sábado, outubro 22, 2005

FICÇÕES : O PÉNIS DE MÁRMORE E AS TÁBUAS DE BRONZE DE VIPASCA

1

Lusciénio, filho de um liberto enriquecido com um negócio de azeites rançosos e vinhos adulterados, duas ânforas de água do Tibre por cada três de genuíno néctar, estava destinado a uma promissora carreira no foro. O pai mandara-o aprender com os melhores mestres de Roma, estagiara na Grécia, até se deixara seduzir por Epicuro antes de optar por ideias e desígnios mais ajustados às práticas forenses. No entanto, por razões que até um narrador omnisciente não consegue determinar, foi obrigado a exilar-se na Lusitânia, onde chegou acompanhado de Gláucida, escrava líbia para todo o serviço, tendo-lhe sido concessionada a exploração de cinco poços no couto mineiro de Vipasca.

Em Itália deixou Semprónia, a lasciva, mulher de carnes voluptuosas e líbido alta que no martírio das noites lhe secava as fontes seminais e comia as forças do corpo em indescritíveis delírios sexuais, só lhe dando tréguas em três ou quatro dias do mês sob o efeito inelutável das regras fisiológicas. Era então que se recolhia em paz nos braços de Gláucida, e se vingava em beijos e carícias meigas da imoderada violência dos vícios da carne.

No porto de Óstia, de onde saiu pelo mare nostrum a caminho da Hispânia, ainda viu no cais a libidinosa Semprónia, despeitada com a sua partida na companhia da escrava. Um arrepio atravessou-lhe o campo da pele. Ia fresca a aragem do mar, Lusciénio levou a essa conta o inesperado estremecimento. O pior, no entanto, estava para chegar.

Ao largo da costa de Saguntum, cinco dias e cinco noites levava já de viagem a galera ágil, os remos chapinhando nas águas, as velas grávidas do cálido siroco, deu-se conta da reiterada falência do seu membro fálico. Tentara à segunda e à terceira noite, não insistira à quarta, que o mar estava bravo e o enjoo lhe tolhia o desejo, mas à quinta noite, sob os olhos estelares do céu, puxou Gláucida para um desvão do convés e, a coberto do sono da marinhagem, tratou de abater o jejum. Não conseguiu nada. As carnes penianas, flácidas como alforrecas, não davam a mínima hipótese.

Cravou as mãos no cordame do barco e chorou em desespero a raiva impotente.

2

Em Vipasca era dura a vida dos homens. O couto mineiro era um cemitério de escórias, os poços e galerias esventravam a terra em demanda do filão metalífero, o transporte do minério fazia-se sob escolta dos legionários para o porto fluvial de Myrtilis, o Estado esmagava os concessionários com pesados impostos e arrebatava, qual avejão rapace, o maior quinhão do seu labor. Os banhos eram um pequeno refrigério na inclemência daquele clima continental, muito quente no Verão e frio no Inverno. Mas um letrado como Lusciénio podia levar uma vida aceitável naquele recôndito local da Lusitânia.

Quando o administrador do couto mineiro informou o governo de Emerita Augusta da chegada de Lusciénio, da concessão de cinco poços que acabava de requerer e do curriculum forense de que era detentor, além do rápido deferimento da matéria requerida recebeu também taxativas instruções para que o recém-chegado fosse contratado, como jurisconsulto, para o serviço da administração local. E assim, a par da gestão das suas concessões, Lusciénio passou a trabalhar, como legista, no aperfeiçoamento dos regulamentos económicos e sociais de Vipasca.

3

Tudo parecia sorrir ao exilado jurisconsulto: o administrador, agradado com o douto desempenho das suas funções, abria-lhe as portas do triclínio e era vê-lo recostado em ceias sumptuosas, em esquisitas degustações, comendo e bebendo do melhor, mariscos provenientes de Troia e Gades, vinhos da Bética e da Campânia; o minério que saía dos seus poços, pese embora a mão roubadora do Estado, rendia-lhe bons proveitos; Gláucida floria de beleza, fiel, na tranquilidade da sua juventude, até pensara dar-lhe a alforria e casar-se com ela. Só aquele problema sexual não dava sinais de se resolver.

