sábado, dezembro 25, 2010

domingo, dezembro 19, 2010

DEVERES

(Clicar na imagem para aumentar)
Ontem, navegando no ciberespaço, entrei numa página do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior em que se me deparou esta informação. Estamos completamente expostos – é difícil que alguém interessado não consiga sempre descobrir alguma coisa daquilo que andamos a fazer.
De qualquer maneira, foi bom, para me lembrar dos deveres. Garanto que não deixarei de entregar em 2011 o número de páginas que Bolonha reclama. Sessenta estão escritas e aprovadas. Já não falta tudo.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

EXCERTOS (4)

A primeira vez que falei com o marido de Flora foi numa manhã fria de Janeiro nas instalações do mesmo banco onde dois meses antes eu me encontrara acidentalmente com ela. O homem estava com dificuldades numa operação que tentava efectuar na caixa automática, procurando evitar a fila de espera que se formara para o balcão de atendimento. Ajudei-o, e foi então que me apresentei como tendo conhecido a sua falecida mulher. Olhou-me desconfiado, as sobrancelhas projectadas sobre as armações dos óculos, e eu tive a sensação de ter sido terrivelmente inepto na forma como lhe fizera aquela revelação.
Concluída a operação, olhou-me como quem procura perceber as minhas intenções – os lábios finos, de cujos cantos irradiavam umas lastimosas comissuras, nervosamente cerrados. Saí do banco com ele, acompanhando-o em conversa de ocasião ao longo da avenida que ia descendo a caminho da sua casa.
Lembro-me de que estávamos no período duma campanha eleitoral qualquer. Passava pela avenida um carro com instalação sonora que debitava decibéis de confiança na nação e nos candidatos a seus representantes. À medida que fomos caminhando, percebia que o homem se descontraía, avançando num diálogo que apesar de tímido me parecia isento de qualquer reserva. Assim, quando passámos à porta do café foi de comum acordo que entrámos e nos sentámos numa mesa.
Disse-me que vivia sozinho há dois anos e meio, desde que tomara a iniciativa de sair de casa. Primeiro, durante alguns meses, fora viver para uma casa de porteira dum prédio vizinho, um desses minúsculos apartamentos que existem no último piso dos edifícios, uma espécie de mansardas viradas para o declive dos telhados; depois para um apartamento desafogado que foi mobilando a seu gosto. Foi breve a nossa conversa dessa manhã, mas voltámo-nos a encontrar uns dias mais tarde, e aí já longamente falámos de diversos assuntos e também da nossa situação comum que era a de ambos nos encontrarmos a viver sozinhos, eu separado da minha mulher, ele numa espécie de viuvez .
Omiti o facto de ter em meu poder o diário de Flora. Eu não podia informá-lo da sua existência sem perceber com que tipo de pessoa estava a lidar, que constituição psicológica era a sua, se aguentaria as revelações nele contidas. Tinha-o visto muito choroso, completamente de rastos, no funeral da ex-mulher. Não queria causar-lhe maior dor, embora me custasse guardar um escrito que não me pertencia e do qual, até pela sua forma de enunciação, ele era o único destinatário.

domingo, dezembro 05, 2010

RAUL BRANDÃO E O GABIRU

Raul Brandão com a esposa, D. Maria Angelina - retrato de Columbano

Este homem tinha mulher, uma casa no campo, fazia a vindima e vendia o seu vinho como qualquer proprietário rural. Na correspondência com Teixeira de Pascoaes – que também era produtor –, há avisos sobre este negócio incerto, sempre sujeito às oscilações do mercado e às suas obscuras regras: Olhe que o vinho, com grande admiração minha – e porque neste país nunca há lógica – está a subir! Eu fiz a asneira de vender o meu por 600,000 réis – mas o meu caseiro já o vendeu por 720,000 e vizinhos por 900,000!!! É uma febre. Porquê não percebo! Acautele-se.
Em “Húmus”, porém, não é o vitivinicultor que fala, mas o homem esmagado pelo mistério da vida e da morte, pela presença ou pela ausência de Deus, pelo sentido último das coisas. Não há na literatura portuguesa outro livro como este – um misto de novela, diário e reflexão filosófica, um painel de inquietantes personagens de onde se destaca o Gabiru.
O Gabiru não é como as velhas D. Penarícia, D. Leocádia ou D. Biblioteca que moem vidas mesquinhas timbradas de invejas e aleivosias. O Gabiru mistura, resolve, extrai sonho do sonho. Debalde o que é mesquinho lhe mostra os dentes: o Gabiru não ouve, não vê, não sente.
“Húmus” é o livro de um eu dividido e a consciência disso. O Gabiru é a descoberta do outro, o estilhaçamento de um ser – como na heteronímia pessoana ou no eu múltiplo de Régio.
Todos somos legião, todos estamos cheios de Gabirus capazes do melhor e do pior. A dificuldade, às vezes, é descobri-lo.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

