quinta-feira, agosto 20, 2020
OBSERVANDO...
Palmela e Parque Natural da Arrábida, 19-8-2020
«Observa 197 aves, 445 escaravelhos, 17 répteis, 106 aranhas, 61 borboletas» e...
terça-feira, agosto 18, 2020
AMIEL E PESSOA
«Uma paisagem é um estado de alma» – frase muito conhecida do
diário de Amiel, datada de Lancy, Suiça, 31 de Outubro de 1852. «Passeio de meia hora pelo jardim, sob uma
chuva miudinha.– Paisagem de Outono. Céu coberto de cinzento e enrugado em tons
diversos, nevoeiros arrastando-se sobre as montanhas que fecham o horizonte;
natureza melancólica; as folhas a caírem por todos os lados como as últimas
ilusões da mocidade sob o pranto de mágoas incuráveis.» O semi-heterónimo pessoano
Bernardo Soares diz no Livro do
Desassossego que «a frase [de Amiel] é uma felicidade frouxa de sonhador débil», acrescentando: «Desde que a paisagem é paisagem, deixa de
ser um estado de alma. Objectivar é criar, e ninguém diz que um poema feito é
um estado de estar pensando em fazê-lo. Ver é talvez sonhar, mas se lhe
chamamos ver em vez de lhe chamarmos sonhar, é que distinguimos sonhar de ver.»
Falando Soares é como se falasse Pessoa, pois como este disse na célebre carta
a Adolfo Casais Monteiro, não sendo a personalidade de Bernardo Soares a sua, não
era diferente dela, mas uma simples mutilação: «Sou eu menos o raciocínio e a afectividade.» Entre o professor de
Genebra e o ajudante de guarda-livros dum ignorado escritório da Rua dos
Douradores ou, melhor dizendo, correspondente de línguas estrangeiras em vários
escritórios de Lisboa, vai a distância entre a exaltação das emoções do eu e a despersonalização
modernista. Ou, pensando nas duas obras, a diferença que há entre um diário íntimo
e uma “autobiografia sem factos”.
segunda-feira, agosto 17, 2020
FESTA DO AVANTE!
A imagem do cartaz é
quase bucólica. Umas poucas pessoas sentadas tranquilamente sob os pinheiros,
comendo e conversando, como se estivessem num parque de merendas em pleno campo.
A Festa não é isto, logo, o cartaz é um engano, um artifício para iludir os
censores.
Em outros tempos, a
imprensa neo-realista inventou a palavra diamática
para se referir a “materialismo dialéctico”. E usava a perífrase “um grande
pensador do século XIX” quando queria citar Karl Marx. Eram artifícios para
contrariar a lei da mordaça. De certa maneira, o cartaz da Festa cumpre
desígnios paralelos.
A Quinta da Atalaia e
a do Cabo da Marinha perfazem 30 hectares, área correspondente a 30 campos de futebol,
desses que levam 50 000 espectadores. Sendo esperados até 33 000 visitantes
por dia, temos cerca de 9 m2 por pessoa. Parece seguro, se não se tiver em
conta que os visitantes não se distribuem de modo regular por todo o espaço,
mas antes se concentram nos locais dos eventos, nas tendas de comes e bebes, nos
pavilhões, no comício, etc. Como o cartaz, esta engenharia de números é um
artifício.
Então seria melhor não
se fazer a Festa, aceitando como bom o coro de políticos e comentadores que vai
nesse sentido? Julgo que não. Precisamos de descartar o conformismo e ir dando
pontapés no medo. Como disse Jerónimo de Sousa, a Festa faz-se para dar «um
sinal de esperança e de convivência em segurança». É claro que também há os
objectivos financeiros, é escusado negá-lo, mas o que gostaria de reter é esta
ideia de um sinal de esperança.
Que ele seja visível e a segurança não falte. Por mim, até sou capaz de ir este ano à Festa
do Avante!. sábado, agosto 15, 2020
AGOSTO EM FLOR
Passeio ribeirinho Alhandra - Vila Franca de Xira, manhã cedo de 15-8-2020
Saudoso já deste Verão que vejo,
Lágrimas para as flores dele emprego
Na lembrança invertida
De quando hei-de perdê-las.
Transpostos os portais irreparáveis
De cada ano, me antecipo a sombra
Em que hei-de errar, sem flores,
No abismo rumoroso.
E colho a rosa porque a sorte manda.
Marcenda, guardo-a; murche-se comigo
Antes que com a curva
Diurna da ampla terra.
RICARDO REIS, Odes
quinta-feira, agosto 13, 2020
GRANDE PLANO
VIRGINIA CHERRILL em Luzes da Cidade (1931), de Charles Chaplin, no papel de uma florista cega por quem se apaixona um vagabundo bondoso (o próprio Chaplin). Estreado em Portugal a 3 de Maio de 1932.
quarta-feira, agosto 12, 2020
"HUMILHADOS E OFENDIDOS"
Leitura dos tempos da
juventude, volto neste Agosto a Humilhados
e Ofendidos, de Dostoievski, romance de 1861.
Terminada a leitura do
Capítulo X, percebe-se a densidade psicológica com que são desenhadas as personagens
do romance: a perseguição do príncipe Piotr Valkovski a Nikolai Ikhmeniov, a
tríade amorosa composta por Natacha, Vania e Aliocha.
