Hoje, primeira passagem pela Feira do Livro, praticamente centrada nos standes da Babel e da Assírio & Alvim. Promoções, é claro. Trouxe por bom preço uma antologia poética organizada por Joana Matos Frias (Passagens - Poesia, Artes Plásticas); Anthero, Areia e Água, de Armando Silva Carvalho; Entre Cão e Lobo, de Manuela Parreira da Silva; e ainda dois Nietzsche lidos em devido tempo, agora com direito a residência permanente nas minhas estantes. Para a próxima vez logo se verá o que sai.
segunda-feira, agosto 30, 2021
domingo, agosto 29, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (26)
CASA DA ACHADA, Lisboa, onde hoje se leu e discutiu, na sessão da Comunidade de Leitores, o conto A Lua na Água, do escritor japonês YASUNARI KAWABATA (1899-1972). A acção da narrativa decorre no pós-guerra, tendo sido publicada em 1953. Lá estive com o corpo, e com a alma também. Éramos uns doze. O texto é excelente, todos gostaram, e foi traduzido directamente do japonês pelo nosso colega António Barrento.
quinta-feira, agosto 26, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (25)
Dume, Braga, 18 de Agosto.
Aqui, diante da estátua de Martinho de Dume, bispo de Braga e Dume na segunda metade do século VI. O núcleo museológico, anexo à igreja paroquial, estava fechado. Tive a sorte de vir ter comigo o Sr. Bernardino, zelador do núcleo, que me viu a rondar o local. Abriu-me a porta e mostrou-me o resultado das escavações arqueológicas efectuadas no local: pedras do tempo do império de Roma, do templo suevo ali erigido no século VI e, claro, o túmulo magnífico do bispo Martinho.
Da História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão respigo a seguinte passagem respeitante a Martinho e ao Reino Suevo:
«Após a morte de Réquila em 448, que chegou a sitiar Sevilha e Mérida, o novo rei Requiano converteu-se ao catolicismo em 456, procurando transformar em cruzada a luta contra os Visigodos, que se haviam federado com Roma para o domínio da Península. Mas algum tempo depois voltaram ao arianismo. Vindo de Tours chegara, entretanto, ao Noroeste da Península o monge Martinho, natural da Panónia, que fundou uma escola monástica em Dume e no ano de 556 foi elevado a bispo dumiense. A ele se deve a nova conversão dos Suevos, no início do governo de Teodomiro (558), cabendo ao Concílio de Braga, três anos mais tarde, acabar de vez com a heresia que alcançava grande voga em Espanha.»
O arianismo, heresia fundada no século IV por Ario, presbítero de Alexandria, tinha como elemento fundamental a negação da divindade de Jesus Cristo, para ele e seus prosélitos um simples instrumento de Deus.
quarta-feira, agosto 25, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (24)
Braga, 19-8-2021, Mosteiro de S. Martinho de Tibães. Fundado no século XI, reedificado no século seguinte e com sucessivas intervenções ao longo dos tempos. Cumpriu, como outros mosteiros da Ordem de S. Bento, o papel de difusor da cultura nos alvores da História de Portugal. A visita é demorada, não só pela igreja, coro alto e diversas áreas do edifício, como também pelos jardins ou cerca.
terça-feira, agosto 24, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (23)
Braga, 18-8-2021, Capela de São Frutuoso de Montélios. A antiquíssima capela do século VII está encostada à igreja, de construção posterior, com ela comunicando.
Mandada edificar por Frutuoso de Braga, bispo de Braga e de Dume, falecido em 16-4-665, para deposição do seu túmulo. Monumento de traço visigótico, segundo modelo dos mausoléus bizantinos. Disse-me o responsável ser este o mais antigo templo cristão existente em Portugal.
segunda-feira, agosto 16, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (22)
Ontem, 15-8-2001, no Santuário do Senhor Jesus da Pedra, onde sempre paro quando passo na estrada Caldas da Rainha - Óbidos. Obra barroca, de planta circular. Lembro-me de ler no romance A Redenção das Águas, do escritor-juiz Carlos Querido, que D. João V ali orava quando ia tratar-se nas águas das Caldas. Devoção do grande rei, mas o Senhor não o terá ouvido. Ou terá, sei lá, nada percebo de devoções nem dos ouvidos de Deus.
segunda-feira, agosto 09, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (21)
Hoje, em casa, com os livros e em lances escrevinhadores. Notas Contemporâneas, de Eça, artigo "A Decadência do Riso", publicado em 8-2-1892 no suplemento literário de Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro:
«(...) esse irradicável desalento, tão bem simbolizado pelo velho Albert Dürer, na sua gravura da Melancolia, naquele formoso moço de asas potentes, que, em meio de um vasto laboratório onde se acumulam todos os instrumentos das ciências e das artes, deixa pender entre as mãos a cabeça coroada de louro, e fica inerte, considerando a inutilidade de tudo, enquanto um imenso morcego, por trás, se desdobra e tapa o disco do Sol.»
