Parece o descanso da guerreira, mas não é. Neste fim-de-semana, em Reims, Ségolène Royal está na luta pela liderança do Partido.Voto nela!
Quando se pagavam os versos a peso de ouro por Augusto César, que sabe Deus se seria, ou não seria, era porque era um só Virgílio o que poetizava; mas hoje que se comutaram a poetas todas as sete pragas do Egipto, quem quereis vós que os farte, quanto mais que os enriqueça? --- D. Francisco Manuel de Melo, "Hospital das Letras".
Compreende-se bem por que razão o romance Jogo da Cabra Cega, publicado em 1934, foi retirado do mercado e proibido pela censura salazarista durante cerca de trinta anos. Romance modernista, não compatível com a moral vigente e a ordem social e política estabelecida pelo ideal do corporativismo, só lhe foi autorizada uma 2ª edição no ano de 1963, quando o seu autor já se tornara uma figura proeminente da nossa vida literária.
No desfecho dum romantismo brasileiro povoado de índios e cânticos nacionalistas, Castro Alves foi o poeta dos escravos, da vergonha brasileira e da consciência abolicionista. Chamaram-lhe condoreiro, de condor, ave soberba que sobreleva no seu voo os altos píncaros dos Andes.
Ignorante da vida e quase ignorante das letras, quase sem convívio nem cultura – assim dispunha Ricardo Reis sobre o autor no prefácio aos poemas de Alberto Caeiro, poeta das sensações que teria repugnado a religião e a metafísica, descobrindo o mundo sem precisar de pensar nele.
Marguerite Yourcenar confessa ter saboreado em Anna, Soror… , pela primeira vez, o supremo privilégio do romancista, o de se perder inteiramente nas suas personagens, ou de se deixar possuir por elas.
Há quem não lhe aprecie o estilo, os temas, a atitude de polemista que não fugia à luta e nunca ia por onde o mandavam ir. Amado por uns, detestado por outros, foi professor durante uma vida numa remota cidade do Alto Alentejo. Dramaturgo, poeta, ensaísta e principal animador da histórica revista “presença”, é talvez como romancista que menos é conhecido.
Encontramos em Madame Bovary um episódio impressionante, de uma obscenidade excessiva, que atira o adultério de Emma e a perfídia dos seus amantes para o plano singelo das coisas comuns. Trata-se da operação ao pé boto do infeliz Hippolyte, um “acto médico” de Charles Bovary que acarretou ao paciente a consequência natural de uma gangrena: a amputação da perna.
Bela tarde de sábado passada com o Fervor de Buenos Aires de braço dado com o grande poeta argentino. Deu para lembrar Bernardo Soares e as suas viagens "com a alma" (por oposição a viajar "com o corpo"): Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente de quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma.
Afinal, por aquilo que tenho ouvido, O Crime do Padre Amaro é, muito mais que o romance realista de um padre sedutor e de uma infeliz donzela seduzida, uma prodigiosa história de amor a lo divino, parente afastado, digo eu, da poesia místico-erótica de San Juan de la Cruz e de algumas novelas religiosas de Sóror Violante do Céu e de Leonarda Gil da Gama.
António Malhadinhas, protagonista pícaro da conhecida novela de Aquilino Ribeiro, raptou a prima Brízida para que não a tomassem os fidalgotes que lhe andavam a namorar as carnes: o Tenente da Cruz e o abade de Britiande.
Quando Ruben A. escreveu “ A Torre da Barbela”, o cavaleiro virgem de Santa Comba ainda não frequentava o convívio crepuscular dos primos no Jardim dos Buxos da mansão senhorial. A Torre, como se sabe, estava acima das categorias de tempo e espaço, um não-lugar que era todos os lugares ao mesmo tempo, um vórtice de séculos onde os mortos estavam vivos e os vivos estavam mortos.
“Clepsidra” de Camilo Pessanha – parece que o título foi inspiração de um verso do poema “L´Horloge” de Charles Baudelaire: