Dez anos depois volto a este texto. Temas e passagens reproduzidos quase com as mesmas palavras da "Nobel Lecture" de 7 de Dezembro de 1998 na Academia Sueca; a oposição campo / cidade, de Azinhaga e Mouchão de Baixo às dez moradas (em pouco mais de dez anos) na "metrópole lisboeta". Há coisas surpreendentes: aquelas, por exemplo, em que o memorialista alude aos desvios éticos do progenitor e maus tratos infligidos à esposa. Há coisas bonitas: aos dezoito anos, Saramago namorava com Ilda Reis e tinha uma relação de amizade com um pintor de cerâmica da fábrica Viúva Lamego, um tal Chaves a quem encomendou um prato em forma de coração para oferecer à namorada. Tinha pintada uma quadra da sua autoria: «Cautela, que ninguém ouça / o segredo que te digo: / dou-te um coração de louça / porque o meu anda contigo.»
segunda-feira, outubro 22, 2018
sexta-feira, outubro 19, 2018
quinta-feira, outubro 18, 2018
quarta-feira, outubro 17, 2018
RECEITA DE SOPA
Lá iam as duas, no declive dos
anos, de passinho curto e conversa branda. Uma curgete, uma cabeça de nabo, uma
batata doce… A sopa é muito boa para a saúde, tem vitaminas e favorece o
trânsito intestinal. Um dente de alho e dois pés de salsa… Esta parte da
receita já não ouvi, é imaginação. Conversa lenta, hidratante. Traziam nas mãos
umas revistas coloridas. Consegui ver o título de uma delas: A SENTINELA.
terça-feira, outubro 16, 2018
O PRINCIPEZINHO (IV)
No asteróide 326 vivia um vaidoso.
«Ah! ah! Cá temos um admirador - exclamou o vaidoso mal avistou ao longe o principezinho.
Porque, para os vaidosos, todos os outros homens são admiradores.»
segunda-feira, outubro 15, 2018
PINACOTECA
PAOLO UCCELLO, tríptico de A Batalha de San Romano (1435-1455/60), hoje repartido pela Galeria dos Ofícios (Florença), pela National Gallery (Londres) e pelo Louvre. Obra de arte referida no Capítulo 6 de O Pintor de Batalhas, de Arturo Pérez-Reverte. O tríptico representa o episódio militar ocorrido a 1 de Julho de 1432 em San Romano, no vale do Arno, entre os exércitos de Florença e de Siena.
domingo, outubro 14, 2018
VOU LENDO
Tanto quanto me permite a leitura do 1º capítulo, avisto um diálogo
(eventualmente conflitual, seguramente complementar) entre a pintura e a
fotografia. Predadora, ainda que testemunhal, a arte de fotografar em cenários
de guerra. É interessante que na sexta-feira passada, no Clube de Leitura do
Museu Ferreira de Castro (Sintra), Julieta Monginho, autora de Um Muro no Meio do Caminho, tenha
manifestado o seu pudor em fotografar os refugiados do campo da ilha de Chios
(Grécia) onde trabalhou como voluntária. Em Pérez-Reverte, O Pintor de Batalhas, o protagonista Faulques descarrega a sua
velha Leica 3MD com objectiva de 50 milímetros sobre uma rapariga deitada numa
esteira num campo de refugiados do sul do Sudão: « A rapariga era jovem e de
uma beleza translúcida apesar da cicatriz horizontal que lhe marcava a testa e
dos lábios fendidos (…) pela doença e pela sede. E tudo, a cicatriz, as gretas
dos lábios, os dedos finos e ossudos da mão junto ao rosto, as linhas do queixo
e a ténue insinuação das sobrancelhas, o fundo do entrançado romboidal da
esteira, pareciam confluir na luz dos olhos, no reflexo de claridade nas íris
negras, na sua fixa e desesperada resignação. Uma máscara comovedora,
antiquíssima, eterna, onde convergiam todas aquelas linhas e ângulos. A geometria
do caos no rosto sereno de uma rapariga moribunda.»
sábado, outubro 13, 2018
GRANDE PLANO
JOANNA KULIG em Guerra Fria (2018), filme polaco realizado por Pawel Pawlikowski. Em exibição no Ideal e no El Corte Inglés. Gostei de ver.
quarta-feira, outubro 10, 2018
O PRINCIPEZINHO (III)
O rei do asteróide 325:
«O rei, vestido de púrpura e arminho, encontrava-se refastelado num trono muito simples, mas majestoso.
