sábado, fevereiro 18, 2017

CONGRESSO INTERNACIONAL "REVISTA PRESENÇA: 90 ANOS DEPOIS" - Anfiteatro III, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 9 e 10 de Maio de 2017

A série II da revista presença (apenas dois números, o primeiro publicado em Novembro de 1939 e o derradeiro em Fevereiro de 1940) foi a tentativa de reanimar uma revista esgotada em termos programáticos e de intervenção numa altura em que a censura do Estado Novo apertava o cerco às publicações não alinhadas pelos seus ditames ideológicos.

No editorial do nº 1 da série II – “Presença reaparece” – , um texto não assinado mas saído claramente da pena de José Régio, são convidados para a revista todos os «verdadeiros artistas, críticos ou pensadores de qualquer escola, idade, classe», convite extensivo à geração neo-realista que, aliás, havia já colaborado em números anteriores com textos poéticos de Joaquim Namorado, Fernando Namora, João José Cochofel e Mário Dionísio.  

Não se duvida da sinceridade da proposta, mau grado as divergências que se iam cavando entre Adolfo Casais Monteiro e João Gaspar Simões, servindo José Régio de mediador, na verdade nem sempre isento.

José Régio queria sangue novo na revista, e até “sangue velho”, se se tiver em conta o convite feito aos cisionistas de 1930 (Branquinho da Fonseca, Edmundo Bettencourt e Adolfo Rocha /Miguel Torga), convite que os dois primeiros se dispuseram a aceitar.

Roberto Nobre – artista plástico, cineasta e crítico de cinema –, grande amigo de Ferreira de Castro, era desejado por Régio na presença. Numa carta para Alberto de Serpa, datada de Junho de 1939, diz o poeta: «Quanto ao Roberto Nobre, não o convidei ainda, pelo menos categoricamente, porque exactamente o Adolfo não concordava. E sabes porquê? Porque o Nobre saíra do Diabo à chegada destes que lá estão agora; e o Adolfo não aprovara tal atitude, e achava que era “andarmos aos caldos” (a expressão é dele) convidarmos o nosso melhor crítico cinematográfico.  Calei-me… provisoriamente. Não desisto, nunca desistirei, de ver o Nobre na presença… se a presença resistir a estes embates.»

Não resistiu, acabou ao 13º ano de publicação. No próximo mês de Março completam-se 90 anos sobre o aparecimento da “folha de arte e crítica” coimbrã, estando anunciado para 9 e 10 de Maio um congresso na Faculdade de Letras de Lisboa, organização do Centro de Estudos Regianos e do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias daquela faculdade. Será a oportunidade de se realizar mais um debate sobre a vida e morte da revista que mostrou Fernando Pessoa aos leitores portugueses, tendo contribuído de forma decisiva para a renovação estética da arte e da literatura portuguesas no segundo quartel do século XX.     
 
 
 

2 comentários:

Ricardo António Alves disse...

Extraordinário, meu caro!
E pensar que o Casais era o tipo mais à esquerda da direcção.
Penso que conhece a troca de correspondência entre o Régio e o Nobre, precisamente sobre a presença, publicada há uns anos pelo Eugénio Lisboa, no Boletim do CER.

Com sua licença, vou repostar isto no blogue do FC & Amigos.

Abraço.

Manuel Nunes disse...

Poste à vontade, meu caro.
Vi essa correspondência, mas agora vou olhar melhor para ela.
Já respondi ao mail.
Abraço