Passos, Relvas, Macedo – grandes políticos de outros tempos! Mas quem é que se vai lembrar, de aqui a uns anos, destes que agora se perfilam com os mesmos nomes?
domingo, abril 10, 2011
segunda-feira, abril 04, 2011
De Mais Ninguém - Marisa Monte - Legendado
Sim, isto rebenta com qualquer coração! Nem novela camiliana, nem concerto de Tony Carreira, nem sei lá o quê... Dá gosto ouvir e meditar nos desfortúnios da condição humana!
segunda-feira, março 28, 2011
BRUNO, MARCELO E A ESFINGE

Em que é que Bruno de Carvalho, candidato derrotado à presidência do Sporting Clube de Portugal, se compara com Marcelo Rebelo de Sousa, professor universitário e abalizado analista político da TVI? Numa coisa muito simples: na confiança que ambos têm nas sondagens eleitorais!
Bruno de Carvalho vai impugnar as eleições que perdeu porque uma sofisticada sondagem feita à boca das urnas lhe dava uma vitória que não veio a ser confirmada pela contagem dos votos. (A razão é mesmo esta, é só ouvir com atenção as declarações do frustrado dirigente). Marcelo, por sua vez, exulta com a sondagem encomendada pela TVI e já dá como certa a vitória que à distância de dois meses ainda terá de ser provada pelos resultados das urnas.
Tem-se dito que o estado calamitoso do nosso futebol é um reflexo da situação política do país. Eu neste momento tenho dúvidas: já não sei se é a política que influencia o futebol, ou se é o futebol que influencia a política.
O mais surpreendente é que segundo a lúcida análise do professor, o país não está preocupado com aumentos de impostos ou outros sacrifícios – o país não quer é este primeiro-ministro! Com outro que venha, todos os pec passarão sem problemas, se calhar até com sorrisos compreensivos de sindicalistas e deputados da esquerda mais empedernida – ilações que aparentemente podem ser retiradas da mesma sondagem!
Esperemos que em Maio ou Junho, na data que vier a ser marcada pela esfinge de Belém, os resultados das urnas se afinem pelas previsões das sondagens. Evitaríamos dúvidas e dificuldades para o país e, sobretudo, poderíamos vir a aspirar, num futuro quiçá não muito distante, a algo de tranquilizante para a nossa democracia: dispensar de vez o complexo e dispendioso processo das eleições, passando a nomear, através de sondagens cientificamente realizadas, todos os nossos deputados, todos os nossos autarcas, o presidente da república, os dirigentes desportivos, os conselhos directivos das escolas, as administrações dos bancos e das empresas públicas, os chefes das quadrilhas e os estados-maiores das forças armadas, enfim, toda a gente importante em cujas mãos nos entregamos como cordeirinhos, esperando que não nos façam muito mal e nos deixem continuar a ver o futebol, as análises do professor Marcelo, as telenovelas, os concursos das crianças cantantes na TVI, as marchas populares, tudo aquilo que não dá que pensar e nos prepara para, de seis em seis meses, com uma regularidade democrática, exercermos cada vez com mais consciência o nosso dever de eleitores.
segunda-feira, março 21, 2011
A CANÇÃO
À versão de Marisa Monte e a esta para que aqui remeto o visitante amigo, prefiro a de um fadista português que desgraçadamente não consigo encontrar no Youtube.
Depois de uma manhã em que li duas páginas das Confissões de Rousseau e acabei de preencher com náusea os questionários dos Censos-2011, descobri que tinha a máquina de lavar roupa avariada. Perante tanta infelicidade, só uma canção como esta me pode confortar.
Os versos:
Se ela me deixou a dor é minha só
não é de mais ninguém...
…
A sala o quarto a casa está vazia
a cozinha o corredor
se nos meus braços ela não se aninha
a dor é minha a dor…
etc. etc. etc.
Oiçam bem a letra e a música em:
Depois de uma manhã em que li duas páginas das Confissões de Rousseau e acabei de preencher com náusea os questionários dos Censos-2011, descobri que tinha a máquina de lavar roupa avariada. Perante tanta infelicidade, só uma canção como esta me pode confortar.
Os versos:
Se ela me deixou a dor é minha só
não é de mais ninguém...
…
A sala o quarto a casa está vazia
a cozinha o corredor
se nos meus braços ela não se aninha
a dor é minha a dor…
etc. etc. etc.
Oiçam bem a letra e a música em:
segunda-feira, março 14, 2011
A uma carta responde-se sempre

Cristina Leimart no "Emoções Básicas":
Anda uma pessoa na sua vidinha mediana, altos e baixos, uns dias sorridos outros de sobrolhos franzidos, quando lhe salta ao caminho uma carta chamando-lhe deusa. Abana qualquer uma! Responde-se, e é como atar uma pedrinha ao cordel de um balão de hélio – retira-lhe a graça e a elevação.
Ainda assim, não resisto. Desde logo, à cortesia em ver-se o meu amigo de idade para ser meu pai. Com a nossa década e picos de diferença, já o imagino há cinquenta anos, robustecido pelas vastidões da lezíria, avesso a amores aguados mas abraçando, se não os minúsculos prazeres epistolares, certamente as emoções básicas da física do amor – e tão jovenzinho, o que só lhe fica muito bem.
