quarta-feira, janeiro 27, 2021

FATOUMATA DIAWARA & ROBERTO FONSECA (JAZZ IN MARCIAC, 2014)

O TEMPO

Tenho aqui sobre a mesa, sempre à mão, uma edição popular deste livro. Digo popular porque me custou dois ou três euros – já não me lembro com exactidão – num alfarrabista da cidade. É um livro sem preâmbulos, sem estudos, sem notas – apenas com o prefácio de Fernando Pessoa  e a «autobiografia sem factos» do esforçado colaborador do guarda-livros Moreira e do controverso patrão Vasques.

Há bocado abri o livro ao acaso – como algumas vezes sucede – e dei com os meus olhos diante do fragmento nº 350 em que Bernardo Soares discorre sobre o sentido – digamos  metafísico – do tempo. Para alguém sujeito ao jugo do Deve e do Haver não está nada mal, constatação válida para este fragmento e para todos os fragmentos do livro. Cito:

«Não sei o que é o tempo. Não sei qual a verdadeira medida que ele tem, se tem alguma. A do relógio sei que é falsa: divide o tempo espacialmente, por fora. A das emoções sei também que é falsa: divide, não o tempo, mas a sensação dele. A dos sonhos é errada; neles roçamos o tempo, uma vez prolongadamente, outra vez depressa, e o que vivemos é apressado ou lento conforme qualquer coisa do decorrer cuja natureza ignoro.»

Para mim, pensador incipiente e de rebarbativos lapsos, o tempo é associado ao peso progressivo da idade, à dispepsia e à fadiga dos órgãos, embora não seja dos que tenham, por enquanto, as maiores razões de queixa. Como se vê, estou naquele círculo das sensações e das emoções, logro em que não caía o avisado empregado do escritório da Rua dos Douradores. Ele que assim fecha o seu fragmento sobre o tempo:

«Que coisa, porém, é esta que nos mede sem medida e nos mata sem ser? E é nestes momentos, em que nem sei se o tempo existe, que o sinto como uma pessoa, e tenho vontade de dormir.» 

Tal e qual como eu, quando sofro os achaques nocturnos da minha carne débil: tenho vontade de dormir, só que muitas vezes não consigo.

 

terça-feira, janeiro 26, 2021

UMA REVISTA DE HÁ 100 ANOS

Capa de Ruy Bastos para o nº 6 da revista A Hora – Revista-panfleto de arte, actualidades e questões sociaes –, de 23 de Abril de 1922, dirigida e redigida em grande parte por Ferreira de Castro (1898-1974). A edição em fac-símile dos números da revista foi feita pela Fundação Engº António de Almeida (em 2017), com apresentação e notas de Paulo Samuel. Neste número, o último, há artigos de Ferreira de Castro, Campos Lima (1877-1956) e Eduardo Frias (1895-1975) – figuras de uma forma ou outra ligadas à corrente anarquista ou ao anarco-sindicalismo, pese embora o desvio do último para o campo ideológico do corporativismo.

segunda-feira, janeiro 25, 2021

JULIA FISCHER, Caprice nº 24, Paganini

PRESIDENCIAIS 2021 bis


Delirantes os discursos de Rio e Chicão sobre os resultados eleitorais. Um a salientar o esmagamento da esquerda, agora reduzida a uns míseros 20% de votos; o outro a afirmar o papel determinante do seu partido nos números alcançados. O Costa deve-se ter fartado de rir, o Marcelo talvez não...
E que dizer do Bento Rodrigues da SIC a puxar repetidamente para a emissão os gráficos dos resultados nos distritos do Alentejo, onde o tal partido ficou em segundo lugar? O homem parecia entusiasmado, mas da minha parte admito que possa ter sido um erro de percepção... Nas redes sociais, houve quem falasse da memória traída de Catarina Eufémia e outras barbaridades condizentes. Há gente que não vê para além das cores das bandeiras. É por isso que...   

domingo, janeiro 24, 2021

PRESIDENCIAIS 2021

Votei com esta canetinha passava pouco das dez. Foi muito fácil, sem riscos e absolutamente indolor. Marquei a cruz a seguir ao nome e à foto de um candidato não populista, de discurso consistente, constitucional  e sério. Não tenho medo de ideologias, tenho medo, sim, de quem diz não as ter. 
A noite que venha para vermos o que acontece... E lembro-me de Álvaro de Campos:

Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio. Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

etc.

sexta-feira, janeiro 22, 2021

PEIXOTO À BEIRA-RIO bis

Esta tarde, em retiro unipessoal diante do rio, a acabar a leitura de Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto. 
Umas memórias póstumas servidas em puzzle ao leitor benévolo.
A história tem consistência e a escrita é estimulante, com alguns efeitos vanguardistas e pós-modernos:

«Puxou a Maria pelo. Pulso e levou-a pelo corredor e entraram no quarto onde dormiam todas. As noites e apontou. Para a estante cheia de romances. De amor que a Maria. Guardava desde menina. E que organizava por. Ordem alfabética e todas as histórias. Que conhecia de cor e que seria capaz de contar. Com todos os pormenores e. Apontou para a estante cheia.» (p. 173)
«Sobre a cama, um monte de páginas rasgadas e de capas rasgadas, títulos: sonhos de, paixão casamento na, primavera as chamas do coração mais, forte do que o preconceito vitória, do destino apaixonada pelo homem, certo rapariga e mulher amar pela primeira, vez o desconhe, cido irresistível flo, res demasia, do tarde pa, ra além do, desejo so, rriso c, rue, l am, a, nhecer, de e, mo, ç, õe, s.» (p. 174)

Peixoto, ó pá, o trabalho que tu me deste!

= Foto de 22-1-2021=

quarta-feira, janeiro 20, 2021

mezzo liveHD

Há programas de televisão que não posso deixar de registar. MAYRA ANDRADE, convidada de ROBERTO FONSECA, no festival "Jazz in Marciac" em 6 de Agosto de 2019. Assim mesmo como a vemos na foto. Foram minhas companhias no serão de hoje. 

Nota: Pode ser visto no YouTube.

terça-feira, janeiro 19, 2021

GRANDE PLANO

Mary McDonnell (1952) no filme Danças com Lobos (1990), dirigido e protagonizado por Kevin Costner.

ORTHOGRAPHIA REPUBLICANA

Continuo a ler a correspondência entre Fernando Pessoa e os directores da presença neste livro que, estranhamente, não indica na capa quem procedeu à edição e ao estudo das cartas publicadas: Enrico Martines, professor e investigador da Universitâ degli Studi di Parma.
Dei hoje com uma carta do poeta para João Gaspar Simões, datada de 3 de Novembro de 1931. Carta curta, enviando colaboração para o nº 34 da Presença. Veja-se o primeiro parágrafo:

Meu querido Gaspar Simões:
Ahi vae, segundo a promessa (d´esta vez milagrosamente cumprida), a collaboração que lhe prometi. Como a passei a limpo à pressa, não a puz em orthographia republicana, mas v. já sabe o que póde fazer, para a devida uniformidade da Revista.

Pessoa, pelo que se vê, escrevia ainda, em 1931, sem se preocupar muito com o Formulário Ortográfico de 1911, a «orthographia republicana», como diz. Tal é patente, para só citar alguns casos, no uso da letra h em posição medial (ahi e orthographia), nas consoantes duplas (collaboração) e no uso do grupo consonântico ph em vez de f. 
Isto de reformas ortográficas sempre teve os seus seguidores e os que pouco ou nada lhe ligam. Só que entre estes estão, por vezes, os nossos maiores.

segunda-feira, janeiro 18, 2021

PEIXOTO À BEIRA-RIO

Sugeriram-me a leitura deste romance e é o que vou fazendo ao sol de Inverno. Não é Kafka à beira-mar, como no título do conhecido autor japonês, mas Peixoto à beira-rio. Confesso que estou a gostar, apesar de não ser fácil de ler. Vou mais ao menos a meio do livro, ao quilómetro doze de Francisco Lázaro na maratona olímpica de Estocolmo. E saiba-se que o cemitério de pianos, por várias razões, não é um lugar de morte, antes o triunfo de Eros sobre Tânatos. 

PINACOTECA

Concerto Campestre (c. 1510), atribuído a GIORGIONE, TICIANO ou a ambos. Óleo sobre tela, Museu do Louvre. Quando ÉDOUARD MANET apresentou em 1831 o seu Déjeuner sur l`herbe (Museu d´Orsay), os que se escandalizaram não tiveram em conta esta obra inspiradora de três séculos antes.

domingo, janeiro 17, 2021

CONFINAMENTO, DIAS 2 e 3

Grassa aí pelas redes sociais e em comentários da televisão uma estupefacção / indignação por se ver tanto trânsito nas ruas, tantas pessoas em mobilidade.

Claro que não é admissível o alarde de alguns, deixando-se fotografar em restaurantes ilegalmente abertos, porque o perigo, o grande perigo, vem justamente desses convívios de mesa e salão em que as defesas se reduzem ao mínimo. Bem dizia aquele clone do nosso rei Carlos de Bragança, subdirector da D.G.S. ou coisa que o valha, que o consumo social de bebidas alcoólicas potencia o risco.

Porém, vistas bem as coisas, como poderia este confinamento ser igual ao outro? Há gente a trabalhar, a frequentar escolas, a ir aos supermercados e a dar o seu passeiozito higiénico. Querem que as pessoas se aprisionem nas suas próprias casas e  venham para as janelas às 10 horas da noite bater palmas aos profissionais de saúde?

