JANE FONDA em Descalços no Parque (1967), de Gene Saks, filme igualmente protagonizado pelos grandes Robert Redford e Charles Boyer.
domingo, julho 12, 2020
CINEMATOGRAFIA JAPONESA: CICLO "ROMAN PORNO" NO NIMAS
O Êxtase da Rosa Negra (1975), de Tatsumi Kumashiro, um clássico do cinema erótico japonês. A história de um técnico de som de filmes porno em busca do gemido perfeito que ouviu uma vez num consultório de dentista. Curioso, não é? E note-se que o cartaz, por razões compreensíveis, é apresentado em versão soft. Vi este sábado ao fim da tarde. Atenção aos próximos (o ciclo é composto por 10 filmes), todos com títulos muito sugestivos: À Sombra das Raparigas Húmidas, O Alvorecer das Felinas, Anti-Porno, etc. Grandes filmes de grandes mestres!
sábado, julho 11, 2020
CALÇADOS NO PARQUE
Como já não aguento os canais de televisão e os factos pitorescos do jornalismo cá do burgo, depois amplificados pelas redes sociais e pelo contexto político, ando por aí a exumar lugares menos conhecidos da nossa santa terrinha na tentativa de me salvar. (Aproveito para saudar um tal Rio da esfera política pela ideia de acabar com as reuniões do INFARMED e os debates quinzenais do parlamento com o governo: Venturas, Chicões e quejandos estão lá preocupados com o país e a transparência, o que eles querem é tempo de antena nas intervenções transmitidas em directo pela televisão). Mas voltemos ao tema: Parque Urbano da Póvoa de Santa Iria. Acho que a concepção não é má: apontamentos de Stonehenge, cromeleques e antas à beira-rio. Só é preciso que as árvores cresçam e as melgas deixem de atacar na maré vaza.
= Fotos de 10-7-2020 =
sexta-feira, julho 10, 2020
TOPÓNIMOS
Quem ande como nós pela Alhandra toireira (assim a chamou Garrett no primeiro capítulo das Viagens), encontra esta placa toponímica aludindo a Pedro Ferreira Cavaco, mestre de embarcação que se destacou em várias operações de socorro durante o temporal que assolou o país, e particularmente o Ribatejo, em Fevereiro de 1941. Os mais velhos, que já são poucos, referem-se-lhe como "o ciclone". Leio o Diário de Lisboa, que ando a consultar, na sua edição de 17 daquele mês e ano: «Um desses marítimos - Pedro Cavaco - distinguiu-se entre todos. Acompanhado por outros populares de Alhandra, foi aos mouchões do Lombo do Tejo (donde trouxe sete cadáveres e um cavalo vivo), das Garças (onde salvou quatro homens), da Alhandra e das Marinhas (donde salvou dois homens, duas mulheres, porcos, galinhas e alguns haveres). Além disso, este grupo trouxe a reboque duas bateiras, numa das quais estavam em grande perigo um velho e uma criança.» Grande Cavaco, bem merecida homenagem!
= Fotos de 9-7-2020 =
= Fotos de 9-7-2020 =
quarta-feira, julho 08, 2020
GRANDE PLANO
ANITA EKBERG (1931-2015), atriz sueca
mais conhecida pela cena da Fontana di Trevi em La Dolce Vita, de Federico Fellini, aqui trazida numa outra imagem
do filme Zenóbia e o Gladiador (1959).
segunda-feira, julho 06, 2020
ESCRITA DIARÍSTICA

Bem eu queria fugir a todos os espectáculos da multiforme desgraça humana. Mas escrevi o Fado, e a miséria humana procura-me. Talvez o que profundamente me inquiete (pois não há dúvida que «sou uma triste mistura de ousadia e cobardia») seja o sentir-me tão íntimo com ela. Tenho medo de todos os Irregulares, - que ao mesmo tempo me atraem - eu que sou um deles apesar da regularidade da minha vida. Sim, um deles!