Quanto à minha história com ‘hi’, pu-la a girar em torno de um manuscrito, quando se trata, em rigor, de um teclaescrito, dada a raridade atual do uso da caligrafia. Do tal Celúlio é que ainda pouco sei. Outro dia vi um gorgulho pequenino, redondo e tostado escapulir-se de um saco de arroz na minha despensa, e afinal era o Celúlio à saída da empresa de reciclagem. Tenho-o como pessoa de muitos planos, com quem a vida sempre desconversou. Vejo-lhe a alma cheia de tiques, um caminho povoado de amigos incompletos. Aquela vida junto ao tapete do enxovalho, um pouco espelho de como o país anda agora, e andava no tempo do Eça e no de D. Sebastião, não lhe é salutar. Enfim, oxalá me engane, que pareço uma vidente lendo uma bola de cristal.
Ainda assim, não resisto. Desde logo, à cortesia em ver-se o meu amigo de idade para ser meu pai. Com a nossa década e picos de diferença, já o imagino há cinquenta anos, robustecido pelas vastidões da lezíria, avesso a amores aguados mas abraçando, se não os minúsculos prazeres epistolares, certamente as emoções básicas da física do amor – e tão jovenzinho, o que só lhe fica muito bem.
Quanto à minha história com ‘hi’, pu-la a girar em torno de um manuscrito, quando se trata, em rigor, de um teclaescrito, dada a raridade atual do uso da caligrafia. Do tal Celúlio é que ainda pouco sei. Outro dia vi um gorgulho pequenino, redondo e tostado escapulir-se de um saco de arroz na minha despensa, e afinal era o Celúlio à saída da empresa de reciclagem. Tenho-o como pessoa de muitos planos, com quem a vida sempre desconversou. Vejo-lhe a alma cheia de tiques, um caminho povoado de amigos incompletos. Aquela vida junto ao tapete do enxovalho, um pouco espelho de como o país anda agora, e andava no tempo do Eça e no de D. Sebastião, não lhe é salutar. Enfim, oxalá me engane, que pareço uma vidente lendo uma bola de cristal.
E também parece que a alma lusa de Celúlio se compensa como pode, indo embeber-se naquela pura ilusão do paraíso bibliotecário. Aforismo inteiramente da lavra dele, já agora, embora eu tenha lá metido à socapa o meu arado. E depois não o estou a ver homem de citações, pois sobre livros selectos ele é ainda menos informado do que eu. Mas coitado! Como se as bibliotecas não fizessem parte do mundo. Cheias de silêncios forçados, de sons a aguardar vez, de vozes faladas em standby para que as palavras escritas possam respirar e brilhar, de folhas oprimidas por falto de uso, outras gastas por mãos ávidas, olhos fartos de letras, frases inteiras arranhadas pelas patitas dos ácaros, e pó, um pó insidioso e calado a picar leitores alérgicos. E, abaixo desses silêncios, remoinhos indizíveis, uma verdadeira tectónica das características humanas: desejos desencontrados, pulsões contidas entre leitores, intrigas e atrações entre funcionários, invejas e paixões entre personagens, empatias funcionários-personagens, e até vice-versa, sussurros de cordel, olhares atravessando mesas de leitura e que poeta algum descreveu, etc, etc.
Eu percebo o Celúlio. Adoro a superfície do silêncio acariciando-me os sentidos e o espírito, esse morno mar de silêncio com ilhotas de trabalho solitário, concentrado que é uma biblioteca. Parece que estamos ali à beira de um salto quântico qualquer. Adoro a cortesia vaga, formal nas vozes microdecibélicas de leitores e funcionários. Cada biblioteca, da mais insignificante numa estante de colectividade local, à de Alexandria ou à do congresso americano, tem o seu silêncio endémico, a sua exclusiva linguagem freática. Não sei se o Celúlio vê a coisa assim. É um bocado limitado. Possui uma mente arrumada, de matriz binária, à engenheiro. Ele nem igrejas, tão ricas de história, cultura e espírito, aprecia visitar, veja lá! Embirra que lhe leiam talhas douradas e painéis de azulejos, porque chega ao terceiro e já não se lembra do que lhe disseram do primeiro. Pronto, é como é.
E pronto também para nós, que esta resposta já vai longa e o meu amigo tem mais que fazer.
Obrigada pelas palavras. Um grande abraço.
PS: Quanto às formalidades do novo acordo, que fazer? Saiba que estrebuchei q.b., disposta até a descer a avenida da Liberdade em prol da tradição, se tem havido uma convocatória no facebook. E se não resisti mais, foi por guardar a energia dos meus estrebuchos para causas mais promissoras. Dizem que é uma atitude de sabedoria, e eu acredito.
Eu percebo o Celúlio. Adoro a superfície do silêncio acariciando-me os sentidos e o espírito, esse morno mar de silêncio com ilhotas de trabalho solitário, concentrado que é uma biblioteca. Parece que estamos ali à beira de um salto quântico qualquer. Adoro a cortesia vaga, formal nas vozes microdecibélicas de leitores e funcionários. Cada biblioteca, da mais insignificante numa estante de colectividade local, à de Alexandria ou à do congresso americano, tem o seu silêncio endémico, a sua exclusiva linguagem freática. Não sei se o Celúlio vê a coisa assim. É um bocado limitado. Possui uma mente arrumada, de matriz binária, à engenheiro. Ele nem igrejas, tão ricas de história, cultura e espírito, aprecia visitar, veja lá! Embirra que lhe leiam talhas douradas e painéis de azulejos, porque chega ao terceiro e já não se lembra do que lhe disseram do primeiro. Pronto, é como é.
