quarta-feira, março 17, 2021

DÉJÀ LU


Reabriu ontem ao público a livraria DÉJÀ LU  da Cidadela de Cascais. Entre diversas compras (livros usados), todas a bom preço, destaco a edição da "quasi", de Maio de 2008, Fátima, Poema do Mundo, de António Botto. O livro já o conhecia, mas foi com gosto que o trouxe porque é um documento. O «esteta sensualista» das Canções - louvado por Fernando Pessoa e José Régio e execrado pelos conservadores inimigos da «literatura de Sodoma» - surge nesta obra de 1955 no auge da sua fase mística e religiosa. O discurso de Nossa Senhora aos pastorinhos chega a ser risível. O livro foi publicado no Rio de Janeiro (onde o poeta então residia) no quadro do XXXVI Congresso Eucarístico, tendo recebido  o "Imprimatur" do cardeal Cerejeira.  

segunda-feira, março 15, 2021

A CONTA-GOTAS

A partir de hoje, cafezinhos e jesuítas na pastelaria Bijou de Cascais sem aquela inestética mesa a bloquear a porta da entrada aos fregueses. Os pastéis-de-nata também se deixam trincar. Bijou, since 1929, pois então!

DRAMA EM GENTE

 Aguarela de Alfredo Margarido

Primeira carta de Fernando Pessoa para José Régio, datada de 26 de Janeiro de 1928 (Cartas entre Fernando Pessoa e os Directores da presença, edição e estudo de Enrico Martines, IN-CM, 1998), em que se fala do abominável Álvaro de Campos e se surpreende o «drama em gente» pessoano. Escrita em «orthographia pré-republicana»:

Meu querido José Régio:
(Se spontaneamente, o tracto assim, excuso de dizer-lhe que não tinha que hesitar-se, durante um paragrapho inteiro, para me tractar approximadamente...)
A phrase precedente, scripta com uma completa sinceridade, não é minha; intercalou-a, por anticipação, nesta carta o  meu abominável, porém neste caso justo, amigo Álvaro de Campos. Dizendo que elle é justo, confirmo, e torno minha, aquella phrase.
Do melhor grado, e agradecendo por mim todos, acedo ao honroso convite que me nos faz para que collaboremos no numero anthologico de "Presença". Envio quatro composições breves: uma é do Álvaro de Campos, outra minha; do Ricardo Reis vão duas, para que escolha a que prefere. Do extinto Alberto Caeiro não pude obter composição alguma, pois os parentes, ou testamenteiros, me não facultaram o traslado.
(...)

De facto, que esperar de parentes ou testamenteiros? Se calhar, preparavam-se para vender os poemas por grossa maquia. O extinto poeta, diferentemente, não prosseguia objectivos materialistas: tinha uma alma que era como se fosse um pastor, amava toda a paz da Natureza, não tinha ambições nem desejos, lia o livro de Cesário Verde até lhe arderem os olhos...
  

domingo, março 14, 2021

DE OLHOS ABERTOS

Manto de chorões-da-praia (Carpobrotus edulis), espécie invasora, em início da floração. Fotografado em Cascais ante «o longo friso branco das espumas», «o tremular da vaga» (Sophia).
 

quarta-feira, março 10, 2021

"PASSAGEIROS" ( 2016), DE MORTEN TYLDUM

 

Numa aventura apocalíptica, a descomunal nave Avalon cruza o espaço interestelar para chegar ao planeta Homestead II, a 120 anos de viagem. Os passageiros estão em hibernação, mas perturbações nos sistemas de bordo fazem despertar um deles, o mecânico Jim Preston (actor Chris Pratt). O peso da solidão, impele-o a acordar a mais bela das passageiras, Aurora Lane (actriz Jenniffer Lawrence), sabendo que fora das cabines de hibernação, não podendo por razões técnicas reactivá-las, ficarão ambos sujeitos ao processo natural de envelhecimento. Vivem então uma história de amor. Muitas peripécias e alguns amuos a reforçarem os afectos. Quando a nave, 88 anos depois, chega ao tal planeta, já eles não pertencem ao mundo dos vivos. Os passageiros acordam para o desembarque e deparam-se com uma nave repleta de vegetação, uma réplica do ambiente da Terra preparada pelos dois amantes durante a sua vida a bordo. A nave é bonita,  a rapariga também, e o filme está cheio de efeitos especiais e de muitas coisas que não são explicadas. Visto com bonomia e condescendência. Passou esta noite no canal HollywoodHD.