EXCERTOS (3)

Estava-se em 1975, corriam no ar os frescos eflúvios da liberdade. Flora seguia essa onda em que se descobria mais verdadeira e mais mulher. Vibrava com os lances revolucionários que se jogavam nas ruas em manifestações e comícios, acreditando que a vida e o amor eram coisas belas, tão belas como um voo de gaivota ou um dia de chuva com arco-íris. Como podia amarrar-se a um casamento com alguém que já não amava? Consumada a ruptura, foi com o seu novo amor que participou pela primeira vez na manifestação do 1º de Maio, em 1976, e a partir daí não mais deixou de descer à rua no dia da festa dos trabalhadores.
Do então namorado e futuro marido (passaram a viver juntos a partir de Fevereiro de 1977), há referências no diário aos estudos que ambos faziam em cursos nocturnos: ele na universidade, ela na escola secundária onde tirava o décimo segundo ano.
Antes de terem arranjado casa, encontravam-se ao final da tarde no apartamento dum amigo que se ausentara para França, num terceiro andar de um vetusto prédio do Alto de Santa Catarina. Naquela altura ainda estava por escrever “O Ano da Morte de Ricardo Reis” e a história dos amores dum poeta com uma criada de hotel – amores também daqueles lugares, com o Adamastor ao lado e o Tejo ao fundo. De amor eram os encontros de Flora com o namorado – aparecem agora em livro, está visto que já não há nada de novo para contar.
Ela achava-o um homem sensual, e era delicada e terna quando iam para a cama. Porém, por volta de 1980, num dos seus primeiros momentos de desencanto, o coração já falava outra língua. Página vinte e dois do diário:

Não foi paixão. Não passou tudo de uma grande admiração que me tomou, uma errada percepção de sentimentos, um turbilhão de ideias desordenadas. Pensava ser amor, mas afinal era apenas deslumbramento. Porque estava fragilizada, cegou-me a tua luz, mas agora que habituei os olhos a esse fulgor já sou capaz de compreender a verdadeira expressão do que sinto.

Como o náufrago que vê passar uma tábua à tona de água, Flora tê-la-á agarrado à espera de ver chegar o barco salva-vidas. Nenhum náufrago, se tiver sorte, fica pela tábua de salvação. Ela é um meio, e não um fim. A enganadora paixão de Flora foi um meio de se libertar de um grande mal que lhe oprimia o coração.

segunda-feira, novembro 29, 2010

"O BOM INVERNO" de JOÃO TORDO

Sábado, 27 de Novembro: - Apresentação do romance "O Bom Inverno", de João Tordo, na Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana (Cascais).

domingo, novembro 28, 2010

EXCERTOS (2)

Na noite que se seguiu ao funeral de Flora, sonhei com ela. Vi-a, como sempre, com as suas calças de ganga e o seu casaco de fazenda aos quadrados em tons de cinzento. Só que no desassossego do sonho, já não era Flora que eu via, mas M., sorrindo com os seus dentes muito brancos, usando o colar e os brincos que eu lhe trouxera de São Paulo quando ali participei num congresso de literatura autobiográfica.
Li uma vez, já não sei em que livro, que só quando vemos os mortos é que começamos a perdoar os vivos. Eu acordei sobressaltado, mas passado aquele momento crítico em que viajei do sonho para a realidade, parecia que começava a perdoar, a compreender a fuga apocalíptica de M. e a aceitá-la como se tivesse sido a mais acertada decisão da sua vida.
Não sei até que ponto este meu novo estado de espírito resultava da leitura do diário de Flora. Por mais de uma vez, lendo sofregamente aquelas páginas, parecera-me que eram pedaços de mim que ali se encontravam expostos. Talvez me possuísse o desejo mórbido de querer descobrir nos dramas dos outros os contornos do meu próprio drama. Ou então tudo não passava de uma necessidade de me encontrar, uma tentativa desesperada de compreender a vida, buscando no buraco do meu fracasso as explicações para o erro e a frustração.

