sexta-feira, novembro 01, 2013

CIÚMES*

Imagem de Santo Expedito numa igreja de Bordéus. Fotografia de Agosto de 2013.
 
– Poço de mentiras, traiçoeiro, falso como Judas, gordo sem vergonha, homem feio, infiel, cão que não conhece o dono, desgraçado, doença ruim, desassossego meu…
O manancial de epítetos e invectivas jorrava da boca de D. Joanina sobre a pessoa do seu até aí amado esposo João Baltasar Amador, técnico oficial de contas, homem um bocado obeso, com o ácido úrico a vogar em maré alta, pedras nos rins, e, por isso, já com um episódio de cólica renal com direito a urgência hospitalar. Cavalheiro à beira dos sessenta, parecia não quebrar um prato, mas a fazer fé na informante, D. Capitolina da Conceição, senhora muito dedicada às obras de caridade do centro paroquial, andava a partir a loiça toda com uma tal Sofia dos Prazeres, empregada do seu escritório de contabilidade e assessoria fiscal, mulher de boas carnes e olhos vivos, quarenta e cinco anos de idade, e, julga-se, muito carente de homem e de todos os deleites que a espécie costuma proporcionar. Por isso D. Joanina vituperava:
– Poço de mentiras, traiçoeiro, falso como Judas, gordo sem vergonha, homem feio, infiel, cão que não conhece o dono, desgraçado, doença ruim, desassossego meu…
E alternava as expressões insultuosas com ameaças duras, impróprias de quem vive os mistérios da fé e marca presença em todos os retiros de formação cristã:
 – Faço-lhe um feitiço, ponho-lhe os cornos, lixo-lhe a vida…
Enfim, coisas que se dizem. Não acreditemos na sinceridade de tudo o que ouvimos, palavras debitadas pela cólera, humores atrabiliários a que é preciso dar o devido desconto. Será?
Temos então D. Capitolina da Conceição, senhora mais séria não pode haver, a língua a verter o veneno no ouvido de D. Joanina. Soubera do caso por uma prima que trabalha no dito escritório, mulher honestíssima, incapaz de uma falsidade, e  a esta lhe dissera a empregada da limpeza, que exerce o seu mester a horas em que o pessoal do escritório já saiu, ou ainda não entrou, coisa perfeitamente natural, imagine-se como seria problemático limpar o pó dos computadores em pleno tráfego de dados, com os programas abertos e em laboração: “Dê-me licença por favor, minimize aí esse programa, fique um bocadinho à espera que tenho de passar o pano no teclado.” Enquanto limpa e não limpa, podia desarranjar-se o trabalho informático: um inadvertido delete, um indesejado enter, e seria preciso começar tudo de novo, voltar ao menu do programa, seleccionar a opção, introduzir os dados, gravá-los, premir teclas e afagar o rato, sabe-se lá os custos de tais complicações, o tempo que se perderia para as superar.
Pois parece que naquele fim de dia nem todo o pessoal tinha saído. O Amador mais a Prazeres estavam enrolados no gabinete da gerência às beijocas e aos apalpanços, maneira de falar da citada empregada de limpeza, desculpemos-lhe a linguagem bárbara pois ninguém lhe paga para falar bem, apenas para limpar o pó e passar o chão a pano.
D. Joanina pensou deixar o marido. Contudo, uma decisão tão drástica não seria tomada sem antes se aconselhar com o senhor prior, com o sacristão, com uma ou outra senhora das obras de caridade. Provavelmente iria para casa da irmã, mulher que nunca casara e agora, com a idade, estava a necessitar de uma companhia. Havia de se governar, não podia era viver com a infâmia, ela que o trazia num brinquinho, as camisas de vasto pano sempre engomadas, impecavelmente brancas, até parecia milagre daqueles detergentes da televisão, as calças limpas e vincadas, os casacos, as gravatas, os sapatos, tudo numa beleza. E os mimos ao jantar?,  pescada de maionese, bifes com molho de natas, sobremesas de chocolate. Na cama é que era o diabo: não a puxava o desejo para as delícias da carne , devia ser da menopausa e dos afrontamentos, e o homem ainda por cima estava cada vez mais gordo, aquilo não dava jeito nenhum.
D. Joanina foi falar com o senhor prior.
