sexta-feira, fevereiro 05, 2021

OS TRÊS AMERICANOS DE EÇA

Ele conhecia os americanos. Em 1873, sob pretexto das febres de Verão nas Antilhas - era então cônsul em Havana -, Eça viajou para o Canadá, Estados Unidos e América Central com autorização do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Parece que as razões fundamentais para a viagem não eram as febres nem os americanos, mas duas americanas que conhecera em Cuba: Mollie Bidwell e Ana Conover. 
A verdade é que o seu apetite pelo estudo dos homens e das sociedades permitiu-lhe identificar três tipos de americanos que são objecto de um pequeno artigo: o dos estados do Sul, da Carolina ou da Luisiana; o do Norte, «grosso, vermelho, forte» que «leva em si todo o orgulho da América»; e o do Canadá, «raça que pretende ter teorias». Desconheço em que periódico e data foi publicado o artigo, não o diz a minha edição das Notas Contemporâneas, décimo quinto volume das Obras Completas editado em 1981 pelo Círculo de Leitores. Mas diz, sim, da prosa certeira e do remate fabuloso da crónica:
«Três são. Uma coisa têm em comum - a individualidade, o myself. Eu mesmo, eu cidadão americano, de resto nada. Outro ponto de contacto: nunca se espreguiçam. De resto, com toda a sua civilização, a sua riqueza, o seu ouro, o seu myself, o seu ruído sobre o planeta, a sua intimidade com Deus, não seriam capazes, todos juntos, desde o Canadá até Filadélfia, desde o presidente Grant até ao Negro, que agora geme atrelado ao algodão, de fazer um verso de Musset, ou um desenho de Delacroix. E têm outra desgraça: assoam-se muito.
De resto, magníficos
Acho que Eça tinha razão. Não em tudo, mas em quase tudo. 


quinta-feira, fevereiro 04, 2021

PINACOTECA

AMEDEU MODIGLIANI, Retrato de Jeanne Hébuterne (1919) 

vem

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando a tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

- AL BERTO, do poema "E uma paixão". Antologia Do corpo: outras habitações, organização e apresentação de Ana Luísa Amaral e Marinela Freitas, ed. Assírio & Alvim, 2018.

LISA BATIASHVILI, violino: "Dança dos Cavaleiros", bailado "Romeu e Julieta", de Sergei Prokofiev

quarta-feira, fevereiro 03, 2021

REVISTA "TRÍPTICO"



No nº 5 da revista Tríptico  (Coimbra, 9 números publicados de 1 de Abril de 1924 a 20 de Abril de 1925), um texto de José Régio, então com 23 anos de idade, provável excerto do projecto de romance Maria de Magdala e Jesus da Nazaré.  

segunda-feira, fevereiro 01, 2021

GRANDE PLANO

JODIE FOSTER no filme Contacto (1997), de Robert Zemeckis, desempenhando o papel da Dra. Eleanor Arroway (Ellie), cientista apostada na descoberta de vida inteligente fora do nosso sistema solar. Li o livro há uns bons anos na edição da Gradiva de 1985. 

A VOZ DA PEDRA

Bysancio, revista de moços académicos de Coimbra, teve 6 números publicados de Março de 1923 a Janeiro de 1924. Embora não pertencesse ao grupo directivo, José Régio colaborou em todos os números. 
Vou lendo essa colaboração, acessível  em suporte digital. Muito interessante a da derradeira vez em que a folha veio a público: uma crítica ao primeiro volume de teatro de Raúl Brandão e ao livro Os Pescadores. Mas não é sobre isso que me vou deter. Nestes tempos que atravessamos, impõe-se algo de mais ligeiro, sem deixar de ser sério: "Excerto sobre o riso", no nº 5, de Dezembro de 1923, uma espécie de conto filosófico em que o narrador escuta os conselhos de uma pedra. Tiro este excerto do Excerto, sabedoria da pedra: «Quem sabe rir de si mesmo sabe ultrapassar-se. E nem tem o direito de rir quem não começou por esse princípio... Sê superior a ti mesmo, e serás superior a todos. Ri do fantoche que tu és, e um Deus animará esse fantoche. Quem se tomou a sério, será lançado ao ridículo. Mas quem soube rir de si mesmo será tomado a sério. Ri e serás forte! Ri e serás livre!» Há por aí alguns a quem não faria mal escutar a voz da pedra. 

domingo, janeiro 31, 2021

"PAZ AOS VENCIDOS"

Há uns trinta anos, encontrava-me eu no Porto por razões profissionais, quando fui surpreendido por umas salvas de tiros vindas de um qualquer ponto que não determinei. Era 31 de Janeiro, dia em que no ano de 1891 se deu a revolta republicana na Invicta. Lembrei-me hoje de que poderia tratar-se das comemorações do centenário, mas inclino-me a pensar que em cada ano, num qualquer lugar da cidade, são saudados desta forma os revoltosos de 1891. O espírito liberal e republicano do povo do Porto não oferece dúvidas. Aliás, ainda há uma semana tivemos a prova disso.

