor em que viajava, não conseguindo vencer o mau tempo à entrada da barra do Douro, teve que ir aportar àquela cidade da Galiza. Era menino e não mais voltou a sair de Portugal.
Temos então um homem que não viajou, que não fez estudos superiores, e que, no amor, raptou, traiu e abandonou as suas amadas; um homem que sovou e foi sovado, que conviveu com criminosos e de tal deixou testemunho nas suas “Memórias do Cárcere”; um diabo de língua e pena afiadas, vituperador da burguesia, do império do dinheiro e dos barões feitos à pressa, mas que não enjeitou o título que lhe foi concedido de visconde de Correia Botelho, nome ancestral da sua família; em suma, um homem múltiplo, estranho e complexo, um feixe de paixões e sentimentos imoderados.
Uma peixeira da Póvoa de Varzim, praia onde costumava estanciar por causa de maleitas que o afligiam, ter-lhe-á chamado, devido às bexigas que lhe desfeavam o rosto, “cara de areia mijada”. Como a peixeira não era a princesa Rattazzi, o novelista engoliu em seco e não foi capaz de responder. Estava habituado a demolir com a sua verve a prosápia dos ricos e dos poderosos, não sabia dirigir palavras más a uma mulher do povo.

quarta-feira, setembro 08, 2010

MANUEL TEIXEIRA GOMES (1860-1941)


Ando a ler os escritos literários desta personalidade invulgar, algarvio de Portimão, figura grada da República cujo centenário ora se festeja. Diletante e requintado, representante de interesses comerciais familiares (um pouco à semelhança de Cesário Verde) que o levaram a viajar pela Europa, afirmou-se como amante do belo, epicurista com arremetidas de estóico, criador de histórias eróticas e de narrativas de viagens.
Foi ministro plenipotenciário em Londres a seguir à implantação da República (a Londres de Jorge V, onde se exilara D. Manuel II e onde pairava ainda a sombra do Marquês de Soveral). Foi Presidente da República entre Agosto de 1923 e Dezembro de 1925. Retirado em Bougie (ou Bejaïa) na Argélia (qual Vale de Lobos de Herculano), aí morreu.
A sua primeira obra, “Inventário de Junho”, publicada aos trinta e nove anos, abria com uma curiosa advertência: ESTE LIVRO NÃO TEM UTILIDADE NO COMÉRCIO…

terça-feira, agosto 31, 2010

NAVEGAÇÕES SEM BÚSSOLA

Vibrava os dedos sobre o berço das teclas, o ecrã colocado propositadamente de viés para que outros não pudessem ler o que era só dela: uma conversa de palavras escritas em jeito de parada e resposta, frases curtas, um diz tu digo eu despojado de apuro e à velocidade de cruzeiro da linguagem em rede. Se alguém se aproximava minimizava a página, ficava uma pequena barra na base do ecrã, e passava a um espaço anódino, desses que não inspiram a curiosidade de ociosos e demais criaturas perversas.
O trabalho que aquilo dá! Primeiro é preciso fazer um registo, escolher um pseudónimo (ou nickname), dizer se procura homem ou mulher, faixa etária desejada, indicar os dados pessoais: idade, estado civil, nível de escolaridade, profissão, se gosta de cinema, de música ou de futebol, se tem algum hobby particular, se costuma ler ou passar indiferente pela carranca dos livros. É conveniente publicar uma fotografia, ajuda muito a encontrar a pessoa certa. Os administradores do portal, sempre atentos, vão dando sugestões e exibindo novos perfis, de acordo com os gostos e interesses manifestados pelos utilizadores.
O nome deste sítio na Internet forma-se a partir do radical meet (de encontrar, claro), acrescentando-se-lhe ix, ou ex, ou qualquer outra partícula sufixal que se me varreu da memória. Meetix, meetex, ou lá o que seja.
A coisa parece que resulta. Uma senhora de Cascais, apresentável mas já em fase de mudança de estação, arranjou por este meio um namorado jovem e bem apessoado. Um homem de Sintra, inviamente casado, conseguiu estrear-se no adultério de raiz internética após breves dias de navegação. Um cavalheiro da Amadora, viúvo e aposentado da função pública, encontrou uma brasileira de Minas que agora quer vir até à terrinha dos descobridores para casar com ele. Estes os casos de que tenho notícia, muitos mais haverá, estou certo.
Ela sentava-se ao computador entre duas a três horas ao fim do dia, esquecia o jantar, esquecia a televisão. Isto para além do tempo que trazia acumulado do local de trabalho, sobre o qual não há certezas, apenas umas temerárias suposições. Entrava no portal dos encontros, ia para o chat, minimizava a página quando o serviço apertava ou o superior hierárquico rondava por perto, lançava uns dados no sistema da empresa, voltava ao portal. Quando saía do escritório, pelas cinco e meia da tarde, ia exausta de emoção.
Entretanto, pelo correio electrónico iam chegando mensagens de homens interessados no seu perfil. Era só marcar o tête-à-tête, de preferência num local discreto a uma hora discreta, como entre as cinco e as sete da tarde, logo se veria o que aquilo dava. Sim, é extraordinário, muito mais interessante em pessoa que na fotografia, e na próxima sexta-feira à noite, que tal sairmos para nos conhecermos melhor? Ou então, em caso de interlocutor mais objectivo: Gostei muito que tivesse vindo, o meu apartamento é já aqui ao virar da esquina, podemos subir e tomar um refresco.
Parece que nunca passou dos gozos virtuais, dos encontros sem consequências, mas o marido, ciumento e de mau carácter, farejando os mais improváveis eflúvios, deu em desconfiar daquela devoção informática. Espiou-a como o pide ruim espiava a vítima, e armou uma cena de violência doméstica. Toma lá que é para aprenderes! Depois abriu o computador e extraiu o disco para ser inspeccionado por técnicos da sua confiança: queria descobrir o mapa de todos os mares navegados pela cibernauta.
Que história triste! Como é deplorável a personalidade destes homens que só ficam satisfeitos quando recolhem certezas de tudo. Arruínam a vida própria e a alheia pelo azougue dum caso, pela brisa dum facto, quando mais sensato é deixar o coração à segurança do que não é seguro, ao poder afrodisíaco de não saber tudo, de não saber nada ou até de ser o último a saber.
Desconheço os desenvolvimentos recentes da história desta mulher. Sei que o marido anda aí pelas tascas do bairro, a língua metida nos gargalos das minis, trincando coiratos e tiras de entremeada. Quanto a ela, vi-a passar no outro dia a caminho da paragem do autocarro: ia ligeira e perfumada como uma ave do Éden. Por momentos, tive a tentação de me registar no tal meetix ou meetex para a encontrar e poder falar-lhe, mas felizmente que não fui por aí. Ainda sou do tempo do papel de carta e das declarações de amor lançadas do empedrado das ruas para o alto das sacadas. Ainda me lembro das serenatas, dos bailes nas sociedades recreativas e dos românticos passeios de domingo nos jardins públicos. Desconfio das facilidades da Internet e do falso brilho das suas páginas. Além disso, há ainda uma razão de peso: tenho em minha casa quem passe largo tempo nestas navegações sem bússola por baixios e escolhos de morte. É melhor não me aventurar em tão traiçoeiras singraduras. Quem sabe o que poderia encontrar por lá?