Um comandante da guarnição militar com quem costumava falar nas horas brandas do banho, deu-lhe uma receita que obtivera de um druida gaulês numa das suas comissões ao serviço do Império: misturar numa papa de favas feita com água do mar, intestinos de atum e tâmaras do Egipto, juntar vinho doce e mel de abelhas, tomar uma hora antes da prática sexual.

Experimentou. Não deu resultado.

Alarmado com a persistência do desarranjo, resolveu tentar a medicina. Médicos não havia em Vipasca, seria necessário ir a Pax Iulia e consultar um qualquer aspirante a Hipócrates que aí exercesse a arte.

Consultou. Não obteve a cura.

Foi então que, homem desesperado tudo tenta, a fé é que nos salva, decidiu recorrer à intercessão divina. Havia numa vasta região da Lusitânia o culto do deus Endovélico. De Ebora a Ossonoba, de Caetobriga a Myrtilis, corria a fama daquela divindade salutífera que curava mais e melhor do que o próprio Esculápio. Rumou ao santuário e aí prometeu a entrega votiva de um pénis erecto da altura de um homem, esculpido em mármore rosa, se lhe fosse restituído o poder viril. E tendo como muito provável que a causa do seu padecimento pudesse ser feitiço da infame Semprónia, dirigiu preces a Prosérpina, deusa infernal, para que contrariasse o mal de inveja que lhe havia sido enviado.

4

Nunca se conseguiu saber se graças a Endovélico ou a Prosérpina se curou Lusciénio da sua aborrecida perturbação. A Posteridade descobrirá no santuário do deus, em S. Miguel da Mota, Alandroal, muitas aras e lápides com inscrições votivas, até uma cabeça da divindade esculpida em boa pedra, mas não haverá registo de qualquer pénis erecto, em mármore rosa ou em qualquer outra variedade de mármore, seja em tamanho natural, uns escassos centímetros, ou da altura de um homem, um metro e muito, o que poderá indiciar que o voto não foi cumprido por não ter sido recebida a graça.

Mas nos escoriais de Aljustrel, em 1876 e 1906, serão descobertas duas tábuas de bronze contendo a legislação aplicável no couto mineiro de Vipasca. E isso deverá ser obra de Lusciénio, filho de liberto rico, letrado, exilado na Lusitânia por obscuros motivos, amante terno da escrava Gláucida, objecto sexual de Semprónia, mulher lasciva, invejosa e má.

D.E.

5 comentários:

Slim disse...

Found explosives shake up fire station
Spokane police said a man is lucky his car wasn't blown to bits today when he transported several explosive devices he found in a storage unit to a Spokane fire station.
Hello, you have a great blog here! I'm definitely going to bookmark you.

I have a forex currency trading beginner site/blog.
Full of forex currency trading beginner information and help.

Come and check it out, er, please :-)

Julia Elvarado disse...

Click for more
During the second day of Pop!Tech we got a sneak peak at two computer developments soon to debut on the global scene.
Find out how you can buy and sell anything, like things related to private road construction on interest free credit and pay back whenever you want! Exchange FREE ads on any topic, like private road construction!

Internet Traveller disse...

Good Stuff! I will definately visit again!

I have a site which allows you to make pretty good money using a combination of Google Adsense and serving as an Ebay Affiliate.

Ebay gives the visitor the ability to tap into the worlds largest shopping market for virtually any item you need at prices which are cheaper than anywhere else in the world. Some items or subjects covered might include: Free

Come and check it out if you get time :-) Thats: www.buyanythingnow.com

John disse...

Trends are so over
There was a time, way back in the late 1990s, when coolhunting was still cool, when nearly every ... New York-based Irma Zandl of the Zandl Group is known for her bimonthly Hot Sheet, a trend-spotting guide that sells for $18,000 a year, and for predicting about 25 years ago the takeover of hip-hop culture.
Hi, I was just blog surfing and found you! If you are interested, go see my work at home related site. It is very special and I am sure you may find something of interest.

Charlie disse...

Não sei porque tem tão poucos comentários.
A escrita é magnífica. Rica e intensa. Fiquei maravilhado.
Vou "linkar"

Charlie