E pronto também para nós, que esta resposta já vai longa e o meu amigo tem mais que fazer.
Obrigada pelas palavras. Um grande abraço.
PS: Quanto às formalidades do novo acordo, que fazer? Saiba que estrebuchei q.b., disposta até a descer a avenida da Liberdade em prol da tradição, se tem havido uma convocatória no facebook. E se não resisti mais, foi por guardar a energia dos meus estrebuchos para causas mais promissoras. Dizem que é uma atitude de sabedoria, e eu acredito.
sábado, março 12, 2011
GERAÇÃO À RASCA
Hoje, na manifestaçãoIronizar sobre os impasses da situação social, como fazem os jovens do cartaz, é uma demonstração de lucidez. É meio caminho andado para se compreender que o trabalho precário, o desemprego dos licenciados e o desemprego em geral são produtos do capitalismo flexível que se estabeleceu à escala global durante as últimas décadas.
Podemos fazer alguma coisa cá dentro? Sim, mas pouco.
Mesmo assim, vale a pena descer à rua. É o nosso direito à utopia!
Podemos fazer alguma coisa cá dentro? Sim, mas pouco.
Mesmo assim, vale a pena descer à rua. É o nosso direito à utopia!
terça-feira, março 08, 2011
O ROMANCE E O REAL
Tentava escrever um ensaio sobre o roman à clef[1] na literatura portuguesa da segunda metade do século XX. Tinha presente Os Meninos de Ouro de Agustina e deu consigo a pensar: quem é este José Matildes? E Farina, leitor de Swift, quem é esta figura de intelectual que andou por aí a dar o sopro da vida a um partido político? Não tinha a certeza de Farina ser uma representação do autor d’ A Torre da Barbela, tampouco Matildes o liberal que na Assembleia Nacional marcelista foi promessa de liberdades, homem providencial sem o ser, caudilho espúrio, malogrado líder caído sobre o casario de Camarate como um Ícaro de sombra. Sentia-se confuso, acometido de uma grande falta de vontade, as ideias fugindo-lhe da cabeça como pássaros de uma gaiola aberta. E procrastinava.
Nesta indecisão, resolveu não escrever o ensaio, mas o primeiro capítulo de um roman à clef: curava a ferida de cão com o pelo[2] do cão! Mas seria capaz de escrever os sucessivos capítulos de tal romance? Pelo que de si conhecia, a coisa ficaria talvez por uma novela, se calhar por um simples conto…
O conto é um género difícil, dissera-lhe uma vez um poeta. Precisa-se de muita concisão, muita agudeza de espírito para acertar no coração da narrativa. O poeta esforçava-se por o convencer, usava metáforas breves que lhe soavam a dísticos ou a haicai japoneses, mas ele não acreditava. Porque os grandes ficcionistas pouco ligam ao conto, escrevem as suas obras em centenas de páginas, a pluma rasando as resmas com as suas marcas de fogo, talvez apenas de tinta, não vale a pena tanto exagero: veja-se o Proust da Recherche, o Tolstoi da Guerra e Paz, o Durrel do Quarteto de Alexandria.
Faça-se deste poeta uma personagem à clef! Era um homem alto, os fatos de bom corte, a fala com um sotaque ilhéu que cheirava a mar e a búzios rumorejantes. Amava a poesia como se ama uma mulher desleal, dessas que dizem meias verdades e fazem versos aos amantes:
És o meu Sol que só se abre de vez em quando.
Vivo na penumbra dum sentimento
que não sei qual é.[3]
(Outra personagem à clef!)
A poesia é desleal, como toda a arte é desleal. Apetece pensar que foi Rimbaud que o disse, mas se calhar não foi. O que Rimbaud disse, ou escreveu, sim, parece que escreveu, em carta ao seu antigo professor Georges Izambard, foi je est un autre, frase gramaticalmente errada mas poeticamente certa, e que é talvez a melhor prova da deslealdade da arte. Da das mulheres nem vale a pena falar, só comparável à deslealdade dos homens!
Não escreveu o ensaio nem começou o romance. Sobreveio-lhe um grande desejo de dormir, de ver planícies de sonho e prados carregados de bruma. Quando deu por si estava do outro lado da vida, a cavalo numa dose exagerada de tranquilizantes.
O psiquiatra, que nunca lera Freud, estranhou a sua falta à sessão e ligou-lhe por mera rotina clínica. Ninguém atendeu. Que pena, logo agora que tinha decifrado mais uma personagem do roman à clef.
[1] “Romance com chave” – romance em que as personagens, tiradas do real, são apresentadas com outro nome, mas conservando os seus traços comportamentais e características físicas.
[2] Segundo as novas regras ortográficas, deixa de ter acento.
[3] Versos lidos num sonho.