terça-feira, março 09, 2021

A MEMÓRIA, SENHORES

JOAQUIM DE ARAÚJO (Penafiel, 1858 - Telhal, Sintra, 1917)

Quantos dos nossos poetas do século XX serão recordados e lidos de aqui a cem anos? Não tenho dúvidas de que Pessoa, Sophia, Herberto Helder, Ruy Belo e mais uns quantos lograrão escapar ao anel de sombra e esquecimento que sempre envolve os feitos dos homens, por mais nobres que eles sejam.
Alguém sabe – de uma forma geral, evidentemente – quem foi Joaquim de Araújo?
Autor, entre outros trabalhos, do poemeto Luís de Camões (1887), tentou que Eça de Queirós lhe escrevesse – com a urgência reclamada pelo processo editorial em curso – um prólogo de considerável extensão para a sua obra. A resposta por carta do escritor é exemplar, está compilada em Notas Contemporâneas, pelo que admito que não havendo prólogo, converteu-se o desiderato de Araújo em carta-prefácio e já foi muito bom. Diz o mestre:
«Os seus sonetos, para encantarem, não necessitam dos meus laboriosos comentários. Se os rouxinóis, por motivos filosóficos, se decidissem a não cantar sem terem ao lado um crítico hábil que lhes explicasse o canto – deve confessar, meu caro Araújo, que os arvoredos perdiam logo todo o seu idílio e todo o seu mistério. As obras de arte devem falar por si mesmas, explicar-se por si mesmas, sem terem necessidade de pôr ao lado um cicerone». Avançando depois: «O meu prólogo seria um bocado de chumbo atado à asa duma linda e ligeira ave… Publique os seus sonetos sós, e os homens de gosto ficar-lhe-ão agradecidos». E como argumento final: «De resto, como lhe disse, a dificuldade é você ter pressa e eu ser um homem de inspiração tão lenta.»
Ficou Joaquim de Araújo sem prólogo, valeu-lhe talvez a carta-prefácio, mas isso em nada contrariaria o esquecimento a que foi votado, não obstante a dignidade das obras e serviços prestados.
Mnemósine, personificação mitológica da memória e mãe das nove musas, que partidas pregas aos homens!

segunda-feira, março 08, 2021

8 DE MARÇO

Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Houve uma amiga que me avisou e eu tomo sempre boa nota dos avisos das amigas. Nesta data, pensava publicar sobre o «dia triunfal» de Fernando Pessoa, 8 de Março de 1914, quando o poeta, acercando-se de «uma cómoda alta e tomando um papel», escreveu de pé trinta e tal poemas a fio, segundo o que narra a Adolfo Casais Monteiro na célebre carta sobre a génese dos heterónimos. O meu 8 de Março era outro, mas caiu-lhe em cima o aviso da minha amiga. E assim, para não desfeitear Pessoa nem as mulheres, muito menos a amiga estimável, lembrei-me de trazer aqui, em homenagem a elas, o único “heterónimo” feminino do autor de Mensagem – nada mais, nada menos que Maria José, corcunda de 19 anos, escrevente daquela carta que começa assim:

Senhor António:

O senhor nunca há-de ver esta carta, nem eu a hei-de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.

Eu tenho dúvidas que Maria José seja um heterónimo, mas no acervo do “Arquivo Pessoa - Obra Édita” é assim que aparece. Aceitemo-lo então. E vivam as mulheres, a Maria José e o Dia Internacional da Mulher!  


quarta-feira, março 03, 2021

OS TRABALHOS E OS DIAS bis

Na Praça do Império e suas adjacências para averiguar sobre os brasões florais e a estatuária épica do Padrão dos Descobrimentos, temas tratados ultimamente por líderes de opinião e predicadores do efémero. 
Nos brasões, falece o buxo e medra a erva ruim, como se percebe pela fotografia. São uma ruína. Mas a estatuária está fixe, até parece um canto dos Lusíadas em pedra. O gajo que queria deitar aquilo abaixo deve ter interesses económicos em alguma empresa de demolições... 
Concluídas as averiguações, passei pelos Pastéis de Belém. Uns minutos de espera numa pequena fila e trouxe uma caixa de meia-dúzia. Fiquei com sobremesa para o jantar.  
= Fotos de hoje =

