sábado, junho 20, 2009

MINISTRO DEBALDE

O ministro Augusto Santos Silva respondeu à intervenção dum deputado do Partido Ecologista “Os Verdes” que levou um balde para o Parlamento. Um balde furado, pretendendo mostrar com tal auxiliar retórico a ineficiência da política energética do governo.
Falando do verbo baldear, derivado de balde - segundo referiu, muito usado na marinha mercante -, disse o aguerrido ministro que os ecologistas deviam “varrer com baldes de água os (seus) convés” , repetindo imperativamente: “baldeiem dos vossos convés os preconceitos.”
Só que o plural de convés é conveses, de acordo com o que se pode ler, por exemplo, em Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, nas regras relativas à formação dos plurais dos nomes.
Um pequeno engano, tão pequeno que nem tira votos, nem prejudica a carreira política do ministro. Isso é, afinal, o que mais interessa, e que se "balde" a língua.

quarta-feira, junho 10, 2009

LUÍS DE CAMÕES ( I )

Camões e as Tágides, Columbano, Museu de Grão Vasco
Há vários meses que, por razões que não são para aqui chamadas, ando acompanhado de Camões. Para ser mais preciso, do Camões épico, o d´Os Lusíadas, o tal poema que serviu em tempos para os estudantes dos liceus se treinarem na divisão de orações. Assim, a epopeia camoniana era apresentada aos liceais não como um corpo vivo, apetecível, mas como um cadáver pronto a ser dissecado sobre uma mesa de anatomia.
Falar d’ Os Lusíadas é tema vasto. Há que ir por partes. Hoje, 10 de Junho, falo do parecer do censor do Santo Ofício, Frei Bartolomeu Ferreira, que analisou a edição de 1572. Diz o dominicano:

Vi por mandado da santa & geral inquisição estes dez Cantos dos Lusíadas de Luís de Camões, dos valerosos feitos em armas que os Portugueses fizerão em Ásia & Europa, e não achey nelles cousa algua escandalosa nem contrária â fe & bõs custumes, somente me pareceo que era necessário advertir os Lectores que o Autor pera encarecer a difficuldade de navegação & entrada dos Portugueses na India, usa de hua fição dos Deoses dos Gentios. (…) Toda via como isto he Poesia & fingimento, & o Autor como poeta, não pretende mais que ornar o estilo Poético não tivemos por incoveniente yr esta fabula dos Deoses na obra, conhecendoa por tal, & ficando sempre salva a verdade da nossa sancta fe , que todos os Deoses dos Gentios sam Demónios.

Ora aí está: Baco, inimigo dos Portugueses, e Vénus, a doce deusa que por mais de uma vez , ao longo da viagem para a Índia, protegeu a armada do Gama, além de todos os outros deuses apresentados por Camões, são demónios, e, ao mesmo tempo, ficções. O bom inquisidor arrumava assim a questão, sem ver nada de escandaloso no poema: nem Vénus a seduzir Júpiter no Canto Segundo, nem os amadores das ninfas no Canto Nono.
Convinha muito à Ordem de S. Domingos aquilo que Camões diz no poema contra os Jesuítas, émulos dos Dominicanos no árduo trabalho de conquistar o Reino dos Céus. Só por tal rivalidade permitiram os homens da Inquisição (Dominicanos) que a epopeia fosse publicada sem nódoas expurgatórias. Ainda bem.

domingo, junho 07, 2009

PLATÃO EM DIA DE ELEIÇÕES

Jean Delville, L´École de Platon, 1898, Musée d´Orsay, Paris
O partido que escolhi nestas eleições está à beira de ganhar. Uma vitória esmagadora, por maioria absoluta, embora, em verdade, não seja bem um partido – talvez uma espécie de frente popular, heteróclita, com distintos níveis de motivação e consciência. Assim, não foi por acaso que me encontrei a ler, neste fim-de-semana, vastos passos do diálogo Górgias de Platão. A retórica e a política sem princípios, a criação pela persuasão de um estado de crença sem ciência – foi tudo isso que o Mestre da Academia denunciou que a mim me afastou das urnas. O Cavaco que vote, mais o Dias Loureiro. Se calhar, apesar da reclusão indigna, até o Oliveira e Costa não deixará de exercer o sacrossanto dever. Têm boas razões para isso. Prova-se, afinal, que não são ingratos para com o sistema que os criou.