Lembrei-me do artigo
de João Gaspar Simões no nº 6 da revista presença,
de Julho de 1927, com o título “Depois de Dostoievski”. Diz o crítico: «(…)
o que mais peculiariza uma novela é o fundo – o subsolo humano em que assenta a
sua engrenagem cosmológica.» Contra a valorização do estilo, ou da forma, pelos
romancistas franceses do século XIX, Gaspar Simões criticava neles «a concepção
do homem uno, típico, consequente», por as personagens reagirem «sempre de modo
idêntico, sem uma contradição por onde se manifestasse a sua natureza
verdadeiramente humana.» Isto é o que não há em
Dostoievski, e por isso as personagens criadas são tão ricas e surpreendentes.
domingo, agosto 09, 2020
AGOSTO AZUL
Palmela, 8-8-2020.
Os Paços do Concelho, edifício seiscentista, e ao fundo a torre de menagem do castelo onde esteve encerrado e morreu (1484) D. Garcia de Meneses, bispo de Évora, também humanista e militar. Curiosa personalidade de muitos atributos. O mal dele foi ter participado na conspiração do Duque de Viseu contra D. João II.
sábado, agosto 08, 2020
terça-feira, agosto 04, 2020
FICÇÕES DO INTERLÚDIO*
Da sombra da árvore, vê-se a calçada e a relva do jardim, o muro que deve ter sido branco e agora é branco sujo, a geometria dos edifícios, a agulha da torre apontada ao céu. Descrever para quê? O lugar do poema é entre o que se vê e o que não se vê, entre o real e o símbolo, entre o sonhado e o vivido. No interlúdio de nós é que tudo acontece.
* O título "Ficções do Interlúdio" pertence a F. Pessoa.
= Foto de 3-8-2020 =
domingo, agosto 02, 2020
AGOSTO AZUL
Neste Verão, o CCB está de praças e jardins abertos para espectáculos de cinema, música e outros eventos. Alguns são de entrada livre, outros têm um preço simbólico. Programa:
https://www.ccb.pt/mediaRep/ccb/files/programacao/2020/musica/julho/Desdobravel_VERAO_Arte_Final.pdf
Numa altura em que a cultura ainda não deixou o reino cavernoso das plataformas digitais, este é um bom exemplo. Na quinta-feira passada, pude assistir à sessão "Modos de Ler", no Jardim das Oliveiras, com animação de Helena Vasconcelos e participação de mais de 30 leitores. Acho que ninguém apanhou o vírus...
sábado, agosto 01, 2020
terça-feira, julho 28, 2020
segunda-feira, julho 27, 2020
domingo, julho 26, 2020
NO QUINTAL DA CASA DA ACHADA
Hoje, 26 de Julho, lançamento da nova edição de Sobre Van Gogh, dois ensaios de Mário Dionísio dos anos de 1947 e 1953. Apresentação de Saguenail (Paris, 1955), autor do prefácio. Na foto, entre um bom número de presentes, reconhecem-se Eduarda Dionísio e Regina Guimarães. O pessoal da cultura a sair da caverna.
quarta-feira, julho 22, 2020
COISAS DE OUTROS TEMPOS...
CAFÉ MONTANHA, esquina da Travessa da Assunção com a Rua do Arco Bandeira. Fundado no século XIX, foi encerrado em 1952. Segundo conta João Gaspar Simões em Retratos de Poetas que Conheci, foi aqui que em certo domingo de Junho de 1930 se apresentaram os directores da presença (ele e José Régio) para um encontro com Fernando Pessoa, colaborador da revista que não conheciam pessoalmente. Pessoa, porém, terá vindo à entrevista com a máscara de Álvaro de Campos, e as coisas não correram bem. José Régio foi o que mais sentiu o agravo, ele que era o poeta da sinceridade e tanto tinha feito para dar a conhecer a obra do criador dos heterónimos. Voltou para Coimbra de orelha murcha e coração opresso. Sim, Mário de Sá-Carneiro era mil vezes mais confiável que este fingidor de muitas personalidades. A partir de então, ficou sempre desconfiado de Lisboa e dos seus literatos.
Havia na cidade arranhas-céus, colmeias
De abelhas racionais acomodadas em quartel
Vivendo as vidas próprias como alheias,
Fabricando o seu fel.
--- JOSÉ RÉGIO, primeira quadra do poema "Havia na cidade", Cântico Suspenso, 1968.
terça-feira, julho 21, 2020
PINACOTECA
PAUL-JACQUES-AIMÉ BAUDRY (1828-1886), Madalena penitente
«A maneira de pintar é incapaz de acompanhar Maria Madalena na renúncia. Mais do que outra coisa qualquer, ela é pintada como mulher desejável e disponível. Ela permanece o objecto complacente da sedução do processo pictórico» - JOHN BERGER, Modos de Ver.
segunda-feira, julho 20, 2020
UM DIA DE CADA VEZ
COVID-19: 135 casos, 2 óbitos, 178 recuperados. Hackers publicam passwords de milhares de médicos e enfermeiros do SNS na Internet. Londres mantém limite de lotação nos autocarros, Madrid e Paris não. Medina e Moreira pedem capacidade de endividamento dos municípios. Centeno já está no Banco de Portugal, a providência cautelar do Cotrim não funcionou. Jesus vem de jacto particular para Lisboa, se quiser jogadores do Flamengo o clube que bata as cláusulas de rescisão. Costa leva máscaras e sapatos com solas de cortiça ao Conselho da Europa, a reindustrialização do Silva está em marcha. O tempo continua quente... Na Ericeira, Praia do Matadouro (raio de nome), a temperatura do ar foi hoje inferior em 10º à da região de Lisboa. Muito repousante, e a todos os títulos... Fotos tiradas pela hora do almoço, amanhã é outro dia.
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