= Fotografia tirada por mim em Dezembro de 2019: monumento aos vencidos do 31 de Janeiro de 1891 no Cemitério do Prado do Repouso.


sábado, janeiro 30, 2021

A DERRADEIRA CONFISSÃO

De novo com este livro de José Régio, o qual, no dizer de Eduardo Lourenço, é o «último avatar da sua perpétua confissão» (“As confissões incompletas ou a religião de RÉGIO”, Colóquio/Letras nº 11, Janeiro de 1973).
Segundo Orlando Taipa, em “Introdução à Leitura de Confissão dum Homem Religioso”, a causa próxima deste livro – projecto antigo de José Régio –  foi a publicação do Caderno 3 da revista O Tempo e o Modo, em Setembro de 1968, intitulado “Deus o que é?”.
Fomos ver este caderno de 378 páginas. É composto de artigos de, entre outros, Manuel António dos Santos Lourenço, Jorge de Sena, Eduardo Lourenço, João Bénard da Costa, Vergílio Ferreira, António Alçada Baptista e Manuel de Lucena, além de uma secção antológica de textos doutrinários, testemunhos pessoais e debates gravados. José Régio não foi convidado a integrar a plêiade de colaboradores e isso deixou-o “picado”, como, nestes exactos termos, referiu Eugénio Lisboa (José Régio, a obra e o homem). O poeta de Vila do Conde e Portalegre foi esquecido e menosprezado pela direcção da revista, ele que vivia o problema de Deus (e do Diabo, também) desde o alvor do seu labor literário.
Resolveu, de imediato, começar a escrever a obra que justificava a sua peculiar posição sobre Deus e a religião. Reformado das funções de professor, tinha todo o tempo para se dedicar a ela, e a primeira redacção ficaria pronta em Abril de 1969. Só que com outros trabalhos a que não pôde virar costas e com o enfarte do miocárdio que lhe sobreveio em princípios de Outubro – causa da morte ocorrida a 22 de Dezembro – o livro ficou inacabado. A revisão autoral não passou de escassas páginas do Capítulo I e um último e importante capítulo – de título “A Religião para sempre” – não chegou a ser escrito.
Mesmo assim, é obra interessante de se ler, pelo conteúdo autobiográfico – que explica muito  dos seus anos de infância, adolescência e primeira juventude – e pelo forte pendor confessional que preside ao desenvolvimento das suas ideias sobre Deus e a religião. Aliás, voltando às palavras de Eduardo Lourenço no artigo da revista Colóquio/Letras, «mais confessional obra literária não existe entre nós.»

sexta-feira, janeiro 29, 2021

GRANDE PLANO

SEAN YOUNG, no papel de Rachael, em Blade Runner (1982), de Ridley Scott. Vi ontem, mais uma vez, num canal de televisão. A primeira foi há muito tempo numa sala do extinto Quarteto. 

quinta-feira, janeiro 28, 2021

O homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. E a ironia atravessa dois estádios: o estádio marcado por Sócrates, quando disse «sei só que nada sei», e o estádio marcado por Sanches, quando disse «nem sei se nada sei».

= BERNARDO SOARES, ajudante de guarda-livros, Livro do Desassossego

quarta-feira, janeiro 27, 2021

FATOUMATA DIAWARA & ROBERTO FONSECA (JAZZ IN MARCIAC, 2014)

O TEMPO

Tenho aqui sobre a mesa, sempre à mão, uma edição popular deste livro. Digo popular porque me custou dois ou três euros – já não me lembro com exactidão – num alfarrabista da cidade. É um livro sem preâmbulos, sem estudos, sem notas – apenas com o prefácio de Fernando Pessoa  e a «autobiografia sem factos» do esforçado colaborador do guarda-livros Moreira e do controverso patrão Vasques.