domingo, agosto 01, 2010

EXCERTO DO DIÁRIO DUM BANDEIRANTE

Você já viu como ele está grudado de olho no céu esperando descobrir entre as estrelas o Cruzeiro do Sul? E como aponta a orelha às laranjeiras para ouvir cantar o sabiá? Gente, cara mais bobo não existe desde que Pêro Vaz de Caminha, o letrado do achamento, se espantou com os homens pardos e as moças de cabelos muito pretos e compridos com as suas vergonhas tão cerradinhas e tão limpas que até dava vontade de não ter vergonha nenhuma! Pois é, deixem-no com as estrelas e o incerto gorjeio das aves, que o mais certo que lhe tocará é o cheiro que se manda do rio Tietê, o arzinho fresco da manhã picando-lhe o nariz, a agitação do metrô e do ônibus, a espuma do chope untando-lhe a boca. Vinho nem vê-lo, nenhuma feijoada das que se comem lá na terrinha lhe cairá no prato. Cruzeiro do Sul? Fique-se pela Ursa Maior ou a Ursa Menor! Sabiá de Gonçalves Dias e Casimiro de Abreu? Contente-se com o rouxinol de Bernardim!

domingo, abril 25, 2010

23 de Abril, comemoração do Dia Mundial do Livro - O CONTADOR DE HISTÓRIAS


HISTÓRIA TRISTE DA MULHER-A-DIAS QUE GOSTAVA DE LER POESIA


Antes de ter começado a trabalhar como mulher-a-dias, tinha sido operária numa fábrica de calçado, o salário certo ao fim do mês, refeições subsidiadas pela empresa, creche para as crianças e assistência médica gratuita, tudo regalias concedidas de livre vontade pela entidade empregadora ou decorrentes do contrato colectivo de trabalho em vigor.
Foi um bom emprego até ao dia em que uns operários da Malásia ou do Paquistão, não se sabe ao certo, se dispuseram a fazer o mesmo serviço por uma pequena parte do que por cá se pagava, prescindindo do refeitório, da creche e da assistência médica gratuita, luxos que não eram precisos lá por aquelas bandas onde a gente era saudável e de pouco alimento, e os miúdos, filhos dos operários, tinham sido habituados a andar pelas ruas, entregues a si mesmos, sem necessitarem de mais cuidados que aqueles que na natureza são dispensados pelos progenitores a qualquer cria animal.
Como tinha a renda de casa para pagar, o frigorífico para abastecer, as crianças para vestir e calçar, teve que procurar trabalho. Começou por lavar escadas, arranjou umas senhoras para quem passava a ferro e fazia arranjos de costura, foi companhia de uma idosa que convalescia de um acidente vascular cerebral, até que conseguiu um serviço de quatro horas diárias em casa dum senhor que era professor universitário e tinha uma biblioteca de muitas centenas de livros. Só a limpar o pó dos volumes, a arrumá-los meticulosamente nas estantes ou a retirá-los para cima da secretária do professor, levava ela uma parte considerável do seu horário de trabalho.
Este senhor, seu patrão, era homem de poucas falas: dizia bom dia ou boa tarde, faça isto ou faça aquilo, e mais além não ia nas suas práticas, embora se soubesse que era pessoa com dotes de conversação, de grandes e circunstanciados discursos em tudo quanto a matéria professoral dissesse respeito.
Pelo total de vinte horas semanais que fazia como mulher-a-dias em casa do professor de literatura – é a altura de dizer, para que se saiba, a área do conhecimento em que ele exercia a sua cátedra –, recebia mensalmente um valor próximo do salário mínimo nacional, um rendimento apesar de tudo satisfatório, tendo em conta as suas fracas qualificações profissionais e o facto de trabalhar apenas a metade das horas de qualquer assalariado normal. Assim, ainda lhe sobrava tempo para acompanhar os filhos e deitar a mão a um ou outro serviço que fosse aparecendo.
O senhor professor passava muito tempo ao computador a lançar uns apontamentos que, pelo que percebera duma conversa telefónica, eram destinados a um pós-doutoramento ou a qualquer coisa parecida começada em “pós” e acabada em “ento”. Como poderia ela saber exactamente do que se tratava se só conhecia as palavras simples de todos os dias, pouco entendendo das conversas que lhe ouvia ao telefone com os colegas e amigos? Uma coisa sabia, porém, era que aquilo que o professor escrevia ao computador era um estudo sobre versos e gente que fazia versos, poetas, como aquele seu antigo colega que compunha quadras para adornar os cravos de papel de S. João e um dia até lhe fizera uma que lhe parecera muito bonita mas de cujos versos há muito tempo se havia esquecido.
Soube que os apontamentos eram sobre versos e gente que fazia versos porque um dia, quando limpava o pó ao ecrã do computador, num breve momento em que o professor fizera uma interrupção para tomar café, pôde ler na página aberta a seguinte quadra:

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Oh pescador?

E outras se lhe seguiam, embora não as tenha conseguido fixar, lendo depois as considerações que o professor fazia sobre o autor, um tal Almeida Garrett, poeta que pelo nome até parecia estrangeiro, embora, coisa admirável!, estivessem os versos escritos em português e, tanto quanto lhe era dado entender, do melhor que já tinha lido, que era afinal muito pouco ou quase nada.
Ficou tão impressionada com aquela leitura que no sábado seguinte, estando de folga, se dirigiu à biblioteca municipal para ler os poemas do tal Almeida Garrett. Deu com o livro onde se encontrava o poema da barca bela, tinha um título bonito, “Folhas Caídas”, embora lhe fizesse lembrar o Outono e os momentos tristes da vida, como aquele em que o marido saiu de casa, deixando-a sozinha com o encargo dos filhos. Então leu com atenção o poema. A segunda quadra era igualmente bela:

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

E continuou, não conseguindo deixar de ler e reler todo o poema. Perdeu a noção de quantas vezes passou os olhos pela luz daqueles versos. Os olhos e a alma, que era dentro dela que sentia aquela formidável força que se soltava de cada sílaba, uma música colorida que lhe trazia uma inexplicável sensação de alegria e sofrimento:

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela…
Mas cautela,
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador!

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela
Oh pescador!