sexta-feira, novembro 26, 2010

EXCERTOS (1)

Com as incidências recentes, a progressão da minha tese limitava-se a cumprir, como numa greve, os serviços mínimos. Lia o diário do poeta pela enésima vez, mais para me confortar do que para dele extrair elementos para o meu trabalho. Deparava-me com a solidão em que tinha vivido um grande espírito, e fortalecia em mim a ideia de que a felicidade era inimiga do estudo e da criação artística. Como de certa forma me sentia doente, segui o conselho de Blaise Pascal: faire le bon usage des maladies. Foi assim que comecei a escrever esta narrativa, não propriamente em jeito de catarse, mas para tirar o melhor partido do mau momento que atravessava, pensando atirá-la, uma vez publicada, à cara incrédula e quiçá arrependida de M.
Impus-me a obrigação de escrever, no mínimo, uma página por dia, entre seiscentas e setecentas palavras. Um objectivo modesto, sabendo como sei que há escritores que vão às duas mil e mais palavras em cada jornada de trabalho. De qualquer forma, eu não me considerava um escritor, era alguém que estava simplesmente a escrever, além de que tinha de reservar algum tempo para prosseguir com a minha tese de doutoramento. Como entretanto me tinha reformado, deixei os pequenos trabalhos que mantinha como formador e passei a dedicar-me inteiramente aos livros e à escrita. Pela primeira vez na vida, abraçava o ócio e punha de lado o negócio.

terça-feira, novembro 23, 2010

LA ROCHELLE

Recebi notícias de La Rochelle, cidade aonde espero voltar em breve, em especial à Île de Ré, se o tempo for de Verão e os dias estiverem desanuviados.
Vendo esta imagem, veio-me à lembrança velhas leituras sobre o dramático cerco da cidade nos anos de 1627 e 1628 – as memórias do Cardeal Richelieu e o episódio muito ficcionado de Alexandre Dumas em “Os Três Mosqueteiros”. Há gente assim, que não se cansa de escavar no fundo dos tempos, como se vestisse uma gabardina para sair para a chuva.

quinta-feira, novembro 18, 2010

UM LUGAR

Muitas vezes o tenho imaginado assim, um lugar trespassado de névoa e povoado de árvores nuas de ilusória materialidade. Do que não conhecemos só podemos formar ideias espúrias, pelo inevitável desajustamento entre o que possa ser ou não ser e o nosso intrínseco desejo de imaginar o inimaginável.
É triste permitirmo-nos perder alguém. É triste ver alguém partir na idade de ouro.

terça-feira, novembro 16, 2010

O PRIMEIRO DIA

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Da canção de Sérgio Godinho

domingo, novembro 14, 2010

LEITURAS DE DOMINGO


Fora das amarras de um casamento, ou da sinistra ilusão do amor, poderíamos estar juntos como companheiros de vida. Não existia momento que mais prazer me desse do que encontrarmo-nos depois do trabalho dela no jornal e bebermos uma cerveja num lugar qualquer da baixa da cidade, discutindo as trivialidades do dia-a-dia, trocando carícias e descobrindo, todos os dias, coisas novas no outro, como dois animais que se vão farejando e rodeando até se amarem.
JOÃO TORDO, Hotel Memória, QuidNovi, 2ª edição, Junho de 2008, p. 118.

domingo, novembro 07, 2010

MAGIA DE AFASTAMENTO

Não procures nem creias: tudo é oculto.
(Verso do poema “Natal” de Fernando Pessoa)