sexta-feira, maio 29, 2009

PANFLETO


EM 7 DE JUNHO NÃO IREI VOTAR. Não o faço por comodismo, para aproveitar os feriados e partir de férias. Estarei por cá, e nem sequer penso aproveitar os dias de praia, se é que vai dar em termos meteorológicos para tais recreios. Faço-o por imperativo de consciência! A política nacional afunda-se num pântano (reconheço agora a pertinência da expressão usada por aquele chefe de Governo que, perante o cenário de sombras, optou corajosamente pela desistência). Um pântano bem ilustrado pelo impasse indigno a que se chegou no processo de eleição do Provedor de Justiça. O nosso sistema partidário está caduco, prisioneiro de interesses e de glórias vãs, pedindo votos quando nada faz pelo povo, pelas massas trabalhadoras, pelos reformados pobres e pelos indigentes. O sistema partidário não pensa nos outros, só pensa em si. Sobram-nos os casos tristes dos bairros problemáticos, explorados com avidez pelos canais de televisão; os escândalos financeiros que envolvem membros dos partidos e do Conselho de Estado; o circo parlamentar onde a bancada do Governo e as da Oposição rudemente se confrontam em vez de procurarem soluções para a superação da crise. É o momento de lhes fazer sentir que não é esse o caminho, que a liberdade exige respeito por quem trabalha, por quem não está comodamente sentado à mesa do orçamento: trabalhadores (nacionais e imigrantes), empresários, estudantes, professores, investigadores. NÃO VOTAR EM 7 DE JUNHO É UM AVISO AOS SENHORES DO PODER, UM IMPERATIVO PATRIÓTICO!

segunda-feira, maio 25, 2009

SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA

Catarina Wallenstein no papel de Luísa Vilaça
Adaptação ao cinema, por Manoel de Oliveira, de um conto de Eça de Queirós, escrito em Cuba em 1873, quando o autor ali desempenhava funções diplomáticas. Um Macário e uma Luísa Vilaça do século XXI. Um belo filme sobre o texto famoso do grande Eça.

domingo, maio 24, 2009

A IMPERTINÊNCIA DE SENTIR ( XVI )

Depois de A Cidadela Branca, leio Istambul de Orhan Pamuk. Pergunto-me se o hüzün istambulense (uma forma de melancolia típica dos habitantes da cidade) não terá algo a ver com a saudade portuguesa, esse sentimento de privação e incompletude em que Teixeira de Pascoaes viu a essência do génio português, aquilo a que chamou a única síntese perfeita entre o sangue ariano e o sangue semita. Pamuk dá-nos sobejos exemplos dessa melancolia de Istambul, um nevoeiro que vem do fundo dos tempos, sitiando as almas dos homens e os seus sentimentos.
Talvez a única ligação entre o hüzün da grande metrópole turca e a saudade portuguesa seja esse comum sentimento de decadência, de perdidos fulgores civilizacionais. Também eles, os turcos otomanos, tiveram as suas Índias. Submeteram vastas regiões do Médio Oriente, do leste da Europa e da África mediterrânica, tendo chegado às portas de Viena e instalado o pânico entre a Cristandade dos séculos XV e XVI.
Mas tiveram Lepanto, como nós tivemos Alcácer Quibir, e tudo se desfez. Chega sempre um momento em que a História se ri da soberba dos povos.