–Minha filha, obedece ao teu marido e não contribuas para o desmoronamento do santo matrimónio. Se ele te despreza ama-o ainda mais, a ovelha tresmalhada voltará ao redil, infinita é a bondade do Senhor, insondáveis são os seus desígnios, grandes são os pecados dos homens, maior o perdão de Deus, amém.
D. Joanina foi falar com uma senhora das obras de caridade do centro paroquial.
– Do que ele precisa sei eu, é que lhe calce uns patins o mais depressa possível, homens não faltam, velhos e mal-agradecidos, não são nada sem nós. Se o meu me fizesse uma coisa dessas ia logo a andar. Mas também não sei quem é que queria pegar naquilo, só se fosse pelo dinheiro, já não dá uma para a caixa.
D. Joanina foi ainda falar com outra senhora.
– Um marido faz muita falta, minha querida. Depois de um pode vir outro pior. Já não estamos em idade de andar a mudar. Vai ver que aquilo passa. Continue a tratá-lo com afecto, tudo se irá compor. Faça umas orações a Santa Teresinha, a Nossa Senhora, ou, melhor ainda, a Santo Expedito das causas justas e urgentes, e não se meta em bruxarias, não, não fale com o sacristão, é um atrevido sem vergonha, se soubesse o que ele já tentou comigo… Só que não conseguiu nada, sou uma mulher séria, de um só homem, a mim não me toca nem num cabelo. Estar de bem com o Senhor é uma coisinha muito boa, Deus nos livre do pecado.
Ficou confusa com as palavras dos conselheiros. E se não fosse verdade?, se tudo não passasse de um engano e nada de ofensivo tivesse sido feito pelo esposo? Nunca se queixara dele, sempre parecera pessoa de uma só cara, mas a realidade é que não a procurava há muito tempo, adormeciam de costas voltadas, estava completamente desinteressado. Mesmo um homem na mudança da idade havia de dar algum sinal de si. Só que não dava, andava a governar-se por outro lado, isso é que era. Ultimamente era muito exigente com a roupa interior, tinha mandado comprar cuecas novas, de linha moderna, artigo de primeira qualidade, bem difícil de encontrar em medida tão avantajada como a sua. E enquanto se alongava nestas conjecturas, o ciúme mordia-lhe o estômago como uma úlcera brava. A pouco e pouco dissipavam-se as dúvidas, apagavam-se os ses e os mas. Não há fumo sem fogo. E repetia para si:
– Poço de mentiras, traiçoeiro, falso como Judas, gordo sem vergonha, homem feio, infiel, cão que não conhece o dono, desgraçado, doença ruim, desassossego meu…
E foi aconselhar-se com o sacristão, homem seco de carnes, cinquenta anos, ainda vigoroso, um sorriso insinuante. Palavra atrás de palavra, a conversa a descair para a desgraça, trocam-se as voltas ao tema.                                            
Foi na sacristia, encostada ao arcaz, sob a imagem de Santo Expedito, taumaturgo das causas justas e urgentes, imagem trazida de França por uns peregrinos de Lurdes, ali deixada por não haver nicho vacante na nave da igreja. Era à hora em que devia estar na cozinha a preparar o jantar do marido, que logo chegaria a casa com a fome do costume, cansado do dia de trabalho no escritório de contabilidade e assessoria fiscal, regurgitando débitos e créditos, retenções na fonte,  demonstrações de resultados, descontos de letras, receitas financeiras correntes, estornos, acréscimos e diferimentos, extractos bancários, juros acumulados, amortizações e reintegrações. Mas hoje teria de esperar, paciência, já estavam fechadas as portas da igreja, não passaria daquele dia, causa justa e urgente, ali encostada ao arcaz da sacristia, sob o olhar esbugalhado do santo empunhando a cruz milagreira com a palavra latina hodie, que quer dizer hoje e não amanhã, incrédulo e infinitamente pesaroso com o que os seus olhos viam, o distúrbio da alma e a fraqueza da carne, o engano, a traição, tão atormentado como no dia em que se deparou com o corvo maligno a tentar desviá-lo dos caminhos de Deus. E, sacrilégio supremo, o sacristão paramentado como se fosse ajudar à missa, e a pecadora repetindo incessantemente numa litania ímpia aquele cúmulo de palavras contra o legítimo esposo:
– Poço de mentiras, traiçoeiro, falso como Judas, gordo sem vergonha, homem feio, infiel, cão que não conhece o dono, desgraçado, doença ruim, desassossego meu….
 
