
Em baixo corria o Lima, o lendário Letes, o rio do esquecimento dos Calaicos.
Madeleine chegou de Paris para umas férias com os primos Barbelas, uma estirpe decadente, apesar de tudo uns furos acima da parentela dos Beringelas, rudes senhores de Entre Douro e Minho envilecidos no trabalho mecânico das conservas de enguias e trutas assalmonadas.
Se o cavaleiro virgem de Santa Comba tivesse encontrado Madeleine, ter-se-ia apaixonado por ela como aconteceu com o cavaleiro autêntico da história. Era bem conhecida a sua atracção por senhoras parisienses, assim como a facilidade com que as convidava a passar férias na sua quinta e vinhedos do viçoso Dão.
Madeleine foi um raio de sol que rompeu o espesso nevoeiro dos domínios senhoriais da Torre da Barbela. É uma personagem excitante, alegre e desinibida, muito acima dos visos trágicos de Izabella, da postura belicosa de Dom Raymundo, da carnalidade do Abade da Moutosa ou da bastardia risível do Menino Sancho.
Madeleine estava morta e bem morta, e nisso era completamente diferente do Dr. Mirinho, um primo tecnocrata que, estando morto, até parecia vivo.
É por parecerem vivos que os tecnocratas são perigosos. O cavaleiro da história montava o cavalo Vilancete e dava a guante às garras do seu falcão Abelardo. Hoje, na nossa Torre, tecnocratas aparentemente vivos montam os velozes cavalos do poder e dão-se igualmente a artes de falcoaria.
Mortos, autenticamente mortos, seriam ao menos suportáveis.
D.E.
1 comentário:
Há um tempo que não vinha a este espaço. É um espaço de frescura de «refreche». Ruben A parece-me bem um saudável impertinente da escrita. Li também dele, O Mundo à Minha Procura. Uma outra forma de sentir.Afinal não será, cada Homem um sentir?
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