Por favor, tenham noção do perigo e cumpram o que está determinado, mas sair não é impeditivo de uma conduta responsável.

Eu saio todos os dias. Ficar em casa seria mais seguro? Certo que sim. Posso apanhar o vírus? Igualmente certo. Mas também o posso apanhar nas idas aos supermercados, no dia das eleições quando for votar ou sempre que estiver com a minha neta que vai todos os dias à escola. Sejamos responsáveis e não deixemos de fazer o que é essencial para a nossa saúde física e mental. Um dia isto vai passar e é provável que fiquemos entre os sobreviventes. Tenham alegria. Saúde é o que desejo.   

= Foto de 16-1-2021, passeio ribeirinho de Vila Franca de Xira a meio da tarde. 


sexta-feira, janeiro 15, 2021

CONFINAMENTO, DIA 1

 Beira-Tejo, foto de 15-1-2021

= Resguardem-se o mais que possam, mas não dispensem um passeio higiénico diário. 


quarta-feira, janeiro 13, 2021

UMA CAMPANHA SEM ESQUELETOS

Acabaram os debates. Afinal não há candidatos infectados nem adiamento das eleições. Acções de rua só em novo estilo. Sobram as redes sociais - e aí é fartar, vilanagem! 
Dia 24, lá estarei de caneta em riste. Assim espero.

terça-feira, janeiro 12, 2021

ADOLFO-MIGUEL, FERNANDO E ÁLVARO - - COISAS DE OUTROS TEMPOS

 Rampa, poemas de Adolfo Rocha, Edições “Presença”, 1930.

Adolfo Rocha – que viria a adoptar o pseudónimo MIGUEL TORGA – , enviou um exemplar do livro a Fernando Pessoa. Este agradeceu por carta de 6 de Junho de 1930, dizendo: «Li-o e gostei d´elle. A sua sensibilidade é do typo egual á do José Régio – é confundida, em si mesma, com a intelligencia. O que em si é ainda por aperfeiçoar é o modo de fazer uso d´essa sensibilidade.» Pessoa avança de seguida com considerações sobre o uso da sensibilidade, a inteligência e de como a arte se move no meio de tudo isto.

As considerações  não agradaram a Adolfo Rocha que em carta de 9 de Junho responde: «Recebi a sua carta amável e confusa. Venho, portanto, agradecer a gentileza e, ao mesmo tempo, dizer-lhe que reputo de obscuro o seu conceito de poesia.» E acrescenta: «(…) a sua opinião a respeito do meu livro será a mais desinteressante de todas as recebidas…»

Fernando Pessoa dirá a João Gaspar Simões, por carta de 28 de Junho, que teria escrito à pressa a opinião sobre A Rampa. Além de que, na verdade, não foi ele a escrevê-la: «(…) transferi a redacção [da carta] para o sr. Engº Alvaro de Campos, cujo talento para a concisão em muito sobreleva ao meu.»

Sempre que o engenheiro naval por Glasgow era chamado aos assuntos de Fernando Pessoa, a coisa corria mal. Foi assim com Ofélia Queiroz e as cartas de amor, e também no encontro do Café Montanha com José Régio e Gaspar Simões. O raio do homem deitava tudo a perder, mas, faça-se-lhe justiça, não o escondia, como se vê nos versos de certo poema: «Todas as horas faço gaffes de civilidade e etiqueta» e «Tenho feito muitas coisas más, muitas coisas reles, muitas infâmias.» Assim mesmo.

= Citações: 1) Cartas entre Fernando Pessoa e os directores da presença, edição e estudo de Enrico Martines, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1998. 2) Arquivo Pessoa: obra édita, Poesia de Álvaro de Campos.


domingo, janeiro 10, 2021

LA BOHÈME, de GIACOMO PUCCINI

Musetta, o amor libertino, ao contrário de Mimi, o amor de paixão. Aqui na ária "Quando m´en vo", do 2º acto de La Bohème, sensualmente interpretada por Olga Kulchynska. No 4º acto, ante a doença de Mimi, Museta teve o gesto nobre de vender os seus brincos para pagar um medicamento. De nada serviu, a apaixonada do poeta Rudolfo lá partiu para as pradarias brancas da eternidade. 

quinta-feira, janeiro 07, 2021

BANDEIRAS DE ÓDIO

Ontem, em Washington, um energúmeno invasor do Capitólio empunhando a bandeira de guerra dos Estados Confederados. Muito revelador do que vai na cabeça dos white supremacists.

Por acaso tenho aqui à mão um livrinho sentimental e de bons sentimentos. Lenda ou não, lembrei-me do que disse Abraham Lincoln à sua autora quando a conheceu no princípio da Guerra Civil: «Então é esta a pequena senhora que deu início a esta grande guerra?» 


 Grandes guerras ainda a travar, 160 anos depois.