quinta-feira, agosto 06, 2009

PEREGRINAÇÕES (continuação)


Torre do Prior do Ameal, integrada na antiga cerca de Coimbra. Ali viveu António Nobre, o poeta do , que lhe chamou a Torre de Anto, a sua torre.


Ó meu cachimbo! Amo-te imenso!
Tu, meu turíbulo sagrado!
Com que, bom Abade, incenso
A Abadia do meu passado.

……

Por alta noite, às horas mortas,
Quando não se ouve pio, ou voz,
Fecho os meus livros, fecho as portas
Para falar contigo a sós.


E a noite perde-se em cavaco,
Na Torre de Anto, aonde eu moro!
Ali, metido no buraco,
Fumo e, a fumar, às vezes… choro.

PEREGRINAÇÕES (continuação)

Apesar da simpatia com que fomos recebidos pelo casal zelador da casa, impressionou-nos o despojamento da mesma e a singeleza documental da biblioteca. Na casa de Ossela, o visitante vê a cama onde nasceu o grande escritor, os sapatos e a mala que usou na sua célebre volta ao mundo, e pouco mais. Na exposição da biblioteca encontramos exemplares dos títulos publicados e das respectivas traduções, como, por exemplo, os fascículos da primeira experiência romanesca de Ferreira de Castro, aos dezasseis anos de idade. Na fachada de um desses fascículos podemos ler:

J.M. Ferreira de Castro

CRIMINOSO
POR
AMBIÇÃO

Sensacional romance
(expurgado de phantasia)

Fascículo III

Empreza Editora

BRAZIL-1916


Surpreendeu-nos descobrir um romance “expurgado de fantasia”, como se a fantasia não fosse a essência da matéria romanesca. Do que eram capazes aqueles editores brasileiros de princípio de século para venderem os seus livros!

quarta-feira, agosto 05, 2009

PEREGRINAÇÕES (continuação)

Camilo nunca foi feliz na casa de S. Miguel de Ceide. Herdada do marido de Ana Plácido, por lá viveu durante vinte e sete anos de intensa criação literária. Recebia Castilho e os seus discípulos, que vinham de Lisboa para o visitar, como atesta o tosco monumento de pedra erguido à entrada da propriedade. Deu um tiro na cabeça, sentado numa cadeira de baloiço que ainda lá está como testemunha muda do drama de um desistente. Foi em 1890, um ano depois do suicídio de Soares dos Reis, um ano antes do de Antero de Quental.

terça-feira, agosto 04, 2009

PEREGRINAÇÕES


A casa de José Régio. Aliás são duas casas: a dos pais, ao centro, e a da madrinha Libânia, com o seu jardim e mirante, à direita. A esta se recolheu o Poeta no final da sua vida, nela morrendo em 22 de Dezembro de 1969 em consequência de um enfarte de miocárdio que não quis tratar no único local onde o poderia fazer com alguma probabilidade de êxito: o hospital.Em Vila do Conde há ainda a casa onde, entre 1881 e 1891, viveu Antero de Quental. E muito próximo desta, praticamente na mesma rua, uma que foi habitada por Camilo Castelo Branco.

domingo, agosto 02, 2009

SOBRE AS VIAGENS







O Régio era uma pessoa muito modesta. Esteve a explicar-me que não precisava de sair do País porque aqui encontrava tudo. Contou-me de um sapateiro de Portalegre que tinha sodomizado a filha. Portanto, dizia ele, todo o universo estava em Portalegre. Fiquei horrorizado com esta ideia. O universo todo não está em Portalegre. (…) Tive a percepção imediata de que aquilo era uma redução absurda. O que não é de espantar no Portugal de Salazar. Era a isso que o Salazar nos queria reduzir. (…) Todos aqueles homens da geração da Presença, como depois os neo-realistas, foram vítimas. Não perceberam que havia mais mundos no mundo. Não os deixaram.