Isto a propósito de Rabelais que na saída da Idade Média apelava ao riso salutar e construtivo:
«Riez! Riez! Car le rire est le propre de l´homme!»
domingo, agosto 08, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (20)
O Amor às 3 da Tarde (1972), de Éric Rohmer, protagonizado por Zouzou e Bernard Verley. Vi hoje no Nimas. Quem me acompanhava, comentou: «O título é enganador, o amor às 3 da tarde não é com a pretensa amante, mas com a esposa legítima». É verdade, mas só se sabe no fim. Burguês zeloso e escrupuloso, o homem não cedeu às tentações. Na verdade, era a beleza feminina que o atraía, não a tantas vezes pouco satisfatória relação sexual. Como em outros "Contos Morais" de Éric Rohmer (neste Verão já vou no terceiro) assistimos a uma tensão não resolvida entre o desejo e a consumação carnal. Interessante.
sábado, agosto 07, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (19)
QUINTA REAL DE CAXIAS, um espaço público do concelho de Oeiras. Visita sempre agradável (já conhecia), mas hoje fui fazer de cicerone. Destaco o Jardim da Cascata, restaurado há dez anos, em cujo lago se representa o episódio do banho de Diana, segundo as Metamorfoses de Ovídio. As esculturas são de Machado de Castro. Pode-se aceder à parte superior da cascata e ver o tanque que alimentava o dispositivo cénico da queda das águas. E, naturalmente, a paisagem sobre o jardim e o mar. Aí deixo as fotografias.
quinta-feira, agosto 05, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (18)
Na Fábrica das Palavras, Vila Franca de Xira, exposição do cartunista grego MICHAEL KOUNTOURIS (Rodes, 1960).
Temática em torno das contradições europeias: a política do euro, as migrações, o ascenso das ideologias de direita.
Neste trabalho, de título "Silêncio", o senhor Europa está incomodado com o que se passa no andar de cima (vinda dos migrantes), não com a ruidosa festa de nazis no andar de baixo.
sábado, julho 31, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (17)
Hoje, na Gulbenkian, exposição "Tudo o que eu quero / Artistas Portuguesas de 1900 a 2020". Do erotismo, dir-se-ia idílico, de MILY POSSOZ às inquietantes obras de PAULA REGO (Vanitas) e GRAÇA MORAIS (A Caminhada do Medo).
terça-feira, julho 27, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (16)
Revendo a matéria
«(...) aquela gente que vivia em barcos, pescando ou vendendo melões e melancias, segundo as épocas. Nómadas do rio, como os ciganos na terra, tinham vindo da Praia da Vieira e faziam vida à parte: chamavam-lhes avieiros.»
--- "Breve história de um romance", prefácio do autor, datado de Novembro de 1967.
segunda-feira, julho 26, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (15)
Hoje ao fim da tarde. Verão é Verão na borda do Tejo. Passeio ribeirinho Vila Franca de Xira - Alhandra. Na margem, junto ao rio, madeira que vem na corrente. Em Avieiros, de Redol, era com estas dádivas das águas que os homens vindos de Vieira de Leiria - "nómadas do rio" - construíam as suas cabanas.
domingo, julho 25, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (14)
Hoje não me tiram de casa, pelo menos é o que espero...
Para quem puder entender, estou em Donnafugata, ou nas suas imediações, com o Príncipe de Salina e Dom Ciccio, organista. Cenas de caça, mas até ao momento, e o dia já vai alto, só um coelho se deixou apanhar.
O Príncipe medita muito ao sol da Sicília e, talvez por isso, sejam tão débeis os ganhos venatórios : a união do sangue aristocrático dos Falconeri com a vergôntea burguesa da casa Sedàra; o plebiscito de 21 de Outubro (de 1860) que confirmou Victor Emanuel como rei da Itália unificada; a sua condição de homem entre dois mundos, entre dois tempos, no meio de muitos impulsos e quietações. E as estrelas, sim, as estrelas onde a vida se escreve.
«É preciso que tudo mude, se quisermos que tudo fique como está» - a máxima não é do Príncipe, mas do seu sobrinho Tancredi Falconeri.
sábado, julho 24, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (13)
Setúbal, hoje, na Praça de Santa Maria, frente à vetusta igreja. Quem são estes "alfombristas", não o sei exactamente. Tampouco a sua ligação ao Caminho de Santiago, cujos motivos (como a vieira) surgem nestes tapetes feitos de pétalas. Isto foi de manhã, para a tarde já a obra estava completa. Trabalho de rigor, paciência e muita arte. Comemoração do Xacobeu (que ocorre nos anos em que o dia de Santiago, 25 de Julho, calha a um domingo). Até amanhã, pelo menos, lá estarão.
quinta-feira, julho 22, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (12)
Na Cinemateca, O Belo António (1960), de Mauro Bolognini, com esses dois que aí estão e dispensam apresentações. Ela, uma esposa ingénua e mal esclarecida sobre as inerências do matrimónio. Ele, o marido, impotente. Isto se passa em Catânia, cidade da costa oriental da Sicília, com grande escândalo e vergonha da família do protagonista perante a dissolução do casamento por falta de consumação carnal. Diz-se que Marcelo Mastroianni aceitou o papel (recusado por outros) para não dar curso à fama de actor mulherengo que lhe era atribuída pelos filmes anteriores. Atitude inteligente, porque o bom actor é tudo e mais alguma coisa. Uma Claudia Cardinale no esplendor dos seus vinte e poucos anos: até faz doer os olhos!
quarta-feira, julho 21, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (11)
Um dos ciclos da programação de Julho da Cinemateca recebeu o nome de O CINEMA ITALIANO, LADO B. Trata-se de mostrar um conjunto de filmes de entre 1950 e 1980 fora das obras consagradas de grandes mestres como Rossellini, Visconti, De Sica, Antonioni, Fellini, Bertolucci, Pasolini, etc.
Hoje vi o interessantíssimo Pão, Amor e Fantasia (1953), de Luigi Comencini. Uma comédia romântica com laivos de neo-realismo soft. Vittorio De Sica (ele mesmo) e Gina Lollobrigida nos papéis principais. Ele, um capitão dos carabinieri, solteiro, maduro e bom rapaz colocado numa remota aldeia de Itália; ela, uma rapariga informal, mas de formal beleza, pobre e à procura de um grande amor.
Dá gosto ver estes enredos em que a pobreza social engendra personagens excepcionais (para o melhor e o pior), não faltando o braço (e o abraço) do cura de serviço a dar colorido às almas e aos insondáveis desígnios do Senhor. Santo António, o de Pádua, também apareceu a fazer das suas.
E não se convençam que foi o par da fotografia o bafejado pela sorte do amor. Foi-o, mas cada um com a sua metade própria: a rapariga com um dos soldados do capitão; este com uma parteira muito jeitosa, apesar de já ter deixado para trás a idade do viço absoluto.
É por coisas como estas que vale a pena viver.
terça-feira, julho 20, 2021
sexta-feira, julho 16, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (9)
Um "conto moral" com três prólogos e um epílogo desconcertante. A Coleccionadora (1967), de Éric Rohmer (1920-2010). Revi ontem no Nimas, ciclo "Éric Rohmer , ou o génio do moderno cinema francês". Ela é Haydée Politoff (1946), ele Patrick Bauchau (1938), o Cap. Dantas de Balada da Praia dos Cães, de José Fonsceca e Costa.
quinta-feira, julho 15, 2021
DIÁRIO DO TEMPO DE VERÃO (8)
Esta semana, visitei no MNAA a exposição "Vi o reino renovar" sobre o estado da arte portuguesa ao tempo do rei D. Manuel I. Noutro local, já disse o que ela me pareceu: uma boa mostra de peças de arte - pictóricas, escultóricas, bibliográficas, de tapeçaria e de ourivesaria -, mas limitada e sem o impacto que época tão crucial reclamaria. Não há, por assim dizer, grandes novidades: a Bíblia dos Jerónimos, a Custódia de Belém, as pinturas de Jorge Afonso e Gregório Lopes, iluminuras, etc. Em termos museológicos, as peças das secções relativas à imprensa e aos forais surgem mal iluminadas, como se não fossem para ler, apenas para mostrar.
Gostei de encontrar a pintura de Cristóvão de Figueiredo sobre a "Chegada das Relíquias de Santa Auta ao Mosteiro da Madre de Deus,
relíquias trazidas para Portugal por iniciativa da rainha D. Leonor. Esta Santa Auta era uma das "11 mil virgens" martirizadas pelos hunos em Colónia no ano de 383. E mais uma vez sorri ao pensar naqueles milhares de virgens dos provectos alfobres da História. Uma inscrição encontrada em Colónia referia-se ao martírio como tendo sido obrado em XI MM VV (onze mártires virgens), mas logo se trocou "MM" por "mil" e o número fabuloso aí ficou a atestar a resistência gloriosa dos inúmeros mártires do Cristianismo nascente.
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