Numa noite do passado mês de Agosto estive numa vivenda de Sintra onde se realizam sessões de espiritismo. A vivenda é propriedade duma senhora inglesa que se dedica a estes jogos do oculto, sendo frequentada por médiuns, magos e outros agentes do sobrenatural. Por mim, nunca me apanhariam em tal carrossel, tendo aceitado ir apenas por insistência da minha professora S., investigadora da vertente esotérica da obra de Fernando Pessoa, que ali comparecia em demanda de subsídios para o seu trabalho de pós-doutoramento.
Pelo que nos foi dito, esperava-se naquela noite chegar à fala com o espírito de Henry More, filósofo inglês do século dezassete com quem o autor de “Mensagem” se correspondeu em certo período da vida, embora não estivesse posta de parte a hipótese de o espírito múltiplo de Pessoa, ele mesmo, poder também ser chamado ao diálogo mediúnico. A minha professora não acreditava cegamente nestes intercâmbios com o além, mas animava-a uma curiosidade intelectual, desejosa de ver até onde as coisas poderiam ir.
Chegámos à dita vivenda pelas onze horas da noite, depois de nos termos confortado com queijadas e chá num conhecido estabelecimento local que tem o nome dum pássaro. O ambiente estava carregado dos mais esquisitos cheiros, sentia-se um hálito do além, enjoativo e mágico. Um interlocutor astral praticava escrita automática, enchendo cadernos de papel quadriculado de copiosas frases garatujadas. Confesso que me intimidei com o aparato dos móveis, com a penumbra que descia pelas paredes cinzentas, com a palidez de certos rostos que vagueavam na casa.
Pouco mais vi para além do que acabo de relatar, tendo ficado grande parte do tempo numa pequena sala pesadamente mobilada, aguardando sentado o fim da sessão mediúnica a que a minha professora assistia.
Foi então que se abeirou de mim um jovem de calças de ganga e camisa às florinhas verdes e amarelas que se apresentou como mago, seguidor das ideias de Aleister Crowley. Sempre imaginara os magos com um trajo formal, mas, pelos vistos, até nesta classe se têm registado grandes alterações na maneira de vestir… Sentou-se ao meu lado e disse-me: “Dá-me os teus braços”. Embora estranhando o pedido, estendi-os na sua direcção. Ele segurou-os com os dedos na região dos pulsos, como se aferisse o ritmo cardíaco, fechando os olhos e sibilando impercebíveis vocábulos. E perguntou, ao fim de algum tempo, embora eu sentisse que não esperava qualquer resposta da minha parte: “Como está a tua vida conjugal?”. Fiquei calado. Então acrescentou: “Há uma mulher do Norte, amiga da metade de ti, que te traz sob o efeito de uma magia de afastamento”. Não sei se me deixei rir ou se me pus ainda mais sério. O mago, imperturbável, concluiu: “Interesses obscuros, inconfessados desígnios”. Posto o que girou para outra sala, deixando-me entregue ao seu enigmático oráculo.
A noite acabou sem mais sobressaltos. A minha professora saiu da sessão de espiritismo de faces afogueadas, vindo-me à ideia a pobre ceifeira do poema de Pessoa. Eu sempre imaginei as ceifeiras de faces afogueadas, ceifando à calma, embora a do poema se limite a cantar, na sua alegre e anónima viuvez, nada dizendo o poeta sobre as suas faces. Deixámos a vivenda silenciosos, sem comentarmos as incidências da noite. Levei-a a casa, onde, segundo me disse, o marido a esperava com ansiedade.
Hoje telefonei-lhe a contar umas certas coisas que me aconteceram, justificando-me do atraso do meu trabalho, um capítulo da tese que prometera entregar-lhe e que ainda não ultrapassara a dimensão de umas escassas páginas. Falei-lhe pela primeira vez da magia de afastamento descoberta pelo mago, a qual afinal dera resultado, e da mulher do Norte que eu identificava com alguém que conhecia como frequentadora de bruxas e videntes, leitora de livros herméticos e de outras inquietantes prosas. Então contou-me a minha professora que, naquela noite, também o mago lhe vaticinara um preocupante sucesso que tinha acabado de concretizar-se. Suspirou, e disse-me: “Sabes, Manuel, nós não acreditamos em bruxas, mas lá que as há, há”.

