sexta-feira, janeiro 12, 2007

SE AMOR NÃO É, QUAL É MEU SENTIMENTO? ( 2 )

Fez notar o escritor, logo na primeira sessão de trabalho, que para interessar o vasto público na leitura do livro não bastaria contar a história da sua infeliz experiência matrimonial, pois tratando-se de episódios da vida de uma pessoa desconhecida, ninguém, para além do círculo restrito de familiares e amigos, se disporia a queimar os olhos em semelhante prosa. Seria necessário que o leitor ou a leitora pudessem retirar do texto algum ensinamento. O livro, para lá de contar uma história, deveria ter um conteúdo pedagógico capaz de ajudar quem se encontrasse em situação idêntica. E assim, decidiram-se por uma estrutura de composição que teria no final de cada capítulo umas curtas notas de aconselhamento e pequenos exercícios de aplicação para testar a assimilação das lições de vida apresentadas. Uma espécie de livro de auto-ajuda, como está bem de ver.
O escritor, diga-se, era desses artistas que não interpõem entre o nascimento das palavras e o papel que lhes serve de berço os esgares de plástico dos teclados, os revérberos dos ecrãs e o matraquear das impressoras a jacto de tinta. Escrevia à mão, num cursivo inglês moderadamente inclinado, como se as palavras se desfizessem em permanentes reverências ao papel que as acolhia.
Ela começou a maravilhar-se com aquela escrita que brotava com tanta facilidade a partir dos episódios por si relatados, a apreciar a elegância das linhas correctamente dispostas sobre as folhas, saindo daquelas mãos cuja beleza entretanto descobrira, aqueles dedos esguios de unhas brilhantes, umas mãos que lhe lembravam as do marido nos tempos distantes de enamorada. Apaixonara-se por ele, entre outras coisas, pela beleza das mãos. O escritor também as tinha bonitas, e assim, deixando-se levar por ternas memórias, ela ficava a olhá-las como se fossem as mesmas que antigamente lhe percorriam as zonas erógenas do corpo ou se detinham, apaziguadoras, sobre o balcão sereno dos seus ombros. E começou a manifestar-se nela, num sentimento que crescia de sessão para sessão, uma falta de vontade para evocar os maus tempos do casamento, apetecendo-lhe antes saborear a lembrança dos momentos felizes. Por essa razão, a progressão do trabalho marcava passo numa espécie de anticlímax todo feito de memórias felizes e derrogações do que importava narrar.
- Se isto continua assim, minha senhora, ainda encheremos mais páginas que as da  Recherche – observava com ironia o profissional da escrita, lembrando-lhe de que o livro não deveria ir além das cem páginas, sendo forçoso, por isso, entrar rapidamente na matéria principal. E interrompiam a sessão.
Ela voltava no dia seguinte, e bem tentava falar dos episódios sombrios, daquele tempo em que o amor, já irremediavelmente perdido, dera lugar à falta de respeito e à violência entre os cônjuges. Fora essa a sua intenção inicial, o motivo que a levara a pensar no livro. Mas à vista das mãos do escritor, perante a forma elegante como se apresentavam e moviam sobre a secretária, escrevendo ou esperando pelos elementos que ela lhe transmitia, só se lembrava dos momentos de ternura e dos deleites proporcionados por outras mãos de semelhante beleza. E não lhe saía nada do que interessava, só se lembrava dos tempos do amor, insistindo com notas e factos que não fazendo progredir o trabalho começavam a exasperar o paciente criador artístico.

(Continua)

D.E.

2 comentários:

Anónimo disse...

Hum... continuo a gostar. A tua narrativa está a tomar um caminho muito interessante e, à velha maneira dos folhetins, interrompes com "saber", no ponto em que o "continua" tem um efeito exasperante.

Pois é, Manel... quero mais... e depressinha que se faz tarde!...

Abraço.

d.e. disse...

Obrigado pelos comentários.Até sexta-feira, Cara Maria, publico o terceiro e último fascículo. Espero que o desenlace não desgoste os leitores.

Beijos,

Manuel