- Ah! Cá temos um súbdito! - exclamou o rei, mal avistou o principezinho.
E o principezinho pensou com os seus botões:
"Como é que ele pode saber quem eu sou se nunca me tinha visto?"
Ainda não tinha apreendido que, para os reis, o mundo se encontra extremamente simplificado. Todos os homens são súbditos.»
terça-feira, outubro 09, 2018
O PRINCIPEZINHO (II)
Sobre a flor do principezinho, uma flor de que só há um exemplar em milhões e milhões de estrelas:
«Nunca lhe devia ter dado ouvidos. Nunca se deve dar ouvidos às flores. Deve-se é olhar para elas e cheirá-las. A minha, perfumava-me o planeta todo, mas eu não era capaz de dar valor a isso. (...) Não fui capaz de entender nada. Devia tê-la avaliado não pelas suas palavras, mas pelos seus actos. Ela perfumava-me e dava-me luz! Eu nunca devia ter fugido! Devia era ter sido capaz de perceber toda a ternura escondida naquelas suas pobres manhas. As flores são tão contraditórias! Mas eu era novo de mais para a saber amar.»
segunda-feira, outubro 08, 2018
O PRINCIPEZINHO (I)
A metáfora dos três embondeiros que começaram por ser arbustos e depois cresceram até tomarem conta do pequeno planeta. Este era habitado por um preguiçoso que não se ralou com eles e o resultado está à vista.
sábado, outubro 06, 2018
quarta-feira, setembro 26, 2018
"NA PATAGÓNIA"
Uma das
histórias surpreendentes narradas em Na
Patagónia é a do militante anarquista Simón Radowitzky, nascido na Ucrânia,
de família judia, em 1891, e falecido na Cidade do México em 1956. Diz o autor
que na Argentina de princípios do século XX as palavras russo e judeu como que
eram sinónimas. Só que este judeu não era como os de há dois mil anos que
mataram o Justo. Radowitzky matou à bomba o injusto chefe da polícia de Buenos
Aires, coronel Ramón Falcón, tendo sido preso na colónia penal de Ushuaia, na
Terra do Fogo. Corria o ano de 1909. Torturado e sodomizado punitivamente pelos
seus carcereiros, fugiu da prisão com o apoio de correlegionários, voltando a
ser preso e finalmente indultado pelo presidente Yrigoyen, em 1930, «num gesto de
boa vontade para com a classe operária». Radowitzky quis voltar à Rússia,
desconhecendo que na pátria revolucionária se tinha dado o massacre de anarquistas
em Kronstadt. Combateu em Espanha e veio morrer ao México, no mesmo país onde dezasseis
anos antes fora assassinado Trotsky.
sábado, setembro 22, 2018
sexta-feira, setembro 21, 2018
VOU LENDO
Na área de anomalias congénitas do Museu Médico de Siriraj, Banguecoque - uma passagem deste "livro de viagens", 12º capítulo da 3ª parte:
«Talvez uma parte da aversão à morte tenha a ver com o rosto de tristeza que os mortos sempre apresentam. Sisudos, parecem contrariados por terem morrido, como se estivessem a ter um sonho mau.»
Lembrei-me de Ricardo Reis:
O sono é bom pois despertamos dele / Para saber que é bom. Se a morte é sono / Despertaremos dela; / Se não, e não é sono, // Com quanto em nós é nosso a refusemos / Enquanto em nossos corpos condenados / Dura, do carcereiro, / A licença indecisa. // Lídia, a vida mais vil antes que a morte, / Que desconheço, quero; e as flores colho / Que te entrego, votivas / De um pequeno destino.