E perante a revelação que ali se lhe oferecia, nunca mais foi capaz de deixar de ler os poetas.
A história, diga-se desde já, tem um final infeliz. Em casa do professor, a mulher-a-dias começou a descurar grosseiramente os seus deveres laborais. Sempre que o patrão não estava em casa, esquecia-se do trabalho e passava grande parte do tempo a ler poemas, dizendo-os por vezes em voz alta, desejosa de sentir o ouro e a química do verbo, de ouvir os ritmos, não lhe bastando já o silêncio anódino da leitura mental. A poesia tornou-se para ela um vício que não conseguia dominar, e por mais de uma vez se lembrou duma sua conhecida que fora despedida duma casa onde trabalhava porque na ausência dos patrões ia desbastando as bebidas da garrafeira até não ser capaz de se aguentar de pé. Também a poesia era agora para ela uma espécie de álcool forte e irrecusável.
O pior sucedeu quando certa manhã, regressando o professor mais cedo a casa, deu com o trabalho todo atrasado e a mulher-a-dias sentada na sua secretária a folhear os livros de poesia do seu estudo em preparação. Foi despedida, e aí está a injustiça cometida por aquele insensível professor.
Sim, injustiça e das maiores, porque tratando-se de um professor de literatura, era seu dever estimular, e não reprimir, o sonho poético da sua servidora. Coisas que sucedem quando o apego à poesia e às obras dos poetas é fruto da vaidade académica, do gozo de se saber admirado pelos artigos publicados em revistas da especialidade e de sentir o deslumbramento de colegas e alunos perante o fulgor do seu magistério. Para a mulher-a-dias a poesia era um deleite inútil, feito de satisfação interior, sem cálculo ou premeditação, por isso autêntico e puro como o musgo das pedras ou o vento que se mete pelas copas das árvores.
Tudo, ou quase tudo, foi tirado a esta mulher: o emprego, o amor, a felicidade duma família unida e equilibrada. Só não conseguiram tirar-lhe a capacidade de sonhar.
Uns tempos mais tarde, estando o professor de literatura a folhear um dos seus livros, viu sublinhados por traço alheio, num poema de Natália Correia, os seguintes versos:

Ó subalimentados do sonho!
A poesia é para comer.

Quedou-se pensativo por uns longos instantes, mas era tarde de mais para emendar o erro.

domingo, fevereiro 14, 2010

14 de Fevereiro, aquele dia

S´abuser en amour n´est pas mauvaise chose.


(RONSARD, Le Second Livre des sonnets pour Hélène, XLII)

sábado, janeiro 16, 2010

"O MUNDO À MINHA PROCURA"

O lugar da autobiografia tem sido encontrado num amplo campo interpretativo que vai da referencialidade à ficção. O autobiógrafo, investido da dupla condição de sujeito e objecto da escrita, tem que lidar com a memória (ou com aquilo que ficou dela) e com a selectividade (por vezes inconsciente) dos conteúdos de vida a transmitir. O arco do tempo da narrativa, arrancando as mais das vezes do período da infância, não dá azo a relatos fidedignos, a memórias nítidas, e o mais importante não é ser sincero, mas ter vontade de o ser ou simplesmente de parecer que o é.
Ruben A. (1920-1975) deixou uma bela autobiografia em três volumes: O Mundo à Minha Procura. No final do capítulo III do primeiro volume, escreveu: Não sei se foi o Adolfo Casais Monteiro que um dia, na aula de Português, me pediu para explicar um trecho dos Lusíadas depois de ter lido o meu exercício sobre o assassínio de Inês de Castro. O autor começa por não saber, por não ter a certeza, mas a partir desta dúvida inicial tudo se passa como se Adolfo Casais Monteiro tivesse sido efectivamente o professor do jovem Ruben Andresen Leitão naquele liceu do Porto onde fez os estudos secundários. O poeta da presença surge como o único docente a reconhecer no estudante refractário à Matemática e ao Latim o espírito arguto e o sentido trágico da vida e do amor que o levava a eleger o episódio de Inês de Castro como a passagem capital do grande poema camoniano. E termina assim: Passados poucos meses, a liberdade mental de Adolfo Casais Monteiro meteu-o na cadeia. Apareceu, então, como professor de Português o animal que regia Latim e que a meu respeito tinha a mais fraca das opiniões.
Aqui está um caso em que é justo que nos perguntemos se o texto é o reflexo da vida do autor ou se não será ele mesmo a instância criadora dessa vida, efabulação e reinvenção do eu autobiográfico?

sexta-feira, janeiro 01, 2010

A NÃO-INSCRIÇÃO

A leitura que tenho feito de algumas partes do livro Portugal Hoje – O Medo de Existir, do filósofo José Gil, fez-me levar os conceitos de inscrição e não-inscrição para o caso da juventude dos nossos dias.
José Gil fala em não-inscrição como uma ausência de desejo no sentido do real, um não acontecer, que no caso vertente pode muito bem estender-se a um não fazer, ou a um deixar que os outros façam – quase sempre os pais.
Também já passei pela juventude, e esta inclinação para reflectir sobre a actual pode parecer uma vontade de tecer comparações, de dizer: hoje é assim, mas antigamente era diferente, para melhor. Não vou por aí! Acho até, em certo sentido, que os jovens dos nossos dias são mais sensatos, mais solidários e até mais honestos do que os que se descobriram nos anos de ouro da vida durante as décadas de sessenta e setenta do século passado. Em que medida o ficaram a dever a esses que os precederam, os seus educadores, é matéria que parece não oferecer grandes dúvidas, pois alguma marca há-de deixar a educação, para bem ou para mal, acreditando porém que apesar da instabilidade que nos últimos trinta anos tem caracterizado a instituição familiar, a educação que demos aos nossos filhos foi, sempre generalizando, melhor e mais completa do que a que recebemos dos nossos pais.
A falta de inscrição no real, a acomodação à sombra da família, prolongando os anos que antecedem a entrada no mercado de trabalho, é uma resultante das dificuldades duma economia que não é geradora do pleno emprego e que muitas vezes só tem para oferecer a precariedade, mas também a expressão duma falta de desejo, ou de vontade que alguma coisa aconteça.
Um amigo que é director duma empresa de formação profissional, falava-me há tempos dum seu colaborador, um jovem licenciado em sociologia que estava a finalizar um mestrado e era o mais dedicado do departamento em termos profissionais. E acrescentou a seguinte informação: tinha-lhe morrido o pai entre os dezassete e os dezoito anos, quando ele se preparava para entrar na universidade, e esse acontecimento dramático tinha acabado com os dias plácidos da sua juventude. – É isso, às vezes é preciso sofrer um profundo revés, passar por uma grande infelicidade como a perda de um pai, importante no plano afectivo e igualmente decisivo em termos de subsistência, para que haja uma possibilidade de inscrição, uma vontade de agarrar pelos cornos o corpulento boi da vida.
São também às vezes acontecimentos capitais como uma doença ou um acidente que podem levar à reflexão e ao amadurecimento da consciência. Pascal falava daquilo a que chamou le bon usage des maladies, ou seja, aproveitar a inacção própria da doença, esse tempo só aparentemente infértil, para um exercício de introspecção e de descoberta de si – uma ruptura, afinal, com a não-inscrição.
E é assim que a partir de José Gil se geraram estas reflexões modestas, sonolentas e feitas um pouco ao correr das teclas. Há os que por esta altura de passagem abrem garrafas de champanhe. Como apesar de tudo há que ter esperança, esta é a minha única homenagem ao ano-novo.

sábado, dezembro 26, 2009

UMA HISTÓRIA PARA CRIANÇAS GRANDES


Às vezes é preciso uma infelicidade (como uma doença grave ou a perda dum grande amor), para que se compreenda o sentido da vida. Só depois da morte há lugar para a ressurreição, só o “fértil desespero” da provação redime e liberta.
Oito anos depois releio O Príncipe com Orelhas de Burro, a viagem humana para além do humano, a inquietação do espírito e da carne ou a busca duma perfeição que não é deste mundo.
Arroubos dum autor em estado místico, dirão. Talvez sim, ou nem por isso: talvez apenas a certeza do limite e a dolorosa vertigem do insondável.

