sábado, julho 24, 2021

DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (13)

Setúbal, hoje, na Praça de Santa Maria, frente à vetusta igreja. Quem são estes "alfombristas", não o sei exactamente. Tampouco a sua ligação ao Caminho de Santiago, cujos motivos (como a vieira) surgem nestes tapetes feitos de pétalas. Isto foi de manhã, para a tarde já a obra estava completa. Trabalho de rigor, paciência e muita arte. Comemoração do Xacobeu (que ocorre nos anos em que o dia de Santiago, 25 de Julho, calha a um domingo). Até amanhã, pelo menos, lá estarão.

quinta-feira, julho 22, 2021

DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (12)


Este diário começa a tornar-se maçador porque anda à volta do mesmo.


Na Cinemateca, O Belo António (1960), de Mauro Bolognini, com esses dois que aí estão e dispensam apresentações. Ela, uma esposa ingénua e mal esclarecida sobre as inerências do matrimónio. Ele, o marido, impotente. Isto se passa em Catânia, cidade da costa oriental da Sicília, com grande escândalo e vergonha da família do protagonista perante a dissolução do casamento por falta de consumação carnal. Diz-se que Marcelo Mastroianni aceitou o papel (recusado por outros) para não dar curso à  fama de actor mulherengo que lhe era atribuída pelos filmes anteriores. Atitude inteligente, porque o bom actor é tudo e mais alguma coisa. Uma Claudia Cardinale no esplendor dos seus vinte e poucos anos: até faz doer os olhos!

quarta-feira, julho 21, 2021

DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (11)

Um dos ciclos da programação de Julho da Cinemateca recebeu o nome de O CINEMA ITALIANO, LADO B. Trata-se de mostrar um conjunto de filmes de entre 1950 e 1980 fora das obras consagradas de grandes mestres como Rossellini, Visconti, De Sica, Antonioni, Fellini, Bertolucci, Pasolini, etc.
Hoje vi o interessantíssimo Pão, Amor e Fantasia (1953), de Luigi Comencini. Uma comédia romântica com laivos de neo-realismo soft. Vittorio De Sica (ele mesmo) e Gina Lollobrigida nos papéis principais. Ele, um capitão dos carabinieri, solteiro, maduro e bom rapaz colocado numa remota aldeia de Itália; ela, uma rapariga informal, mas de formal beleza, pobre e à procura de um grande amor. 
Dá gosto ver estes enredos em que a pobreza social engendra personagens excepcionais (para o melhor e o pior), não faltando o braço (e o abraço) do cura de serviço a dar colorido às almas e aos insondáveis desígnios do Senhor. Santo António, o de Pádua, também apareceu a fazer das suas. 
E não se convençam que foi o par da fotografia o bafejado pela sorte do amor. Foi-o, mas cada um com a sua metade própria: a rapariga com um dos soldados do capitão; este com uma parteira muito jeitosa, apesar de já ter deixado para trás a idade do viço absoluto. 
É por coisas como estas que vale a pena viver. 

sexta-feira, julho 16, 2021

DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (9)

Um "conto moral" com três prólogos e um epílogo desconcertante. A Coleccionadora (1967), de Éric Rohmer (1920-2010). Revi ontem no Nimas, ciclo "Éric Rohmer , ou o génio do moderno cinema francês". Ela é Haydée Politoff (1946), ele Patrick Bauchau (1938), o Cap. Dantas de Balada da Praia dos Cães, de José Fonsceca e Costa. 

quinta-feira, julho 15, 2021

DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (8)