Nesta indecisão, resolveu não escrever o ensaio, mas o primeiro capítulo de um roman à clef: curava a ferida de cão com o pelo[2] do cão! Mas seria capaz de escrever os sucessivos capítulos de tal romance? Pelo que de si conhecia, a coisa ficaria talvez por uma novela, se calhar por um simples conto…
O conto é um género difícil, dissera-lhe uma vez um poeta. Precisa-se de muita concisão, muita agudeza de espírito para acertar no coração da narrativa. O poeta esforçava-se por o convencer, usava metáforas breves que lhe soavam a dísticos ou a haicai japoneses, mas ele não acreditava. Porque os grandes ficcionistas pouco ligam ao conto, escrevem as suas obras em centenas de páginas, a pluma rasando as resmas com as suas marcas de fogo, talvez apenas de tinta, não vale a pena tanto exagero: veja-se o Proust da Recherche, o Tolstoi da Guerra e Paz, o Durrel do Quarteto de Alexandria.
Faça-se deste poeta uma personagem à clef! Era um homem alto, os fatos de bom corte, a fala com um sotaque ilhéu que cheirava a mar e a búzios rumorejantes. Amava a poesia como se ama uma mulher desleal, dessas que dizem meias verdades e fazem versos aos amantes:
És o meu Sol que só se abre de vez em quando.
Vivo na penumbra dum sentimento
que não sei qual é.[3]
(Outra personagem à clef!)
A poesia é desleal, como toda a arte é desleal. Apetece pensar que foi Rimbaud que o disse, mas se calhar não foi. O que Rimbaud disse, ou escreveu, sim, parece que escreveu, em carta ao seu antigo professor Georges Izambard, foi je est un autre, frase gramaticalmente errada mas poeticamente certa, e que é talvez a melhor prova da deslealdade da arte. Da das mulheres nem vale a pena falar, só comparável à deslealdade dos homens!
Não escreveu o ensaio nem começou o romance. Sobreveio-lhe um grande desejo de dormir, de ver planícies de sonho e prados carregados de bruma. Quando deu por si estava do outro lado da vida, a cavalo numa dose exagerada de tranquilizantes.
O psiquiatra, que nunca lera Freud, estranhou a sua falta à sessão e ligou-lhe por mera rotina clínica. Ninguém atendeu. Que pena, logo agora que tinha decifrado mais uma personagem do roman à clef.
[1] “Romance com chave” – romance em que as personagens, tiradas do real, são apresentadas com outro nome, mas conservando os seus traços comportamentais e características físicas.
[2] Segundo as novas regras ortográficas, deixa de ter acento.
[3] Versos lidos num sonho.
terça-feira, março 01, 2011
UMA CARTA
Minha Querida Amiga,
Li a história reciclada do seu Celúlio Brito, verificando com satisfação que já escreve segundo as normas do novo acordo ortográfico. Não é fácil, pois são muitos anos a carregar com hífenes e a engolir consoantes mudas, adereços escriturais que têm tanta utilidade como um guarda-chuva num dia de sol. Agora que, finalmente, toda a escrita se recicla, o mais provável é que nos atrapalhemos, que dêmos um ou outro erro de ortografia, como lhe aconteceu com o diabo da consoante muda na palavra “objectiva”. Vá lá emendar, por favor.
Aproveito para dizer que fiquei satisfeito por vê-la escrever “história” e não “estória”. Embora a palavra já pertença ao léxico, podendo ser encontrada no Houaiss e noutros bons dicionários, apesar de não ficar mal de todo ao lado de “hei de”, de "hás de" e de “projeto”, a verdade é que não é do meu agrado – prefiro “história”.
Sobre o assunto da sua… história, saiba que de celulose não percebo nada. De papel, ainda menos: escrevo no computador e isso basta-me. A bilhetes e cartas não me dedico há muito, embora tenha várias histórias sobre cartas de amor, as únicas que considero no vasto domínio dos epistolários. Esta que agora lhe envio, veja-a por favor como a carta de amor que nunca lhe enviei (não se mandam cartas de amor a senhoras casadas, ainda por cima com idade para serem nossas filhas), porque o que há de mais amorável é entregarmo-nos aos prazeres da escrita – “prazeres minúsculos”, como aqueles que muito bem conhece.
Não sei o que possa acrescentar, tais as “emoções básicas” que a sua história despertou em mim… Laurinda? Achei piada ao nome, pelas razões que certamente adivinhará. Também gostei da tirada final, mas como vem em itálico fiquei sem saber se será da sua lavra ou se a tirou de algum livro selecto. Sabe, fez-me lembrar o Borges, director cego da Biblioteca de Buenos Aires… De facto, as bibliotecas não dão chatices; o chato é não aparecerem nelas os leitores! Mas isto não diz respeito à minha querida amiga, pois pelo que sei a sua casa é já uma biblioteca, isto é, um templo, a que nem sequer falta a deusa! Quando lá entrar, se algum dia lá entrar, descalço-me.
Com um grande beijo,
Li a história reciclada do seu Celúlio Brito, verificando com satisfação que já escreve segundo as normas do novo acordo ortográfico. Não é fácil, pois são muitos anos a carregar com hífenes e a engolir consoantes mudas, adereços escriturais que têm tanta utilidade como um guarda-chuva num dia de sol. Agora que, finalmente, toda a escrita se recicla, o mais provável é que nos atrapalhemos, que dêmos um ou outro erro de ortografia, como lhe aconteceu com o diabo da consoante muda na palavra “objectiva”. Vá lá emendar, por favor.
Aproveito para dizer que fiquei satisfeito por vê-la escrever “história” e não “estória”. Embora a palavra já pertença ao léxico, podendo ser encontrada no Houaiss e noutros bons dicionários, apesar de não ficar mal de todo ao lado de “hei de”, de "hás de" e de “projeto”, a verdade é que não é do meu agrado – prefiro “história”.