sábado, abril 25, 2009

25 DE ABRIL

“Acham que aquilo é um telejornal?” – A interrogação retórica do homem do leme indignou o Georg von Trapp da TVI (pelo menos de tal se mascarou numa das últimas galas da estação!), como se os telejornais de que é director não fossem, desde sempre, o exemplo acabado da desinformação, do oportunismo, visando claramente as audiências e os benefícios comerciais que as mesmas proporcionam. A pose institucional com que veio a terreiro, qual falsa dama ferida na sua honra, ficou ao nível da grotesca fealdade da apresentadora e da decrepitude física do comentador. Escusava era de ter falado do 25 de Abril. Não é certamente pelos ideais democráticos do movimento que anda metido no mundo da televisão.

domingo, abril 19, 2009

PEREGRINAÇÕES

Numa passagem d´A Cidade e as Serras, Zé Fernandes sobe com Jacinto aos altos de Montmartre, onde então se construía a Basílica do Sacré-Coeur, e olhando Paris põe-se a filosofar sobre os malefícios da cidade e a vil exploração das plebes pela burguesia triunfante. O discurso inflamado do companheiro de Jacinto, atormentado com a perversidade urbana e a barbárie capitalista, só se acalma à hora do jantar, num luxuoso restaurante do Bois de Boulogne, perante um vinho gelado com que põe termo às securas da garganta e às suas filosofias de ocasião. Este trecho do romance queirosiano é a melhor recordação que guardo do Sacré-Coeur, lugar muito frequentado por turistas nestas tardes mornas de Primavera.
Porém, há sempre motivos interessantes a descobrir. Num pequeno jardim sobranceiro à Rue Chappe, praticamente no espaço sagrado da Basílica, há uma estátua de bronze em cujo pedestal podemos ler:


AU
CHEVALIER
DE LA BARRE
SUPPLICIÉ À L’ ÂGE DE 19 ANS
LE 1er JUILLET 1766
POUR N´AVOIR PAS SALUÉ
UNE
PROCESSION


Este é o caso do Chevalier de La Barre que indignou Voltaire. Não deixa de ser tocante que ali à beira do templo, perante o espírito do lugar, se preste homenagem tão expressiva a uma vítima da intelorância religiosa.

segunda-feira, abril 06, 2009

"UMA NOITE COM O FOGO"


O romance Uma Noite com o Fogo, de António Manuel Venda, foi apresentado no dia 1 de Abril na loja Bertrand da Avenida de Roma.
Trata-se do relato de uma experiência vivida, ideia sustentada pela epígrafe de Mário Quintana:

“O autor nada mais fez do que vestir a verdade…”.

Porém, a experiência vivida não é descrita como numa simples crónica. A verdade dramática vestida pelo autor não prescinde da ficção, esse canto de sereia em que acreditamos como se fosse a realidade pura.
É essa mistura de referencialidade e imaginação que nos leva a classificar o texto de António Manuel Venda como uma autoficção, designação de género definida basicamente como um relato de conteúdo simultaneamente autobiográfico e romanesco em que se regista identificação nominal entre autor, narrador e protagonista.
Apesar de em Uma Noite com o Fogo essa identificação não ser explícita, a sobreposição daquelas três instâncias não deixa de estar presente ao longo de todo o texto. Percebe-se bem de onde e para onde viaja o protagonista naquela noite em que o fogo andou à solta. Percebe-se bem onde ficam aqueles montes de sobreiros e medronheiros assolados pela fúria das chamas. Na personagem que se defronta com o fogo não conseguimos ver outra figura que não seja a do próprio autor, lá na serra algarvia onde nasceu e onde viveu os tempos da infância e da juventude, a tal floresta do sul que deu nome ao seu blogue – uma floresta destroçada pela incúria de todos, não só dos que se sentam nas cadeiras do poder.
O tempo da história resume-se a uma única noite, o suficiente para emocionar o leitor, tanto pelo combate desproporcionado contra a calamidade natural (?), como pela intervenção frequente da memória autoral numa espécie de “recherche du temps perdu” – um mergulho no mundo da infância e da inocência perdida.
Um livro muito interessante de António Manuel Venda, dentro do género a que nos habituou, tão raro, por enquanto, nas nossas letras.