Esta semana, visitei no MNAA a exposição "Vi o reino renovar" sobre o estado da  arte portuguesa ao tempo do rei D. Manuel I. Noutro local, já disse o que ela me pareceu: uma boa mostra de peças de arte - pictóricas, escultóricas, bibliográficas, de tapeçaria e de ourivesaria -, mas limitada e sem o impacto que época tão crucial reclamaria. Não há, por assim dizer, grandes novidades: a Bíblia dos Jerónimos, a Custódia de Belém, as pinturas de Jorge Afonso e Gregório Lopes, iluminuras, etc. Em termos museológicos, as peças das secções relativas à imprensa e aos forais  surgem mal iluminadas, como se não fossem para ler, apenas para mostrar.
Gostei de encontrar a pintura de Cristóvão de Figueiredo sobre a "Chegada das Relíquias de Santa Auta ao Mosteiro da Madre de Deus,
relíquias trazidas para Portugal por iniciativa da rainha D. Leonor. Esta Santa Auta era uma das "11 mil virgens" martirizadas pelos hunos em Colónia no ano de 383. E mais uma vez sorri ao pensar naqueles milhares de virgens dos provectos alfobres da História. Uma inscrição encontrada em Colónia referia-se ao martírio como tendo sido obrado em XI MM VV (onze mártires virgens), mas logo se trocou "MM" por "mil" e o número fabuloso aí ficou a atestar a resistência gloriosa dos inúmeros mártires do Cristianismo nascente. 

terça-feira, julho 13, 2021

DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (7)

38º Festival de Teatro de Almada, o melhor e o pior. De uma amiga que anda por lá, recebi uma mensagem de que transcrevo a seguinte passagem: «(...) vi um fabuloso espectáculo, Quem Matou o Meu Pai, encenação de van Hove, Hans Kesting como filho e pai. Do melhor que tenho visto, fiquei outra. Já a Callas [protoganizada por Monica Belluci] é um embuste, mer**ce total para a chique plateia...» Se ela o diz...
 

domingo, julho 11, 2021

DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (6)

Nesta tarde de domingo li o último poema de Romanceiro Cigano, de Federico García Lorca, "Tamar e Amnon" que evoca o romance incestuoso de dois filhos de David narrado no segundo livro de Samuel, capítulo 13: «Absalão, filho de David, tinha uma irmã bonita chamada Tamar. Amnon, filho de David, ficou apaixonado por ela. Amnon chegou ao ponto de ficar doente por causa de sua irmã Tamar, pois ela era virgem e ele viu que era impossível fazer alguma coisa com ela.»
Colho dois versos:
Tamar, em teus altos peitos
há dois peixes que me chamam,
(...)

sábado, julho 10, 2021

DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (5)

A praia é um lugar árido, apenas mitigado pelo arrulho álacre das ondas. Com trinta e tal graus, muito pior. Nestes apertos não me apanham lá. 
Esta tarde, Outono Escaldante (1972), de Valerio Zurlini , no ciclo "Grandes mestres do cinema italiano" que corre no Nimas. Um filme com Alain Delon e a bela Sonia Petrovna (n. 1952), finalmente em versão integral. Uma intriga movimentada que termina em tragédia, com interessantes referências à literatura e à pintura. La Prima Notte di quiete, título original do filme, é citação de um verso de Goethe.

quinta-feira, julho 08, 2021

terça-feira, julho 06, 2021

DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (3)

 
Antoni Tàpies, Personage (1947)


Segunda-feira, 5 de Julho.
Na Casa da Achada - Centro de Documentação Mário Dionísio.
Leitura e discussão de A Prática da Arte, de Antoni Tàpies (Barcelona, 1923-2012), edição de Livros Cotovia, 2002. Um artista debruçado sobre as ideias estéticas e a sua relação com a arte contemporânea.

domingo, julho 04, 2021

DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (2)