OS TRABALHOS E OS DIAS

Ontem à tarde, ronda pelas livrarias do Chiado: Bertrand e FNAC. O Fernando António não tinha companhia na mesa habitual da "Brasileira" e a Rua Garrett estava um bocado vazia de passantes. Entre outros livros, comprei esta versão (para jovens) de A Tempestade, obra da Hélia Correia. Está quase lida, até me sinto com uma data de anos a menos... 

terça-feira, março 02, 2021

RAFAEL BORDALO PINHEIRO, A QUARENTENA



Chegado do Brasil em 1879, Rafael Bordalo Pinheiro teve de cumprir quarentena por causa do surto de febre amarela que grassava em terras de Vera Cruz. Ficou confinado por sua conta e risco no edifício do Lazareto, sito no Porto Brandão, margem esquerda do Tejo.
O edifício ainda lá está, muito arruinado pelas múltiplas funções que lhe foram sendo cometidas desde aqueles tempos heróicos em que a febre amarela assustava. O artista publicou o relato do confinamento em livrinho ilustrado com os seus desenhos, edição da Empreza Litteraria Luso-Brazileira, Lisboa, anno Domini 1881.
Foi a edição moderna deste relato – aliás coedição PIM! / Museu Bordalo Pinheiro / EGEAC, saída em 2020 – que hoje comprei na FNAC do Chiado. Diz Bordalo: «O Lazareto, entretanto, continua a ser uma penitenciária que prende tudo – menos a febre amarela».
Anos antes, já S.M.I. Pedro II do Brasil por lá tinha passado aquando da sua chegada a Portugal em visita de estado. Desembarcado do iate “Douro” a 12 de Junho de 1871, ali ficou mais ou menos confinado até 20 do mesmo mês. Quis o rei D. Luís que ele fizesse a quarentena a bordo da corveta “Estephania”, para o efeito preparada, tanto mais que se encontrava acompanhado da imperatriz Theresa Cristina. Não esteve pelos ajustes o magnífico imperador que resolveu cumprir o exigido nos mesmos moldes de qualquer burguês ou migrante torna-viagem vindos da terra onde canta o sabiá.
Em As Farpas, de Junho de 1871, os impagáveis redactores não deixaram passar em claro a insólita disposição imperial:
«O Senhor D. Pedro II não põe somente a democracia na sua política e nas instituições do seu império. Também a põe nos seus hábitos, nos seus usos particulares, na sua conservação, nas suas maneiras, no forro do seu chapéu e na casa do seu paletó.
Se a democracia se pudesse converter em alimento, S.M.I. teria acabado com ela, comendo-a com pão.
S.M.I. não aceitou a hospedagem que lhe estava preparada no palácio de Belém, nem a estação de quarentena a bordo de um navio de guerra.
Preferiu a mesa redonda do Lazareto e um quarto no hotel Bragança».
Quarentena é quarentena e em nome da saúde pública não há que dar facilidades. Porque como escreveu Bordalo no seu livrinho, «ninguém pode dizer deste Lazareto não beberei».


COUPELLES TAUROMACHIQUES


Coupelles tauromachiques, de PABLO PICASSO, série de 29 pinturas sobre cerâmica (1953). Fotografado em Abril de 2018 no Musée d´Art Moderne de Céret  (Pirinéus Orientais, França). O artista trabalhou na região por diversas vezes. 

Vieram-me hoje à memória ao ler o poema de INÊS lOURENÇO:

TAURUS

Pablo pintou a preto e branco / e também a cinza essa força abatida tão bravia tão possante e / sempre destinada aos labirintos aos curros às lanças que / na ameaça dos seus chifres atrai. Assírio ou cretense / ou açulado por algazarras ibéricas / é o poder destronado de constelações e mitos / sangrado em paso doble roufenho numa / execução festiva com cavalos e trajos de luzes / na coreografia de magarefe a que chamam arte / e que alimenta o produto interno bruto.