Há bocado abri o livro ao acaso – como algumas vezes sucede – e dei com os meus olhos diante do fragmento nº 350 em que Bernardo Soares discorre sobre o sentido – digamos  metafísico – do tempo. Para alguém sujeito ao jugo do Deve e do Haver não está nada mal, constatação válida para este fragmento e para todos os fragmentos do livro. Cito:

«Não sei o que é o tempo. Não sei qual a verdadeira medida que ele tem, se tem alguma. A do relógio sei que é falsa: divide o tempo espacialmente, por fora. A das emoções sei também que é falsa: divide, não o tempo, mas a sensação dele. A dos sonhos é errada; neles roçamos o tempo, uma vez prolongadamente, outra vez depressa, e o que vivemos é apressado ou lento conforme qualquer coisa do decorrer cuja natureza ignoro.»

Para mim, pensador incipiente e de rebarbativos lapsos, o tempo é associado ao peso progressivo da idade, à dispepsia e à fadiga dos órgãos, embora não seja dos que tenham, por enquanto, as maiores razões de queixa. Como se vê, estou naquele círculo das sensações e das emoções, logro em que não caía o avisado empregado do escritório da Rua dos Douradores. Ele que assim fecha o seu fragmento sobre o tempo:

«Que coisa, porém, é esta que nos mede sem medida e nos mata sem ser? E é nestes momentos, em que nem sei se o tempo existe, que o sinto como uma pessoa, e tenho vontade de dormir.» 

Tal e qual como eu, quando sofro os achaques nocturnos da minha carne débil: tenho vontade de dormir, só que muitas vezes não consigo.

 

terça-feira, janeiro 26, 2021

UMA REVISTA DE HÁ 100 ANOS

Capa de Ruy Bastos para o nº 6 da revista A Hora – Revista-panfleto de arte, actualidades e questões sociaes –, de 23 de Abril de 1922, dirigida e redigida em grande parte por Ferreira de Castro (1898-1974). A edição em fac-símile dos números da revista foi feita pela Fundação Engº António de Almeida (em 2017), com apresentação e notas de Paulo Samuel. Neste número, o último, há artigos de Ferreira de Castro, Campos Lima (1877-1956) e Eduardo Frias (1895-1975) – figuras de uma forma ou outra ligadas à corrente anarquista ou ao anarco-sindicalismo, pese embora o desvio do último para o campo ideológico do corporativismo.

segunda-feira, janeiro 25, 2021

JULIA FISCHER, Caprice nº 24, Paganini

PRESIDENCIAIS 2021 bis


Delirantes os discursos de Rio e Chicão sobre os resultados eleitorais. Um a salientar o esmagamento da esquerda, agora reduzida a uns míseros 20% de votos; o outro a afirmar o papel determinante do seu partido nos números alcançados. O Costa deve-se ter fartado de rir, o Marcelo talvez não...
E que dizer do Bento Rodrigues da SIC a puxar repetidamente para a emissão os gráficos dos resultados nos distritos do Alentejo, onde o tal partido ficou em segundo lugar? O homem parecia entusiasmado, mas da minha parte admito que possa ter sido um erro de percepção... Nas redes sociais, houve quem falasse da memória traída de Catarina Eufémia e outras barbaridades condizentes. Há gente que não vê para além das cores das bandeiras. É por isso que...   

domingo, janeiro 24, 2021

PRESIDENCIAIS 2021

Votei com esta canetinha passava pouco das dez. Foi muito fácil, sem riscos e absolutamente indolor. Marquei a cruz a seguir ao nome e à foto de um candidato não populista, de discurso consistente, constitucional  e sério. Não tenho medo de ideologias, tenho medo, sim, de quem diz não as ter. 
A noite que venha para vermos o que acontece... E lembro-me de Álvaro de Campos:

Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio. Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

etc.

sexta-feira, janeiro 22, 2021

PEIXOTO À BEIRA-RIO bis

Esta tarde, em retiro unipessoal diante do rio, a acabar a leitura de Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto. 
Umas memórias póstumas servidas em puzzle ao leitor benévolo.
A história tem consistência e a escrita é estimulante, com alguns efeitos vanguardistas e pós-modernos:

«Puxou a Maria pelo. Pulso e levou-a pelo corredor e entraram no quarto onde dormiam todas. As noites e apontou. Para a estante cheia de romances. De amor que a Maria. Guardava desde menina. E que organizava por. Ordem alfabética e todas as histórias. Que conhecia de cor e que seria capaz de contar. Com todos os pormenores e. Apontou para a estante cheia.» (p. 173)
«Sobre a cama, um monte de páginas rasgadas e de capas rasgadas, títulos: sonhos de, paixão casamento na, primavera as chamas do coração mais, forte do que o preconceito vitória, do destino apaixonada pelo homem, certo rapariga e mulher amar pela primeira, vez o desconhe, cido irresistível flo, res demasia, do tarde pa, ra além do, desejo so, rriso c, rue, l am, a, nhecer, de e, mo, ç, õe, s.» (p. 174)

Peixoto, ó pá, o trabalho que tu me deste!