JOSÉ RÉGIO, Páginas do Diário Íntimo, 11 de Junho de 1952
O ASSINTOMÁTICO DESEJOSO - HEXASSÍLABOS COVÍDICOS
Máscaras nas queixadas
e as vidas paradas,
o vírus a medrar.
Dá-me beijos na boca,
sei bem que estás louca,
já não posso esperar.
domingo, julho 05, 2020
NA TERRA DE JAIME BATALHA REIS
JAIME
BATALHA REIS (1847-1935), companheiro de Eça e Antero nas reuniões do Cenáculo
e nas Conferências do Casino Lisbonense. Criador com os seus companheiros do
poeta satânico Carlos Fradique Mendes. Formado em agronomia, seguiu a carreira
diplomática. A seguir à implantação da república foi ministro plenipotenciário
em S. Petersburgo, tendo sido apanhado em 1917 na convulsão da Revolução Russa. Regressou ao país só no ano seguinte.
A terra –
Turcifal, no concelho de Torres Vedras – não esqueceu o filho ilustre. Seu pai
era proprietário agrícola e produtor de vinho na denominada Quinta da
Viscondessa.
Hoje, estive
lá. Quero acreditar que aquelas vetustas casas são do tempo de Jaime Batalha
Reis.
=Fotos de 5-7-2020=
sexta-feira, julho 03, 2020
DERIVAS
Foi Punhete até 1836, quando a rainha D. Maria II lhe
mudou o nome para Constância.
Corre suave e brando
com tuas claras águas
saídas de meus olhos, doce Tejo,
fé de meus males dando,
para que minhas mágoas
sejam castigo igual de meu desejo;
que pois em mim não vejo
remédio, nem o espero,
e a morte se despreza
de me matar, deixando-me a crueza
daquela por quem meu tormento quero,
saiba o mundo meu dano,
por que se desengane em meu engano.
com tuas claras águas
saídas de meus olhos, doce Tejo,
fé de meus males dando,
para que minhas mágoas
sejam castigo igual de meu desejo;
que pois em mim não vejo
remédio, nem o espero,
e a morte se despreza
de me matar, deixando-me a crueza
daquela por quem meu tormento quero,
saiba o mundo meu dano,
por que se desengane em meu engano.
LUÍS VAZ DE CAMÕES, Éclogas
= Fotos de 2-7-2020
quarta-feira, julho 01, 2020
LEITURAS
PEDRO ABELARDO (1079-1142). Filósofo,
teólogo e professor. Na Questão dos Universais, defendeu a realidade do sujeito
individual, suficiente a ele próprio, contra as teorias essencialistas que viam
a diferenciação entre indivíduos como meros acidentes singulares entre a realidade
substancial da espécie.
HELOÍSA DE ARGENTEUIL (1090-1164).
Donzela culta e inteligente, desejosa de mais vastos conhecimentos no domínio
das letras, tornou-se discípula de Abelardo em 1116.
Da 1ª carta, de Abelardo a um amigo: «Reunidos
sobre o mesmo tecto, logo o fomos sob o mesmo coração. E, a partir desse
momento, com o pretexto de estudar entregávamo-nos inteiramente ao amor. As
lições ofereciam-nos esses encontros privados e secretos que o amor deseja. Os
livros estavam abertos, mas era o amor, mais do que a leitura, que constituía o
objecto dos nossos diálogos; trocávamos beijos em vez de sábias proposições. As
minhas mãos voltavam-se com mais frequência para os seus seios do que para os
livros.» E acrescenta: «Esta paixão voluptuosa havia tomado conta de mim, de
tal modo que negligenciei a filosofia e a minha escola».
O nascimento de um filho causa
escândalo em Paris e tem graves consequências para Abelardo e Heloísa.
terça-feira, junho 30, 2020
BIBLIOTECAS
Na Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira, FÁBRICA DAS PALAVRAS, já é possível a presença no piso 4 para leitura/estudo, mas, note-se, limitada a 1 hora e meia por leitor. De máscara e com desinfecção das mãos à entrada, naturalmente. As estantes é que estão barradas com umas fitas anticovídicas, não vá o vírus entrar nos livros. Quem os quiser, terá de pedi-los ao funcionário de serviço.