(O Jogo das Comparações, Companhia das Ilhas, 2016)


sexta-feira, fevereiro 26, 2021

SOPHIA bis

A CONQUISTA DE CACELA

As praças fortes foram conquistadas
Por seu poder e foram sitiadas
As cidades do mar pela riqueza

Porém Cacela
Foi desejada só pela beleza

--- SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, Livro VI, 1962

(Fotos de Cacela, tiradas em Junho de 2015)

PINACOTECA

SALVADOR DALI, O grande masturbador (1929), óleo s/ tela 110 cm x 150 cm, Museu Reina Sofía, Madrid

quinta-feira, fevereiro 25, 2021

SOPHIA

Busto do Minotauro, Museu Arqueológico Nacional, Atenas 

Tantas vezes já tive o poema nos olhos e no pensamento. Hoje surgiu-me de modo diferente. Palavras-chave: raça, labirinto, fio, palavra. 

Em Creta / Onde o Minotauro reina Banhei-me no mar
(...)
Em Creta onde o Minotauro reina atravessei a vaga / De olhos abertos inteiramente acordada / Sem drogas e sem filtro / Só vinho bebido em frente da solenidade das coisas - / Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto / Sem jamais perderem o fio de linho da palavra

(Sophia de Mello Breyner Andresen, "O Minotauro", Dual, 1972)

GRANDE PLANO

MIA WASIKOWSKA em Jane Eyre (2011), de Cary Joji Fukunaga, filme com argumento baseado no celebrado romance de Charlotte Brontë. 

quarta-feira, fevereiro 24, 2021

EÇA, AS INTERWIEWS E AS ENTREVISTAS


Em Ecos de Paris, há um artigo de Eça com o seguinte título: AS “INTERVIEWS” — O REI HUMBERTO E O FÍGARO — A MONARQUIA ITALIANA — O QUE PODE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA — A SINCERIDADE E O OPTIMISMO OFICIAL.

Eça vai ocupar-se da entrevista ao rei Humberto de Itália, mas antes tece algumas considerações de ordem política, jornalística e linguística.

Começa por dizer:

«Apesar desta democracia crescente que tudo vulgariza, ou antes (sejamos prudentes), que tudo igualiza, nem cada dia um jornalista consegue interviewar um rei.»

Para logo acrescentar:

«Este vocábulo interviewar é horrendo, e tem uma fisionomia tão grosseira e tão intrusivamente ianque, como o deselegante abuso que exprime. O verbo entrevistar, forjado com o nosso substantivo entrevista, seria mais tolerável, de um tom mais suave e polido. Entrevista, de resto, é um antigo termo português, um termo técnico de alfaiate, que significa aquele bocado de estofo muito vistoso, ordinariamente escarlate ou amarelo, que surdia por entre os abertos nos velhos gibões golpeados dos séculos XVI e XVII. Termo excelente portanto para designar um acto em que as opiniões tufam, rebentam para fora, por entre as fendas da natural reserva, em cores efusivas e berrantes. Mas entrevistar tem um não sei quê de sorrateiro que desagrada – e só alguém com muita autoridade e muita audácia o poderia impor. Interviewar, ao menos, é bruto mas franco. Temos pois de empregar resignadamente este feio americanismo – já que os nossos idiomas neolatinos não estão preparados, na sua nobre pobreza, a acompanhar todas as ruidosas intervenções do engenho anglo-saxónio

Assim, Eça foi pioneiro no uso do termo “entrevista” com o significado que actualmente lhe damos. E tendo despertado a minha curiosidade com aquela alusão aos gibões dos séculos XVI e XVII, fui ver ao Dicionário Houassis: 1º significado de “entrevista”: «VEST peça de tecido vistoso colocado entre o forro e o pano do vestido para aparecer através deste ou de aberturas nele praticadas». Bate certo, decididamente não percebo nada de corte e costura.


