segunda-feira, outubro 15, 2018

PINACOTECA

PAOLO UCCELLO, tríptico de A Batalha de San Romano (1435-1455/60), hoje repartido pela Galeria dos Ofícios (Florença), pela National Gallery (Londres) e pelo Louvre. Obra de arte referida no Capítulo 6 de O Pintor de Batalhas, de Arturo Pérez-Reverte. O tríptico representa o episódio militar ocorrido a 1 de Julho de 1432 em San Romano, no vale do Arno, entre os exércitos de Florença e de Siena.

domingo, outubro 14, 2018

VOU LENDO


Tanto quanto me permite a leitura do 1º capítulo, avisto um diálogo (eventualmente conflitual, seguramente complementar) entre a pintura e a fotografia. Predadora, ainda que testemunhal, a arte de fotografar em cenários de guerra. É interessante que na sexta-feira passada, no Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro (Sintra), Julieta Monginho, autora de Um Muro no Meio do Caminho, tenha manifestado o seu pudor em fotografar os refugiados do campo da ilha de Chios (Grécia) onde trabalhou como voluntária. Em Pérez-Reverte, O Pintor de Batalhas, o protagonista Faulques descarrega a sua velha Leica 3MD com objectiva de 50 milímetros sobre uma rapariga deitada numa esteira num campo de refugiados do sul do Sudão: « A rapariga era jovem e de uma beleza translúcida apesar da cicatriz horizontal que lhe marcava a testa e dos lábios fendidos (…) pela doença e pela sede. E tudo, a cicatriz, as gretas dos lábios, os dedos finos e ossudos da mão junto ao rosto, as linhas do queixo e a ténue insinuação das sobrancelhas, o fundo do entrançado romboidal da esteira, pareciam confluir na luz dos olhos, no reflexo de claridade nas íris negras, na sua fixa e desesperada resignação. Uma máscara comovedora, antiquíssima, eterna, onde convergiam todas aquelas linhas e ângulos. A geometria do caos no rosto sereno de uma rapariga moribunda.»


sábado, outubro 13, 2018

GRANDE PLANO

JOANNA KULIG em Guerra Fria (2018), filme polaco realizado por Pawel Pawlikowski. Em exibição no Ideal e no El Corte Inglés. Gostei de ver.

quarta-feira, outubro 10, 2018

O PRINCIPEZINHO (III)

O rei do asteróide 325:
«O rei, vestido de púrpura e arminho, encontrava-se refastelado num trono muito simples, mas majestoso.
- Ah! Cá temos um súbdito! - exclamou o rei, mal avistou o principezinho.
E o principezinho pensou com os seus botões:
"Como é que ele pode saber quem eu sou se nunca me tinha visto?"
Ainda não tinha apreendido que, para os reis, o mundo se encontra extremamente simplificado. Todos os homens são súbditos.»

terça-feira, outubro 09, 2018

O PRINCIPEZINHO (II)

Sobre a flor do principezinho, uma flor de que só há um exemplar em milhões e milhões de estrelas:
«Nunca lhe devia ter dado ouvidos. Nunca se deve dar ouvidos às flores. Deve-se é olhar para elas e cheirá-las. A minha, perfumava-me o planeta todo, mas eu não era capaz de dar valor a isso. (...) Não fui capaz de entender nada. Devia tê-la avaliado não pelas suas palavras, mas pelos seus actos. Ela perfumava-me e dava-me luz! Eu nunca devia ter fugido! Devia era ter sido capaz de perceber toda a ternura escondida naquelas suas pobres manhas. As flores são tão contraditórias! Mas eu era novo de mais para a saber amar.»

segunda-feira, outubro 08, 2018

O PRINCIPEZINHO (I)

A metáfora dos três embondeiros que começaram por ser arbustos e depois cresceram até tomarem conta do pequeno planeta. Este era habitado por um preguiçoso que não se ralou com eles e o resultado está à vista.


quarta-feira, setembro 26, 2018

"NA PATAGÓNIA"


Uma das histórias surpreendentes narradas em Na Patagónia é a do militante anarquista Simón Radowitzky, nascido na Ucrânia, de família judia, em 1891, e falecido na Cidade do México em 1956. Diz o autor que na Argentina de princípios do século XX as palavras russo e judeu como que eram sinónimas. Só que este judeu não era como os de há dois mil anos que mataram o Justo. Radowitzky matou à bomba o injusto chefe da polícia de Buenos Aires, coronel Ramón Falcón, tendo sido preso na colónia penal de Ushuaia, na Terra do Fogo. Corria o ano de 1909. Torturado e sodomizado punitivamente pelos seus carcereiros, fugiu da prisão com o apoio de correlegionários, voltando a ser preso e finalmente indultado pelo presidente Yrigoyen, em 1930, «num gesto de boa vontade para com a classe operária». Radowitzky quis voltar à Rússia, desconhecendo que na pátria revolucionária se tinha dado o massacre de anarquistas em Kronstadt. Combateu em Espanha e veio morrer ao México, no mesmo país onde dezasseis anos antes fora assassinado Trotsky.


sexta-feira, setembro 21, 2018

VOU LENDO

Na área de anomalias congénitas do Museu Médico de Siriraj, Banguecoque - uma passagem deste "livro de viagens", 12º capítulo da 3ª parte:
«Talvez uma parte da aversão à morte tenha a ver com o rosto de tristeza que os mortos sempre apresentam. Sisudos, parecem contrariados por terem morrido, como se estivessem a ter um sonho mau.»
Lembrei-me de Ricardo Reis:
O sono é bom pois despertamos dele / Para saber que é bom. Se a morte é sono / Despertaremos dela; / Se não, e não é sono, // Com quanto em nós é nosso a refusemos / Enquanto em nossos corpos condenados / Dura, do carcereiro, / A licença indecisa. // Lídia, a vida mais vil antes que a morte, / Que desconheço, quero; e as flores colho / Que te entrego, votivas / De um pequeno destino.