Sobre o assunto da sua… história, saiba que de celulose não percebo nada. De papel, ainda menos: escrevo no computador e isso basta-me. A bilhetes e cartas não me dedico há muito, embora tenha várias histórias sobre cartas de amor, as únicas que considero no vasto domínio dos epistolários. Esta que agora lhe envio, veja-a por favor como a carta de amor que nunca lhe enviei (não se mandam cartas de amor a senhoras casadas, ainda por cima com idade para serem nossas filhas), porque o que há de mais amorável é entregarmo-nos aos prazeres da escrita – “prazeres minúsculos”, como aqueles que muito bem conhece.
Não sei o que possa acrescentar, tais as “emoções básicas” que a sua história despertou em mim… Laurinda? Achei piada ao nome, pelas razões que certamente adivinhará. Também gostei da tirada final, mas como vem em itálico fiquei sem saber se será da sua lavra ou se a tirou de algum livro selecto. Sabe, fez-me lembrar o Borges, director cego da Biblioteca de Buenos Aires… De facto, as bibliotecas não dão chatices; o chato é não aparecerem nelas os leitores! Mas isto não diz respeito à minha querida amiga, pois pelo que sei a sua casa é já uma biblioteca, isto é, um templo, a que nem sequer falta a deusa! Quando lá entrar, se algum dia lá entrar, descalço-me.
Com um grande beijo,
sexta-feira, fevereiro 25, 2011
terça-feira, fevereiro 22, 2011
NO BOSQUE DA FICÇÃO
Maria, que lindo nome
Para as bocas sequiosas.
Maria, disse e ficou-me
A boca a saber a rosas.
A quadra é de António Menano, fadista de Coimbra, e apareceu-me hoje no capítulo XXI do romance Amigos Sinceros (1941) de João Gaspar Simões (1903-1987).
Podia pôr-me a falar de romance psicologista, de estética presencista ou de narrativa autobiográfica (que também o é), mas não, prefiro deixar os versos em singelo.
Não me faltam Marias na história da vida! É certo que há também as Vanessas, as Sónias, as Patrícias e as Joanas, mas são árvores da fímbria do bosque. Gosto de todas, como de boas ficções.
Para as bocas sequiosas.
Maria, disse e ficou-me
A boca a saber a rosas.
A quadra é de António Menano, fadista de Coimbra, e apareceu-me hoje no capítulo XXI do romance Amigos Sinceros (1941) de João Gaspar Simões (1903-1987).
Podia pôr-me a falar de romance psicologista, de estética presencista ou de narrativa autobiográfica (que também o é), mas não, prefiro deixar os versos em singelo.
Não me faltam Marias na história da vida! É certo que há também as Vanessas, as Sónias, as Patrícias e as Joanas, mas são árvores da fímbria do bosque. Gosto de todas, como de boas ficções.
quinta-feira, fevereiro 10, 2011
A OBRA
Continuo a escrever a OBRA. Aqui deixo umas breves linhas para que possa apreciar-se a excelência do trabalho. Como notarão, há uma referência a um crítico francês, outra ao filósofo peripatético, além de palavras caras que nem vêm no dicionário. Por favor, não se riam, são perversões da idade:
Sébastien Hubier (Littératures intimes, 2003) refere a autoficção como uma expressão anfibológica das escritas do eu. Em Aristóteles e na linguística moderna o termo é usado para designar um enunciado suscetível de duas interpretações diferentes. Ora a autoficção é isso mesmo, um texto que pode ser interpretado como romance e como autobiografia, cabendo ao leitor decidir sobre o seu grau de verdade ou de mentira.
(Extraído da OBRA, p. 62)
NOTA: Texto escrito segundo as normas do novo acordo ortográfico. Nas mais de cento e cinquenta palavras que aqui ficam apenas uma tem nova grafia (“suscetível” em vez de “susceptível”). Afinal, a coisa não parece assim tão desfiguradora da nossa escrita.
NOTA: Texto escrito segundo as normas do novo acordo ortográfico. Nas mais de cento e cinquenta palavras que aqui ficam apenas uma tem nova grafia (“suscetível” em vez de “susceptível”). Afinal, a coisa não parece assim tão desfiguradora da nossa escrita.
quarta-feira, janeiro 26, 2011
A CABRA PUXA SEMPRE PARA O MONTE
IRONIA ROMÂNTICA
Expressão composta por dois termos, à primeira vista, incompatíveis: ironia e romantismo. O romantismo é sempre associado à ideia de modernidade, de uma nova visão do autor que consegue ter alguma objectividade dentro da sua própria subjectividade. A ironia romântica nasce dentro dessa mudança literária do século XVIII, de um movimento que reformula a forma de produzir literatura e no próprio modo como o autor, enquanto criador, tende a uma maior capacidade de autocrítica e auto-análise dentro das obras que produz.
(Maria Filomena Morgado = e-dicionário de termos literários)
Continuo amancebado com a ironia. Leio o ensaio “A Ironia Romântica”, de Maria de Lourdes A. Ferraz, e a tese que vou construindo é que estamos perante um fenómeno diacrónico que não se confina ao Romantismo e perdura na nossa contemporaneidade de pós-modernismos e outras coisas que tais.