=Fotos de 30-6-2020=
TOPÓNIMOS
Antiga Rua do Cais. Por ela terá passado o Gineto do livro dedicado aos «filhos dos homens que nunca foram meninos». Agora é avenida com nome de médico e cientista, alma errabunda entre o Além e o Aquém. Assim o fizeram pela crença, assim o têm.
=Foto de 29-6-2020=
=Foto de 29-6-2020=
domingo, junho 28, 2020
"DIÁRIO DE UMA CRIADA DE QUARTO", DE LUIS BUÑUEL
Filme de 1964, estreou-se em Portugal em Novembro de 1980. JEANNE MOREAU (Célestine) no principal papel. Argumento baseado no romance de Octave Mirbeau com o tempo de acção transposto para os anos 30. A intriga combina um crime de pedofilia na casa duma família burguesa de província com incidências de natureza social e política (fascismo e anti-semitismo). Passou hoje no NIMAS no ciclo dedicado ao realizador.
sábado, junho 27, 2020
GRANDE PLANO
MICHELLE PFEIFFER no papel de Madame de Tourvel em Ligações Perigosas (1988), de Stephen Frears.
DE MADAME DE TOURVEL AO VISCONDE DE VALMONT
CARTA XXVI
«Decerto, Senhor, não viríeis a receber qualquer carta minha, se a minha tola conduta de ontem à noite não me obrigasse e entrar hoje em explicações convosco. Sim, chorei, confesso-o: é possível também que me tivessem escapado as duas palavras que citais com tanto escrúpulo. Lágrimas e palavras, tudo notastes; é preciso, pois, explicar-vos tudo (...)»
sexta-feira, junho 26, 2020
A ALEGORIA DA CAVERNA
«Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas» - Gláucon para Sócrates no Livro VII d' A República, de Platão.
As palavras do filósofo ajustam-se, nos dias de hoje, aos que se acomodam a não renunciar à caverna das plataformas virtuais.
Como ficou demonstrado, é de fora da Caverna que a vida corre!
Como ficou demonstrado, é de fora da Caverna que a vida corre!
quinta-feira, junho 25, 2020
LEITURAS
«Não lhe ocorreu que o amor é, como a medicina, somente a arte de ajudar a Natureza?»
= Carta X - A MARQUESA DE MERTEUIL AO VISCONDE DE VALMONT
terça-feira, junho 23, 2020
BIBLIOTECAS bis
Estive hoje na BIBLIOTECA MUNICIPAL DE SINTRA - CASA MANTERO. Pelo menos aqui há leitores-estudantes nas salas, cada um na sua mesa e rigorosamente de máscara. Porém, o acesso às estantes está interdito, quem quiser retirar um livro terá de pedir aos funcionários de plantão. Trata-se de não pôr as mãos nos livros, as mesmas mãos que tocam nos tampos das mesas, nos braços das cadeiras, nas torneiras e portas das casas de banho. Expliquem a lógica da norma, é suposto que o gel desinfectante desinfecte, está disponível à entrada da biblioteca. As mesas estão agora numeradas, como nos restaurantes. Calhou-me a mesa 3, um número mágico.
Fotos de 23-6-2020.
BIBLIOTECAS
PALÁCIO RIBAMAR, edifício do séc. XVIII, nele funciona o pólo de Algés da Biblioteca Municipal de Oeiras. A sala de leitura ocupa esse segundo piso, 9 varandins virados para o rio. Para uma área de, digamos, 600 m2, são covidadmitidas em leitura presencial apenas 4 pessoas.
Melhor seria dizer aos leitores para não irem lá.
Fotos tiradas ontem, 22-6-2020.
segunda-feira, junho 22, 2020
FOZ DO LIZANDRO
É rio, é mar, tudo do melhor. E com cumprimento das regras de segurança.