Vasco Pulido Valente em entrevista à revista Ler (Julho de 2009)

Neste meu estado, falam-me em viagens! Digo, eu próprio, que tenciono ir à Itália no próximo ano; – e o mais curioso é que efectivamente alimento esse vago plano: ir lá com os Mirandas. Na verdade, porém, que me interessam as viagens? Que me interessam pessoal e profundamente? Que poderão ensinar-me que eu não saiba, dar-me que eu não tenha? (…) É aos extrovertidos que as viagens interessam: aos cujo relativo vazio de vida interior se tapa com uma aparência de enriquecimento. Eu sei que é em mim que tenho o mundo – o mundo que me é possível apreender.

José Régio em Páginas do Diário Íntimo

Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está para mim em parte alguma. (…) Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra. Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram, absolutos, sob os meus olhos contemplativos. Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar.

Fernando Pessoa / Bernardo Soares em O Livro do Desassossego



Não há nada como dar a palavra aos próprios!

sábado, junho 20, 2009

MINISTRO DEBALDE

O ministro Augusto Santos Silva respondeu à intervenção dum deputado do Partido Ecologista “Os Verdes” que levou um balde para o Parlamento. Um balde furado, pretendendo mostrar com tal auxiliar retórico a ineficiência da política energética do governo.
Falando do verbo baldear, derivado de balde - segundo referiu, muito usado na marinha mercante -, disse o aguerrido ministro que os ecologistas deviam “varrer com baldes de água os (seus) convés” , repetindo imperativamente: “baldeiem dos vossos convés os preconceitos.”
Só que o plural de convés é conveses, de acordo com o que se pode ler, por exemplo, em Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, nas regras relativas à formação dos plurais dos nomes.
Um pequeno engano, tão pequeno que nem tira votos, nem prejudica a carreira política do ministro. Isso é, afinal, o que mais interessa, e que se "balde" a língua.

quarta-feira, junho 10, 2009

LUÍS DE CAMÕES ( I )

Camões e as Tágides, Columbano, Museu de Grão Vasco
Há vários meses que, por razões que não são para aqui chamadas, ando acompanhado de Camões. Para ser mais preciso, do Camões épico, o d´Os Lusíadas, o tal poema que serviu em tempos para os estudantes dos liceus se treinarem na divisão de orações. Assim, a epopeia camoniana era apresentada aos liceais não como um corpo vivo, apetecível, mas como um cadáver pronto a ser dissecado sobre uma mesa de anatomia.
Falar d’ Os Lusíadas é tema vasto. Há que ir por partes. Hoje, 10 de Junho, falo do parecer do censor do Santo Ofício, Frei Bartolomeu Ferreira, que analisou a edição de 1572. Diz o dominicano:

Vi por mandado da santa & geral inquisição estes dez Cantos dos Lusíadas de Luís de Camões, dos valerosos feitos em armas que os Portugueses fizerão em Ásia & Europa, e não achey nelles cousa algua escandalosa nem contrária â fe & bõs custumes, somente me pareceo que era necessário advertir os Lectores que o Autor pera encarecer a difficuldade de navegação & entrada dos Portugueses na India, usa de hua fição dos Deoses dos Gentios. (…) Toda via como isto he Poesia & fingimento, & o Autor como poeta, não pretende mais que ornar o estilo Poético não tivemos por incoveniente yr esta fabula dos Deoses na obra, conhecendoa por tal, & ficando sempre salva a verdade da nossa sancta fe , que todos os Deoses dos Gentios sam Demónios.