terça-feira, fevereiro 23, 2021

4 DA MATINA, A VER O MENTALISTA

Tem qualquer coisa de garça e ninfa dos bosques. O nome é especial, Teresa LISBON – a denodada agente do California Bureau of Investigation –, sempre acompanhada daquele vidente truculento  e disruptivo que descobre a careca aos criminosos. E há ainda a outra, Grace Van Pelt, também muito jeitosa na luta contra o crime.
Gosto das duas. 
E o vidente, Patrick Jane,  também não é má peça.
Disse.

segunda-feira, fevereiro 22, 2021

EUROPA

Tinha este livro aqui em casa, no esconso de uma estante. Edição feita para a EUROPÁLIA 91, inclui traduções do poema de Adolfo Casais Monteiro em francês, inglês e neerlandês. Escrito entre 1944 e 1945, foi lido aos microfones da BBC, em 23 de Maio de 1945, pelo artista António Pedro. Dias antes, consumara-se a vitória dos Aliados sobre as potências do Eixo. O poema traduz uma renovada esperança no futuro das nações europeias. Começa assim: «Europa, sonho futuro! / Europa, manhã por vir, / fronteiras sem cães de guarda, / nações com seu riso franco / abertas de par em par.» E termina com uma proclamação em maiúsculas: «QUE SÓ O HOMEM LIVRE É DIGNO DE SER HOMEM!»

domingo, fevereiro 21, 2021

CARANGUEJOLA

(...)
Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras, / Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou. /Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras... / Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

--- MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO (poema datado de Paris, Novembro de 1915)

[OS VELHOS SÃO MANHOSOS]

 Os velhos são manhosos.

Demoram-se a apanhar a fruta, sabem
que sabem esticar o braço antigo até aos primeiros figos,
que podem saber chegar ao fim da figueira.
Os velhos arrastam os pés em direcção à saída,
esgotam-se ao sol seguinte.
Cortam-se por vezes no vidro de emergência,
no buraco para o exterior.
Têm visões extraordinárias,
receitas específicas para o barroco do poema
e do mel.

Escrevo para os velhos.

--- FILIPA LEAL, Vem à Quinta-Feira (2016)

sábado, fevereiro 20, 2021

GRANDE PLANO

Mia Farrow em A Semente do Diabo (Rosemary´s Baby), de Roman Polanski. Filme de 1968. Vi-a em 69 ou 70, já não sei em que cinema. Um fulgor de mistério e tragédia difícil de esquecer.  

quinta-feira, fevereiro 18, 2021

COLONIZADOR E COLONIZADO EM "A TEMPESTADE", DE WILLIAM SHAKESPEARE

 Djimon Hounsou, no papel de Caliban, no filme A Tempestade (2010), de Julie Taymor

CALIBAN (falando de PRÓSPERO, seu senhor): 
Como te disse já, estou submetido a um tirano, um feiticeiro, que com as suas artes me vigarizou e roubou a ilha.
--- A Tempestade, de W. Shakespeare. Acto 3, Cena 2.

quarta-feira, fevereiro 17, 2021


 

BESTIÁRIO DAS ALMAS

 Tigre (1912), de FRANZ MARC (Munique, 1880 - Braquis, França, 1916)

O peso da denotação fragilizou-lhe os liames para o mundo conotativo.  Só se exprime por aquilo que é certo, seguro e absolutamente verificável. Daí a sua limitada compreensão das metáforas, das hipérboles e das metonímias. Então dos oximoros nem é bom falar. Lê romances com histórias bem contadas, ligando mais aos enredos do que aos processos de linguagem.  Gosta de (alguma) pintura e de (alguma) música, mas com o mistério da poesia nunca marcou encontro. É pessoa determinada, ousada e previsível – como um tigre natural!

Tigre, tigre que flamejas / Nas florestas da noite / Que mão, que olho imortal / Se atreveu a plasmar a tua terrível simetria? (William Blake).  