= Foto de 22-1-2021=

quarta-feira, janeiro 20, 2021

mezzo liveHD

Há programas de televisão que não posso deixar de registar. MAYRA ANDRADE, convidada de ROBERTO FONSECA, no festival "Jazz in Marciac" em 6 de Agosto de 2019. Assim mesmo como a vemos na foto. Foram minhas companhias no serão de hoje. 

Nota: Pode ser visto no YouTube.

terça-feira, janeiro 19, 2021

GRANDE PLANO

Mary McDonnell (1952) no filme Danças com Lobos (1990), dirigido e protagonizado por Kevin Costner.

ORTHOGRAPHIA REPUBLICANA

Continuo a ler a correspondência entre Fernando Pessoa e os directores da presença neste livro que, estranhamente, não indica na capa quem procedeu à edição e ao estudo das cartas publicadas: Enrico Martines, professor e investigador da Universitâ degli Studi di Parma.
Dei hoje com uma carta do poeta para João Gaspar Simões, datada de 3 de Novembro de 1931. Carta curta, enviando colaboração para o nº 34 da Presença. Veja-se o primeiro parágrafo:

Meu querido Gaspar Simões:
Ahi vae, segundo a promessa (d´esta vez milagrosamente cumprida), a collaboração que lhe prometi. Como a passei a limpo à pressa, não a puz em orthographia republicana, mas v. já sabe o que póde fazer, para a devida uniformidade da Revista.

Pessoa, pelo que se vê, escrevia ainda, em 1931, sem se preocupar muito com o Formulário Ortográfico de 1911, a «orthographia republicana», como diz. Tal é patente, para só citar alguns casos, no uso da letra h em posição medial (ahi e orthographia), nas consoantes duplas (collaboração) e no uso do grupo consonântico ph em vez de f. 
Isto de reformas ortográficas sempre teve os seus seguidores e os que pouco ou nada lhe ligam. Só que entre estes estão, por vezes, os nossos maiores.

segunda-feira, janeiro 18, 2021

PEIXOTO À BEIRA-RIO

Sugeriram-me a leitura deste romance e é o que vou fazendo ao sol de Inverno. Não é Kafka à beira-mar, como no título do conhecido autor japonês, mas Peixoto à beira-rio. Confesso que estou a gostar, apesar de não ser fácil de ler. Vou mais ao menos a meio do livro, ao quilómetro doze de Francisco Lázaro na maratona olímpica de Estocolmo. E saiba-se que o cemitério de pianos, por várias razões, não é um lugar de morte, antes o triunfo de Eros sobre Tânatos. 

PINACOTECA

Concerto Campestre (c. 1510), atribuído a GIORGIONE, TICIANO ou a ambos. Óleo sobre tela, Museu do Louvre. Quando ÉDOUARD MANET apresentou em 1831 o seu Déjeuner sur l`herbe (Museu d´Orsay), os que se escandalizaram não tiveram em conta esta obra inspiradora de três séculos antes.

domingo, janeiro 17, 2021

CONFINAMENTO, DIAS 2 e 3

Grassa aí pelas redes sociais e em comentários da televisão uma estupefacção / indignação por se ver tanto trânsito nas ruas, tantas pessoas em mobilidade.

Claro que não é admissível o alarde de alguns, deixando-se fotografar em restaurantes ilegalmente abertos, porque o perigo, o grande perigo, vem justamente desses convívios de mesa e salão em que as defesas se reduzem ao mínimo. Bem dizia aquele clone do nosso rei Carlos de Bragança, subdirector da D.G.S. ou coisa que o valha, que o consumo social de bebidas alcoólicas potencia o risco.

Porém, vistas bem as coisas, como poderia este confinamento ser igual ao outro? Há gente a trabalhar, a frequentar escolas, a ir aos supermercados e a dar o seu passeiozito higiénico. Querem que as pessoas se aprisionem nas suas próprias casas e  venham para as janelas às 10 horas da noite bater palmas aos profissionais de saúde?

Por favor, tenham noção do perigo e cumpram o que está determinado, mas sair não é impeditivo de uma conduta responsável.