terça-feira, março 10, 2009

CRISTINA BRANCO canta JOSÉ AFONSO



Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa

terça-feira, fevereiro 24, 2009

A IMPERTINÊNCIA DE SENTIR ( XV )

Jesuina (assim mesmo, sem diacrítico no i), protagonista de As Bicicletas em Setembro, talvez não fosse viúva no sentido usual do termo. Há muitas formas de viuvez: a mais dolorosa será, provavelmente, viuvar de alguém que se encontra vivo.
Diz-se na contracapa do livro que todos nós já perdemos alguma coisa. Todos nós já perdemos alguém, embora o mais importante nem seja a perda originada pela morte ou aquela que a separação tantas vezes impõe aos que se amam. A perda mais difícil de aceitar é a das pessoas que saíram da nossa vida pelos seus próprios pés, ou, em outra variante, a das pessoas que nunca nela chegaram a entrar.
Jesuina vivia nas margens do tempo e do espaço, reclusa na sua própria casa, cercada de jornais velhos e de crianças de quem tomava conta, lendo o Amor de Perdição, inventando cores para as palavras como Rimbaud inventara para as vogais.
Tudo isto num bairro cinzento, pesado como o odor da salsugem que sobe do rio no período da vazante – ali à beira do Largo da Paz, dos quartéis da Calçada da Ajuda, do Jardim Botânico, da casa de Alexandre Herculano, da Torre do Galo, do Salão Portugal e das Terras do Desembargador.
Jesuina não é só do bairro da Ajuda, é de todos os bairros com as suas ruas de solidão.

(Baptista-Bastos, As Bicicletas em Setembro, Porto, ASA Editores, 2007.)

domingo, fevereiro 08, 2009

O PROBLEMA DO DESEMPREGO

Atravessou como se seguisse num carreiro de formigas a estreita passagem entre a cancela e o posto do pessoal da segurança. Tinha acabado de chegar no autocarro fretado pela empresa, uma lenta viagem diária por lugarejos e ermos, recolhendo as operárias em diversos pontos do percurso. Continuou pelo espaço alcatroado do parque de estacionamento até se meter por uma porta lateral do edifício em cuja platibanda se podia ler:

FÁBRICA DE COMPONENTES DE ELECTRÓNICA

Tinha quinze minutos para despir a gabardina e o casaco, deixar a roupa e a mala no cacifo, vestir a bata, tomar um café tirado na máquina de bebidas do refeitório, encaminhar-se para o posto de trabalho, aguardar o som da campainha que às oito e meia em ponto dava o sinal para o começo da laboração. Antes, à entrada da área fabril, ainda passaria pelo chefe de turno, sempre com a folha de produção nas mãos e um olhar de cobiça comendo-lhe as formas do corpo. Teria ainda cinco minutos para, já sentada no seu lugar, pensar em algumas coisas da vida.
Às sete horas deixara a criança na ama. Passara pela padaria, voltara a casa para tomar o pequeno-almoço, à pressa, antes de se dirigir ao ponto de paragem do autocarro. Levantara-se atordoada, custando-lhe enfrentar a luz, após uma noite de sexo e pouco sono. Tinha pouco mais de trinta anos, o marido à procura de emprego, um filho pequeno. Trabalhava na fábrica desde os vinte e dois anos de idade.
Passara algum tempo na Suíça, chamada por familiares da diáspora com próspero negócio de restaurante e casa de hóspedes. Fazia camas e limpava quartos, chambres, rooms, zimmers – era como quisessem chamar-lhes, que todos aqueles nomes estavam inscritos no reclamo luminoso virado para a estrada que marginava o espelho escuro do lago. Todos menos o nome português, pois não contava para tal efeito a língua nacional, apenas o dialecto em que se dizia e escrevia o árduo trabalho de todos os dias.
Não chegara a concluir o nono ano. O pai era picheleiro, a mãe fazia serviços de limpeza e amanhava o quintal onde floria uma nespereira sobre canteiros de ervilhas e ervas de cheiro. Nunca dispôs de ambiente familiar estimulador dos estudos. Depois das aulas ajudava na cozinha dum restaurante, tomava conta de dois irmãos, e namorava. Fazia-se uma mulher de mão-cheia, bonita e apetecível como um fruto fresco. Os clientes do estabelecimento, jogadores de cartas e amigos dos copos, decrépitos como os velhos canecos que vinham à mesa, sibilavam epigramas obscenos quando a viam passar, e arriscavam sorrisos de dentes foscos, a saliva cobrindo-lhes os cantos da boca, aguados de lascívia e míngua.
Foi numa noite de S. João. Um odor álacre a sardinha assada, o desvario do baile, uma neblina que subia do rio e fazia brilhar o chão das ruas, violando o ciclo natural das estações. Foi por amor ou desejo. Passou a andar de mão dada, às claras, sem medo de ninguém, como se a noite fria de Junho lhe tivesse outorgado um novo estatuto, uma nova força para enfrentar a vida. O pai não tolerava as intimidades de que ia tomando conhecimento, enquanto a mãe contemporizava, fazia que não via nem ouvia. Uns meses depois, subia a um terceiro andar dum prédio antigo de onde se divisava um grande monte, escuro como uma fortaleza, na margem esquerda do rio. Saiu de lá dilacerada e fria, de barriga dormente e pernas frouxas, com uma caixa de comprimidos de sulfamidas na mão.
Do fundo do tempo vieram os cadernos da infância: redacções sobre o Natal e o Dia do Pai, desenhos de girassóis coloridos e casas com duas janelas e uma porta, semelhantes a caras espantadas, de olhos e boca bem abertos perante o inverosímil da paisagem. Num nos cadernos, escreveu:

Quando for grande quero ser enfermeira para tratar as pessoas doentes, os velhinhos e os desempregados sem dinheiro.

Não se lembrou de mais nada para lá daquele ponto. Voltara de novo ao equador da vida. Tinha pouco mais de trinta anos, o marido à procura de emprego, um filho pequeno que deixara na ama às sete horas da manhã.
Não deu conta de que há muito havia tocado a campainha para o arranque do trabalho. Ela disse depois que não ouvira, que se deixara escorregar no plano inclinado duma estranha viagem até ao ponto mais distante e próximo de si, e que tal incidente até deveria ser avaliado pela medicina do trabalho, pois talvez fosse o resultado da tensão quotidiana vivida na fábrica, o medo constante de não atingir os objectivos exigidos pela empresa. Desculpas que não mereceram acolhimento, pois a folha de produção do chefe de turno, apensa ao processo disciplinar, não deixava dúvidas: mais de cem unidades por produzir, o efeito multiplicador induzido sobre os postos de trabalho a jusante, um prejuízo de grossas proporções, algo nunca visto numa empresa com tão eficiente organização fabril. E depois ainda se admiram, referia o despacho da sanção disciplinar, se a fábrica for deslocada para os países do Leste ou para a Ásia.
Chegou a casa, já tarde, com uma folha carimbada para apresentar no centro de emprego da sua área de residência. Encostou a cabeça ao espaldar alto duma velha cadeira e nem por um momento pensou na vida passada. Agora só lhe interessava o que viria a seguir: tinha pouco mais de trinta anos, o marido à procura de emprego, um filho pequeno que deixara na ama às sete horas da manhã, e que, dava-se conta naquele momento, ainda lá estava, esquecido pelos progenitores, aturdidos, a braços com o problema do desemprego.

domingo, dezembro 28, 2008

A IMPERTINÊNCIA DE SENTIR ( XIV)