quarta-feira, novembro 03, 2010

A FORMOSA LUSITÂNIA - TOMAR


Do blogue http://www.camilo20.wordpress.com/ de Luísa Alvim.
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Chegamos a Píalvo (Paialvo) estação da interessantissima cidadesinha de Thomar. Os arrabaldes são bonitos, com graciosas estradas enverdecidas, e toda a campina em redor ás ondulações graciosas. O arvoredo é magnifico. Como os olhos se refrigeram n’aquellas copas de folhagens!
A terra faz muita differença do que é lá para Santarem. Aqui não ha aquelle faiscar cauzado pelas scintillações do saibro branco tão incommodas para a vista. Feracissima vegetação, flores e fructos por toda a parte em abundância. Desejava que visse os esplendidos cachos de uvas que comprei n’esta estação, a uma rapariga rozada, de ollios ardentes e chapéu desabado e empennachado demurtha e cravos.
O cacho estava mais perto de pesar dous arráteis que um. Os bagos todos perfeitos e grandes, verdes e levemente tintos de azul. «Quanto é?» perguntei eu quando ella m’o chegou a portinhola da carruagem, «é uma pataca, minha senhora». Uma pataca é quarenta reis. Eu poderia obte-lo por trinta, se regateasse, mas apenas encolhi os hombros, a la portugaise, e respondi: «Caro, muito caro». Ao que ella redarguiu com razão: « Porém, é tão boa». Estufa nenhuma ainda produziu mais perfeita pintura, nem mais delicioso sabor.
Tencionara eu, n’esta direcção, estender a minha viagem a Thomar, que contém diversos edifícios antigos, e outras relíquias do passado. Em uma das suas eminências está o convento de Christo, outrora habitado pelos cavalleiros d’aquella ordem militar.
É uma caza immensa com um templo notável por copiosas esculpturas no imaginoso estylo manuelino. Porção d’este grande senhorio monacal foi comprado pelo conde de Thomar, que actualmente rezide no castello de Gualdim Paes, primeiro mestre do Templo, que o arrancou aos mouros.
Ha aqui fabricas de fíação, e uma de papel.
O tortuozo rio Nabão deriva por meio da cidade, dividindo-a quazi a meio e dando-lhe um aspecto de Veneza em miniatura, com o seu largo canal.
Os moradores passam em botes, de um lado para o outro, e abordam ás ilhotas que estanceam na corrente. O canal forma onde quer que seja uma catarata, que se despenha sobre uma açude resvaladia.
Estas estradas aquosas são uma delicia no verão, quer a gente se vá de passeio por aquellas margens floridas, quer deslize em barco na limpida corrente.
O Nabão no inverno sobrepuja as margens e inunda ruas e cazas, mas, nos mezes estivos, é sitio lindo onde se pode viver, quazi de graça, do néctar e ambrozia dos seus fructos e flores. No frescor da manhã, póde-se subir em peregrinação até á Piedade, linda ermida no topo de uma montanha, para onde se sobe por duzentos e cincoenta degráos. De dez em dez, ha um patamar e um banco de pedra onde a gente pôde descançar e dar graças a « Nossa Senhora» que nos permitte ir chegando mais perto do seu relicário. Chegar lá acima não é medíocre proeza com tal clima; porém, quem o consegue é liberalmente recompensado com a belleza da capella e o magnifico ponto de vista.
Que aprazível me seria, deter-me ali!

(A Formosa Lusitania / por Catharina Carlota Lady Jackson ; versão do inglez, prefaciada e annotada por Camillo Castello Branco . – Porto : Livraria Portuense, 1877 . – 448 p., [20] grav. ; 25 cm.)

quinta-feira, outubro 21, 2010

A CABEÇA DA GÁRGULA


No romance “A Noite do Oráculo”, de Paul Auster, há um episódio em que a cabeça duma gárgula de pedra se desprende da fachada de um prédio de apartamentos, passando a poucos centímetros do crânio de Nick Bowen, uma personagem da narrativa que atravessa certas dificuldades no seu relacionamento conjugal.
A pedra que só por acaso não o matou, deu a Nick Bowen o ensejo de rapidamente reflectir sobre a vida e os seus imponderáveis. Devia estar morto, mas escapou ileso, pelo que a situação se lhe afigurou como uma segunda oportunidade de vida que lhe era concedida. Então, em rotura com o passado, resolveu não voltar a casa, tomando um avião para Kansas City, o primeiro que saía do aeroporto de La Guardia naquela noite em que ali chegou. Ia viver a sua segunda vida num lugar que lhe era inteiramente desconhecido, com pessoas que nunca tinha visto, partindo do zero ou de pouco mais. A dificuldade por que acabara de passar dera-lhe um suplemento de coragem para uma nova existência.
Assim, a cabeça da gárgula de pedra é uma boa metáfora para certos momentos das nossas vidas. Todos temos um tempo em que somos surpreendidos pela provação: uma doença grave, a morte de um filho ou de uma pessoa muito querida, ou essas outras formas de morte que são o afastamento e a separação. Felizmente que a cabeça da gárgula nem sempre nos despedaça o crânio. Ainda incrédulos e assustados, olhamos em volta como se não víssemos nada, sacudimos o pó das roupas, contemplamos os estilhaços de pedra no chão e acreditamos ainda mais nas nossas forças. É então que tomamos o avião para a nossa Kansas City, sabendo que nenhuma viagem é mais importante que aquelas que fazemos dentro de nós.