Eu saio todos os dias. Ficar em casa seria mais seguro? Certo que sim. Posso apanhar o vírus? Igualmente certo. Mas também o posso apanhar nas idas aos supermercados, no dia das eleições quando for votar ou sempre que estiver com a minha neta que vai todos os dias à escola. Sejamos responsáveis e não deixemos de fazer o que é essencial para a nossa saúde física e mental. Um dia isto vai passar e é provável que fiquemos entre os sobreviventes. Tenham alegria. Saúde é o que desejo.   

= Foto de 16-1-2021, passeio ribeirinho de Vila Franca de Xira a meio da tarde. 


sexta-feira, janeiro 15, 2021

CONFINAMENTO, DIA 1

 Beira-Tejo, foto de 15-1-2021

= Resguardem-se o mais que possam, mas não dispensem um passeio higiénico diário. 


quarta-feira, janeiro 13, 2021

UMA CAMPANHA SEM ESQUELETOS

Acabaram os debates. Afinal não há candidatos infectados nem adiamento das eleições. Acções de rua só em novo estilo. Sobram as redes sociais - e aí é fartar, vilanagem! 
Dia 24, lá estarei de caneta em riste. Assim espero.

terça-feira, janeiro 12, 2021

ADOLFO-MIGUEL, FERNANDO E ÁLVARO - - COISAS DE OUTROS TEMPOS

 Rampa, poemas de Adolfo Rocha, Edições “Presença”, 1930.

Adolfo Rocha – que viria a adoptar o pseudónimo MIGUEL TORGA – , enviou um exemplar do livro a Fernando Pessoa. Este agradeceu por carta de 6 de Junho de 1930, dizendo: «Li-o e gostei d´elle. A sua sensibilidade é do typo egual á do José Régio – é confundida, em si mesma, com a intelligencia. O que em si é ainda por aperfeiçoar é o modo de fazer uso d´essa sensibilidade.» Pessoa avança de seguida com considerações sobre o uso da sensibilidade, a inteligência e de como a arte se move no meio de tudo isto.

As considerações  não agradaram a Adolfo Rocha que em carta de 9 de Junho responde: «Recebi a sua carta amável e confusa. Venho, portanto, agradecer a gentileza e, ao mesmo tempo, dizer-lhe que reputo de obscuro o seu conceito de poesia.» E acrescenta: «(…) a sua opinião a respeito do meu livro será a mais desinteressante de todas as recebidas…»

Fernando Pessoa dirá a João Gaspar Simões, por carta de 28 de Junho, que teria escrito à pressa a opinião sobre A Rampa. Além de que, na verdade, não foi ele a escrevê-la: «(…) transferi a redacção [da carta] para o sr. Engº Alvaro de Campos, cujo talento para a concisão em muito sobreleva ao meu.»

Sempre que o engenheiro naval por Glasgow era chamado aos assuntos de Fernando Pessoa, a coisa corria mal. Foi assim com Ofélia Queiroz e as cartas de amor, e também no encontro do Café Montanha com José Régio e Gaspar Simões. O raio do homem deitava tudo a perder, mas, faça-se-lhe justiça, não o escondia, como se vê nos versos de certo poema: «Todas as horas faço gaffes de civilidade e etiqueta» e «Tenho feito muitas coisas más, muitas coisas reles, muitas infâmias.» Assim mesmo.

= Citações: 1) Cartas entre Fernando Pessoa e os directores da presença, edição e estudo de Enrico Martines, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1998. 2) Arquivo Pessoa: obra édita, Poesia de Álvaro de Campos.


domingo, janeiro 10, 2021

LA BOHÈME, de GIACOMO PUCCINI

Musetta, o amor libertino, ao contrário de Mimi, o amor de paixão. Aqui na ária "Quando m´en vo", do 2º acto de La Bohème, sensualmente interpretada por Olga Kulchynska. No 4º acto, ante a doença de Mimi, Museta teve o gesto nobre de vender os seus brincos para pagar um medicamento. De nada serviu, a apaixonada do poeta Rudolfo lá partiu para as pradarias brancas da eternidade. 

quinta-feira, janeiro 07, 2021

BANDEIRAS DE ÓDIO

Ontem, em Washington, um energúmeno invasor do Capitólio empunhando a bandeira de guerra dos Estados Confederados. Muito revelador do que vai na cabeça dos white supremacists.

Por acaso tenho aqui à mão um livrinho sentimental e de bons sentimentos. Lenda ou não, lembrei-me do que disse Abraham Lincoln à sua autora quando a conheceu no princípio da Guerra Civil: «Então é esta a pequena senhora que deu início a esta grande guerra?» 


