domingo, fevereiro 08, 2009

O PROBLEMA DO DESEMPREGO

Atravessou como se seguisse num carreiro de formigas a estreita passagem entre a cancela e o posto do pessoal da segurança. Tinha acabado de chegar no autocarro fretado pela empresa, uma lenta viagem diária por lugarejos e ermos, recolhendo as operárias em diversos pontos do percurso. Continuou pelo espaço alcatroado do parque de estacionamento até se meter por uma porta lateral do edifício em cuja platibanda se podia ler:

FÁBRICA DE COMPONENTES DE ELECTRÓNICA

Tinha quinze minutos para despir a gabardina e o casaco, deixar a roupa e a mala no cacifo, vestir a bata, tomar um café tirado na máquina de bebidas do refeitório, encaminhar-se para o posto de trabalho, aguardar o som da campainha que às oito e meia em ponto dava o sinal para o começo da laboração. Antes, à entrada da área fabril, ainda passaria pelo chefe de turno, sempre com a folha de produção nas mãos e um olhar de cobiça comendo-lhe as formas do corpo. Teria ainda cinco minutos para, já sentada no seu lugar, pensar em algumas coisas da vida.
Às sete horas deixara a criança na ama. Passara pela padaria, voltara a casa para tomar o pequeno-almoço, à pressa, antes de se dirigir ao ponto de paragem do autocarro. Levantara-se atordoada, custando-lhe enfrentar a luz, após uma noite de sexo e pouco sono. Tinha pouco mais de trinta anos, o marido à procura de emprego, um filho pequeno. Trabalhava na fábrica desde os vinte e dois anos de idade.
Passara algum tempo na Suíça, chamada por familiares da diáspora com próspero negócio de restaurante e casa de hóspedes. Fazia camas e limpava quartos, chambres, rooms, zimmers – era como quisessem chamar-lhes, que todos aqueles nomes estavam inscritos no reclamo luminoso virado para a estrada que marginava o espelho escuro do lago. Todos menos o nome português, pois não contava para tal efeito a língua nacional, apenas o dialecto em que se dizia e escrevia o árduo trabalho de todos os dias.
Não chegara a concluir o nono ano. O pai era picheleiro, a mãe fazia serviços de limpeza e amanhava o quintal onde floria uma nespereira sobre canteiros de ervilhas e ervas de cheiro. Nunca dispôs de ambiente familiar estimulador dos estudos. Depois das aulas ajudava na cozinha dum restaurante, tomava conta de dois irmãos, e namorava. Fazia-se uma mulher de mão-cheia, bonita e apetecível como um fruto fresco. Os clientes do estabelecimento, jogadores de cartas e amigos dos copos, decrépitos como os velhos canecos que vinham à mesa, sibilavam epigramas obscenos quando a viam passar, e arriscavam sorrisos de dentes foscos, a saliva cobrindo-lhes os cantos da boca, aguados de lascívia e míngua.
Foi numa noite de S. João. Um odor álacre a sardinha assada, o desvario do baile, uma neblina que subia do rio e fazia brilhar o chão das ruas, violando o ciclo natural das estações. Foi por amor ou desejo. Passou a andar de mão dada, às claras, sem medo de ninguém, como se a noite fria de Junho lhe tivesse outorgado um novo estatuto, uma nova força para enfrentar a vida. O pai não tolerava as intimidades de que ia tomando conhecimento, enquanto a mãe contemporizava, fazia que não via nem ouvia. Uns meses depois, subia a um terceiro andar dum prédio antigo de onde se divisava um grande monte, escuro como uma fortaleza, na margem esquerda do rio. Saiu de lá dilacerada e fria, de barriga dormente e pernas frouxas, com uma caixa de comprimidos de sulfamidas na mão.
Do fundo do tempo vieram os cadernos da infância: redacções sobre o Natal e o Dia do Pai, desenhos de girassóis coloridos e casas com duas janelas e uma porta, semelhantes a caras espantadas, de olhos e boca bem abertos perante o inverosímil da paisagem. Num nos cadernos, escreveu:

Quando for grande quero ser enfermeira para tratar as pessoas doentes, os velhinhos e os desempregados sem dinheiro.

Não se lembrou de mais nada para lá daquele ponto. Voltara de novo ao equador da vida. Tinha pouco mais de trinta anos, o marido à procura de emprego, um filho pequeno que deixara na ama às sete horas da manhã.
Não deu conta de que há muito havia tocado a campainha para o arranque do trabalho. Ela disse depois que não ouvira, que se deixara escorregar no plano inclinado duma estranha viagem até ao ponto mais distante e próximo de si, e que tal incidente até deveria ser avaliado pela medicina do trabalho, pois talvez fosse o resultado da tensão quotidiana vivida na fábrica, o medo constante de não atingir os objectivos exigidos pela empresa. Desculpas que não mereceram acolhimento, pois a folha de produção do chefe de turno, apensa ao processo disciplinar, não deixava dúvidas: mais de cem unidades por produzir, o efeito multiplicador induzido sobre os postos de trabalho a jusante, um prejuízo de grossas proporções, algo nunca visto numa empresa com tão eficiente organização fabril. E depois ainda se admiram, referia o despacho da sanção disciplinar, se a fábrica for deslocada para os países do Leste ou para a Ásia.
Chegou a casa, já tarde, com uma folha carimbada para apresentar no centro de emprego da sua área de residência. Encostou a cabeça ao espaldar alto duma velha cadeira e nem por um momento pensou na vida passada. Agora só lhe interessava o que viria a seguir: tinha pouco mais de trinta anos, o marido à procura de emprego, um filho pequeno que deixara na ama às sete horas da manhã, e que, dava-se conta naquele momento, ainda lá estava, esquecido pelos progenitores, aturdidos, a braços com o problema do desemprego.

1 comentário:

RAA disse...

Gostei muito!
Parabéns e um abraço.