domingo, outubro 17, 2010

OS CADERNOS PORTUGUESES

Paul Auster (Newark, 1947)
Eu sabia que acabaria por comprar um caderno português: bastaria pegar num deles, bastaria senti-lo nas minhas mãos e eu não resistiria. Não havia neles nada de luxuoso, nada que desse nas vistas. Não, aqueles cadernos eram muito simplesmente um artigo prático – resistente, despretensioso, útil, de maneira nenhuma o livro em branco que poderíamos escolher como prenda para um amigo.

(Paul Auster em “A Noite do Oráculo”)


Procurem-se os ditos cadernos numa pequena papelaria do Largo do Calhariz, em Lisboa, ao lado do elevador da Bica. À semelhança do que aconteceu com Sidney Orr, narrador e protagonista do romance de Paul Auster, eles poderão propiciar encontros felizes com a escrita.

domingo, outubro 10, 2010

ACADEMIA SUECA - A MADRASTA


A ideia do título surgiu-me por ter lido, durante as férias, o “Elogio da Madrasta” de Mario Vargas Llosa. Embora neste livro se fale de uma madrasta benigna, mãe e amante dum enteado afinal bastante perverso, há literaturas para as quais a Academia Sueca tem sido uma madrasta das autênticas.
Tome-se como exemplo as literaturas de língua portuguesa, contempladas com o único prémio de José Saramago em 1998. Mário Vargas Llosa, peruano, é o sexto Nobel de língua castelhana depois de cinco escritores espanhóis, alguns praticamente desconhecidos do grande público: José Echegaray (1904), Jacinto Benavente (1922), Juan Ramon Jiménez (1956), Vicente Aleixandre (1977) e Camilo José Cela (1989). Nos trinta e três anos que vão de 1956 a 1989, a Espanha teve três laureados com o Prémio Nobel da Literatura, o que me leva a pensar que Portugal e o Brasil mereciam ter pelo menos mais um ou dois escritores entre os premiados da Academia Sueca.
Já cerca de 1960, conforme leio no diário de José Régio, se agitava o nosso meio literário face às personalidades portuguesas indicadas para o prémio Nobel. Miguel Torga fora proposto pelo professor e historiador francês Jean-Baptiste Aquaronte, e os nomes de Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro eram igualmente falados nos jornais como nobelizáveis. De Régio, porém, nem sequer se lembravam, conforme nos revela o próprio em magoada nota naquele seu diário.
Hoje, doze anos depois de Saramago, ocorre-me o nome de Agustina Bessa-Luís para preencher um dos lugares do Nobel que temos em falta. A sua escrita é poderosa e paradoxal, de difícil assimilação, embora nunca deixe de nos surpreeender e estimular. Mas que pensará Agustina do prémio da Academia Sueca? Proust, James Joyce e Jorge Luis Borges nunca o receberam e não deixaram por isso de figurar entre os maiores. Sartre foi nomeado em 1964 e recusou. Prémios são prémios, fazem parte de um certo mundanismo que se estabeleceu na instituição literária e que nem sempre se afirma pelas melhores razões. Porém, além das inerentes vantagens materiais, eles constituem um reconhecimento de facto e fazem luz sobre escritores e literaturas que apesar das suas valias não lograram chegar até ao grande público. Por isso sou por Agustina para Nobel da Literatura, embora receie poder ser já demasiado tarde para se lhe fazer essa justiça.

terça-feira, outubro 05, 2010