 Grandes guerras ainda a travar, 160 anos depois. 


terça-feira, janeiro 05, 2021

JAMES BOND NA FLORESTA DE SHERWOOD


Ciclo IN MEMORIAM SEAN CONNERY na Cinemateca. Vi ontem Diamonds Are Forever (1971), filme com um plot vertiginoso em que, a certa altura, já não se percebe quais são os "bons" e os "maus", com cenas de perseguições espectaculares: de automóvel, de mota e até de... carro lunar.
Mais serena a sessão de hoje com o filme Robin and Marian (1976), de Richard Lester. Robin Hood (Sean Connery) regressa da Cruzada onde, convertido à legalidade, serviu o rei Ricardo Coração de Leão. Foi na companhia do seu amigo Little John. Regressam e por morte do rei procuram refúgio na floresta de Sherwood, onde encontram os seus antigos companheiros vinte anos mais velhos como eles. Lutam então contra o poder tirânico de Sir Ranulf e do xerife de Nottingham que continuavam firmes nos seus postos. Lady Marian, recolhida como freira, retoma o amor antigo ao lado de Robin, embora o desfecho da história seja triste para os amorosos. Audrey Hepburn faz de Lady Marian, líndísima no esplendor dos seus quarenta e tal anos. 

quinta-feira, dezembro 31, 2020

NO SAPATINHO 4

Posto diferidamente no sapatinho. Livro em torno das comemorações dos 100 anos de vida literária de Ferreira de Castro. Traz as conferências de Outubro de 2016 na Fundação Engº António de Almeida: de Pedro Calheiros, Isabel Ponce de Leão, Paulo Samuel, António dos Santos Pereira e Célia Pinho. E em extratexto – o que não é coisa menor –, fac-símile dos seis números de A Hora: revista-panfleto de arte, actualidades e questões sociais, fundada em 1922 pelo romancista de Ossela. 
 

quarta-feira, dezembro 30, 2020

NO SAPATINHO 3

Esta prenda fui eu mesmo que a pus no sapatinho. Metido nos caminhos da ecocrítica a predicar sobre a paisagem em Amiel e Bernardo Soares, socorri-me deste simpático livrinho. Diz a autora na p. 25: «O único padrão que se pode discernir das actuais definições da ecocrítica é o destaque que nelas é dado às relações entre a literatura e o meio ambiente e o objectivo de promover a síntese quer da crítica literária com as ciências naturais, quer dos estudos literários com a filosofia do meio ambiente.» Vamos lá a ver se não me chamusco com o fogo ateado.

terça-feira, dezembro 29, 2020

NO SAPATINHO 2

Foi o primeiro livro de Dostoiévski que li. Há décadas, em exemplar requisitado nas bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Ideia de Branquinho da Fonseca - a destas bibliotecas -, que replicou na Fundação a experiência levada a cabo na Biblioteca-Museu Conde Castro Guimarães, Cascais, onde foi conservador e bibliotecário. Dentro de dias, assim espero, volto ao estranho mundo do estudante Raskólnikov.

segunda-feira, dezembro 28, 2020

NO SAPATINHO 1

Uma antologia poética sobre o corpo – nossa habitação permanente –  campo do desejo e invólucro da alma. Vai de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) a Golgona Anghel (1979).

Detenho-me em Ana  Hatherly (1929-2015), poema “Leonorama-Variação VII”:

descalça ia leonor. ia àfonte leda efria.

ia lesta &ia. afonte corria. leonorapenasia.

pela aragem fria. pela manhãia. sorria.   &ia.

leonoria. leonorama leonoria. anaía bela.   &ia.

(…)

E em Jorge Sousa Braga (1957), poema “Strip-tease”:

Quanto mais me dispo

menos nu

me sinto


domingo, dezembro 27, 2020

CAMINHADAS

Uma garça-real no trilho da Verdelha entre Póvoa de Santa Iria e Alverca do Ribatejo. Deixou-se fotografar a uma distância segura e depois voou. 
--- Ardea cinerea, ave ciconiiforme de grande porte, da família dos Ardeídeos, comum em Portugal, tem pernas e pescoço longo, atingindo perto de um metro de altura e apresenta bico grande e afilado e plumagem acinzentada, com faixa supraciliar negra (Infopédia).
=Fotos de 27-12-2020=


terça-feira, dezembro 22, 2020

O Natal em TO KILL A MOCKINGBIRD, livro

 MARY BADHAM como Scout Finch no filme (1962) de Robert Mulligan

O Natal na plantação Finch (capítulo 9) foi uma grande seca para Scout, não obstante os bons cozinhados da tia Alexandra. Por causa de ter falado de Atticus como um «amigalhaço dos pretos», o primo Francis foi esmurrado pela menina, tendo esta esfolado os nós dos dedos contra os dentes do desbocado.