quarta-feira, setembro 19, 2018
O TRABALHO, O CAPITAL E O PERIGO VERMELHO
NA DÉCADA DE
30, DURANTE O ÊXODO DE MUITOS AMERICANOS PARA A CALIFÓRNIA EM BUSCA DE
TRABALHO E DIGNIDADE ---
«Há aí um
tipo que se chama Hines. É dono de uns trinta mil acres de terra, com pêssegos
e uvas, e tem uma fábrica de frutas de conserva e um lagar. Bem, ele vive
constantemente a gritar contra “os malvados vermelhos”. “Esses vermelhos dos
diabos levam o país à ruína”, diz ele. “Temos de os enxotar daqui, a esses
patifes desses vermelhos.” Bem, um outro tipo que acabava de chegar do Oeste,
ouviu a coisa. Coçou a cabeça e disse: “Olhe, senhor Hines, eu estou aqui há pouco
tempo. O senhor pode dizer-me quem são esses malvados desses vermelhos?” Bem,
rapazes, o Hines respondeu assim: “Um vermelho é um desses filhos da mãe que
exigem trinta centavos à hora quando só queremos pagar vinte e cinco.” O rapaz
ficou a pensar no caso, coçou a cabeça e disse: “Olhe, senhor Hines, eu não sou
nenhum filho da mãe, mas também quero trinta centavos à hora. Quem é que os não
quer? Que diabo, senhor Hines, se assim é, então toda a gente é vermelha.”»
--- JOHN
STEINBECK, As Vinhas da Ira, tradução
de Virgínia Motta.
segunda-feira, setembro 17, 2018
PORT-VENDRES
Port-Vendres, Pays Catalan, France - foto tirada em Abril deste ano quando por lá passei. Referência a este porto de pesca, a propósito das vicissitudes do Reino da Auracânia e Patagónia, no capítulo 8 de Na Patagónia, de Bruce Chatwin, que agora leio. O Reino nunca mudou a sua corte de Paris, mas abriu consulados em diversos pontos do mundo, e também aqui em Port-Vendres. Gostei de saber.
sábado, setembro 15, 2018
GRANDE PLANO
ASTRID OFNER no papel de Antígona, filha incestuosa de Édipo e Jocasta, desafiadora de Creonte, o tirano de Tebas. Filme Antígona (1992), de Straub-Huillet, segundo a adapatação à cena feita por Brecht em 1948.
quinta-feira, setembro 13, 2018
ESCOLHAS
Num número antigo da
revista Estante (FNAC), leio uma
notícia curiosa: um júri constituído por Clara Ferreira Alves, Pedro Mexia,
Carlos Reis, Manuel Alberto Valente e Isabel Lucas elegeu, a pedido da revista,
os 12 melhores livros portugueses dos últimos 100 anos. O resultado foi este:
- O Delfim, de José Cardoso Pires
- Os Passos em Volta, de Herberto Helder
- Para Sempre, de Vergílio Ferreira
- Sinais de Fogo, de Jorge de Sena
- Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa
- Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio
- O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago
- Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes
- A Grande Casa de Romarigães, de Aquilino Ribeiro
- A Sibila, de Agustina Bessa-Luís
- Finisterra, de Carlos de Oliveira
- Húmus, de Raul Brandão
Destes, há um que não
li.
Se a lista fosse
alargada para 15, acrescentaria:
- A Selva, de Ferreira de Castro
- Barranco de Cegos, de Alves Redol
- Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho.
terça-feira, setembro 11, 2018
sábado, setembro 08, 2018
sexta-feira, setembro 07, 2018
VOU LENDO
O título
remete para a fala de Julieta Capuleto no Acto II, Cena 2 de Romeu e Julieta:
What's in a name? That which we call a rose
By any other word would smell as sweet;
O nome, por
si só, não diz nada; diz, sim, daquilo que se sente por determinada pessoa ou
coisa. Mesmo com outro nome, seria sentido de igual maneira. Como o perfume da
rosa, ainda que a flor não se chamasse rosa.
«Extirpado o
nome, ficará o amor,
ficarás tu e
eu – mesmo na morte,
mesmo que em
mito só» = ANA LUÍSA AMARAL, Abril de 2017.
quinta-feira, setembro 06, 2018
Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram; daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poetas românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.
= Bernardo Soares, O Livro do Desassossego.
quarta-feira, setembro 05, 2018
RELEITURAS
No primeiro dia do ano e nos que se seguiram ninguém morreu, a inexorável parca já desprovida da sua acerada tesoura. A santa igreja católica está preocupada: se não há morte, não há ressurreição, não há a vida eterna no paraíso celeste. O governo está preocupado: há sectores da economia, como as agências funerárias e as seguradoras, que vão entrar em crise. E os lares de terceira e quarta idades («lares do feliz ocaso») a abarrotarem de velhos que se recusam a partir? Tudo muito complicado, antes a morte que tal sorte.
terça-feira, setembro 04, 2018
POÉTICAS
«O elevador de Santa Justa é um caligrama.»
