quarta-feira, junho 10, 2009

LUÍS DE CAMÕES ( I )

Camões e as Tágides, Columbano, Museu de Grão Vasco
Há vários meses que, por razões que não são para aqui chamadas, ando acompanhado de Camões. Para ser mais preciso, do Camões épico, o d´Os Lusíadas, o tal poema que serviu em tempos para os estudantes dos liceus se treinarem na divisão de orações. Assim, a epopeia camoniana era apresentada aos liceais não como um corpo vivo, apetecível, mas como um cadáver pronto a ser dissecado sobre uma mesa de anatomia.
Falar d’ Os Lusíadas é tema vasto. Há que ir por partes. Hoje, 10 de Junho, falo do parecer do censor do Santo Ofício, Frei Bartolomeu Ferreira, que analisou a edição de 1572. Diz o dominicano:

Vi por mandado da santa & geral inquisição estes dez Cantos dos Lusíadas de Luís de Camões, dos valerosos feitos em armas que os Portugueses fizerão em Ásia & Europa, e não achey nelles cousa algua escandalosa nem contrária â fe & bõs custumes, somente me pareceo que era necessário advertir os Lectores que o Autor pera encarecer a difficuldade de navegação & entrada dos Portugueses na India, usa de hua fição dos Deoses dos Gentios. (…) Toda via como isto he Poesia & fingimento, & o Autor como poeta, não pretende mais que ornar o estilo Poético não tivemos por incoveniente yr esta fabula dos Deoses na obra, conhecendoa por tal, & ficando sempre salva a verdade da nossa sancta fe , que todos os Deoses dos Gentios sam Demónios.

Ora aí está: Baco, inimigo dos Portugueses, e Vénus, a doce deusa que por mais de uma vez , ao longo da viagem para a Índia, protegeu a armada do Gama, além de todos os outros deuses apresentados por Camões, são demónios, e, ao mesmo tempo, ficções. O bom inquisidor arrumava assim a questão, sem ver nada de escandaloso no poema: nem Vénus a seduzir Júpiter no Canto Segundo, nem os amadores das ninfas no Canto Nono.
Convinha muito à Ordem de S. Domingos aquilo que Camões diz no poema contra os Jesuítas, émulos dos Dominicanos no árduo trabalho de conquistar o Reino dos Céus. Só por tal rivalidade permitiram os homens da Inquisição (Dominicanos) que a epopeia fosse publicada sem nódoas expurgatórias. Ainda bem.

1 comentário:

Baudolino disse...

Obrigado pelo comentário e pela generosidade do mesmo.
Abraço