Prendas de Natal para Scout e Jem: espingardas de pressão de ar, conforme pedido dos interessados.

Mas Atticus avisou a filha (capítulo 10): «Podes matar todos os gaios-azuis que encontrares, isto se lhes conseguires acertar, mas lembra-te de que é pecado matar uma cotovia.» Miss Maudie, em diálogo posterior, corroborou: «O teu pai tem razão. As cotovias não fazem nada a não ser cantar belas melodias para nós. Não estragam os jardins das pessoas, não fazem ninhos nos espigueiros, só sabem cantar com todo o sentimento para nós. É por isso que é pecado matar uma cotovia


segunda-feira, dezembro 21, 2020

NATAL NA PLANTAÇÃO FINCH

«Não havia suspiros suficientes que levassem o Atticus a deixar-nos passar o dia de Natal em casa. Desde que me lembro, que passávamos todos os Natais na plantação Finch. O facto de a tia ser uma boa cozinheira compensava o facto de ser obrigada a passar um feriado religioso com o Francis Hancock. Era um ano mais velho do que eu e, regra geral, eu fazia tudo para o evitar: gostava de tudo o que eu desaprovava e detestava as minhas engenhosas brincadeiras.» 

O primo Francis recebeu pelo Natal aquilo que havia pedido: um par de calções, uma pasta para os livros em couro vermelho, cinco camisas e um laço. Scout e o irmão Jem tiveram umas espingardas de pressão de ar e um estojo de química a sério, não de brincar. Há as suas diferenças...

Com tanto tipo que, neste Natal, aparece na televisão e no twitter com palavreado reaça, apetece-me pedir à Scout que venha aí do Alabama profundo para lhes assentar uns bons pares de murros. Ela sabe como se faz.


sexta-feira, dezembro 11, 2020

EPISTOLÁRIO

52 cartas trocadas entre MÁRIO DIONÍSIO e JOAQUIM NAMORADO de 1940 a 1978. Leitura, apresentação e notas de ANTÓNIO PEDRO PITA. Co-edição CASA DA ACHADA/LÁPIS DE MEMÓRIAS. Foi hoje posto à venda e já tenho o meu exemplar. 

terça-feira, dezembro 08, 2020

DURANTE O "PASSEIO HIGIÉNICO"

Visto e fotografado hoje durante o meu “passeio higiénico” em período de limitação da circulação: texto afixado num poste de iluminação da cidade por entre anúncios de empresas de limpezas, desentupimentos e mudanças. Um bocado erodido, nem já se vê o nº de telefone do candidato a amoroso, o que será uma pena caso a conciliação não tenha chegado a dar-se.

É tocante a amplitude etária desejada: dos 21 aos 40 anos. Quais anúncios de jornal, quais “sites” de namoro! 

São coisas como esta que me fazem acreditar no amor.


domingo, dezembro 06, 2020

KAZUO ISHIGURO

Li e continuo a ler os dois primeiros romances de Kazuo Ishiguro: As Pálidas Colinas de Nagasáqui (1982) e Um Artista do Mundo Flutuante (1986). Um aspecto que salta à vista: o confronto entre os valores de duas sociedades nos anos do pós-guerra – os valores do Japão tradicional e os da sociedade emergente. Em ambos os livros, a atracção dos mais novos pela cultura americana, o “sonho americano” em versão nipónica. Sachiko, personagem do primeiro romance, falante do inglês por influência familiar, sonha em emigrar para a América, nação onde a filha poderia aspirar a ser uma mulher de negócios ou uma actriz de sucesso. Oji-san, narrador do segundo romance, surpreende o neto Ichiro a brincar aos cowboys, assumindo a personagem de Lone Ranger celebrizada pelo cinema e pela banda desenhada. O avô tradicionalista ainda lhe recomenda que se fixe nos heróis samurais de antanho, como Yoshitsune. Não resultou, o que o menino queria era mesmo o herói Lone Ranger, Hi yo, Silver!

terça-feira, dezembro 01, 2020

EDUARDO LOURENÇO (1923-2020)

Um texto polémico de Eduardo Lourenço surgiu em Junho de 1960 no suplemento Cultura e Arte do Comércio do Porto, sendo mais tarde integrado no volume Tempo e Poesia, da Gradiva. Título: “Presença ou a contra-revolução do modernismo”. A dicotomia revolução/contra-revolução do título seria atenuada em publicações posteriores com a aposição de um ponto de interrogação final. O ensaísta deixava de fazer uma afirmação categórica e levantava uma questão à qual o texto, porém, respondia pela positiva.