Ora aí está: Baco, inimigo dos Portugueses, e Vénus, a doce deusa que por mais de uma vez , ao longo da viagem para a Índia, protegeu a armada do Gama, além de todos os outros deuses apresentados por Camões, são demónios, e, ao mesmo tempo, ficções. O bom inquisidor arrumava assim a questão, sem ver nada de escandaloso no poema: nem Vénus a seduzir Júpiter no Canto Segundo, nem os amadores das ninfas no Canto Nono.
Convinha muito à Ordem de S. Domingos aquilo que Camões diz no poema contra os Jesuítas, émulos dos Dominicanos no árduo trabalho de conquistar o Reino dos Céus. Só por tal rivalidade permitiram os homens da Inquisição (Dominicanos) que a epopeia fosse publicada sem nódoas expurgatórias. Ainda bem.

domingo, junho 07, 2009

PLATÃO EM DIA DE ELEIÇÕES

Jean Delville, L´École de Platon, 1898, Musée d´Orsay, Paris
O partido que escolhi nestas eleições está à beira de ganhar. Uma vitória esmagadora, por maioria absoluta, embora, em verdade, não seja bem um partido – talvez uma espécie de frente popular, heteróclita, com distintos níveis de motivação e consciência. Assim, não foi por acaso que me encontrei a ler, neste fim-de-semana, vastos passos do diálogo Górgias de Platão. A retórica e a política sem princípios, a criação pela persuasão de um estado de crença sem ciência – foi tudo isso que o Mestre da Academia denunciou que a mim me afastou das urnas. O Cavaco que vote, mais o Dias Loureiro. Se calhar, apesar da reclusão indigna, até o Oliveira e Costa não deixará de exercer o sacrossanto dever. Têm boas razões para isso. Prova-se, afinal, que não são ingratos para com o sistema que os criou.

sexta-feira, maio 29, 2009

PANFLETO


EM 7 DE JUNHO NÃO IREI VOTAR. Não o faço por comodismo, para aproveitar os feriados e partir de férias. Estarei por cá, e nem sequer penso aproveitar os dias de praia, se é que vai dar em termos meteorológicos para tais recreios. Faço-o por imperativo de consciência! A política nacional afunda-se num pântano (reconheço agora a pertinência da expressão usada por aquele chefe de Governo que, perante o cenário de sombras, optou corajosamente pela desistência). Um pântano bem ilustrado pelo impasse indigno a que se chegou no processo de eleição do Provedor de Justiça. O nosso sistema partidário está caduco, prisioneiro de interesses e de glórias vãs, pedindo votos quando nada faz pelo povo, pelas massas trabalhadoras, pelos reformados pobres e pelos indigentes. O sistema partidário não pensa nos outros, só pensa em si. Sobram-nos os casos tristes dos bairros problemáticos, explorados com avidez pelos canais de televisão; os escândalos financeiros que envolvem membros dos partidos e do Conselho de Estado; o circo parlamentar onde a bancada do Governo e as da Oposição rudemente se confrontam em vez de procurarem soluções para a superação da crise. É o momento de lhes fazer sentir que não é esse o caminho, que a liberdade exige respeito por quem trabalha, por quem não está comodamente sentado à mesa do orçamento: trabalhadores (nacionais e imigrantes), empresários, estudantes, professores, investigadores. NÃO VOTAR EM 7 DE JUNHO É UM AVISO AOS SENHORES DO PODER, UM IMPERATIVO PATRIÓTICO!

segunda-feira, maio 25, 2009

SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA

Catarina Wallenstein no papel de Luísa Vilaça
Adaptação ao cinema, por Manoel de Oliveira, de um conto de Eça de Queirós, escrito em Cuba em 1873, quando o autor ali desempenhava funções diplomáticas. Um Macário e uma Luísa Vilaça do século XXI. Um belo filme sobre o texto famoso do grande Eça.

domingo, maio 24, 2009

A IMPERTINÊNCIA DE SENTIR ( XVI )

