segunda-feira, julho 01, 2013

À VOLTA DO MESMO

Mas há alguma dúvida de que este governo pudesse não conhecer os contratos swap negociados pelas empresas públicas? A existência destes contratos – cujos resultados até poderiam ter sido vantajosos, não se tivesse dado, devido à crise financeira, a queda das taxas de juro –, nem precisaria de ser transmitida ao novo ministro das finanças por Teixeira dos Santos, pois obrigação natural de qualquer governo é inteirar-se dos instrumentos de gestão financeira das empresas públicas que tutela.
Se Gaspar, o ogre, mais a sua secretária de estado – loira bonita e, sabe-se agora, também mentirosa –  não agiram, é porque sempre estiveram mais interessados em ir ao bolso dos reformados e funcionários públicos do que em afrontar os interesses dos banqueiros que lhes garantem as prebendas e asseguram o futuro.
Claro que, dois anos depois, com os prejuízos a aumentarem, tinham que sacudir a água do capote e fazer o papel de donzelas ofendidas.
A História, essa velha senhora, falará deles como merecem.
 

DISSONÂNCIAS


Um grande livro é um grande mal.
          CALÍMACO, poeta e gramático grego, 310 a. C. – 240 a. C.

Além disso, meu filho, presta atenção: escrever livros é um trabalho sem fim, e muito estudo cansa o corpo.
          Eclesiastes, 12, 12

Livros são papéis pintados com tinta. / Estudar é uma coisa em que está indistinta / A distinção entre nada e coisa nenhuma.
          FERNANDO PESSOA, “Liberdade”

 

domingo, junho 30, 2013

FESTIVAL AO LARGO - TNSC

Ontem. Cardápio rico: Ruggero Leoncavallo, Claude Debussy, Giuseppe Verdi, Richard Wagner, Gaetano Donizetti, Astor Piazzolla, Nino Rota e John Williams. Soprano Cristiana Oliveira, Barítono Luís Rodrigues. Solistas Iva Barbosa (clarinete) e Gonçalo Pescada (acordeão). Orquestra Sinfónica Portuguesa com direcção musical de João Paulo Santos.
DIAS 5 E 6 DE JULHO HÁ MAIS.

quarta-feira, junho 26, 2013

UT PICTURA POESIS *

Un enterrement à Ornans (1850, Paris, Musée d´Orsay), de Gustave Courbet (1819-1877), pintor enaltecido por Eça de Queiroz na sua célebre conferência do Casino Lisbonense em Maio de 1871. Já houve quem visse na descrição do enterro de Amélia, penúltimo capítulo de O Crime do Padre Amaro, um diálogo intertextual com esta  pintura da escola realista: “O menino do coro cravou no chão a haste da cruz prateada, e o abade Ferrão, adiantando-se até à beira do buraco escuro, murmurou o Deus cujus miseratione… Então João Eduardo, muito pálido, vacilou de repente, e o guarda-chuva caiu-lhe das mãos; um dos criados de farda correu, segurou-o pela cinta; mas ele resistiu, e ali ficou, com os dentes cerrados, segurando-se desesperadamente à manga do criado, vendo o coveiro e os dois moços amarrarem as cordas no caixão, fazerem-no resvalar entre a terra esfarelada que rolava, com um ranger de tábuas mal pregadas.”

 
* Arte Poética, Horácio, v. 361, tradução de Rosado Fernandes: “Como a pintura é a poesia”.

terça-feira, junho 25, 2013

TRÊS DÍSTICOS FINGIDOS SEM ENDEREÇO EXPLÍCITO

I
Entre a vida e a morte, afogo-
-me no pego húmido do teu seio.

II
Não me chames que corro perigo. Desejo
o abismo, e nem sequer sei voar.

III
À noite, é preferível à noite. A luz
não se rirá da imperfeição do meu corpo.

 

segunda-feira, junho 24, 2013

PRIMEIRO APONTAMENTO PARA UMA GEOGRAFIA DA AMIZADE


Da amizade conheço planícies, outeiros e alguns píncaros sólidos.
Gosto de lagos e de praias, mas detesto os vales escuros e as encostas penhascosas.

Um certo olhar sobre a amizade. Pintura de Vittorio Reggianini (1858-1938)
 

DISCURSO ERÓTICO-NEVRÓTICO SOBRE A AMIZADE E O AMOR (SEM NENHUMA RAZÃO ESPECIAL)


A amizade é o que sobra por vezes duma impossibilidade. Assim, tem perigos e inspira receio, embora mais temível seja o receio sem perigos.
Se não amas, esquece.
Se não desejas, dorme.
Se não és amigo, eleva-te.
Faz por ser feliz com aquilo que tens, pois o que não tens não te pertence. Lembra-te, sobretudo, de que podes sempre beijar-lhe a cara, pensando que é a boca.
 
 

quinta-feira, junho 20, 2013

PROMULGAÇÕES

Kavaco Hanibal, de bolinha vermelha no nariz, em diligente promulgação da lei palhaça dos subsídios de férias. (Vamos lá a ver se consigo escapar ao processo crime.)

quarta-feira, junho 19, 2013

A NAU CATRINETA


(Lenda Recolhida por Almeida Garrett, Romanceiro)
(…)
- “Capitão, quero a tua alma,
Para comigo a levar!”
- “Renego de ti, demónio,
Que me estavas a tentar!
A minha alma é só de Deus;
O corpo dou eu ao mar.”
Tomou-o um anjo nos braços,
Não no deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a Nau Catrineta
Estava em terra a varar.
 
Isto mesmo recomendei hoje a um amigo: a alma só se entrega a Deus, o corpo que se dê ao mar. Depois, é seguir a nau e quem a olha de olhos puros.

terça-feira, junho 11, 2013

ÁTROPOS E O FIO DA VIDA


Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,

Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,

Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.

Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?

Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?

Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra

Que será quando fores
Na noite e ao fim da estrada?

Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.

Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.

RICARDO REIS, obra citada, pp. 39 e 40.

domingo, junho 09, 2013

DA SABEDORIA DOS ESTÓICOS


Não quero a glória, que comigo a têm
            Heróstrato e o pretor
Ser olhado de todos - que se eu fosse
            Só belo, me olhariam.

O fausto repudio, porque o compram.
            O amor, porque acontece.
Amigo fui, talvez não contente,
            Porém certo e sem erro.

RICARDO REIS, Poesia, edição de Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, pp. 80 e 81.