Leia-se o Garrett das “Viagens” e o Camilo de “A Queda dum Anjo”; leia-se depois Saramago e Mário de Carvalho. Mesmo num romance de Saramago como “A Caverna”, há ironia romântica! Que dizer então de “Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina”, de Mário de Carvalho?
Num trecho deste romance, o autor/narrador convoca a personagem Maria das Dores para uma conversa, criticando-lhe a linguagem desbragada e as infidelidades conjugais que comete. Tendo a personagem reagido mal, o autor/narrador ameaça suprimi-la da história, voltando a escrevê-la desde o princípio sem a sua participação. Maria das Dores não se intimida com a ameaça do seu demiurgo e responde-lhe à letra: – A cabra puxa sempre para o monte. Mas eu agora não quero falar disso. Acho que era de bom gosto deixar-me a intimidade em paz. Cada um é um.
Já não me lembrava da resposta de Maria das Dores, mas hoje, ao relê-la, senti um grande enternecimento. Ironia romântica e da melhor! A Literatura dá-nos estas satisfações. Difícil é compreender quem possa passar sem ela.
Continuo amancebado com a ironia. Leio o ensaio “A Ironia Romântica”, de Maria de Lourdes A. Ferraz, e a tese que vou construindo é que estamos perante um fenómeno diacrónico que não se confina ao Romantismo e perdura na nossa contemporaneidade de pós-modernismos e outras coisas que tais.
Leia-se o Garrett das “Viagens” e o Camilo de “A Queda dum Anjo”; leia-se depois Saramago e Mário de Carvalho. Mesmo num romance de Saramago como “A Caverna”, há ironia romântica! Que dizer então de “Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina”, de Mário de Carvalho?
Num trecho deste romance, o autor/narrador convoca a personagem Maria das Dores para uma conversa, criticando-lhe a linguagem desbragada e as infidelidades conjugais que comete. Tendo a personagem reagido mal, o autor/narrador ameaça suprimi-la da história, voltando a escrevê-la desde o princípio sem a sua participação. Maria das Dores não se intimida com a ameaça do seu demiurgo e responde-lhe à letra: – A cabra puxa sempre para o monte. Mas eu agora não quero falar disso. Acho que era de bom gosto deixar-me a intimidade em paz. Cada um é um.
Já não me lembrava da resposta de Maria das Dores, mas hoje, ao relê-la, senti um grande enternecimento. Ironia romântica e da melhor! A Literatura dá-nos estas satisfações. Difícil é compreender quem possa passar sem ela.
segunda-feira, janeiro 24, 2011
BAPTISTA-BASTOS NO DN - mais palavras para quê?
Mário Soares foi o vencedor das eleições. A astúcia e a imaginação do velho estadista permitiram que Fernando Nobre, metáfora de uma humanidade sem ressentimento, lhe servisse às maravilhas para ajustar contas. É a maior jogada política dos últimos tempos. Um pouco maquiavélica. Mas nasce da radical satisfação que Mário Soares tem de si mesmo, e de não gostar de levar desaforo para casa. Removeu Alegre para os fojos e fez com que Cavaco deixasse de ser tema sem se transformar em problema. O algarvio regressa a Belém empurrado pelos acasos da fortuna, pelos equívocos da época, pelo cansaço generalizado dos portugueses e pelos desentendimentos das esquerdas (tomando esta definição com todas as precauções recomendáveis). Vai, também, um pouco sacudido pelo que do seu carácter foi revelado. Cavaco não possui o estofo de um Presidente, nem um estilo que o dissimulasse. Foi o pior primeiro-ministro e o mais inepto Chefe do Estado da democracia. Baço, desajeitado, inculto sem cura, preconceituoso, assaltado por pequenas vinganças e latentes ódios, ele é o representante típico de um Portugal rançoso, supersticioso e ignorante, que tarda em deixar a indolência preguiçosa. Nada fez para ser o que tem sido. Já o escrevi, e repito: foi um incidente à espera de acontecer. Na galeria de presidentes com que, até agora, fomos presenteados, apenas encontro um seu equivalente: Américo Tomás. E, como este, perigoso. Pode praticar malfeitorias? Não duvido. Sobre ser portador daqueles adornos é uma criatura desprovida de convicções, de ideologia, de grandeza e de compaixão. Recupero o lamento de Herculano: "Isto dá vontade de morrer!"
(Baptista-Bastos, DN)
terça-feira, janeiro 18, 2011
OS TEXTOS ROÍDOS
Se a Literatura é – como disse Pedro Tamen – a única História possível do homem, ela é também uma história que se faz de intermináveis histórias, um permanente fazer e desfazer das tramas, como Penélope e o seu manto perante o assédio dos pretendentes.
Agora que se fala muito do Filme do Desassossego, venho de um jantar de amigos em que a autobiografia sem factos de Bernardo Soares – o Livro do Desassossego – foi servida como sobremesa. Entre outros, lemos o fragmento 452 da edição de Richard Zenith, que nos fala do aprendiz de escritório que coleccionava tudo o que pudesse encontrar sobre viagens.
Ia este jovem pelas agências de turismo, pedindo folhetos sobre viagens para Itália, para a Índia e outros lugares; tinha fotografias de barcos e navios, mapas de países e continentes; conhecia as ligações possíveis entre Portugal e a Austrália, entre Portugal e outros pontos do mundo. Diz o narrador que ele era o maior e o mais verdadeiro viajante, pois viajava com a alma e não com o corpo!