E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria , ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignomínia crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico. – Isto é dito por Almeida Garrett nas Viagens, cuja história decorre em Julho de 1843, em pleno período da ditadura de Cabral. Dito por Garrett e não por um seu narrador, pois há suficientes provas, ao longo de toda a narrativa, da identificação do autor com o narrador e protagonista. A crítica costuma enfatizar a complexidade da obra, os seus diferentes níveis (narrativa de viagem, novela, carta) e o hibridismo formal típico do Romantismo, mas raramente se detém nas suas marcas autobiográficas. Uma verdadeira autoficção, dizemos nós, muito antes de o termo ter sido inventado, em 1977, por Serge Doubrovsky.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

A IMPERTINÊNCIA DE SENTIR ( XIII )

Em certa altura, no silêncio da casa, a minha mãe dizia como se se tratasse da coisa mais natural do mundo: “Lá está a costureira.” Eu aproximava o ouvido do sítio da parede que ela tinha apontado, e aí ouvia, juro que ouvia, o ruído inconfundível de uma máquina de costura, das de pedal (não existiam outras), e também, de vez em quando, um outro som característico, arrastado, o da travagem, quando a costureira leva a mão direita à roda para deter o movimento da agulha.

(JOSÉ SARAMAGO, As Pequenas Memórias, Lisboa, Editorial Caminho, 2006, p. 89.)


Ouvi-a algumas vezes na casa da minha avó, em Tomar, nas horas lentas dos serões, e também em Lisboa, num terceiro ou quarto andar da Travessa Nova de Santos, onde morei com a família até aos seis anos de idade. Chamavam-lhe a costureira, ou a costureirinha. O som vinha do interior das paredes, de detrás dos móveis ou até dos interstícios do soalho, reproduzindo na perfeição o ruído de uma máquina de costura em pleno funcionamento. O meu pai, de quem herdei, entre outras coisas, um certo pendor para a incredulidade, dizia tratar-se de um insecto que roendo o seu sustento ou vibrando as asas produziria aquele rumor semelhante ao de uma máquina de costurar. Que insecto seria, não sabia dizer, mas recusava as explicações destituídas de racionalidade.
Li hoje n´As Pequenas Memórias de José Saramago o relato de igual experiência vivida pelo escritor nos seus tempos de criança. A explicação que lhe era dada pelos adultos referia uma costureira que por não respeitar os domingos, trabalhando afincadamente nesses dias em vez de os dedicar ao culto de Deus, havia sido condenada a costurar eternamente, eternamente metida dentro das paredes das casas. Já não me lembro que justificação fabulosa me apresentavam para tão intrigante mistério, mas estou em crer não ser muito diferente da que era prescrita ao pequeno José pelos seus familiares.
Tal como Saramago, também eu não voltei a ouvir a costureirinha. Talvez o juiz condenador tenha decidido comutar-lhe a pena, libertando a triste de tão penoso fadário. Ou talvez tenhamos deixado de a ouvir apenas por causa do barulho dos aparelhos de televisão e das potentes aparelhagens de som que passaram a marcar lugar nos nossos espaços domésticos, abafando com os seus decibéis o brando murmúrio da respiração das casas. Tudo é possível.
Não me atrevo a jurar, como o nosso Nobel, mas lá que a ouvi, ouvi, a pobre costureirinha, condenada por um juiz cruel a vaguear de casa em casa, por dentro das paredes, sempre a dar ao pedal da sua máquina de costura. Pequenas memórias? Não me parece.

domingo, novembro 16, 2008

A IMPERTINÊNCIA DE SENTIR ( XII )

A leitura de O Último Cabalista de Lisboa, de Richard Zimler, leva-me de viagem para outro livro: Consolação às Tribulações de Israel, de Samuel Usque, obra-prima da literatura de língua portuguesa do século dezasseis, publicado em Ferrara, Itália, no ano de 1553.
Em ambos os livros (o de Zimler apresenta-se como a transposição literária de um manuscrito da diáspora sefardita), recordamos a intolerância e as exprobações sofridas por uma comunidade laboriosa que apenas aspirava à liberdade de religião e ao respeito pelas suas ancestrais tradições.
Após o massacre de Lisboa de 1506 (a que recentemente se ergueu, junto da Igreja de S. Domingos, um belo memorial) e durante o reinado inquisitorial do Piedoso, milhares de judeus abandonaram o país com prejuízo da economia, da ciência e da cultura portuguesas. Tudo por causa da cristianíssima fé dos reis, do clero fanático e do povo ignaro.