Tarde de domingo, 21-6-2020.
domingo, junho 21, 2020
sábado, junho 20, 2020
"ESTE OBSCURO OBJECTO DO DESEJO", DE LUIS BUÑUEL
Ángela Molina (1955) e Carole Bouquet (1957), duas actrizes para o papel de Conchita, a perversa sevilhana que se torna objecto do obscuro desejo do protagonista (Fernando Rey). O filme é de 1977 e foi estreado em Portugal em 29 de Abril de 1981. Das duas meninas, uma é espanhola e a outra é francesa. Pondo duas actrizes a desempenharem alternadamente o mesmo papel, reforça-se o enigma e a duplicidade da personagem, um verdadeiro desastre psicológico para o cavalheiro de meia-idade avançada que ainda sonha com os trinados do amor juvenil. Vi ontem no NIMAS, este tinha-me escapado.
quinta-feira, junho 18, 2020
"BELLE DE JOUR", DE LUIS BUÑUEL
Filme de 1967, só seria estreado em Portugal a 9 de Julho de 1974.
Com Catherine Deneuve, musa de Buñuel, mas também de Polanski, Truffaut e outros realizadores. Belle de jour combina o real com o imaginário, a entrega com o abandono, as pulsões do amor com os grandes traumas subterrâneos que o inibem. Revi ontem no NIMAS: 1 hora e 40 minutos de puro cinema.
quarta-feira, junho 17, 2020
BIBLIOTECA NACIONAL
A foto - tirada esta tarde - não saiu bem, mas serve para mostrar que na Biblioteca Nacional estudantes e investigadores já se entregam ao seu labor na sala de leitura geral. Em frente, a notável tapeçaria de Guilherme Camarinha que não via desde Março. A biblioteca implementou um protocolo de segurança para a reabertura e o resultado está à vista, uma boa presença de leitores. As bibliotecas municipais que atentem no caso porque salvo algumas honrosas excepções ainda não reabriram a leitura presencial e os leitores para requisitarem livros têm de os pedir de véspera, sendo atendidos em guichés colocados como barreiras nas portas da entrada. Ao trabalho, caros bibliotecários! Os trabalhadores das obras, dos centros comerciais, das fábricas, dos transportes públicos, etc. cumprem diariamente as suas funções laborais. Temos de voltar todos à vida normal.
terça-feira, junho 16, 2020
EXPOSIÇÕES
"A Idade de Ouro do Mobiliário Francês", na Gulbenkian. São frequentes as referências a mobiliário na grande literatura do século XIX, daí o interesse em ver esta exposição. Nas fotos, a muitas vezes referida "secretária de cilindro", esta de Jean-Henri Riesener, feita em Paris no ano de 1773; uma cómoda de Antoine Criaerd, transição entre o estilo Regência e o Luís XV; e uma pequena secretária de senhora, conhecida pelo nome de "bonheur du jour", recriação pela Fundação Ricardo Espírito Santo Silva de uma obra do ebanista flamengo Roger Vandercruse (segunda metade do século XVIII). Enfim, para lá do abominável pandémico, político e social, ainda há por aí, é só procurar, umas tímidas centelhas de cultura.
=Fotos de domingo, 14-6-2020=
=Fotos de domingo, 14-6-2020=
sexta-feira, junho 12, 2020
GRANDE PLANO
CONSTANCE TOWERS e JEFFREY HUNTER em Sergeant Rutledge (1960), de John Ford. Estreado em Portugal a 7 de Abril de 1961 com o título O Sargento Negro. Passou esta noite no FOX HD MOVIES.
quinta-feira, junho 11, 2020
FICÇÕES
MÁSCARAS
Ela usava máscaras a condizerem com o
padrão dos vestidos e a cor dos sapatos. Acomodava-as numa gaveta da cómoda ao
lado de sutiãs, meias de vidro e cuecas de renda. Antes de escolher uma para
sair, soltava os dedos sobre a textura dos panos e a flexibilidade dos
elásticos, correndo-as de uma ponta à outra como quem toca em alguma coisa
realmente querida e desejável.