Também pelos meus catorze anos viajava desta forma. Como não podia visitar os Campos Elísios de Paris, as margens do Reno ou as ruínas imperiais de Roma, ia pelos balcões do Turismo Francês – na Rua do Ouro –, pela secção de turismo da Embaixada Alemã – que já não sei onde ficava –, e pelo Turismo de Itália (Ente Nazionale per il Turismo) – sediado no Marquês de Pombal –, e recolhia brochuras, mapas e informações sobre aqueles locais, viajando com a alma como o jovem aprendiz do escritório de Bernardo Soares. Uma vez, aí por 1962, fui mesmo à Embaixada de Cuba – que ficava, se não estou em erro, na Rua Pascoal de Melo – e vim de lá carregado de propaganda do novo regime de Fidel de Castro. Grande e revolucionário viajante era eu naquele tempo! Mas passemos adiante, não foram estes detalhes autobiográficos que aqui me trouxeram.
Do rapazinho do Livro do Desassossego fez Mário Cláudio o narrador da novela Boa Noite, Senhor Soares. Diz ele no capítulo V: Empenhava-me em ir recortando dos jornais velhos do patrão Vasques, e das revistas que ele assinava, as ilustrações que mais me atraíam, algumas delas representando os paquetes colossais, ou até mesmo os humildes cargueiros, e enchia com tudo isto, colado a goma arábica, cadernos e cadernos de almaço que guardava em caixas de cartão, e debaixo da cama.
Assim se entrecruzam os fios no manto de Penélope. É a Literatura como autofagia criadora – os textos roídos, como diz Machado de Assis no capítulo XVII de Dom Casmurro – , o desafio dos intertextos e o permanente recontar de histórias – esse canto de sereias que não se extingue e sempre desejamos ouvir. Era sobre isto que me interessava falar, não das minhas remotas experiências de viajar com a alma.
Agora que se fala muito do Filme do Desassossego, venho de um jantar de amigos em que a autobiografia sem factos de Bernardo Soares – o Livro do Desassossego – foi servida como sobremesa. Entre outros, lemos o fragmento 452 da edição de Richard Zenith, que nos fala do aprendiz de escritório que coleccionava tudo o que pudesse encontrar sobre viagens.
Ia este jovem pelas agências de turismo, pedindo folhetos sobre viagens para Itália, para a Índia e outros lugares; tinha fotografias de barcos e navios, mapas de países e continentes; conhecia as ligações possíveis entre Portugal e a Austrália, entre Portugal e outros pontos do mundo. Diz o narrador que ele era o maior e o mais verdadeiro viajante, pois viajava com a alma e não com o corpo!
Também pelos meus catorze anos viajava desta forma. Como não podia visitar os Campos Elísios de Paris, as margens do Reno ou as ruínas imperiais de Roma, ia pelos balcões do Turismo Francês – na Rua do Ouro –, pela secção de turismo da Embaixada Alemã – que já não sei onde ficava –, e pelo Turismo de Itália (Ente Nazionale per il Turismo) – sediado no Marquês de Pombal –, e recolhia brochuras, mapas e informações sobre aqueles locais, viajando com a alma como o jovem aprendiz do escritório de Bernardo Soares. Uma vez, aí por 1962, fui mesmo à Embaixada de Cuba – que ficava, se não estou em erro, na Rua Pascoal de Melo – e vim de lá carregado de propaganda do novo regime de Fidel de Castro. Grande e revolucionário viajante era eu naquele tempo! Mas passemos adiante, não foram estes detalhes autobiográficos que aqui me trouxeram.
Do rapazinho do Livro do Desassossego fez Mário Cláudio o narrador da novela Boa Noite, Senhor Soares. Diz ele no capítulo V: Empenhava-me em ir recortando dos jornais velhos do patrão Vasques, e das revistas que ele assinava, as ilustrações que mais me atraíam, algumas delas representando os paquetes colossais, ou até mesmo os humildes cargueiros, e enchia com tudo isto, colado a goma arábica, cadernos e cadernos de almaço que guardava em caixas de cartão, e debaixo da cama.
Assim se entrecruzam os fios no manto de Penélope. É a Literatura como autofagia criadora – os textos roídos, como diz Machado de Assis no capítulo XVII de Dom Casmurro – , o desafio dos intertextos e o permanente recontar de histórias – esse canto de sereias que não se extingue e sempre desejamos ouvir. Era sobre isto que me interessava falar, não das minhas remotas experiências de viajar com a alma.
quinta-feira, janeiro 13, 2011
ROMANCE AUTOBIOGRÁFICO E IRONIA
Detalhe de Flora na Primavera de Botticelli (c. 1478)A ironia de género do romance autobiográfico é herdeira da ironia romântica, signo de modernidade cujos efeitos ainda vivemos. Andei hoje à volta do tema – ociosidade própria de quem não tem que picar o ponto e anda relativamente distraído do que vai acontecendo nos mercados financeiros e na campanha eleitoral do país pequenino.
Se me perguntam porque está aí essa imagem, bela como uma Primavera por acontecer, respondo que faz capa na edição francesa dum grande livro: L’ ironie de Vladimir Jankelevitch, com o qual andei amigado no dia que passou.