sábado, novembro 15, 2008

SÉGOLÈNE ROYAL

Parece o descanso da guerreira, mas não é. Neste fim-de-semana, em Reims, Ségolène Royal está na luta pela liderança do Partido.
Voto nela!

domingo, novembro 02, 2008

A SUBIDA DAS ÁGUAS ( 15 )

Fui hoje chamado para uma reunião com o director do centro de ajuda psicológica. Pretendia ser informado, de viva voz, sobre a evolução de cada um dos casos que me foram entregues desde a mudança da população para a nova aldeia. Expliquei-lhe que um deles me inspirava particulares cuidados, o do homem que tinha recusado trasladar os restos mortais da sua mulher, referindo-me a ele desta maneira e não pelo nome próprio por me parecer que assim seria identificado com maior facilidade pelo meu superior hierárquico. Logo percebi que o motivo apresentado para a reunião não passava de um mero expediente para chegar a outras indagações. Ouviu quase distraidamente a minha exposição, fazendo correr por entre os dedos um caneta esferográfica, supostamente destinada a tomar notas, enquanto ia olhando os longes da paisagem através da janela que se abria à esquerda da sua secretária.
Devo dizer que nunca simpatizei com este homem. No dia em que me apresentei no centro, questionou-me sobre aspectos da minha vida particular de forma tão despropositada e abusiva que desde logo passei a evitá-lo, só o contactando por rigoroso imperativo de serviço. A pergunta mais extraordinária que então me fez, acabado de chegar e não me conhecendo de nenhum lado, foi se eu era solteiro como indicavam os meus documentos de identificação ou se, como era comum entre muitos jovens, vivia em união de facto com alguém. Confesso que gaguejei, tal a surpresa. Dei uma resposta atabalhoada, inconclusiva, incomodado por me ver constrangido a contar a minha vida a uma pessoa com quem não tinha qualquer intimidade e que se limitava a ser o director do serviço onde acabava de ser colocado.
No prosseguimento da reunião, sempre pouco interessado naquilo que eu lhe ia dizendo, rapidamente se encaminhou para as perguntas que realmente pretendia fazer-me: o que achara eu do jantar oferecido pelo Presidente da Câmara, por que razão me ausentara ainda o discurso não havia terminado, se alguma coisa me parecera mal na organização do referido jantar. Sendo o mandatário da candidatura, disse-me, era de bom grado que registaria as opiniões e críticas dos eleitores.
Falei-lhe da minha fraca disposição para discursos longos, do desinteresse que sentia pela política e do facto de não ser eleitor no círculo do concelho. Isso explicava a minha atitude. Dei-lhe, nestes aspectos, uma resposta franca, mas escondi a revolta sentida perante o arrazoado demagógico do Presidente da Câmara. Indignara-me aquela disposição para iludir com as palavras, o oportunismo das homenagens ao pobre morador falecido, a hipocrisia das alusões aos pastores espoliados das suas terras, as referências aos dias felizes do povo na nova aldeia – como se a felicidade se construísse pelo apagamento da memória e das raízes, pelo internamento de toda a população numa geometria de ruas limpas e paredes brancas.
Foi então, enquanto alimentava estes pensamentos, que ele lançou sobre mim uma frechada súbita:
“Diz-se por aí que costuma frequentar um bar de
gays do outro lado da fronteira.”
A minha perplexidade perante o arrojo e o descaramento da observação não poderia ter sido maior. Nos primeiros instantes, só a indignação dos meus olhos foi capaz de falar. Aquele homem conhecia os lugares que eu frequentava, talvez até as minhas relações pessoais, parecendo-lhe natural inquirir sobre a matéria da minha vida privada e convidar-me a prestar-lhe contas do que fazia para lá das horas de trabalho. Ele deve ter sentido o efeito causado pela sua observação, pois o desenho da boca, onde era visível a mais impudente das determinações, cedeu o lugar a um trejeito sombrio e ameaçador que não podia deixar de ser levado em conta. Confirmei em absoluto, pela forma como procedeu comigo, aquilo que dele se dizia. Tendo sido sempre um funcionário zeloso do regime deposto, logo se adaptou às novas condições criadas pela democracia, com inscrição partidária e prossecução dos seus propósitos carreiristas. Era portanto uma mentalidade do passado, um espírito de inquisidor disfarçando-se sob o cartão dum partido e o folclore das campanhas eleitorais. E foi aí que a minha cólera explodiu. Acabei por lhe dizer que não admitia insinuações e reparos sobre a minha vida privada, que tal não lhe era permitido, e que só em matéria profissional me sentia obrigado a dar-lhe satisfações. O homem deu por terminada a reunião, como se estivesse satisfeito com os resultados da mesma, dizendo-me entre dentes que se tinha limitado a avisar-me, e eu saí para o corredor, a caminho do meu gabinete, num passo lento e triste.
Daí a uma hora teria mais uma sessão com Josué. Sentei-me à mesa de trabalho a ler as notas que vinha tomando sobre o desenvolvimento do seu caso, e senti que nunca como naquele momento ele me despertava tanto interesse. Um interesse que não era afinal do domínio da profissão, onde os progressos até não existiam, mas antes fundado na humanidade daquele ser e daquela vida, nos seus merecimentos e imperfeições que não conhecia por completo, no drama de ter sido o único a deixar tudo sob as águas – elementos que faziam dele a mais singular das pessoas com que me deparara entre os povoadores da falsa terra prometida. Esperei-o com ansiedade, e rapidamente esqueci a impertinência astuciosa do director do centro.
Quando, à hora marcada, dei indicações para chamarem Josué ao meu gabinete, estava longe de imaginar o que ia acontecer.