Depois de A Cidadela Branca, leio Istambul de Orhan Pamuk. Pergunto-me se o hüzün istambulense (uma forma de melancolia típica dos habitantes da cidade) não terá algo a ver com a saudade portuguesa, esse sentimento de privação e incompletude em que Teixeira de Pascoaes viu a essência do génio português, aquilo a que chamou a única síntese perfeita entre o sangue ariano e o sangue semita. Pamuk dá-nos sobejos exemplos dessa melancolia de Istambul, um nevoeiro que vem do fundo dos tempos, sitiando as almas dos homens e os seus sentimentos.
Talvez a única ligação entre o hüzün da grande metrópole turca e a saudade portuguesa seja esse comum sentimento de decadência, de perdidos fulgores civilizacionais. Também eles, os turcos otomanos, tiveram as suas Índias. Submeteram vastas regiões do Médio Oriente, do leste da Europa e da África mediterrânica, tendo chegado às portas de Viena e instalado o pânico entre a Cristandade dos séculos XV e XVI.
Mas tiveram Lepanto, como nós tivemos Alcácer Quibir, e tudo se desfez. Chega sempre um momento em que a História se ri da soberba dos povos.

sábado, abril 25, 2009

25 DE ABRIL

“Acham que aquilo é um telejornal?” – A interrogação retórica do homem do leme indignou o Georg von Trapp da TVI (pelo menos de tal se mascarou numa das últimas galas da estação!), como se os telejornais de que é director não fossem, desde sempre, o exemplo acabado da desinformação, do oportunismo, visando claramente as audiências e os benefícios comerciais que as mesmas proporcionam. A pose institucional com que veio a terreiro, qual falsa dama ferida na sua honra, ficou ao nível da grotesca fealdade da apresentadora e da decrepitude física do comentador. Escusava era de ter falado do 25 de Abril. Não é certamente pelos ideais democráticos do movimento que anda metido no mundo da televisão.

domingo, abril 19, 2009

PEREGRINAÇÕES

Numa passagem d´A Cidade e as Serras, Zé Fernandes sobe com Jacinto aos altos de Montmartre, onde então se construía a Basílica do Sacré-Coeur, e olhando Paris põe-se a filosofar sobre os malefícios da cidade e a vil exploração das plebes pela burguesia triunfante. O discurso inflamado do companheiro de Jacinto, atormentado com a perversidade urbana e a barbárie capitalista, só se acalma à hora do jantar, num luxuoso restaurante do Bois de Boulogne, perante um vinho gelado com que põe termo às securas da garganta e às suas filosofias de ocasião. Este trecho do romance queirosiano é a melhor recordação que guardo do Sacré-Coeur, lugar muito frequentado por turistas nestas tardes mornas de Primavera.
Porém, há sempre motivos interessantes a descobrir. Num pequeno jardim sobranceiro à Rue Chappe, praticamente no espaço sagrado da Basílica, há uma estátua de bronze em cujo pedestal podemos ler:


AU
CHEVALIER
DE LA BARRE
SUPPLICIÉ À L’ ÂGE DE 19 ANS
LE 1er JUILLET 1766
POUR N´AVOIR PAS SALUÉ
UNE
PROCESSION


Este é o caso do Chevalier de La Barre que indignou Voltaire. Não deixa de ser tocante que ali à beira do templo, perante o espírito do lugar, se preste homenagem tão expressiva a uma vítima da intelorância religiosa.

segunda-feira, abril 06, 2009

"UMA NOITE COM O FOGO"


O romance Uma Noite com o Fogo, de António Manuel Venda, foi apresentado no dia 1 de Abril na loja Bertrand da Avenida de Roma.
Trata-se do relato de uma experiência vivida, ideia sustentada pela epígrafe de Mário Quintana:

“O autor nada mais fez do que vestir a verdade…”.

Porém, a experiência vivida não é descrita como numa simples crónica. A verdade dramática vestida pelo autor não prescinde da ficção, esse canto de sereia em que acreditamos como se fosse a realidade pura.
É essa mistura de referencialidade e imaginação que nos leva a classificar o texto de António Manuel Venda como uma autoficção, designação de género definida basicamente como um relato de conteúdo simultaneamente autobiográfico e romanesco em que se regista identificação nominal entre autor, narrador e protagonista.
Apesar de em Uma Noite com o Fogo essa identificação não ser explícita, a sobreposição daquelas três instâncias não deixa de estar presente ao longo de todo o texto. Percebe-se bem de onde e para onde viaja o protagonista naquela noite em que o fogo andou à solta. Percebe-se bem onde ficam aqueles montes de sobreiros e medronheiros assolados pela fúria das chamas. Na personagem que se defronta com o fogo não conseguimos ver outra figura que não seja a do próprio autor, lá na serra algarvia onde nasceu e onde viveu os tempos da infância e da juventude, a tal floresta do sul que deu nome ao seu blogue – uma floresta destroçada pela incúria de todos, não só dos que se sentam nas cadeiras do poder.
O tempo da história resume-se a uma única noite, o suficiente para emocionar o leitor, tanto pelo combate desproporcionado contra a calamidade natural (?), como pela intervenção frequente da memória autoral numa espécie de “recherche du temps perdu” – um mergulho no mundo da infância e da inocência perdida.
Um livro muito interessante de António Manuel Venda, dentro do género a que nos habituou, tão raro, por enquanto, nas nossas letras.

terça-feira, março 10, 2009

CRISTINA BRANCO canta JOSÉ AFONSO



Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa

terça-feira, fevereiro 24, 2009

A IMPERTINÊNCIA DE SENTIR ( XV )

Jesuina (assim mesmo, sem diacrítico no i), protagonista de As Bicicletas em Setembro, talvez não fosse viúva no sentido usual do termo. Há muitas formas de viuvez: a mais dolorosa será, provavelmente, viuvar de alguém que se encontra vivo.
Diz-se na contracapa do livro que todos nós já perdemos alguma coisa. Todos nós já perdemos alguém, embora o mais importante nem seja a perda originada pela morte ou aquela que a separação tantas vezes impõe aos que se amam. A perda mais difícil de aceitar é a das pessoas que saíram da nossa vida pelos seus próprios pés, ou, em outra variante, a das pessoas que nunca nela chegaram a entrar.
Jesuina vivia nas margens do tempo e do espaço, reclusa na sua própria casa, cercada de jornais velhos e de crianças de quem tomava conta, lendo o Amor de Perdição, inventando cores para as palavras como Rimbaud inventara para as vogais.
Tudo isto num bairro cinzento, pesado como o odor da salsugem que sobe do rio no período da vazante – ali à beira do Largo da Paz, dos quartéis da Calçada da Ajuda, do Jardim Botânico, da casa de Alexandre Herculano, da Torre do Galo, do Salão Portugal e das Terras do Desembargador.
Jesuina não é só do bairro da Ajuda, é de todos os bairros com as suas ruas de solidão.

(Baptista-Bastos, As Bicicletas em Setembro, Porto, ASA Editores, 2007.)

domingo, fevereiro 08, 2009

O PROBLEMA DO DESEMPREGO

Atravessou como se seguisse num carreiro de formigas a estreita passagem entre a cancela e o posto do pessoal da segurança. Tinha acabado de chegar no autocarro fretado pela empresa, uma lenta viagem diária por lugarejos e ermos, recolhendo as operárias em diversos pontos do percurso. Continuou pelo espaço alcatroado do parque de estacionamento até se meter por uma porta lateral do edifício em cuja platibanda se podia ler:

FÁBRICA DE COMPONENTES DE ELECTRÓNICA

Tinha quinze minutos para despir a gabardina e o casaco, deixar a roupa e a mala no cacifo, vestir a bata, tomar um café tirado na máquina de bebidas do refeitório, encaminhar-se para o posto de trabalho, aguardar o som da campainha que às oito e meia em ponto dava o sinal para o começo da laboração. Antes, à entrada da área fabril, ainda passaria pelo chefe de turno, sempre com a folha de produção nas mãos e um olhar de cobiça comendo-lhe as formas do corpo. Teria ainda cinco minutos para, já sentada no seu lugar, pensar em algumas coisas da vida.
Às sete horas deixara a criança na ama. Passara pela padaria, voltara a casa para tomar o pequeno-almoço, à pressa, antes de se dirigir ao ponto de paragem do autocarro. Levantara-se atordoada, custando-lhe enfrentar a luz, após uma noite de sexo e pouco sono. Tinha pouco mais de trinta anos, o marido à procura de emprego, um filho pequeno. Trabalhava na fábrica desde os vinte e dois anos de idade.
Passara algum tempo na Suíça, chamada por familiares da diáspora com próspero negócio de restaurante e casa de hóspedes. Fazia camas e limpava quartos, chambres, rooms, zimmers – era como quisessem chamar-lhes, que todos aqueles nomes estavam inscritos no reclamo luminoso virado para a estrada que marginava o espelho escuro do lago. Todos menos o nome português, pois não contava para tal efeito a língua nacional, apenas o dialecto em que se dizia e escrevia o árduo trabalho de todos os dias.
Não chegara a concluir o nono ano. O pai era picheleiro, a mãe fazia serviços de limpeza e amanhava o quintal onde floria uma nespereira sobre canteiros de ervilhas e ervas de cheiro. Nunca dispôs de ambiente familiar estimulador dos estudos. Depois das aulas ajudava na cozinha dum restaurante, tomava conta de dois irmãos, e namorava. Fazia-se uma mulher de mão-cheia, bonita e apetecível como um fruto fresco. Os clientes do estabelecimento, jogadores de cartas e amigos dos copos, decrépitos como os velhos canecos que vinham à mesa, sibilavam epigramas obscenos quando a viam passar, e arriscavam sorrisos de dentes foscos, a saliva cobrindo-lhes os cantos da boca, aguados de lascívia e míngua.
Foi numa noite de S. João. Um odor álacre a sardinha assada, o desvario do baile, uma neblina que subia do rio e fazia brilhar o chão das ruas, violando o ciclo natural das estações. Foi por amor ou desejo. Passou a andar de mão dada, às claras, sem medo de ninguém, como se a noite fria de Junho lhe tivesse outorgado um novo estatuto, uma nova força para enfrentar a vida. O pai não tolerava as intimidades de que ia tomando conhecimento, enquanto a mãe contemporizava, fazia que não via nem ouvia. Uns meses depois, subia a um terceiro andar dum prédio antigo de onde se divisava um grande monte, escuro como uma fortaleza, na margem esquerda do rio. Saiu de lá dilacerada e fria, de barriga dormente e pernas frouxas, com uma caixa de comprimidos de sulfamidas na mão.
Do fundo do tempo vieram os cadernos da infância: redacções sobre o Natal e o Dia do Pai, desenhos de girassóis coloridos e casas com duas janelas e uma porta, semelhantes a caras espantadas, de olhos e boca bem abertos perante o inverosímil da paisagem. Num nos cadernos, escreveu:

Quando for grande quero ser enfermeira para tratar as pessoas doentes, os velhinhos e os desempregados sem dinheiro.

Não se lembrou de mais nada para lá daquele ponto. Voltara de novo ao equador da vida. Tinha pouco mais de trinta anos, o marido à procura de emprego, um filho pequeno que deixara na ama às sete horas da manhã.
Não deu conta de que há muito havia tocado a campainha para o arranque do trabalho. Ela disse depois que não ouvira, que se deixara escorregar no plano inclinado duma estranha viagem até ao ponto mais distante e próximo de si, e que tal incidente até deveria ser avaliado pela medicina do trabalho, pois talvez fosse o resultado da tensão quotidiana vivida na fábrica, o medo constante de não atingir os objectivos exigidos pela empresa. Desculpas que não mereceram acolhimento, pois a folha de produção do chefe de turno, apensa ao processo disciplinar, não deixava dúvidas: mais de cem unidades por produzir, o efeito multiplicador induzido sobre os postos de trabalho a jusante, um prejuízo de grossas proporções, algo nunca visto numa empresa com tão eficiente organização fabril. E depois ainda se admiram, referia o despacho da sanção disciplinar, se a fábrica for deslocada para os países do Leste ou para a Ásia.
Chegou a casa, já tarde, com uma folha carimbada para apresentar no centro de emprego da sua área de residência. Encostou a cabeça ao espaldar alto duma velha cadeira e nem por um momento pensou na vida passada. Agora só lhe interessava o que viria a seguir: tinha pouco mais de trinta anos, o marido à procura de emprego, um filho pequeno que deixara na ama às sete horas da manhã, e que, dava-se conta naquele momento, ainda lá estava, esquecido pelos progenitores, aturdidos, a braços com o problema do desemprego.