* Publicado neste blogue em 2006. 2ª edição.
 


terça-feira, outubro 29, 2013

O PLUMITIVO E A SUA FAINA


“Ocorre-me”, replicou Watson, “o risco que corriam os amantes de outros tempos quando trocavam cartas entre si. Veja-se a Luiza de O Primo Bazilio ou o episódio da carta perdida em A Princesa de Clèves. Mas hoje, os riscos são maiores. A agilidade e rapidez da comunicação favorecem a descoberta do segredo.”
            Depois de assim ter falado, não sem alguma estupefacção de Silvério Hermes pelas referências literárias introduzidas no discurso, a figura de Watson desapareceu por uns instantes atrás da nuvem de fumo do seu cachimbo.
 

segunda-feira, outubro 28, 2013


RESULTADO DE UM DOMINGO MAIS VIVIDO QUE CONVIVIDO, estas fotografias ilustram uma atracção pelos comboios e as estações ferroviárias, locais de chegadas e, tantas vezes, de partidas sem retorno.
Lembro-me sempre de Antonio Muñoz Molina e do seu livro Sefarad: “É num comboio que um homem relata a outro a história que conta Tolstoi na Sonata Kreutzer”, ou, referindo-se a Primo Levi, o terror que sentia o escritor, pouco antes de morrer, perante “os vagões de carga selados que às vezes via nas linhas abandonadas das estações.” Durante cinco dias, em Fevereiro de 1944, Primo Levi  viajou de comboio para o campo de morte de Auschwitz. Sobreviveu.
Interessante é a referência à estação ferroviária de Gmünd, na fronteira da Checoslováquia com a Áustria. Nesta estação, “Franz Kafka e Milena Jevenska encontravam-se clandestinos no intervalo de tempo dos horários dos comboios, na exasperante brevidade das horas que se esgotavam enquanto se viam, enquanto subiam para um quarto inóspito do hotel da estação, onde o andamento próximo dos comboios fazia vibrar os vidros da janela.”

 

terça-feira, outubro 22, 2013

NA CIDADE

"E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!"

Cesário Verde, "O Sentimento dum Ocidental"

terça-feira, outubro 15, 2013

CARTA DE FERNANDO PESSOA "ÀS SUAS DISCÍPULAS"

“Minhas queridas discipulas, desejo-lhes, com um fiel cumprimento dos meus conselhos, inummeras e desdobradas volupias com o animal macho a que Egreja ou o Estado as tiver atado pelo ventre e pelo appelido.
É fincando os pés no solo que a ave desprende o vôo. Que estas imagens, minhas filhas, vos seja a perpetua lembrança do unico mandamento spiritual.
Ser uma cocotte, cheia de todos os modos de vicios, sem trahir o marido, nem sequer com um olhar – a volupia é isto, se souberdes conseguil-o....
Ser cocotte para dentro, trahir o marido para dentro, stal-o trahindo nos abraços que lhes daes, não ser para elle o sentido do beijo que lhes daes –oh mulheres superiores, ó minhas mysteriosas Cerebraes – a volupia é isso.
Porque não aconselho eu isto aos homens tambem?... Porque o Homem é outra especie de ente. Se é inferior, recomendo-lhe que use de quantas mulheres puder: faça isso e sirva-se do seu desprezo quando [ ]. E o homem superior não tem necessidade de nenhuma mulher. Não precisa da posse sexual para a sua volupia. Ora a mulher, mesmo a superior, não aceita isto: a mulher é essencialmente sexual.”

FERNANDO PESSOA, “Correspondência Inédita”
Organização de MANUELA PARREIRA DA SILVA,
Lisboa, Livros Horizonte, 1996, pp. 198-199.
 

segunda-feira, outubro 14, 2013

O PLUMITIVO E A SUA FAINA

 
Silvério Hermes voltou-se na cadeira, que nem giratória era, para o lado da janela de onde a noite crescia. Depois olhou uma das gravuras das paredes e como que se imaginou a sair de Baker Street a caminho de Hyde Park. Precisava destes alheamentos, destes momentos regeneradores de evasão e sonho para poder aceder a novos e mais exigentes patamares do seu raciocínio analítico.

sexta-feira, outubro 11, 2013

D. MANUEL FELÍCIO: "OS BANCOS E OS RICOS QUE PAGUEM A CRISE"

A última coisa que verdadeiramente me impressionou foi a queda de Bizâncio – ouvi ontem da boca de um alto espírito. Respeito e aceito, mas básico e linear como sou, ainda me deixo prender por simples declarações como esta, do senhor Bispo da Guarda.
Por amor de Deus Nosso Senhor, tenham em conta o dever patriótico de não assustar os mercados!

quinta-feira, outubro 10, 2013

DAQUI A POUCO...

PEDRO MEXIA no blogue O MALPARADO:
(transcrito do jornal "metro" de ontem)

"É possível que o Nobel da Literatura (...) vá para um dos 'nobelizáveis' do costume, autores que conheço mal como Kadare, Oz, Nooteboom ou Bei Dao; ou de quem não gosto especialmente, como Adonis e Murakami; ou que não faço ideia quem sejam.
Quanto aos meus favoritos, escolheria (...) Alice Munro ou Javier Marias. E qualquer dos norte-americanos (...) a começar por Roth."

Efectivamente...

quarta-feira, outubro 09, 2013

PIO BAROJA (San Sebastian, 1872 - Madrid, 1956)

Homenagem a  PIO BAROJA, escritor modernista espanhol sobre quem JOÃO GASPAR SIMÕES escreveu nos três primeiros números da revista presença: 10 de Março, 28 de Março e 8 de Abril de 1927.
Fotografia tirada na cidade de Irun, Ensanche Plaza, em 21 de Agosto de 2013.
No chão, dispostas em círculo, as seguintes palavras: La ciudad de Irun en homenaje y recuerdo al gran novelista Pio Baroja (1872-1956) en el centenário de su fallecimiento. Irun, 30 de Octubre de 2006.

domingo, outubro 06, 2013

"O RETRATO DE DORIAN GRAY"

Um livro que é um romance e uma arte poética. As relações entre pintura e literatura, a condição do artista e a criação do belo. Parte final do prefácio autógrafo: «Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, contanto que a não admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada. Toda a arte é completamente inútil.»
 

O TEMPO DE PRAIA VAI CONTINUAR

 
Foto "Visão"

sexta-feira, outubro 04, 2013

terça-feira, outubro 01, 2013

SEBASTIÃO DA GAMA (1924-1952)

Sebastião da Gama (esquerda), com José Régio e Cristovam Pavia

ODE A UM AMIGO

(Ao Manel e ao Eurico)

Faltava-lhe a morte
para ser completo.
A taça estava cheia.
Faltava-lhe a pétala
da rosa
para transbordar.
A taça estava cheia
de amor e de esperança
e de mocidade.
A pétala caiu.
Transbordou a taça.
Mais pobre só o Mundo.
Completo, só ele,
que morreu sereno
como quem o sabe.