Em termos estilísticos fala-se muito da ironia pura – que a Retórica consagrou – , da ironia disfemística, da restritiva e da contornante. Meti os olhos em todas elas, mas sem a mesma emoção de quem olha uma mulher bonita num transporte público e espera não a ver descer na paragem seguinte.
Apesar do que já li sobre o assunto, ainda me falta compreender a ironia do amor. Agradeço ensinamentos ou indicação de bibliografia.
Se me perguntam porque está aí essa imagem, bela como uma Primavera por acontecer, respondo que faz capa na edição francesa dum grande livro: L’ ironie de Vladimir Jankelevitch, com o qual andei amigado no dia que passou.
Em termos estilísticos fala-se muito da ironia pura – que a Retórica consagrou – , da ironia disfemística, da restritiva e da contornante. Meti os olhos em todas elas, mas sem a mesma emoção de quem olha uma mulher bonita num transporte público e espera não a ver descer na paragem seguinte.
Apesar do que já li sobre o assunto, ainda me falta compreender a ironia do amor. Agradeço ensinamentos ou indicação de bibliografia.
terça-feira, janeiro 11, 2011
EXCERTOS (5)
Talvez ele não fosse um sedutor, no sentido clássico do termo. Parecia viver um casamento descolorido, com um conjunto de problemas que o diário sumariamente refere, mas para Flora essa era a forma de sedução que mais lhe dizia, o apelo de partilhar com alguém um mesmo patamar de desencanto amoroso. A verdade é que nunca se deixara atrair pela vulgaridade dos galãs, nunca valorizara em demasia o aspecto físico dos homens nem a forma como se vestiam, indo mais pelos pequenos detalhes que revelam o ser e a alma: um sorriso tímido num cumprimento, a entoação especial duma palavra ou duma sílaba, o movimento das mãos enquanto falam.
segunda-feira, janeiro 10, 2011
GRANDE ENTREVISTA
Acabo de ver e ouvir a “Grande Entrevista” de Judite de Sousa na RTP 1. Surpreendeu-me o olhar ao mesmo tempo inteligente e incrédulo da jornalista – os olhos abismados sobre a figura parda do entrevistado – , perante as declarações do mais que certo ganhador das eleições presidenciais de 23 Janeiro. Segundo o próprio – o que parece causar-lhe algumas preocupações – , há seiscentos mil desempregados no nosso país, muitos deles, digo eu, beneficiando de subsídios de sobrevivência. No entanto, à data das suas aplicações financeiras na SLN/BPN, era, de acordo com a argumentação apresentada, um “mísero professor” que tinha de olhar pelas suas poupanças . Há uma falta de ética e proporção nas declarações deste senhor que se situam no campo da indignidade. Na Grécia, na Islândia ou na Irlanda nunca seria reeleito. Mas em Portugal, graças a Deus, tudo é possível.NO DIVÃ
Duas enfermidades há aí, cujos sintomas não descobrem as pessoas inespertas: uma é o amor, a outra é a ténia. Os sintomas do amor, em muitos indivíduos enfermos, confundem-se com os sintomas do idiotismo. É mister muito acume de vista e longa prática para discriminá-los. Passa o mesmo com a ténia, lombriga por excelência. O aspecto mórbido das vítimas daquele parasita, que é para os intestinos baixos aquilo que o amor é para os intestinos altos, confunde-se com os sintomas de graves achaques, desde o hidrotórax até à espinhela caída.Camilo Castelo Branco (1º Visconde de Correia Botelho) em “A Queda dum Anjo”
- Não há como o divã de Camilo para aliviar a depressão.
terça-feira, janeiro 04, 2011
"MAU TEMPO NO CANAL"
Aí está o canal – um braço de mar que separa a cidade da Horta, ilha do Faial, da ilha do Pico com o seu ápice de neve e o seu anel de nuvens. O mau tempo é metáfora – a Vitorino Nemésio não interessa a meteorologia, antes a vida sofrida do povo e a prosápia das famílias gradas, unidos, apesar de tudo, pela igual condição de ilhéus, permanentes candidatos à diáspora. João de Melo, outro escritor açoriano, fala-nos de gente feliz com lágrimas.Neste romance, cujo tempo narrativo decorre entre 1917 e 1919, não há luta de classes nem consciência disso. Os grandes senhores amam os seus servidores e estes respeitam-nos como se não pudesse ser de outra forma. Veja-se o desvelo com que é assistido na doença, pelos seus patrões Margarida Dulmo e Roberto Clark, o criado Manuel Bana.
Por isto, e pelo rigor com que nele é traçado o perfil psicológico das personagens – nomeadamente o da protagonista Margarida Dulmo – podemos considerá-lo próximo da estética presencista, embora ele suplante em originalidade e fôlego tudo o que foi feito, em matéria de romance, pelos homens da revista presença.
Vitorino Nemésio, distante e crítico em relação a José Régio, ainda colaborou em dois números da folha de arte e crítica coimbrã. É curioso que em Mau Tempo no Canal utilize a expressão “jogo da cabra-cega” numa acepção idêntica à que lhe deu o poeta de Vila do Conde e Portalegre no seu livro com aquele título: “Na velhacaria do Ladeira entrava um conhecimento quase táctil das coisas, um jogo da cabra-cega feito pelo seguro da mão, curta e rente da rasa” (capítulo “A íris da aranha” de Mau Tempo no Canal).
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