À NOITE

Os pinheiros iluminavam-se por detrás dos vidros das varandas dos prédios. A rua enchia-se dum estrépito de água sob os pneus dos carros que passavam excedendo um pouco a velocidade permitida por lei. Uma azáfama de embrulhos e sacos de compras dobrava-se sob chapéus-de-chuva desfraldados ao vento. Os enfeites de algodão e papel de lustro coloriam as montras das lojas abertas na moldura da noite.
O poeta
cozeu castanhas, abriu uma garrafa de vinho, estava acompanhado duma multidão que brindava e ria.
Sentia-se________feliz.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

A CONFISSÃO DE LÚCIO

Esta é a minha edição d’ A Confissão de Lúcio. Uma edição da Ática, tendo na capa o esplendoroso desenho de Almada Negreiros. Sabe bem voltar a esta narrativa, voltar à Confissão e aos poemas de Dispersão e Indícios de Ouro, saber que tudo faz parte do mesmo, e que é a vida do autor que se nos apresenta, reinventada, tanto na ficção como na lírica. A despersonalização de Mário de Sá-Carneiro foi sempre um falar de si, um permanente diálogo com o Outro que não sendo ele era ele próprio:

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

domingo, dezembro 06, 2009

LA LOCA DE LA CASA, Rosa Montero

Como a autora refere, o relato autobiográfico nunca é fidedigno. Interpõem-se entre o narrador (autobiógrafo) e os factos narrados os ponderosos efeitos da memória e da selectividade (por vezes inconsciente). É por isso que de acordo com Jean Starobinsky, um estudioso de literatura autobiográfica, a imagem do eu transmitida na autobiografia não é dissociável de um certo coeficiente de alteridade.
Isto para dizer o quê? Que estoy encantado com o livro da Rosa Montero, e que apesar de tudo o que se diz sobre a impostura inerente aos escritos autobiográficos, me pareceu muito sincero e corajoso o capítulo 3, aquele em que a autora, com vinte e três anos, se envolve sexualmente com o actor de cinema M.
Uma boa surpresa este livro que já li até metade. Lá estaremos dia 18, no nosso espaço de livros e emoções.
(Texto importado de www.comolhosdeler.blogspot.com, blogue da COMUNIDADE DE LEITORES DA BIBLIOTECA DE SÃO DOMINGOS DE RANA)

sábado, dezembro 05, 2009

QUARTA-FEIRA, 2 DE DEZEMBRO


, Saiba vossa excelência que há de tudo, com o tempo, já nem ligamos, cada um come como aprendeu, mas a ideia com que nós ficámos, na nossa cabeça, é que o senhor doutor era uma pessoa educada, entrava, dava as boas-tardes ou as boas-noites, dizia logo o que queria comer, e depois não se dava mais por ele, era como se aí não estivesse, Comia sempre sozinho, Sempre, o que tinha era um costume, Qual, Quando nós íamos a tirar o outro talher da mesa, o que estava defronte dele, pedia que o deixássemos ficar, que assim parecia a mesa mais composta, e uma vez, comigo, até se deu um caso, Que caso, Quando lhe servi o vinho, enganei-me e enchi os dois copos, o dele e o da outra pessoa que lá não estava, não sei se está a perceber, Estou a perceber, estou, e depois, Então ele disse-me que estava bem assim, e a partir daí tinha sempre o outro copo cheio, no fim da refeição bebia-o de uma só vez, fechava os olhos para beber, Caso estranho, Saiba vossa excelência que nós, criados, vimos muitas coisas estranhas,

JOSÉ SARAMAGO, O Ano da Morte de Ricardo Reis



Saíra do debate sobre a Mensagem de Fernando Pessoa. "Brasão", "Mar Português", "O Encoberto" – BENEDICTUS DOMINUS DEUS NOSTER QUI DEDIT NOBIS SIGNUM, que o mesmo é dizer ABENÇOADO SEJA O SENHOR NOSSO DEUS QUE NOS DEU O SINAL.
Rua Garrett arreada de chuva e iluminações de Natal. Ultrapassara a estátua do grande poeta que nem sequer foi nomeado nos poemas do livro. Viriato e D. Tareja, O Bandarra e António Vieira – esses sim, entre outros. O cheiro do bairro de Dinis Machado, algures entre a Rua do Loreto e o Largo do Calhariz. Não levava destino certo, deixou-se ir por uma das ruas do bairro, mas logo arrepiou caminho, enquanto um casal de estrangeiros examinava um mapa da cidade à luz lívida dum candeeiro com corvos. Espreitou a papelaria dos célebres cadernos portugueses de que fala Paul Auster em A Noite do Oráculo; lá estava, na montra, um exemplar do romance. Depois meteu-se numa tasca da Rua da Bica, mesmo em frente do elevador que descansava da vagarosa dobadoura das viagens.
Estava sozinho, mas o empregado expedito colocou-lhe dois copos sobre a mesa, um para ele e outro para uma pessoa que lá não estava. Um lapso, ou talvez não. Por coisas que iam sucedendo, firmara a ideia de que nada lhe acontecia por acaso. Lembrou-se de um trecho de O Ano da Morte de Ricardo Reis, e quando a garrafa veio encheu os dois copos. Sabe que não bebeu o vinho do segundo, embora não consiga recordar se quando se levantou, depois de pagar a conta, o deixara cheio ou vazio.
A caminho da estação do metro, moderadamente bebido, lúcido e contente, parecia-lhe que alguém o acompanhava.

sábado, novembro 28, 2009

Cenas de caça e pesca, seguidas de uma sextilha icárica

Do Diário de Miguel Torga:

Palheiros de Mira, 21 de Setembro de 1948

– Eh! rei dos alcatrazes! – gritou hoje à minha passagem um pescador.
Tem sido uma razia neles, grandes como aviões. Vêem-se ao longe a atirar-se ao mar como
stuckas, a pescar, e quando se aproximam do barco e eu lhe mando uma carga de chumbo três, berram como cabritos e agridem como feras quem se aproxima. São eles aparentemente que me levam ao largo, e os homens da companha, a quem os dou no fim para fazerem arrozadas (…).