- ADÍLIA LOPES, Estar em Casa, Assírio & Alvim, 2018.
=Foto de 4-9-2018=
segunda-feira, setembro 03, 2018
GRANDE PLANO
JANE BIRKIN e MICHEL PICCOLI em La belle noiseuse (1991), de Jacques Rivette, adaptação cinematográfica da narrativa de Balzac Le chef-d´oeuvre inconnu.
domingo, setembro 02, 2018
quinta-feira, agosto 30, 2018
O POETA DE PONDICHÉRY
Em Jacques o Fatalista, de Diderot, é
contada a história do mau poeta que o narrador (Diderot, ele mesmo) aconselha a
ir para Pondichéry, feitoria francesa da costa oriental da Índia, para aí tentar
fazer fortuna com um negócio de joalheiro. Se o mau poeta se tornasse rico em
Pondichéry (como veio a acontecer), continuaria certamente a fazer maus versos,
mas teria o conforto da fortuna na sua gorada subida ao Monte Parnaso.
Nos doze
poemas de O Poeta de Pondichéry (1986),
Adília Lopes glosa as venturas e desventuras desta personagem de Diderot. Pela
correspondência literária do enciclopedista, sabe-se que ela existiu na vida real com o apelido de Viguier (nota de rodapé de Pedro Tamen,
tradutor da obra para a edição da Tinta da China).
Ainda bem
que o homem enriqueceu com os seus negócios: ser mau poeta e ainda por cima
pobre é fardo difícil de suportar.
quarta-feira, agosto 29, 2018
segunda-feira, agosto 27, 2018
domingo, agosto 26, 2018
COMPRAS DE FIM-DE-SEMANA
Odes Modernas, ontem, no mercado de livros da estação do Cais do Sodré. L´Oeuvre, hoje, na secção de livros usados da Barata. Sobre este, tenho uma curiosidade a revelar, mas não aqui... Cada um pelo preço de 5 €.
sábado, agosto 25, 2018
RUA DO SOL AO RATO
Ontem, em Lisboa, dei com isto:
O imóvel é de linhas arrojadas e na parede lateral figura um painel de azulejos. Como seria a toca do velho Castilho de «bom senso e bom gosto»? Acontece - assinalável coincidência - que tinha acabado de comprar as Odes Modernas do Antero:
O Passado! essa larva macilenta,
Misto de podridão, tristeza e sombras,
Se morreu...ressurgiu do seu sepulcro!
Bem o vemos andar, pavonear-se
Entre nós, nos vestidos ilusórios
Da triste morte, arremedando a vida,
Passar - e sobre a fronte desse espectro
Bem se vê uma sombra de tiara
Ou de coroa, ao longe, branquejando!
quinta-feira, agosto 23, 2018
PINACOTECA
RAFAEL, O Triunfo de Galateia (1514), afresco, Villa Farnesina, Roma.
«É a cabeça de uma Virgem de Rafael no corpo da sua Galateia» - o senhor marquês dos Arcis para a senhora de La Pommerayde a propósito da menina d´Aisnon. Em Jacques o Fatalista, de Diderot.
domingo, agosto 19, 2018
quinta-feira, agosto 16, 2018
quarta-feira, agosto 15, 2018
INSTANTÂNEOS
Cascais, área de restaurantes do centro comercial.
Bicou o arroz e a salada, mas não tocou na cerveja.
Bicou o arroz e a salada, mas não tocou na cerveja.
segunda-feira, agosto 13, 2018
TOPÓNIMOS
Ericeira, 12-8-2018
Lápide existente no nº 35 da Rua de Baixo: «Nesta casa viveu JOSÉ CARDOSO PIRES com os seus amigos. A sua escrita e a dignidade solitária de um dos maiores escritores do nosso tempo. Maio 99. M.V.S.»
domingo, agosto 12, 2018
sábado, agosto 11, 2018
PERIGO DE GALGAMENTO
Há que ficar atento às ondas com sereias
dentro. A horas certas, elas galgam
por cima das mais indefectíveis solidões.
