quinta-feira, outubro 21, 2010

A CABEÇA DA GÁRGULA


No romance “A Noite do Oráculo”, de Paul Auster, há um episódio em que a cabeça duma gárgula de pedra se desprende da fachada de um prédio de apartamentos, passando a poucos centímetros do crânio de Nick Bowen, uma personagem da narrativa que atravessa certas dificuldades no seu relacionamento conjugal.
A pedra que só por acaso não o matou, deu a Nick Bowen o ensejo de rapidamente reflectir sobre a vida e os seus imponderáveis. Devia estar morto, mas escapou ileso, pelo que a situação se lhe afigurou como uma segunda oportunidade de vida que lhe era concedida. Então, em rotura com o passado, resolveu não voltar a casa, tomando um avião para Kansas City, o primeiro que saía do aeroporto de La Guardia naquela noite em que ali chegou. Ia viver a sua segunda vida num lugar que lhe era inteiramente desconhecido, com pessoas que nunca tinha visto, partindo do zero ou de pouco mais. A dificuldade por que acabara de passar dera-lhe um suplemento de coragem para uma nova existência.
Assim, a cabeça da gárgula de pedra é uma boa metáfora para certos momentos das nossas vidas. Todos temos um tempo em que somos surpreendidos pela provação: uma doença grave, a morte de um filho ou de uma pessoa muito querida, ou essas outras formas de morte que são o afastamento e a separação. Felizmente que a cabeça da gárgula nem sempre nos despedaça o crânio. Ainda incrédulos e assustados, olhamos em volta como se não víssemos nada, sacudimos o pó das roupas, contemplamos os estilhaços de pedra no chão e acreditamos ainda mais nas nossas forças. É então que tomamos o avião para a nossa Kansas City, sabendo que nenhuma viagem é mais importante que aquelas que fazemos dentro de nós.

4 comentários:

RAA disse...

É verdade, meu caro, nem que seja à volta do nosso quarto.

d.e. disse...

Ah!, o Xavier de Maistre da epígrafe das "Viagens..."!

Custódia C.C. disse...

Gostei da análise Manel.
Muitas vezes precisamos de levar uma "martelada", mesmo que em sentido figurado, para olhar em volta e partir para ... uma mudança de vida, de comportamento, de atitude, por aí... Cada um saberá o que gostaria ou precisaria de mudar :)

Manuel Nunes disse...

É isso, Custódia. As adversidades podem ser muito úteis. Neste sentido, lembro-me sempre do conselho de Blaise Pascal a propósito das doenças: "Faire le bon usage des maladies".