Setúbal, domingo, 4-7-2021

Os roazes do Sado. Afinal não são tantos como pensava: um censo (chamemos-lhe assim) de 2018 contou apenas 31 indivíduos em movimentações no rio e na área marítima adjacente.
É curiosa a forma como os técnicos de conservação da natureza os identificam: pelos golpes que apresentam no bordo posterior da barbatana dorsal, uma espécie de impressão digital que nunca é igual em dois indivíduos.
Assim, conseguem dar-lhes nomes, sem margem de erro, como "Escuro", "Cavalito", "Serrote", "Mr. Hook", "Cocas", etc.
O cardápio da espécie é rico e variado, em certos itens de fazer crescer água na boca. Ora assentem lá: tainha-fataça, tainha-liça, solha, salmonete, linguado, robalo, goraz, safio ou congro, enguia, choco e polvo. Este, às vezes, faz das suas, enrolando os tentáculos à volta do nariz dos roazes, mas não se safa, eles têm técnicas para se libertarem do aperto.
Aprendi isto, hoje, em visita feita à exposição "Os roazes do Sado" na Casa da Baía de Setúbal (foto).

sábado, julho 03, 2021

DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (1)

Já houve quem dissesse serem os diários o grau zero da escrita, e também que não são sinceros. Assim, quem se dispuser a passar os olhos por estas linhas já sabe ao que vem.

Feito este preâmbulo, digo que o Verão está a começar da melhor maneira.

Sexta-feira em Escaroupim (Salvaterra de Magos) à procura de vestígios da tradição avieira à beira de valas e mouchões do Tejo. E também a fruir a gastronomia local.

Hoje, sábado, encontro com a sempre surpreendente Claudia Cardinale na sessão da noite do Nimas. A Rapariga da Mala (1961), de Valerio Zurlini, no ciclo "Grandes mestres do cinema italiano".
                                                                                  

sábado, junho 12, 2021

MEU CARO MOEDAS,

Mais um caso para exigir a imediata demissão do presidente Medina. Isto, sim, é extremamente grave: busto de Machado de Assis, oferecido pelo Rio de Janeiro à cidade de Lisboa, neste estado de vandalização sem tempestiva intervenção da Câmara. É ali ao Largo de Jesus, vá lá ver e faça o seu trabalho.
Votos de um bom resultado eleitoral, 
Cumprimentos


terça-feira, maio 25, 2021

PINACOTECA

 REMBRANDT, Betsabeia no Banho com a Carta de David (1654), Museu do Louvre

SEGUNDO LIVRO DE SAMUEL, 11: Betsabeia, esposa do guerreiro Urias, é requestada pelo rei David que do terraço do seu palácio a vira no banho. Durante a ausência do esposo, David chama-a ao palácio, tem relações com ela e engravida-a. Depois, não contente, arranjou forma de Urias ser morto pelos inimigos durante o cerco de uma cidade. Diz-se em 11:26-27: «A mulher de Urias soube que o marido tinha morrido e ficou de luto. Quando terminou o luto, David mandou buscá-la e recolheu-a no seu palácio. David tomou-a como esposa, e ela deu à luz um filho. Javé, porém, reprovou o que David tinha feito.»


segunda-feira, maio 24, 2021

AZULEJARIA

As Três Marias no Calvário. Provavelmente as mulheres que seguiam Jesus e compraram perfumes para ungir o seu corpo: Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e Salomé (Marcos, 16:1). Painel parietal no exterior da Igreja Matriz de Alcochete. Foto de 22-5-2021.

sábado, maio 22, 2021

GRANDE PLANO

INGER STEVENS (Rachel Warren) em cena com CLINT EASTWOOD (Marshal Jed Cooper) no filme À Sombra da Forca (1968), de TED POST. Um filmaço, acabado de passar na FoxMovies.

segunda-feira, maio 10, 2021

PINACOTECA

VIRGEM DO LEITE, (século XVI), óleo s/ madeira de castanho, segundo modelo de Joos van Cleve, Escola Flamenga. Fotografado ontem no museu do Convento de Jesus, de Setúbal.

domingo, maio 09, 2021

quinta-feira, abril 29, 2021

AQUELE ERA O TEMPO


Este é o tempo
Da  selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam.

--- SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, Mar Novo, livro publicado em 1958

--------------------- Fotos da manifestação de 25 de Abril de 2021:




Este é o tempo.

terça-feira, abril 27, 2021

PINACOTECA

MÁRIO DIONÍSIO, Oh Mulher das Mãos Gretadas (1951). Exposto na 6ª EGAP com o título Mulher a Lavar a Loiça. As notas de Eduarda Dionísio ao 1º volume do diário do artista (Passageiro Clandestino) indicam que o quadro foi oferecido a Hermann Pflüger, tradutor e professor, então residente em Portugal. Foi exposto na Galeria Nasoni, em 1989, na parte retrospectiva da exposição individual de Mário Dionísio, encontrando-se hoje, provavelmente, na Alemanha. Em As Solicitações e Emboscadas, livro de 1945, Mário Dionísio tem um poema ("Essa tragédia tão vulgar") cujo primeiro verso é justamente «Oh mulher das mãos gretadas».

segunda-feira, abril 26, 2021

PASSAGEIRO CLANDESTINO

Ontem, na CASA DA ACHADA, sessão de lançamento do 1º tomo do diário inédito de Mário Dionísio - Passageiro Clandestino - cobrindo o período 1950-1957. A edição vem acompanhada de um grosso volume de notas de Eduarda Dionísio (515 páginas) que esclarece o leitor sobre personalidades, instituições, acontecimentos e outras referências menos conhecidas em relação ao tempo já distante a que se reporta. Um trabalho colossal, imprescindível para quem quiser estudar Mário Dionísio e a inserção da sua obra no tempo em que viveu. Do incipit: «Toda a gente traz consigo um passageiro clandestino, sempre agarrado à mala suspeita onde transporta o mais perigoso dos materiais: milhares de sentimentos, de ideias, de simples frases, de gostos, de impertinências, de abdicações, de cóleras, de saudades, de esperanças, que a sociedade não reconhece. E persegue, se os conhece.» As primeiras páginas do livro desenvolvem-se entre a assunção daquele outro/passageiro clandestino e o questionamento do próprio trabalho diarístico (um diário porquê e para quê?). Comecei hoje a ler.

sexta-feira, abril 16, 2021

SABRINA, BIANCA E JÚLIA

Um dos narradores de Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto, falando de além-túmulo como o Brás Cubas de Machado de Assis, alude às leituras mais ou menos furtivas de sua filha Maria: pilhas de romances das colecções Sabrina, Bianca e Júlia, oriundas do Brasil («livros que estavam escritos em brasileiro») e com sucesso neste nosso país de brandos costumes e leituras vagas. As histórias são mais ou menos eróticas, isto é, eróticas para aquele tempo em que apareceram, anos setenta do século passado, com namorados bonitos nas capas em poses de expressão amorosa.  Um apontamento do real relativo a um certo tempo, embora o tempo, e até o espaço, não pareça constituir preocupação do escritor na construção do entrecho. Este romance do Peixoto dá algum trabalho, mas estou a reler.

quarta-feira, abril 14, 2021

GRANDE PLANO

MEG RYAN em Um Amor Inevitável (título original: When Harry Met Sally...), de 1989, num dos mais conhecidos orgasmos da história do cinema. E à mesa dum restaurante, o que é ainda melhor. 

domingo, abril 11, 2021

ALVES REDOL

ALVES REDOL segundo o escultor Lagoa Henriques numa rua de Vila Franca de Xira. O que eu já ouvi sobre esta estátua em que o escritor é apresentado na viva força da sua nudez! Ao que sei, a família gostou do trabalho, alguns burocratas da terra é que não. 
Fotografia de 10-4-2021.