26 de Setembro

ÍCARO

O alcatraz atira-se do alto.
Dobra as asas, e cai.
Do céu à terra é um salto.
Do céu ao mar, um gesto.
Longe, fica o protesto
Que não sabe aonde vai

(Diário, Livro IV)

domingo, novembro 15, 2009

POETA MILITANTE

Leio hoje as memórias de José Gomes Ferreira (A Memória das Palavras, Lisboa, Portugália Editora, 1965) e dou a páginas 105-106 com a evocação do esteta António Boto, artista que realizou “a simbiose do Homem com o Poeta sem falsas fronteiras entre a Poesia e a Vida”. Referindo os riscos corridos por este homem que desafiou o escândalo em nome da “Poesia autêntica, da Poesia que não mente”, José Gomes Ferreira estabelece como contraponto outra poética de risco – essa, segundo palavras suas, de dimensão heróica – que foi a do neo-realismo.
José Gomes Ferreira participou, se não heroicamente pelo menos com grande espírito de abnegação, na campanha contra a Monarquia do Norte, em 1919, integrado no Batalhão Académico. Tinha dezanove anos e era estudante de Direito. As memórias dão-nos imagens muito vivas desse período da sua vida em que a exaltação dos ideais republicanos não elide a expressão dum olhar de desencanto sobre o país e o atraso social em que se encontrava mergulhado.

sábado, novembro 14, 2009

BREVE DISCURSO SOBRE A NORMALIDADE

Acusado de ser o mandante das famigeradas escutas a Belém, sabe-se agora que afinal foi ele o escutado – com extracção de certidões e tudo! – , a pretexto duma investigação policial a um seu amigo. (Na nossa política passa-se com facilidade de sujeito de uma acção a seu objecto.)
É natural que as escutadas conversas com o tal amigo não incidissem sobre obras de caridade, arranjos florais ou o preço da roupa na época de saldos. Como gente do poder, deverão ter falado de estratégias de poder. Tudo isto parece normal.
Parece normal ser-se amigo de um corrupto? Parece que sim, até que o tal amigo se revele claramente como é e então caiba a decisão de cortar com a amizade ou, no bom espírito cristão, continuar junto dele para ajudá-lo a encontrar o bom caminho. Terá sido por razões semelhantes que o inquilino de Belém levou tanto tempo a separar-se daquele amigo conselheiro de estado (se é que se separou!) e que tendo demitido um seu assessor justamente por causa dum negócio de escutas, o mantém afinal dentro do Palácio, ao serviço da sua pessoa, como se nada tivesse acontecido.
Normal parece também que no bas-fond da política, onde pontifica uma senhora já de certa idade, se volte agora à carga a dizer do homem o que Mafoma nunca disse do toucinho.
Vivemos num país de políticos invejosos, sotainas hipócritas, heterossexuais pundonorosos, e sucateiros das consciências. No meio da desgraça, só nos falta sermos eliminados pela Bósnia ou seguirmos em frente com os golos de algum brasileiro. Tudo normal, portanto.

sexta-feira, novembro 13, 2009

ESCUTAS

Há duas coisas que um cavalheiro não faz: é fazer pelas pernas abaixo e comentar escutas.

Carlos Magno, hoje, no Contraditório da Antena 1

domingo, novembro 01, 2009

ALICE E O ESPELHO

Cansei-me de ler livros. Ando agora nas redes sociais da Internet, fazendo amigos, adicionando nomes à minha lista de contactos, escrutinando as fotografias e os perfis que me chegam nos fluxos mágicos do espaço virtual.
Ontem conheci um rapaz de nome Pierre. Francês? Não sei. A fotografia mostra-o com uma cabeleira negra, os olhos vagos, um cachecol desabado sobre o casaco de lã de cores amarela e verde, um sorriso terno que faz pensar em alegrias que estão muito para lá da ligeireza das teclas ou dos reflexos do ecrã. Engenheiro informático, solteiro, nascido a 23/7, omisso o ano, mas, pelo aspecto, aí pela casa dos trinta. Talvez trinta e muitos, mas que importa? Até aos quarenta anos os homens estão como novos, isto já eu ouvia à minha mãe, senhora comprovadamente experiente em tudo quanto ao sexo oposto diz respeito.
Antes de me dedicar às redes sociais da Internet, frequentei ginásios, lugares onde, com sorte, podemos melhorar a silhueta e conhecer atletas. Os corpos são como poemas. Vi muitos bíceps, muitos músculos abdominais que me cortaram a respiração acelerada pelos exercícios de marcha no tapete rolante. Um dia, porém, descobri que só homens desinteressantes se chegavam ao pé de mim com as mais incríveis propostas: um treino de jogging na pista da Cidade Universitária, um café à saída, a participação numa qualquer prova de corrida pedestre ao fim-de-semana. Achei que não compensava tanto esforço, tanto dinheiro gasto ao fim do mês, tanta desorganização de horários no termo do dia de trabalho. Chegava a casa sempre depois das nove, exausta e cheia de fome. Comia muito, e engordava disparatadamente. Desisti.
Depois de abandonar os ginásios juntei-me a um grupo de observadores de aves que se passeava de binóculos e máquinas fotográficas nas veredas da Serra de Sintra. Precisava de conhecer pessoas. Andei fins-de-semana a fio pelas zonas do Rio da Mula e da Lagoa Azul em demanda do falcão-peregrino, do gavião, do pombo-torcaz e da ferreirinha-alpina. Havia homens interessantes naquele círculo de amadores da natureza. Um dia, quando subíamos a uns penhascos de onde se avistam os longes do Cabo da Roca, fui auxiliada pelo Mário, um homem casado, o mais atraente de todos os membros do grupo. Agarrou-me pela cintura, encostou-se, e antes de me empurrar para cima tomou a liberdade de me apalpar demoradamente os seios, como se manipulasse duas alavancas impulsionadoras da minha subida ao coruto das rochas. Gostei que me fartei. O pior foi a mulher, observadora tanto das espécies avíárias como das movimentações do marido, que logo ali, desrespeitando o silêncio exigido para a observação dos pássaros, se pôs a ralhar asperamente com o fogoso consorte.
Saí pela porta pequena do grupo de amigos das aves e, através de uma colega, comecei a ir às reuniões duma comunidade de leitores. Livros e mais livros, discussões longas sobre temas que por mais que me esforçasse nunca conseguiria acompanhar. Memórias de Adriano, As Cidades Invisíveis, O Lobo das Estepes, livros grossos e duros como uma noite sem companhia. Participavam muitas mulheres na comunidade de leitores, pois, diz-se, são elas que mais apetência demonstram pela leitura. Quanto a homens, eram escassos e gastos.
Ainda se falassem de livros como os Onze Minutos do Paulo Coelho, ou desses que são escritos por personalidades conhecidas da televisão, que não dão trabalho a ler, como Não Sei Nada Sobre o Amor e tantos outros, ainda teria feito um esforço para me manter na comunidade. Assim não. Prefiro a Internet. A vida passa diante dos meus olhos como um grande quadro do mundo, sem complicações, à distância simples de um clique. Quando bem calhar dou o salto para o lado de lá. É assim como atravessar um espelho.

AINDA OS DIÁRIOS

O diário é uma escrita datada, fragmentária, intermitente. Philippe Lejeune chama-lhe o “grau zero” da construção textual, e, de certa forma, esse parece ser o sentimento de escritores como José Régio. O poeta d´As Encruzilhadas de Deus diz nas Páginas do Diário Íntimo: Um diário é informe ou disforme, desconexo, espontâneo, sei lá! Não é, ao menos pela forma, – uma obra de arte.
Contrariamente a estes juízos, os diários de Maria Gabriela Llansol (Um Falcão no Punho, Finita e Inquérito às Quatro Confidências) assumem-se como peças exemplares de literatura e reflexão. São obras de arte.

