sábado, julho 02, 2011

VÓRTICES

Um dos vórtices da minha existência, tumultuoso e belo, foi quando me apaixonei aos catorze anos. Ela tinha a pele muito branca, os cabelos negros de azeviche, era uma menina da escola e sabia de mim da mesma forma que a flor sabe da abelha que lhe toma o néctar. Ou seja, não sabia! Não me declarei em tempo oportuno, nem sei se tão denodado acto teria tido algum efeito útil, e quando menos esperava já ela namorava com um colega meu.
O problema, para mim, era insuperável. A jovem morava na rua da escola, cem metros abaixo, quase a chegar ao Largo do Calvário do cinema Promotora e da esquadra da PSP. Cem metros era espaço curto para uma declaração vorticista que nunca poderia acontecer no pátio escolar ou nas escadas e corredores do velho edifício da Rua da Creche.
Rua da Creche, do bairro típico de Alcântara. A creche, de que recebeu o nome, ficava mais acima, na Calçada da Tapada. Quem por lá passar, ainda hoje pode ver, inscrita no frontispício dum velho edifício, a palavra “parvulário” – do latim parvulus, que quer dizer criança ainda pequena. Parvulário era um infantário, uma creche – coisas e nomes do tempo erudito da I República!
Esta Rua da Creche é histórica. Era lá que morava, num rés-do-chão revestido de marmorite e com cortinas de renda nas janelas, o mestre Fonseca, professor de dactilografia e caligrafia que escreveu livros e críticas de televisão com o sibilante pseudónimo de Mário Castrim. Foi ele que me publicou uns poemas no Diário de Lisboa – Juvenil, ou, melhor dizendo, publicou dois ou três poemas e deitou para o caixote do lixo uns vinte ou trinta. Como eu lhe agradeço a medida higiénica! Que a terra te seja leve, meu Mestre!
Foi nesta rua que a Pide matou José Dias Coelho, o pintor da balada de José Afonso, e eu estava lá para ouvir o tiro e não saber nada do que acontecera. A Rua da Creche chama-se hoje Rua José Dias Coelho e uma lápide atesta, no local, o hediondo crime.


A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai.


Foi num dia de Dezembro ao principio da noite, fazia frio nas ruas e nas almas. Um vórtice.

8 comentários:

Maria José disse...

Moro em Alcântara, passo muitas vezes nesta rua. E sempre que o faço procuro a placa de mármore que assinala a morte do pintor. Depois penso que, felizmente, a morte já não sai à rua.

Maria Amélia disse...

Estou mesmo em fase de nostalgia... Antes de ontem foi Tomar, foi andar pelas ruas tão vazias de gente e tão cheias da memória do nosso passeio. Hoje é o Manuel que me transporta aos momentos e lugares, esses de memória em si, do eventualmente passeio inaugural desta fase da comunidade, mas ainda sem a Joca e outros. Foi o passeio da Ajuda, na sequência das Bicicletas em Setembro...Estou tramada!Quem tem um lenço?

Manuel Nunes disse...

Minhas Amigas:

JOCA - uma mulher da terra do Remexido é capaz de fazer grandes descobertas num bairro de Lisboa como este.

AMÉLIA - é Alcântara, não é Ajuda!
Outro possível passeio: o campo da Tapadinha, a Tapada (que por sinal se diz da Ajuda), os painéis da gare marítima - local histórico: "Temos o Santa Maria de novo connosco, Obrigado, Portugueses".

Ricardo António Alves disse...

Belo texto!
O Castrim foi prof. de caligrafia do meu pai.

Manuel Nunes disse...

Ricardo: O mestre Fonseca era um artista. Também no cursivo inglês, na letra francesa (que se fazia com um aparo de bico cortado), na letra gótica. Caramba, o que se aprendia naquele tempo!

Maria José disse...

Eu sou do tempo em que se aprendia caligrafia na escola comercial. Era autêntica arte, gerir a tinta e os movimentos das mãos, de modo que os aparos não "travassem" no papel almaço e se borrasse tudo, inclusivamente o pobre aprendiz de escrevente. Mas as letras, depois, eram lindas de ver.
A propósito, o primeiro livro de Saramago que li, há muitos anos, foi "Manual de pintura e caligrafia". Ainda hoje recordo a satisfação de estar a ler um grande livro!

Manuel Nunes disse...

Joca:
Foi dos últimos que li e tenho de voltar a ele em breve.
Para que servia a caligrafia? Para os lançamentos nos livros selados, nomeadamente o "Diário". Recordo-me daquele lançamento, feito em letra francesa, que era o primeiro da minha monografia em Contabilidade:

CAIXA
a
CAPITAL

Conta de CAIXA, debita-se pelas entradas e credita-se pelas saídas.
Podia ter-me feito um grande contabilista, ainda hoje estou para saber em que é que falhei. :)

Maria Amélia disse...

Manuel:

Ainda em relação aos vossos locais míticos, o que me impressionou, no passeio da Ajuda, foi a evocação de uma geografia de emoções, independentemente da morfologia urbana. Aquele passeio e todos os que temos feito, valem mais por esses aspectos, para mim desconhecidos e que alguns, sobretudo tu, fazem questão em partilhar. Tudo isso me interessa, tudo o que confere um carácter particular aos locais, pela memória pessoal ou colectiva.
Vamos à Tapada! à Gare Marítima, onde quiseres! Quando é?