domingo, dezembro 28, 2008

A IMPERTINÊNCIA DE SENTIR ( XIV)

E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria , ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignomínia crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico. – Isto é dito por Almeida Garrett nas Viagens, cuja história decorre em Julho de 1843, em pleno período da ditadura de Cabral. Dito por Garrett e não por um seu narrador, pois há suficientes provas, ao longo de toda a narrativa, da identificação do autor com o narrador e protagonista. A crítica costuma enfatizar a complexidade da obra, os seus diferentes níveis (narrativa de viagem, novela, carta) e o hibridismo formal típico do Romantismo, mas raramente se detém nas suas marcas autobiográficas. Uma verdadeira autoficção, dizemos nós, muito antes de o termo ter sido inventado, em 1977, por Serge Doubrovsky.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

A IMPERTINÊNCIA DE SENTIR ( XIII )

Em certa altura, no silêncio da casa, a minha mãe dizia como se se tratasse da coisa mais natural do mundo: “Lá está a costureira.” Eu aproximava o ouvido do sítio da parede que ela tinha apontado, e aí ouvia, juro que ouvia, o ruído inconfundível de uma máquina de costura, das de pedal (não existiam outras), e também, de vez em quando, um outro som característico, arrastado, o da travagem, quando a costureira leva a mão direita à roda para deter o movimento da agulha.

(JOSÉ SARAMAGO, As Pequenas Memórias, Lisboa, Editorial Caminho, 2006, p. 89.)


Ouvi-a algumas vezes na casa da minha avó, em Tomar, nas horas lentas dos serões, e também em Lisboa, num terceiro ou quarto andar da Travessa Nova de Santos, onde morei com a família até aos seis anos de idade. Chamavam-lhe a costureira, ou a costureirinha. O som vinha do interior das paredes, de detrás dos móveis ou até dos interstícios do soalho, reproduzindo na perfeição o ruído de uma máquina de costura em pleno funcionamento. O meu pai, de quem herdei, entre outras coisas, um certo pendor para a incredulidade, dizia tratar-se de um insecto que roendo o seu sustento ou vibrando as asas produziria aquele rumor semelhante ao de uma máquina de costurar. Que insecto seria, não sabia dizer, mas recusava as explicações destituídas de racionalidade.
Li hoje n´As Pequenas Memórias de José Saramago o relato de igual experiência vivida pelo escritor nos seus tempos de criança. A explicação que lhe era dada pelos adultos referia uma costureira que por não respeitar os domingos, trabalhando afincadamente nesses dias em vez de os dedicar ao culto de Deus, havia sido condenada a costurar eternamente, eternamente metida dentro das paredes das casas. Já não me lembro que justificação fabulosa me apresentavam para tão intrigante mistério, mas estou em crer não ser muito diferente da que era prescrita ao pequeno José pelos seus familiares.
Tal como Saramago, também eu não voltei a ouvir a costureirinha. Talvez o juiz condenador tenha decidido comutar-lhe a pena, libertando a triste de tão penoso fadário. Ou talvez tenhamos deixado de a ouvir apenas por causa do barulho dos aparelhos de televisão e das potentes aparelhagens de som que passaram a marcar lugar nos nossos espaços domésticos, abafando com os seus decibéis o brando murmúrio da respiração das casas. Tudo é possível.
Não me atrevo a jurar, como o nosso Nobel, mas lá que a ouvi, ouvi, a pobre costureirinha, condenada por um juiz cruel a vaguear de casa em casa, por dentro das paredes, sempre a dar ao pedal da sua máquina de costura. Pequenas memórias? Não me parece.