SEBASTIÃO DA GAMA, Cabo da Boa Esperança

FANTASIAS NOCTURNAS


segunda-feira, setembro 30, 2013

O PLUMITIVO E A SUA FAINA



“Elementar, meu caro Watson”, disse Silvério Hermes, detective particular, enquanto folheava o dossiê acabado de tirar do arquivador metálico.
“Contou-me a florista”, acrescentou, “que ela levou a vida sempre a fugir, dificilmente aguentando uma relação durante o tempo normal que as relações costumam ter.”
“Tempo normal?”, estranhou Watson, “então há um tempo normal para a duração das relações?”
“Claro, o tempo da paixão, do enamoramento e do amor, essas coisas de que falam os entendidos.”
Watson teve uma expressão de assentimento, enquanto o detective anotava umas palavras nas folhas do dossiê. Acabavam de deglutir a última fatia de pizza e Hermes extraiu de uma gaveta da secretária a garrafa achatada de brande.
“Ainda lhe vai fazer mal ao fígado, meu caro”, advertiu Watson, sem que as suas palavras causassem o mínimo efeito no bebedor.
Eram duas horas da tarde. O detective vestiu a gabardina, expirou uma voluta de fumo na mordedura branda do cachimbo, meteu no bolso o isqueiro e a embalagem de tabaco, parou uns segundos, pensativo, como se reflectisse sobre um assunto importante, e disse:
“Volto às cinco. Se o homem telefonar, diga-lhe que está tudo a andar e que pode passar para levar o recibo do adiantamento.”
“O homem?”
“Sim, o marido.”
“Ah!”, exclamou Watson, passando a mão pela cabeça num gesto indeciso e lento.

(...)

PALHAÇADAS (roubado no feicebuque)


INTERVENÇÃO DO CAVACO

a única que fez na noite eleitoral foi sobre TENIS na Malásia.

se estou em coma e isto é pesadelo traumático, desliguem-me a máquina.
 
 
 

domingo, setembro 29, 2013

A SEARA VERMELHA, O PORTO DA LIBERDADE E O PÂNTANO

A seara vermelha cresce nas planícies do sul, os liberais – desembarcados em um qualquer Mindelo – chegam às margens do Douro. O Senhor D. Miguel está em perigo.
Disse Marx em “O 18 do Brumário de Louis Bonaparte”: «Hegel faz notar, algures, que todos os grandes acontecimentos e personagens históricos ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.» 16 de Dezembro de 2001 e 29 de Setembro de 2013: os derrotados daquele tempo tiraram as consequências e demitiram-se; os de hoje assobiam para o lado e fazem de conta que o pântano não existe. Talvez rebentem por dentro como a fruta podre. Pum!

 

sexta-feira, setembro 27, 2013

"Les feuilles mortes", Yves Montand


Oh je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux où nous étions amis
En ce temps là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui
(...)

segunda-feira, setembro 23, 2013

CASA DE ANTERO DE QUENTAL em Vila do Conde

Retrato do "Grupo dos Cinco" - Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro - na casa onde residiu o grande poeta, recentemente aberta ao público. Note-se o descritivo, assinado por um tal Manuel Gonçalves Cerejeira, personalidade que costuma ser recordada só pelas más razões.