Herbais, 20 de Outubro de 1982

Manhã cheia de sol, em contraste com a atmosfera pluviosa dos últimos dias; querer continuar a escrever
Contos do Mal Errante é a minha resposta luminosa à manhã. Ultimamente julgava que o meu corpo era menos maleável, que, onde uns desejos se alargavam, outros se restringiam. Mas sei que o corpo responde à voz altissonante que chama, e ele próprio grita; assim, também ele ainda contém o amor carnal, que é bom condutor do humano. (…) Senti-me feliz sobre a superfície da terra que pisamos. O regresso ao corpo do Augusto ontem não podia passar despercebido nesta hora do Diário.

Maria Gabriela Llansol, Um Falcão no Punho, Lisboa, Edições Rolim, 1985, p. 90.

quinta-feira, outubro 29, 2009

A SURPREENDENTE E SEMPRE PROVEITOSA LEITURA DOS DIÁRIOS


Portalegre, 18 de Maio de 1953

Acabo de acompanhar ao cemitério, e de a fechar no seu caixão, a velha Lúcia, que me serviu durante quinze anos. Era casada, vivia com o marido e os filhos, e vinha todos os dias fazer-me o serviço de casa. Deixou-me há cerca de dois anos, por já não poder trabalhar. Vinha visitar-me de vez em quando, e continuava muito pegada a este casarão. Mulher dos velhos tempos, com um profundo sentido de honestidade, e dignidade na sua pobreza. Como eu lhe dava alguma coisa quando me visitava, acanhava-se de vir só por isso. Algumas vezes fui duro para com ela. Obrigava-a a levantar-se bastante cedo, fosse Verão ou Inverno, para me vir servir o pequeno-almoço à cama. Nos últimos tempos, sobretudo de Inverno, era-lhe isso penoso; e eu sabia-o, mas pouco a poupava. Estimava-a sinceramente, no entanto. Por sua vez, ela era-me profundamente dedicada, tinha-me um grande respeito, e até na morte falou em mim e na minha casa.


JOSÉ RÉGIO, Páginas do Diário Íntimo, Lisboa, IN-CM, 2004, p. 249.

quarta-feira, outubro 28, 2009

UM REFERENDO INJUSTIFICADO

A propósito da aguardada lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, aparecem agora certos defensores da família e da moral apregoando a necessidade de submeter a referendo tal matéria legislativa.
Pretendo mostrar que tal não faz sentido. E por várias razões. Vejamos:
1. O casamento é um contrato civil que estabelece direitos e obrigações em relação às pessoas que nele intervêm. A vertente patrimonial, ou seja, o reconhecimento de um conjunto de bens que passam a pertencer ao casal, é aspecto da maior relevância no contexto legal da união civil. Sabemos as garantias que daí derivam, tanto por morte de um cônjuge, como por divórcio. O que demonstra o interesse do legislador em não deixar desprovidos de meios patrimoniais o cônjuge sobrevivo ou os que forem obrigados à separação.
2. O objectivo do casamento não é necessariamente a procriação. Embora ela seja uma sua consequência natural, a verdade é que a razão principal que leva duas pessoas a uma vida em comum é do domínio da afectividade e do companheirismo.
3. Sendo assim, não me escandaliza a união entre pessoas do mesmo sexo. O amor não corre no sentido único do sexo oposto. Ele pode existir entre dois homens ou duas mulheres com a mesma dignidade do amor heterossexual, reclamando a constituição de laços familiares estáveis e duradouros.
4. Prosaicamente é então necessário comprar ou alugar uma casa, adquirir mobília e alfaias domésticas, fazer as despesas de manutenção do lar, afectando-lhes um orçamento para o qual cada um dos membros contribuirá na medida das suas possibilidades.
5. Nesta união de facto não salvaguardada pela lei, o que poderá acontecer por morte de um dos membros do casal ou por separação? Para quem reverterá o património comum? Há garantias de que, no caso de morte, o que resultou dum esforço de ambos (casa, carro, todo um conjunto de bens) não seja herdado ou apropriado por um irmão, um pai, um filho duma união anterior? E no caso de separação, como se fará a partilha dos bens comuns?
6. As indefinições avançadas são de uma injustiça clamorosa. O Estado tem a obrigação de garantir os direitos dos cidadãos, e os cidadãos em união homossexual não podem ter um estatuto de menoridade.
Pelas razões enunciadas não se justifica um referendo. Não estão em causa princípios éticos ou morais, apenas direitos e garantias dos cidadãos. Há que legislar, e basta!
Sabe-se que o que choca muitos dos moralistas que agora levantam a voz é a extensão da figura do casamento à união homossexual, em especial pela apropriação que dela fez a Igreja Católica, ao ponto de a instituir como um dos sacramentos da sua religião.
Sabe-se igualmente que o folclore e a bizarrice dos casamentos heterossexuais tenderá a estender-se a certos casamentos realizados entre pessoas do mesmo sexo. O ridículo, porém, fica com quem o procura. A maioria dos que passarão pelo Registo Civil para oficializar as suas situações não se prestará certamente a cenas de véu e grinalda, ou troca de alianças, ou ostensivos beijos na boca no momento da solenidade. Quem quiser dar espectáculo que o dê. A maioria dos interessados só quererá ver reconhecido um direito fundamental da pessoa humana: o direito à felicidade. Só isso.

sábado, outubro 24, 2009

LE BON USAGE DES MALADIES

Leio no Diário Inédito de Vergílio Ferreira, Bertrand Editora, 2008, p. 130:

Évora, 21 de Novembro de 1948

Tenho de o dizer. Há um tipo que além do sarampo e adjuntos da infância teve aos treze uma pleurisia, aos dezasseis um duplo foco pulmonar, aos dezassete outro do outro lado, depois uma ladainha de moléstias: (…) e por aí, até que aos trinta e dois lhe tiraram um rim. Pois apesar de o físico estar todo alugado por mazelas, foi ainda possível, aos trinta e três, arranjar uma vagazinha para uma sinusite.
Caramba, esse tipo sou eu!
- Certamente um caso de le bon usage des maladies, nos moldes reflexivos de Blaise Pascal.

quinta-feira, outubro 22, 2009

"O rompimento da fraternidade"


Tudo porque Deus aceitou de bom grado as ofertas de Abel, constituídas por artigos de origem animal, e não demonstrou apreço pelo que lhe oferecia Caim, simples produtos da sua actividade agrícola.

Valorizando o labor da pastorícia e rebaixando o dos trabalhadores da gleba, Deus dividiu os irmãos e os homens. Instalou o ciúme no coração de Caim, fez-se autor moral do crime.

A Bíblia é um livro tão rico, tão rico, que dele pode sair uma literatura inteira. Está lá tudo o que diz respeito ao homem: a miséria e a opulência, o amor e o ódio, a guerra e a paz, as grandes e as pequenas paixões das almas.

Nas margens de tudo isto ficam os padres pregadores em púlpitos arruinados, os inquisidores de fato e gravata, as vozes estrídulas da ortodoxia cega.