sábado, outubro 18, 2008

A IMPERTINÊNCIA DE SENTIR ( XI )

Compreende-se bem por que razão o romance Jogo da Cabra Cega, publicado em 1934, foi retirado do mercado e proibido pela censura salazarista durante cerca de trinta anos. Romance modernista, não compatível com a moral vigente e a ordem social e política estabelecida pelo ideal do corporativismo, só lhe foi autorizada uma 2ª edição no ano de 1963, quando o seu autor já se tornara uma figura proeminente da nossa vida literária.
Trata-se de um texto denso, perturbador, no qual a virtude e o vício, o bem e o mal, o amor e o ódio se assumem muitas vezes como categorias indistinguíveis. Sem Deus, ou apesar de Deus, nada mais resta ao sujeito individual, outrora uno, que a aventura da dispersão e do estilhaçamento: ser ele e o outro, e tudo ao mesmo tempo. É assim que lendo este José Régio não podemos deixar de nos lembrar de alguns textos de ficção de Mário Sá-Carneiro.
(Ilustração: reprodução do óleo sobre tela Poeta de Deus e do Diabo, de Ventura Porfírio, datado de 1958; Casa-Museu José Régio, Portalegre.)

domingo, outubro 05, 2008

A IMPERTINÊNCIA DE SENTIR ( X )

No desfecho dum romantismo brasileiro povoado de índios e cânticos nacionalistas, Castro Alves foi o poeta dos escravos, da vergonha brasileira e da consciência abolicionista. Chamaram-lhe condoreiro, de condor, ave soberba que sobreleva no seu voo os altos píncaros dos Andes.
É bom reler O navio negreiro, Vozes d´África e A cachoeira de Paulo Afonso, do melhor que se escreveu, em oitocentos, na língua portuguesa. E do lado de lá do mar!