quarta-feira, setembro 19, 2018

O TRABALHO, O CAPITAL E O PERIGO VERMELHO


NA DÉCADA DE 30, DURANTE O ÊXODO DE MUITOS AMERICANOS PARA A CALIFÓRNIA EM BUSCA DE TRABALHO E DIGNIDADE ---
«Há aí um tipo que se chama Hines. É dono de uns trinta mil acres de terra, com pêssegos e uvas, e tem uma fábrica de frutas de conserva e um lagar. Bem, ele vive constantemente a gritar contra “os malvados vermelhos”. “Esses vermelhos dos diabos levam o país à ruína”, diz ele. “Temos de os enxotar daqui, a esses patifes desses vermelhos.” Bem, um outro tipo que acabava de chegar do Oeste, ouviu a coisa. Coçou a cabeça e disse: “Olhe, senhor Hines, eu estou aqui há pouco tempo. O senhor pode dizer-me quem são esses malvados desses vermelhos?” Bem, rapazes, o Hines respondeu assim: “Um vermelho é um desses filhos da mãe que exigem trinta centavos à hora quando só queremos pagar vinte e cinco.” O rapaz ficou a pensar no caso, coçou a cabeça e disse: “Olhe, senhor Hines, eu não sou nenhum filho da mãe, mas também quero trinta centavos à hora. Quem é que os não quer? Que diabo, senhor Hines, se assim é, então toda a gente é vermelha.”»
--- JOHN STEINBECK, As Vinhas da Ira, tradução de Virgínia Motta.

segunda-feira, setembro 17, 2018

PORT-VENDRES

Port-Vendres, Pays Catalan, France - foto tirada em Abril deste ano quando por lá passei. Referência a este porto de pesca, a propósito das vicissitudes do Reino da Auracânia e Patagónia, no capítulo 8 de Na Patagónia, de Bruce Chatwin, que agora leio. O Reino nunca mudou a sua corte de Paris, mas abriu consulados em diversos pontos do mundo, e também aqui em Port-Vendres. Gostei de saber. 

sábado, setembro 15, 2018

GRANDE PLANO

ASTRID OFNER no papel de Antígona, filha incestuosa de Édipo e Jocasta, desafiadora de Creonte, o tirano de Tebas. Filme Antígona (1992), de Straub-Huillet, segundo a adapatação à cena feita por Brecht em 1948. 

quinta-feira, setembro 13, 2018

ESCOLHAS


Num número antigo da revista Estante (FNAC), leio uma notícia curiosa: um júri constituído por Clara Ferreira Alves, Pedro Mexia, Carlos Reis, Manuel Alberto Valente e Isabel Lucas  elegeu, a pedido da revista, os 12 melhores livros portugueses dos últimos 100 anos. O resultado foi este:
- O Delfim, de José Cardoso Pires
- Os Passos em Volta, de Herberto Helder
- Para Sempre, de Vergílio Ferreira
- Sinais de Fogo, de Jorge de Sena
- Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa 
- Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio
- O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago
- Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes
- A Grande Casa de Romarigães, de Aquilino Ribeiro
- A Sibila, de Agustina Bessa-Luís
- Finisterra, de Carlos de Oliveira
- Húmus, de Raul Brandão
Destes, há um que não li.
Se a lista fosse alargada para 15, acrescentaria:
- A Selva, de Ferreira de Castro
- Barranco de Cegos, de Alves Redol
- Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho.


terça-feira, setembro 11, 2018

NEM MAIS

Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira, Fábrica das Palavras. Fotos de 11-9-2018

sexta-feira, setembro 07, 2018

VOU LENDO


O título remete para a fala de Julieta Capuleto no Acto II, Cena 2 de Romeu e Julieta:
What's in a name? That which we call a rose  
By any other word would smell as sweet;
O nome, por si só, não diz nada; diz, sim, daquilo que se sente por determinada pessoa ou coisa. Mesmo com outro nome, seria sentido de igual maneira. Como o perfume da rosa, ainda que a flor não se chamasse rosa.
«Extirpado o nome, ficará o amor,
ficarás tu e eu – mesmo na morte,
mesmo que em mito só» = ANA LUÍSA AMARAL, Abril de 2017.


quinta-feira, setembro 06, 2018


Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram; daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poetas românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.
= Bernardo Soares, O Livro do Desassossego. 

quarta-feira, setembro 05, 2018

RELEITURAS

No primeiro dia do ano e nos que se seguiram ninguém morreu, a inexorável parca já desprovida da sua acerada tesoura. A santa igreja católica está preocupada: se não há morte, não há ressurreição, não há a vida eterna no paraíso celeste. O governo está preocupado: há sectores da economia, como as agências funerárias e as seguradoras, que vão entrar em crise. E os lares de terceira e quarta idades («lares do feliz ocaso») a abarrotarem de velhos que se recusam a partir? Tudo muito complicado, antes a morte que tal sorte.


terça-feira, setembro 04, 2018

POÉTICAS


«O elevador de Santa Justa é um caligrama.»

- ADÍLIA LOPES, Estar em Casa, Assírio & Alvim, 2018.

=Foto de 4-9-2018=