Diz Eduardo Lourenço que para se perceber a «distância fabulosa» entre objectos poéticos revolucionários e outros que o não são, basta comparar a “Saudação a Walt Withman” ou a “Ode Marítima” de Álvaro de Campos com o “Cântico Negro” de José Régio. Em apreciação, a oposição Orpheu / presença, revolução e contra-revolução. Diga-se porém que “Cântico Negro”, sendo o mais celebrado dos poemas de Régio é anterior à revista presença e, bem vistas as coisas, até não era um poema assim tão celebrado pelo seu autor.

Claro que, nestes termos, Eduardo Lourenço não aceita a designação de Segundo Modernismo para a geração presencista. A presença , diz, não é continuação, mas sim, e simultaneamente, reflexão e refracção do Modernismo.

 

domingo, novembro 29, 2020

LEITURAS

 Comecei a ler: 

«Niki, o nome que finalmente demos à minha filha mais nova, não é um diminutivo; foi um acordo a que cheguei com o pai dela. Porque, por mais paradoxal que possa parecer, foi ele que quis que ela tivesse um nome japonês, ao passo que eu - talvez por um qualquer desejo egoísta de não ter de recordar o passado - insisti que o nome fosse inglês. Acabámos por concordar que fosse Niki, talvez por acharmos que tinha um vago tom oriental.»

(Tradução do inglês de Maria do Carmo Figueira)


domingo, novembro 22, 2020

quarta-feira, novembro 11, 2020

quinta-feira, novembro 05, 2020

AMÉRICA!

 

AMERICA

Centre of equal daughters, equal sons,

All, all alike endear’d, grown, ungrown, young or old,

Strong, ample, fair, enduring, capable, rich,

Perennial with the Earth, with Freedom, Law and Love,

A grand, sane, towering, seated Mother,

Chair´d in the adamant of Time.


WALT WHITMAN, 1888


segunda-feira, novembro 02, 2020

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO

 «Olhai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. Porém, Eu digo-vos: nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. Ora, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada no fogo, muito mais Ele fará por vós, gente de pouca fé!» – Mateus, 7, 28-30.

Continuo com Erico Veríssimo, Olhai os Lírios do Campo. Estou agora no cap. 7, quando Eugénio e Olívia, depois de receberem os diplomas da formatura em Medicina, se sentam nas escadas do monumento de «homenagem ao patriarca» e aí discorrem sobre o futuro, a amizade e a sua condição de jovens pobres cuja subida na vida teria de ser feita a pulso.

O monumento – na Praça da Matriz, de Porto Alegre - homenageia o político Júlio Castilhos (1860-1903), considerado pelos seus conterrâneos o Patriarca do Rio Grande do Sul.

Li o romance de Erico Veríssimo há mais de 30 anos. Em Outubro de 2012 estive em Porto Alegre e fotografei o monumento, conforme foto que ponho aí em baixo. Estava longe de me lembrar, então, daquela passagem do romance.


domingo, novembro 01, 2020

RELEITURAS

Relendo Erico Veríssimo (Cruz Alta, 1905 – Porto Alegre, 1975) para me distrair de certas leituras que faço por obrigação. P. 25 do meu livro:

«Eugénio tira o chapéu, passa a mão pelos cabelos. Tem na mente, numa inquietadora sucessão, as imagens das pessoas que sacrificou à sua carreira, ao seu egoísmo, à sua cega ambição. Fui um louco, um bruto – pensa ele. Considerava apenas o seu futuro, a sua ascensão na vida. A carreira estava em primeiro lugar. Depois, vinham os outros. Os outros… Os que o amaram sem pedir compreensões, os que não exigiram nada e lhe deram tudo. O pai, obscuro, humilde, humilhado, ferido de morte pela vida. A mãe, que sacrificara a sua mocidade ao marido, aos filhos, ao lar. Agora, estavam ambos mortos. Era o irremediável.»

Dois apontamentos sobre o paratexto: 1) O romance é dedicado a Mafalda, a mulher, de nome completo Mafalda Halfen von Volpe (Pelotas, 1903 – Porto Alegre, 2003) que lhe deu dois filhos: Clarissa, pois então, e Luís Fernando. 2) A breve nota da portada com o título “Maurício”, nome que é «símbolo de uma funda amizade» e de «recordação dos sonhos de solidariedade humana», refere-se ao editor e divulgador literário Mauricio Rosenblatt (Rosário, Argentina, 1906 – Porto Alegre, 1988).