quinta-feira, abril 08, 2021

GRANDE PLANO

Os fabulosos KATHARINE HEPBURN e HUMPHREY BOGART no filme Rainha Africana (1951), de John Huston.
Ruy Belo sobre a morte de Humphrey Bogart, em Homem de Palavra[s]:
Era a cara que tinha e foi-se embora
nas nunca foi tão visto como agora
O seu olhar é água pura água
devassa-nos dá nome mesmo à mágoa
Ganhámo-lo ao perdê-lo. Não se perde um olhar
não é verdade meu irmão humphrey bogart?
«O seu olhar é água pura água» - tanto que este verso tem a ver com o filme Rainha Africana!
   

terça-feira, abril 06, 2021

ANTÓNIO DE NAVARRO (1902-1980) - "BACANAL", O STROPHION DA BACANTE DESPIDA, LUXÚRIAS, SONOLÊNCIAS DE ÓPIO...

 António de Navarro, retrato por Mário Eloy (1929)

Em Coimbra foi "Príncipe de Judá" e a sua poesia, segundo Adolfo Casais Monteiro, procede «directamente do veio mais anárquico da geração de Pessoa». Deu escândalo, escreveu torrencialmente e, por fim, tornou-se mais comedido sem deixar de poetar. Andou pelos "Ultramares" da grande nação lusitana. Publicou em livro só uma pequena parte do que escreveu.

BACANAL, publicado no nº 5 da presença, 4 de Junho de 1927
(...)
................................................................................................
Apenas lembranças vagas de memória, / - esquírolas, migalhas, um resquício, / e a esquina d´um Som / e as letras quasi sumidas / da palavra VIDA. / O Strophion / d´uma bacante despida, / esgares de magas de Goya, / contorcionismos de Chagall, / e uma palavra esquecida / na alma de toda a gente - / - MORTE! /(mas tudo em bruma n´uma sonolência d´ ópio) // Foi Ela a minha companheira / n´esse final de banquete  onde fui: - / todos os convivas, / o vinho, as mulheres, as iguarias, / ânsias de fome entre góticas ogivas / luxúrias / toda a bacanal, / em suma. / Comunguei Deus e Satanas / pelo mesmo pão, pelo mesmo vinho, / fui Estrutura universal, / pedra d´um caminho, / e uma onda que veio de longe e apenas deixou espuma / - A VIDA.

sábado, abril 03, 2021

PINACOTECA

 MARC CHAGALL, Crucificação Branca  (1938). Óleo sobre tela, 155x140, The Art Institute of Chicago

quinta-feira, abril 01, 2021

quarta-feira, março 31, 2021

PINACOTECA

 GUIDO RENI (1575-1642), Susana e os Velhos (1625)

Segundo o Livro de Daniel, 13. Deus não abandona os inocentes. Susana era casta, os velhos é que eram maus.

segunda-feira, março 29, 2021

GRANDE PLANO

A  bela CATHERINE ZETA-JONES (Elena de la Vega) e o danado do ANTONIO BANDERAS (Don Alejandro de la Vega / Zorro) em A Lenda do Zorro (2005), de Martin Campbell. O casal em plena crise do casamento e uma insidiosa conspiração contra os Estados Unidos a reclamar a acção do herói justiceiro em renovada aventura. Assim não há casamento que resista, porém...

sexta-feira, março 26, 2021

NÃO SE MEXAM, NO MÍNIMO 200 EUROS DE MULTA...

Foto de 25-3-2021. Pátio interior do Convento de S. Francisco, de Tomar, notável edifício do século XVII, tanto quanto julgo saber em vias de receber obras de conservação. Aqui fica como tributo à mobilidade ora cerceada.  E o resto é conversa.

terça-feira, março 23, 2021

TO FLIRT

 

CAP. XLIV de Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett

Da longa carta de Carlos a Joaninha, Évora Monte, Maio de 1834

(…)