Prodigiosos galgamentos! E os ponteiros
do coração, esse relógio doido,
não dão conta do perigo.
Ericeira, 11-8-2018
dentro. A horas certas, elas galgam
por cima das mais indefectíveis solidões.
Prodigiosos galgamentos! E os ponteiros
do coração, esse relógio doido,
não dão conta do perigo.
Ericeira, 11-8-2018
quinta-feira, agosto 09, 2018
quarta-feira, agosto 08, 2018
CARIDADE DE GIOTTO e MAOMÉ II DE BELLINI
Afresco do conjunto As Virtudes e os Vícios, de Giotto, existente na Cappella degli Scrovegni, em Pádua. No primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, a personagem Charles Swann atribui à ajudante da cozinheira Françoise o apodo de "Caridade de Giotto". A rapariga seria parecida com a figura criada pelo pintor italiano para representar aquela virtude. Swann, amante da arte, tanto quanto de Odette de Crécy, nunca perdia a oportunidade de associar as pessoas que conhecia às figuras criadas pelos grandes mestres. Noutra passagem do primeiro volume, Bloch, amigo do jovem narrador, é identificado como Maomé II de Bellini: « Oh, impressionante, tem as mesmas sobrancelhas circunflexas, o mesmo nariz adunco, as mesmas faces salientes. Quando tiver uma barbicha será a mesma pessoa.»
terça-feira, agosto 07, 2018
"UMA NOITE COM O FOGO"
ANTÓNIO MANUEL VENDA nasceu em Monchique em 1968. O relato autobiográfico Uma Noite com o Fogo, publicado em 2009, move-se em torno de uma dessas calamidades que regularmente assolam a serra algarvia. Um livro actual, portanto. Releio o capítulo da águia que voava com o fogo nas penas: um apontamento talvez real, talvez simbólico.
segunda-feira, agosto 06, 2018
Todos os casados do mundo são mal casados, porque cada um guarda consigo, nos secretos onde a alma é do Diabo, a imagem subtil do homem desejado que não é aquele, a figura volúvel da mulher sublime, que aquela não realizou. Os mais felizes ignoram em si mesmos estas suas disposições frustradas; os menos felizes não as ignoram, mas não as conhecem, e só um ou outro arranque fruste, uma ou outra aspereza no trato, evoca, na superfície casual dos gestos e das palavras, o Demónio oculto, a Eva antiga, o Cavaleiro e a Sílfide.
= Bernardo Soares, O Livro do Desassossego.segunda-feira, julho 30, 2018
domingo, julho 29, 2018
DO LADO DE SWANN
Vou relendo o 1º volume da Recherche, agora na tradução de Pedro Tamen. Já passei o episódio célebre da "madalena"e o baptismo da moça de cozinha como Caridade de Giotto. Em Combray, o narrador quando jovem era obrigado a deixar o convívio familiar à hora do jantar. Sofria por isso, sozinho no seu quarto, esperando o beijo da mãe para adormecer. Família culta, mas convencional. O adolescente era já um grande leitor, sonhando com uma mulher que o viesse a amar. E tinha amigos extraordinários, como aquele Bloch que um dia convidou para almoçar. Chegou com hora e meia de atraso, não se desculpou, e ainda disse para a família que o acolhia: « Nunca me deixo influenciar pelas perturbações da atmosfera nem pelas divisões convencionais do tempo. De bom grado reabilitaria o uso do cachimbo de ópio e do kriss malaio, mas ignoro esses instrumentos infinitamente mais perniciosos e aliás chatamente burgueses, que são o relógio e o guarda-chuva.» Antes, respondendo a uma pergunta sobre o tempo feita pelo pai do narrador, respondera: «Senhor, não posso de modo algum dizer-lhe se choveu ou não. Vivo tão resolutamente fora das contingências físicas que os meus sentidos não se dão ao trabalho de mas comunicar.» Assim mesmo. Jovens como estes já não há nos dias de hoje!
sexta-feira, julho 27, 2018
O TEJO, RIO DE POETAS
Terminal Fluvial do Barreiro, 26-7-2018 ao fim do dia.
Os catamarãs da Soflusa têm nomes de poetas. Saí do Terreiro do Paço no FERNANDO NAMORA e regressei no MIGUEL TORGA.
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