Leia-se em Camões:

No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dhua austera, apagada e vil tristeza.

domingo, outubro 18, 2009

"A PONTE SUBMERSA"

O romance A Ponte Submersa, de Manuel da Silva Ramos, que hoje acabei de ler, remeteu-me para uma realidade que não tinha presente: a submersão, pela barragem da Aguieira, da aldeia de Foz do Dão, situada na confluência do Dão com o Mondego. Casas e ponte lá ficaram sob as águas da albufeira, em drama semelhante aos de Vilarinho das Furnas e Aldeia da Luz.
O livro, porém, é mais do que isto.

sexta-feira, outubro 16, 2009

ESPAÇO AUTOBIOGRÁFICO

Philippe Lejeune
Nos estudos de literatura autobiográfica formula-se por vezes a seguinte questão: o que é mais verdadeiro – a autobiografia ou o romance? Por outras palavras: há mais sinceridade nos escritos referenciais (autobiografias, memórias, diários), em que o autor, em seu nome, conta factos e experiências da sua vida, ou, de outra forma, é nos escritos de ficção (romance, novela, conto) que melhor se revela a intimidade do escritor?
Philippe Lejeune, professor e crítico francês nascido em 1938, pioneiro dos estudos de literatura autobiográfica, desvaloriza a questão. Autobiografia e romance são para ele duas faces da mesma moeda: o que aquela oculta, revela este. Chega assim à noção de espaço autobiográfico, um conjunto de textos referenciais e de ficção através dos quais o autor constrói, articuladamente, uma imagem de si.
Então poderemos talvez dizer que não é a escrita que se alimenta da vida, mas a vida e a personalidade do autor que são criadas pela escrita.

terça-feira, outubro 13, 2009

O HONROSO CARGO

O bairro dos mortos, como era conhecido pela rapaziada da minha rua, ergue-se num chão declivoso com a forma aproximada dum rectângulo. Está limitado a norte pela Rua da Bica do Marquês, a sul pela Travessa da Boa-Hora (a rua da praça), a oriente pela Rua de Dom Vasco, e a ocidente pela Calçada da Ajuda – a tal dos quartéis e dos cavalos a que se refere Baptista-Bastos nas Bicicletas em Setembro. Cavalos e cavaleiros, descendo a calçada, ao domingo, para o render da guarda no Palácio de Belém, recebiam da malta o apodo de capicuas: uma besta, uma sela, uma besta.
Chamávamos-lhe bairro dos mortos pelas placas toponímicas que identificam as ruas, todas respeitantes a militares falecidos em combate ou celebrizados por feitos heróicos que alegremente ignorávamos: Rua Comandante Assis Camilo, Rua Cabo Floriano de Morais, Rua Coronel Pereira da Silva, Rua Soldado António Costa, e outras.
O bairro era uma colecção de prédios monótonos e amarelentos, de fachadas tristes, as janelas entreabertas para o olhar viscoso das vizinhas, as ruas dormentes de alcatrão fendido e irregular. No centro das casas e das vias ficava (fica ainda) a Escola Primária nº 60, fundada, conforme informação lapidar, em 15 de Setembro de 1934, ano dois da famosa ordem constitucional que nos quis obedientes, respeitadores, de brandos costumes e orgulhosamente sós. Lembro-me de ler em Alexandre O’ Neill:
Neste país em diminutivo, respeitinho é que é preciso.
Verifiquei no domingo passado que, afinal, o bairro não mudara muito. Mais automóveis, menos carros eléctricos chiando nos carris da Rua da Bica e da Rua de Dom Vasco, gente mais composta assomando às janelas, agora com persianas de plástico e caixilhos de alumínio, mas, no fundo, o mesmo clima soturno, de fastio, sem um canto de jardim ou uma tira de relva, entrevendo-se apenas, em escassos pontos da sua área, uma nesga da língua azul do rio com o imprevisto dum barco e o arraial de silos nas margens da Palença.
Vem tudo isto por causa de uma carta cuja parte inicial aqui reproduzo:

Conforme poderá verificar pela cópia do alvará de nomeação afixado na Câmara Municipal foi nomeado para o honroso cargo de Escrutinador (secção de voto nº 5) da Assembleia de voto da freguesia de Ajuda que funcionará na Escola Primária nº 60 – R. Coronel Pereira da Silva.

Foi por esta singular convocatória que passei todo o domingo no bairro dos mortos, urdindo evocações poéticas e descarregando prosaicamente os cadernos eleitorais. Às nove da noite ainda contava votos. Fui-me deitar, cansado dos trabalhos do honroso cargo, sem saber quem ganhara e perdera naquele dia de eleições.

segunda-feira, outubro 05, 2009

A VIZINHA

Chegava a casa, ao fim do dia, cansado e triste. Sete horas de trabalho monótono diante do computador, a cabeça pendente sobre o teclado, os olhos doridos dos revérberos do ecrã.
Estacionava o carro num dos rectângulos marcados a tinta branca no chão da praceta, e dirigia-se ao prédio onde morava, uma torre insolentemente disparada aos céus como se quisesse sorver o infinito.
Subia no elevador até ao seu apartamento, o 8º F. Metia a chave na fechadura, dava quatro voltas, e lastimava o estrépito metálico que se soltava dela. Denunciava-o.
Era então que os passos de mulher irrompiam no andar de cima, perseguindo-o por toda a casa.
Jantava, arrumava a loiça. Sentava-se finalmente para ler um livro ou burilar um poema, e os passos que sentira na cozinha abatiam-se sobre a solidão da sua mesa de trabalho.
Abandonava a caneta, deixava-se tomar por uma lassidão que lhe mostrava uma mulher de sapatos de salto alto e pernas cheias, o ventre flácido, os seios desabados sobre o círculo grosso da cintura, o rosto rotundo num grande alarde de fealdade impune.
Ele nascera para cantar o perfume e a beleza do corpo, para viajar nos cabelos das mulheres quando neles se insinua o vento, para amar as tardes de sol e as promessas das manhãs de bruma. Mas esgotava-se nas rotinas dum escritório cinzento, prisioneiro dos sonhos, desassossegado em casa pelo assédio obsceno do andar de cima.
Toda a noite era perseguido pelo tropel selvagem da fealdade. Levantava-se exausto, horrorizado.
Não sabia se alguma vez encontraria o esplendor da beleza. Estava seguro, porém, de que nunca subiria ao 9º F.

O "confiteor" do artista

Natureza, feiticeira impiedosa, rival sempre vitoriosa, deixa-me! Pára de provocar os meus desejos e o meu orgulho! O estudo do belo é um duelo em que o artista grita de pavor antes de ser vencido.

Charles Baudelaire, O Spleen de Paris.

terça-feira, setembro 29, 2009

DEIXEM-ME CONSPIRAR!

Declaração do P.R., hoje, às vinte horas:

- A mais desonesta, demagógica e mistificadora declaração política produzida por um presidente da república no nosso regime democrático
.

domingo, setembro 27, 2009

ESCAPOU

Nem sempre governou com acerto, incompatibilizou-se com vastos sectores sociais, teve contra si os representantes dos patrões e dos trabalhadores, e deixou por cumprir algumas importantes promessas eleitorais – mas não perdeu!