terça-feira, fevereiro 16, 2021

CARNAVAL COM LETRAS

Desde domingo que ando com este livro. Um romance que tem por referência A Tempestade, peça teatral de William Shakespeare escrita em 1610 e 1611. 
Felix Philips é um encenador bem sucedido e grande animador do Festival de Teatro de Makeshiveg. Quando se preparava para fazer uma encenação revolucionária de A Tempestade, é traído pelo seu mais próximo colaborador e despedido pela direcção do festival. 
Decidido a vingar a traição, vai construindo em si a sua própria Tempestade... O tema da peça é, de resto, a vingança, havendo uma correspondência de entrechos entre a obra de Shakespeare e o romance de Margaret Atwood.  
Diga-se, finalmente, que duas personagens da peça - Próspero (duque de Milão cujo poder foi usurpado, tendo sido desterrado para uma remota ilha) e Caliban (um habitante do lugar de desterro que é feito escravo por Próspero) - têm sido motivo de discussão e formulação de juízos no âmbito literário dos estudos coloniais e pós-coloniais. Próspero representaria o colonizador, Caliban o colonizado. Porém, sobre isto, está-se longe da unanimidade. 

domingo, fevereiro 14, 2021

O PODER DA NARRATIVA

 Xerazade e o Sultão Xariar (1880), do pintor alemão Ferdinand Keller (1842-1922)

Em As Mil e Uma Noites, Xerazade escapou à morte que lhe estava destinada, entretendo o sultão com as histórias maravilhosas que lhe contava e cujos desfechos ele queria conhecer na noite seguinte. No Decameron, de Boccaccio (1313-1375), dez jovens da nobreza, sete do sexo feminino e três do sexo masculino, fogem de Florença, assolada pela peste de 1348, e vão para um castelo no campo onde tomam como recreio e condição de sobrevivência as histórias que durante dez dias vão contando uns aos outros. Em Heptameron, de Margarida de Navarra (1492-1549), é um grupo de nobres, isolado num lugar dos Pirinéus por causa de uma tempestade de neve, que combate a ociosidade e o desalento, entretendo-se, duarante sete dias, com a narrativa de histórias de conteúdo lúdico, instrutivo e moralizador. Em todos os casos, o poder da narrativa no equilíbrio e sobrevivência do homem. Contar ou escrever histórias é bom; ouvi-las ou lê-las é ainda melhor. 

quarta-feira, fevereiro 10, 2021

PINACOTECA

TINTORETTO (1518-1594), Marte e Vénus Surpreendidos por Vulcano (1555). Óleo sobre tela. Antiga Pinacoteca de Munique. O esposo atraiçoado como que procura descobrir a prova do crime; Cupido, filho de Vénus, dorme descansado na sua caminha; Marte escondeu-se, e o cãozinho está inquieto. Deuses tão humanos!

terça-feira, fevereiro 09, 2021

DIÁRIO ÍNTIMO

Uma amiga minha anda a estudar persa num curso da Faculdade de Letras de Lisboa. O persa pertence, tal como o sânscrito, ao grupo das línguas indo-europeias. Só que esta é uma língua morta e o persa é uma língua viva, falada no Irão, Afeganistão, Tajiquistão e por minorias do Uzbequistão, Turquia, Emiratos Árabes Unidos e Barém.  Está fascinada com a semelhança de certas palavras do português, inglês e alemão com a língua que agora estuda. Isso mesmo pude constatar ao conjugar-me  o presente do indicativo do verbo persa correspondente ao nosso verbo "estar".
Anoto no diário a aquisição deste conhecimento incomum, ilustrado com a pintura de Habib Allah (fins do século XVI-princípios do século XVII) sobre o poema A Conferência dos Pássaros, de Farid Ud-din Attar (século XII), uma procura, dentro da tradição sufi, da noção mística de Deus. 

segunda-feira, fevereiro 08, 2021

PINACOTECA

ALEXANDRE-CHARLES GUILLEMOT (1786-1831), Marte e Vénus Surpreendidos por Vulcano (1827). Óleo sobre tela. Indianapolis Museum of Art. 
 

domingo, fevereiro 07, 2021

DIÁRIO ÍNTIMO

Um silêncio petrificante na paisagem despovoada. O carrilhão da Igreja dos Pastorinhos emudeceu. Felizmente que estou cheio de vozes dentro de mim. 

sábado, fevereiro 06, 2021

GRANDE PLANO

LAUREN BACALL no filme To Have and Have Not (1944), de Howard Hawks. Argumento baseado no romance homónimo de Ernest Hemingway. Estreou-se em Portugal, em 21 de Janeiro de 1946, com o título Ter e Não Ter.