O tom perfeito da sociedade inglesa inventou uma palavra que não há nem pode haver noutras línguas enquanto a civilização as não apurar. To flirt é um verbo inocente que se conjuga ali entre os dois sexos, e não significa namorar — palavra grossa e absurda que eu detesto —, não significa «fazer a corte»; é mais do que estar amável, é menos do que galantear, não obriga a nada, não tem consequências, começa-se, acaba-se, interrompe-se, adia-se, continua-se ou descontinua-se à vontade e sem comprometimento.
Eu flartava, nós flartávamos, elas flartavam...
E não há mais doce nem mais suave entretenimento de espírito do que o flartar com uma elegante e graciosa menina inglesa; com duas é prazer angélico, e com três é divino.
Para quem nasceu naquilo, não é perigoso; para mim degenerou, breve, aquela plácida sensação em mais profundo sentimento. Veio a admiração primeiro. E como as eu admirava todas três as minhas gentis fascinadoras!
E elas conheciam-no, riam, folgavam e estavam encantadas de me encantar. Fizeram nascer os desejos!
Julguei-me perdido, e quis fugir. Não me deixaram e zombaram de mim, da ardência do meu sangue espanhol, da veemência das minhas sensações... Em breve eu amava perdidamente uma delas — queria muito às outras duas; mas amar, amar deveras, de alma cuidava eu, de coração ia jurá-lo, era a segunda — Laura, a mais gentil, mais nobre, mais elegante e radiosa figura de mulher que creio que Deus moldasse numa hora de verdadeiro amor de artista que se dignou tomar por esse pouco de greda que tinha nas mãos ao formá-la.

Ele flartava, mas depois é que as coisas se complicaram... Sobre o flirt, já disse o obscuro predicador deste blogue : «é como uma laranja doce e amarga às vezes». Para que se saiba.


segunda-feira, março 22, 2021

PARNASO EM OEIRAS

Esta tarde, fui ver a Florbela ao Parque dos Poetas. Disse-me aquele soneto cuja primeira estrofe é:

És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!

Oiço de novo o riso dos teus passos!

És tu que eu vejo a estender-me os braços

Que Deus criou para abraçar-me a mim!

E a última:

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente,

Tudo o que é vida e vibra eternamente

É tu seres meu, Amor, e eu ser tua!

Gostei muito. 

domingo, março 21, 2021

A ESPUMA DOS DIAS: POLÉMICA SOBRE A MAÇONARIA

Agora que por causa das iniciativas legislativas do PAN e do PSD muito se tem falado da maçonaria, é interessante recuperar uma página de José Régio em Confissão dum Homem Religioso, livro publicado postumamente há 50 anos.
Tem a ver com o «tio brasileiro», emigrante que fez fortuna no Brasil e a deixou à irmã Libânia, tia-avó do poeta, grande matriarca e garante de uma prosperidade de que beneficiou toda a família. O avô do poeta, monárquico miguelista, castigado com um filho que aderira às ideias republicanas, foi deserdado por uma divergência familiar relacionada com o seu segundo casamento.
Diz José Régio a respeito do avô e da fortuna do «tio brasileiro»:
«Se acabara por aceitar o republicanismo do filho, teria alguma vez aceitado (ou que perturbação lhe não causaria!) o facto de o irmão «brasileiro» se ter feito maçon no Brasil? Sempre se referia com reverência a esse irmão que o deserdara. Ora os maçónicos eram para o meu avô os mais sinistros, perigosos, abomináveis dos indivíduos! Confesso haver ficado eu próprio muito confuso, ou quase aterrado, quando, abrindo com chave falsa as velhas gavetas duma papeleira tentadora, descobri livros e papéis que me convenceram desta monstruosidade: O tio brasileiro, o grande homem tão respeitado duma família tão católica, apostólica, romana, (embora com aquelas pequenas liberdades adstritas às devoções muito particulares de cada um) – pertencera à maçonaria! fora uma maçónico! assim arranjara, talvez, o seu dinheiro, pois então se repetia que filiar-se na maçonaria era uma vergonhosa maneira de fazer fortuna.»
Sem tirar nem pôr, bem-avisados são, nos tempos que correm, os deputados do PAN e do PSD.