domingo, setembro 22, 2013

sexta-feira, setembro 20, 2013

domingo, setembro 15, 2013

SALOMÃO E SUBHRO


O ELEFANTE SALOMÃO E O SEU CORNACA ANDAM AÍ POR LISBOA, lembrando a histórica viagem para Viena. E também dom João III, dona Catarina e o arquiduque Maximiliano de Áustria, genro de Carlos V, chefe de uma superpotência mundial e imperialista. Grande milagre foi obrado em Pádua, Salomão ajoelhado diante da catedral de Santo António, prova irrefutável de que Deus existe e que, graças a Ele e à inspiração do Concílio de Trento, as boas almas dos povos da Europa não resvalarão nas delinquências do cisma luterano.
Os da Áustria – já não sei bem se eram da Áustria ou da Alemanha, mas deve ser tudo o mesmo –  mudaram os nomes do elefante e do cornaca: Salomão passou a chamar-se Solimão; o cornaca Subhro ficou Fritz. Hoje fazem coisas mais extraordinárias: mudam a vida dos homens dentro da sua própria casa! Felizmente que o elefante anda aí por Lisboa, e o elefante, como Deus, não dorme.

sábado, setembro 14, 2013

EM OSSELA, NO MÊS DE MAIO

Igreja onde foi baptizado o romancista de O Instinto Supremo. No claro-escuro da tarde que desmaia, distinguem-se uns quantos perfis de castrianos.
 

sexta-feira, setembro 13, 2013

quinta-feira, setembro 12, 2013

É O AMOR

 
Este Verão não vi A gaiola dourada, não vi O mordomo, acho que não vi ainda mais um par de coisas dessas que ninguém perde e que todos gabam. Paciência, é o problema de andar sempre a apanhar bonés, de não perceber muito bem o que está a acontecer.
Desesperado, ainda tentei, num cinema perto de mim, um filmezinho da Scarlett: Ghost world, Girl with a pearl earring ou mesmo Match point – tudo o que viesse à rede era peixe. Não consegui, as programações não estavam para aí viradas.
Salvei-me, já com o Outono à vista, com um filme do João Canijo: É o amor – uma história de mulheres da mítica e real Caxinas, uma freguesia de Vila do Conde, ali mesmo à beira da Póvoa de Varzim.
Como dizia José Régio:
 
Ia até Poça da Barca
Meu muito amado local,
(E quem diz Poça da Barca
Diz Caxinas, sua igual)
E parava a olhar de longe,
Estátuas de bronze a andar,
As belas gentes do mar…

“Romance de Vila do Conde”, Fado
 
 

É A FÉ

Caderno de súplicas exposto na catedral de Agen (Lot et Garonne). Desconheço se é prática corrente nos templos, mas acho muito boa ideia. Assim, Deus não poderá fazer orelhas moucas ou desmemoriar-se do que lhe pedem os pobres bichos da terra em sofrimento: fica tudo registado e só por maldade divina não atenderá o que lhe é pedido.
O rogo de uma italiana de nome Manuela: “Ti prego, Mio Dio, prend  il mio cuore.” Acho muito bonito, de uma grande pureza.  
Mais pragmática é a súplica de alguém que, se bem percebo, se assina por Flo: “Seigneur, priez pour que ma maison se vende (...) que mon fils Florian trouve l’ emploi.” A perversa crise do imobiliário e o flagelo do desemprego. Deus, se é amigo dos homens, deveria olhar por estas coisas.

quarta-feira, setembro 11, 2013

O CONHECIMENTO DA ABRÓTEA

Conheci-a no desmaiar de um equinócio antigo,
à luz das velas, num restaurante das margens
do rio Gilão ou Séqua. Não posso garantir,
mas acredito que uma lua em quarto crescente,
romântica e lenta como todas as luas,
feria de claridade o céu morno do Al-Gharb.
 
O seu corpo era brando como uma esponja
ou a concha que se abre ao rumor do mar.
Tinha sal na pele e o sol na púbis.
O resto não interessa. – Veio com batatas e legumes.
Lúbrico, um fio de azeite adocicara-lhe
a carne. Bebi vinho de Tavira, e depois dormi.
 
11-9-2013