Assim, num momento de pachorra deixou
no mural do facebook a seguinte mensagem:
«Eu uso máscara em público e fico a
dois metros de distância. Não, não
"vivo com medo" do vírus, só quero fazer parte da solução e não do
problema. Não sinto que o "governo me controle", sinto que sou uma
adulta contribuindo para a sociedade. O mundo não gira em torno de mim. Usar uma máscara e estar a dois metros de distância não
me deixa fraca, assustada, estúpida ou mesmo "controlada", mas
atenciosa e respeitosa», etc.
Fique claro que
o texto não saíra da sua imaginação – aliás, o que de menos há naquela rede
social é imaginação –, tratava-se de uma “corrente” para copiar e colar, inventada
não se sabe por quem, mas com assinalado êxito em meio de acefalia dominante.
Choveram os
likes e os comentários dos amigos prodigamente simpáticos. Um comentário,
porém, prontamente apagado e denunciado, era de índole maliciosa, troçando do “medo
do vírus” e da suposta pretensão do governo em impor as máscaras para “controlar”,
entregando-se a outras considerações que tinham tanto de impertinente como de
ordinário.
O namorado, um
macho ciumento e feroz, advertiu-a: É o que dá tanta conversa no facebook, para
controlar os cidadãos o governo já tem o Ministério das Finanças e a polícia, quer
lá saber das máscaras, e quanto a isso de não teres medo do vírus, só o não tem
quem é estúpido ou mal esclarecido, vais mas é apagar as baboseiras que
escreveste e aproveita a embalagem para dares menos trela a uns quantos tipos
que andam por lá a fazer-te olhinhos e a enviar-te mensagens privadas, olha que
já m´estou a chatear com estas porras todas.
Ela apagou, mas
ficou amuada durante uns dias. Aliás, deixou de pôr likes e comentários nas
mensagens dos amigos, tanto daqueles que conhecia como dos que nunca vira, apanhados
ali na rede sem engodo nem isco, mil seiscentos e vinte e sete ao todo.
Coisa surpreendente,
deixou de usar as belas máscaras de pano e passou a sair com as vulgarmente
designadas como cirúrgicas, uma pobreza de estilo naquele falso tecido fininho
de cor azul bebé sem a espessura protectora das outras. Fora uma imposição do
ciumento, porque as máscaras que ela usava chamavam muito a atenção e os homens
mais atrevidos paravam a olhar com uma persistência irritante tentando imaginar
os lábios deliciosos que se escondiam sob os seus olhos de sílfide. É sabido
que o que está escondido mais encoraja as pulsões da líbido.
O pior foi ter começado
a sentir-se insegura com as máscaras cirúrgicas, passando a viver com medo do
vírus. Resolveu pedir ao namorado que lhe arranjasse uma viseira bonita capaz
de reforçar a protecção, uma viseira de policarbonato incolor, com fita
elástica colorida e placa de espuma na zona da testa. Se há que usar estas
coisas, pensava, ao menos que se faça com estilo.
E na sensaboria
dos dias estranhos, com o vírus à solta e o namorado à perna, já não se
importava de se sentir controlada, porque um namorado não é o governo,
aguenta-se bem, mau é viver com medo do vírus, sentir-se fraca, assustada ou
estúpida, e isso, em definitivo, é que ela não queria mesmo. Ah, tão atenciosa e respeitosa que era, se ao menos pudesse voltar às belas máscaras de pano!
quarta-feira, junho 10, 2020
CINEMA, POIS ENTÃO
Hoje, na reabertura
do NIMAS, Non ou a vã glória de mandar, de Manoel de Oliveira, filme apropriado para um 10 de
Junho que já foi da Raça e de outros mitos.
Três fotos
para recordação futura:
– Café, antes
do cinema, à luz dos jacarandás da Av. 5 de Outubro;
– O jubiloso público acercando-se da bilheteira;
e
– Título de
ingresso na sessão memorável.
domingo, junho 07, 2020
PASSEIOS DE DOMINGO
PAÇOS DO CONCELHO DE PALMELA. Edifício seiscentista que sobreviveu aos terramotos de 1755 e 1858. Diz o painel informativo que o Salão Nobre ostenta uma galeria dos reis portugueses de D. Henrique a D. Manuel II.
Dedicado aos que de Palmela só conhecem o castelo.
7-6-2020
sábado, junho 06, 2020
sexta-feira, junho 05, 2020
FICÇÕES
CAVALEIRO DA TRISTE FIGURA
Suportara o vexame dos dois metros de
distância, a opressão da máscara e das luvas, a medição diária das temperaturas
num velho termómetro de pôr sob o braço. Às vezes, vacilava-lhe a vista na
determinação do ponto da escala onde se detinha a fita de mercúrio. Nesses
segundos de incerteza, pensava que a natureza bondosa o abandonara, que o
líquido metálico já se estendia aos dígitos altos da casa dos trinta ou mesmo às
primícias dos quarenta. Finalmente, por uma particular inclinação do termómetro
conseguia fazer a leitura: abaixo dos trinta e sete, valor normal, e anotava-o alegremente
num bloco de folhas cinzentas com a indicação da data e da hora.
Ela via diariamente os valores que
ele lhe mostrava. Recomendava-lhe que não andasse de transportes públicos, que
usasse gel desinfectante e, sobretudo, não colhesse flores campestres para lhe
oferecer. A primavera explodia nos campos e nos jacarandás da cidade mas
minguava nos corações dos que não se podiam tocar. Dois metros de distância,
era o mínimo.
Foi assim durante oito semanas.
Depois veio um tempo em que já era permitido sair de casa, colher flores nos
jardins do campo e almoçar em restaurantes.
Não coabitamos, disse ela ao
empregado do restaurante da primeira vez que foram almoçar à beira-mar. Ficaram
sentados em mesas separadas, a conversa fluindo com intermitências lúgubres.
Para segurança de ambos, ela sugeriu-lhe
uma quarentena de catorze dias, findos os quais retomariam a vida a dois. Cada
um na sua casa, claro. E então foi o império do skype e do zoom, as
temperaturas anotadas diariamente, nervos e palpitações sob o riso mudo das
noites.
Quando chegou o grande dia, as roupas
voando na atmosfera cálida do quarto, ela, de súbito, estacou de terror. Uma
temperatura desmesurada irradiava do corpo dele em ondas de choque traiçoeiras
e más. Aplicou-lhe o termómetro digital com visor de cristal líquido e beep sonoro: trinta e sete e nove. Ele
ficou embaraçado e protestou, que a temperatura era o resultado da excitação
sexual, nada mais que isso, havia casos desses cientificamente demonstrados, mas
ela levou a coisa a sério e não o quis ouvir. Rebobinou o filme e a roupa
voltou a assentar-lhe no corpo anteriormente nu. Depois, tiveram uma conversa
ponderosa, de decisões determinantes: mais catorze dias de afastamento até que
a relação se revelasse inócua.
Tristeza das tristezas! Hoje quem o
quer ver é aí pelas ruas a moer a solidão descomunal. Traz a roupa suja, os
sapatos torcidos, os olhos pisados de mágoa sobre a cabeleira hirsuta que
insiste em fugir à tesoura do fígaro. De vez em quando telefonam-se, diálogos
sem sentimento, e nem sabe ao certo quanto tempo falta para cumprir os catorze
dias, se é que não passaram já sem que a interdição cruel tenha sido levantada.
É agora um destroço humano, apenas uma
ténue luz lhe alumia o fácies. A negligência da máscara caída sobre os queixos
faz lembrar a viseira móvel dum elmo medieval. Cavaleiro da triste figura apeado
do seu rocim, de lança frouxa e sem dama, cruzando-se com os monstros eólicos
da pandemia. Assim como anda, algum dia infecta-se de verdade e, pensa, se calhar
é isso mesmo que ela espera.
terça-feira, junho 02, 2020
PINACOTECA
HIERONYMUS BOSCH, João em Patmos escrevendo o Apocalipse (1489)
«Quanto aos covardes, aos infiéis, aos corruptos, aos assassinos, aos imorais, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, o seu lugar é o lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte.» - Apocalipse, 21-8.
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