Como se explica isto?

Quanto a mim, por três ordens de razões:

PRIMEIRA: Apesar dos erros cometidos e da marca de classe das suas políticas, deixou passar uma imagem de quem estava a fazer o melhor que podia. Podem acusá-lo de tudo, mas não de ter sido um governante apagado e conformista. Demonstrou atitude, tomou medidas e tentou uma política reformista em diferentes áreas.

SEGUNDA: Beneficiou com a recessão económica internacional. Por um lado protegeu-o, ao dar-lhe uma justificação para o incumprimento dos objectivos económicos do seu programa; por outro, permitiu que surgisse ao eleitorado como a opção mais credível para continuar a enfrentar a crise: perante uma situação aflitiva, não se muda abruptamente de timoneiro.

TERCEIRA: Com as “campanhas negras” que lhe moveram – e que, como se viu, vieram de todos os lados, inclusive da presidência da república – acabou por despertar simpatias mesmo fora do seu eleitorado natural. Se houve quem desse crédito a tudo o que de mau sobre ele se disse, houve também quem achasse desproporcionados, improváveis e maliciosos os conteúdos das sucessivas acusações que lhe foram sendo feitas.

Deixou fugir a maioria absoluta. Vai ser obrigado a fazer compromissos, não se sabe muito bem como e com quem, e é de crista murcha que vai entrar no novo ciclo político. Porém, para quem, há poucas semanas, estava praticamente morto e enterrado, os resultados ora obtidos só podem saber a vitória.

quarta-feira, setembro 23, 2009

ÁLVARO DE CAMPOS




Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
– Tirava os brincos do prego,
Casava c’um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
– (Ela conhece-me a fundo)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
– Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
– Então, filho, nada feito,
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

(Comunicado pelo Engenheiro Naval Sr. Álvaro de Campos em estado de inconsciência alcoólica.)

ASFIXIA


Tanto falou de asfixia que está mesmo a ficar asfixiada. Agora que Cavaco lhe cortou o oxigénio, é um caso com prognóstico reservado.

sábado, setembro 19, 2009

PAULA REGO e "O Crime do Padre Amaro"

Amaro era, como diziam os criados, um “mosquinha morta”. Nunca brincava, nunca pulava ao sol.
(…) Tornou-se muito medroso. Dormia com lamparina, ao pé de uma velha ama. As criadas, de resto, feminizavam-no; achavam-no bonito, aninhavam-no no meio delas, beijocavam-no, faziam-lhe cócegas, e ele rolava por entre as saias, em contacto com os corpos, com gritinhos de contentamento. Às vezes, quando a senhora marquesa saía, vestiam-no de mulher, entre grandes risadas; ele abandonava-se, meio nu, com os seus modos lânguidos, os olhos quebrados, uma roseta escarlate nas faces.

Eça de Queiroz, O Crime do Padre Amaro, Lisboa, Livros do Brasil, s/d, pp. 35 e 36.

sexta-feira, setembro 18, 2009

REPÚBLICA DAS BANANAS

Estarão recordados de como Cavaco Silva chegou a presidente do PSD em Junho de 1985. Enfastiado da monotonia de Lisboa, viajou até ao congresso da Figueira da Foz para fazer a rodagem do carro que acabara de comprar. Só que entrou como militante de base e saiu como líder. Uns meses mais tarde seria primeiro-ministro, lugar que ocupou durante dez anos.
Hoje é presidente da república e tudo indica que se tenha servido de um jornal para construir uma intriga política. Teve tempo suficiente para investigar a vigilância que alegadamente lhe era movida pelos serviços secretos. Poderia ter confrontado o primeiro-ministro com as suas suspeitas, poderia ter accionado os órgãos de fiscalização, mas não, preferiu passar uma informação confidencial ao jornal de Belmiro de Azevedo e fazer rebentar a bomba em vésperas de eleições. Hoje descobriu-se-lhe a careca.
Cavaco Silva não é uma personalidade isenta e acima da esfera dos partidos, como é requerido pela função que exerce. Admite-se que esteja farto de coabitação e que bem gostasse de ter no governo a sua correligionária Manuela Ferreira Leite, mas não pode agir segundo modelos típicos de uma qualquer república das bananas. Seja qual for o resultado das presentes eleições, acho que não merece o segundo mandato. Espero bem que o perca!

segunda-feira, setembro 14, 2009

MARIDOS













Li ontem na internet a entrevista concedida por Judite de Sousa ao "Expresso":

P: José Sócrates também nunca foi muito simpático consigo nas entrevistas que lhe deu. Sabe qual é a razão?
R: É por causa do meu marido. Há muito sectarismo e mesquinhice na política. Sou jornalista há 30 anos. Já era a Judite de Sousa antes de ser casada com Fernando Seara. Não admito que ponham em causa o meu profissionalismo e a minha independência por estar casada com um político.

Ainda impressionado com tão extraordinária resposta, ouvi hoje na Antena 1 a entrevista a Sócrates conduzida por Maria Flor Pedroso. O chefe do governo agastou-se várias vezes com as perguntas da jornalista, e, verdade seja dita, não foi muito simpático com ela. Pergunto: alguém me poderá dizer quem é o marido de Maria Flor Pedroso?

quinta-feira, setembro 10, 2009

À MEMÓRIA DE FERNANDO PESSOA (poema de António Boto)

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boémia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio de descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias-
Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga: as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver -
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...

Poetas, escutai-me. Transformemos

A nossa natural angústia de pensar -
Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!



António Boto, Canções - Poema de Cinza, Lisboa, Edições Ática, 1975.

quarta-feira, setembro 09, 2009

ANTÓNIO BOTO (1897-1959)


Fernando Pessoa falou dele como sendo o único poeta português a quem podia aplicar-se, sem dissonância, a designação de esteta (Revista Contemporânea, 1922). José Régio foi pelo mesmo caminho, elevando-o aos píncaros da excelência no ensaio António Boto e o Amor (1938).
Porém, o apreço literário que lhe era dispensado pelos seus pares não encontrou correspondência no juízo que dele tinham como homem e ser social. António Boto era vaidoso, desleal, sempre disposto à mentira e à intriga. Conta João Gaspar Simões (Retratos de Poetas que Conheci, 1974), ter em tempos recebido uma carta assinada por um desconhecido “Mário” que rezava assim:

Então o sr. não sabe que na moderna poesia portuguesa há só três poetas geniais? Não sabe quem são? Pois eu lhe digo:
Fernando Pessoa
António Botto
José Régio.
Já sabe agora? O resto é merda, como você.

Almada Negreiros dava-lhe o epíteto de serpente, e mesmo José Régio não o poupou nos volumes As Monstruosidades Vulgares (1960) e Vidas São Vidas (1966) do ciclo romanesco A Velha Casa, projectando os seus ademanes e idiossincrasias na personagem desprezível do poeta João Salvador.
Apesar da infelicidade de alguns escritos como, por exemplo, Fátima – Poema do Mundo com o inenarrável soneto de louvor ao cardeal Cerejeira (Rio de Janeiro, 1955), foi artista que deixou obra. É assim, ninguém é perfeito.