quarta-feira, setembro 11, 2013

"A VIAGEM DO ELEFANTE"

Já não era sem tempo: vou seguir a viagem de Salomão e do seu cornaca até ao coração da Europa. Tenho dois dias.
  

ESTADOS MÓRBIDOS

Sei bem quem me pegou o vírus. Mas vai passar.

ANDRÉ DE GOUVEIA, BORDÉUS E OS BORDALESES


ANDRÉ DE GOUVEIA, nascido em Beja, talvez em 1497, fez os seus estudos superiores no Colégio de Santa Bárbara, em Paris, tendo sido escolhido para dirigir o Colégio de Guyenne, em Bordéus.
É de Bordéus que vem para Portugal, a convite de D. João III, para dirigir o Colégio das Artes de Coimbra.
Tentou, com os colegas bordaleses que o acompanharam, a reforma do ensino superior em Portugal, numa altura em que se confrontavam os saberes da escolástica com os dos humanismo nascente.
Dele disse D. Gonçalo Pinheiro, bispo de Safim, em carta a D. João III, datada de 1539: Mestre Dieguo de Gouvea, homem bem docto e de virtude, (…) he principal do Colegio de Bordeos e me dizem estes comissairos del rei de França que he de tanta seueridade e exempro que os estudantes aproueitam muito mais com seu temor que com a doctrina.
Falecido em 1548, presos pelo Santo Ofício os seus mais directos colaboradores (João da Costa, Diogo de Teive e Jorge Buchanan) o ideal erasmiano e humanista passou a ser visto como heresia. E o Colégio Real das Artes foi entregue à Companhia de  Jesus.
Flèche Saint Michel
Cathédrale Saint André
Porte de Bourgogne

ANABELA, "Pensando em Ti"


terça-feira, setembro 10, 2013

GISELA JOÃO - "Meu Amigo Está Longe"


ESCREVER NA NOITE

Diz-se que havia em Alexandria, na célebre biblioteca destruída por um incêndio já não sei bem em que século, um pergaminho versando em tratado as patologias do amor e, o que é mais surpreendente, prescrevendo  remédios para tão insidiosos males.  
Borges, o argentino, terá tido uma visão fugaz do misterioso rolo  ao contemplar, numa dobra do tempo de Deus, o Aleph da cave da Rua Garay  de Buenos Aires.
Um pouco mais para trás, um mensageiro  que veio anunciar o Quinto Império à corte de D. João V, por isso mesmo relaxado em carne, depois de torturado  e obrigado a falar pelos esbirros da Santa Inquisição, trouxe notícia do documento, salvo das chamas por um poeta neotérico cujo nome se perdeu na voragem dos séculos.
Ninguém levou a sério o mensageiro, o que acho natural.  
Por mim, ainda não desisti  de o encontrar, mas desiludam-se os ingénuos: só me move a vaidade intelectual da pesquisa, pois há muito que deixei de acreditar no amor.

segunda-feira, setembro 09, 2013

"BOMBA RELÓGIO", este domingo

"O teu amor quando palpita / verdade seja dita / põe rastilho no meu peito / trinta batidas num só beijo / sem defeito / (...) faz-me o corpo todo um baque / e toca e foge e toca e foge / é uma bomba relógio." CRISTINA BRANCO, letra de SÉRGIO GODINHO.
 

domingo, setembro 08, 2013

sábado, setembro 07, 2013

HOJE E AMANHÃ, NA FESTA DA MARGEM ESQUERDA


COMO CHEGAR A ST MICHEL DE MONTAIGNE

A estação está desactivada, mas é servida, como apeadeiro, duas vezes ao dia. Fica a pouco mais de 3 quilómetros de St Michel de Montaigne, Dordogne. Depois é ir a pé, bebendo a poesia dos campos como os pastores da Arcádia.

terça-feira, setembro 03, 2013

ROMANCEIRO

(...)
- «Renego de ti, demónio,
Que me estavas a atentar!
A minha alma é só de Deus;
O corpo dou eu ao mar.»
Tomou-o um anjo nos braços,
Não no deixou afogar,
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a nau Catrineta
Estava em terra a varar.

"A NAU CATRINETA"

segunda-feira, setembro 02, 2013

ISABEL DE ARAGÃO ou RAINHA SANTA ISABEL (Saragoça, 1271 - Estremoz, 1336)

O milagre da consorte do nosso rei trovador evocado num vitral da Cathédrale Notre-Dame Ste-Marie de Dax (Landes):
SEIGNEUR DIT ELISABETH
CE SONT DES ROSES
 

domingo, setembro 01, 2013

SETEMBRO


Agosto acabou como um milagre inconsútil,
com os seus teares de luz extinguindo-se
na trama roxa da noite.
Continuarei a sentar-me diante do mar,
mas escusas de vir: bastam-me,
na promessa do novo mês,
o sol e o sal sobre a pele,
o triângulo duma vela de barco,
fendendo, como numa epopeia,
a superfície rasa das águas.


1-9-2013

sábado, agosto 31, 2013

quinta-feira, agosto 29, 2013

NO SUSPEITO CONFORMISMO, poema leve com gatos

Gato de Mont-de-Marsan

Os poemas são poliedros do indizível, irregulares
volutas nas sombras parietais dos sonhos sonhados.
Por isso – e não por qualquer outra razão
mais ou menos válida – é que cada um vê neles
aquilo que muito bem quer ver:
planície ou montanha, ribeiro ou estuário, árvore
ou floresta. Já cheguei a pensar – mas isso
é algo de que muitas vezes me rio por não ser coisa
de levar a sério – que os poemas têm parecenças
com os gatos: felpudos e incertos, belos e perigosos,
fugidios moradores das nossas almas de donos
                                                              angustiados
no suspeito conformismo
de nos descobrirem sempre de maneira diferente.

29-8-2013

TANGO NA RUA

Esta noite, na estação do Cais do Sodré

terça-feira, agosto 27, 2013


Estou à beira do mar e espero sob este vento
que risca de cabeleiras brancas a superfície
das águas. Pergunto-me que frases,
que palavras devo dizer que não venham
nos dicionários informais do amor,
que gestos me devo permitir
para além dos imponderáveis acenos
ou dos cerrados encontros das mãos.
Esperarei como se não tivesse feito mais nada
desde o princípio dos tempos,
com o mesmo desejo de quem volta  
de uma longa viagem
e abre a porta de casa para morar num novo lugar
ou se abrigar no coração de alguém.

26-8-2013

 

segunda-feira, agosto 26, 2013

CENOTÁFIO DE GOYA

No Cimetière de la Chartreuse, em Bordéus. Entre outras inscrições, as seguintes: "Mort a Bordeaux en 1828" e "Le celèbre peintre a reposé en face a huit metres d' ici. Ses cendres ont été transportées a Madrid en 1899 et son tombeau a Saragosse en 1927."

domingo, agosto 25, 2013

A TORRE DE MONTAIGNE


"A primeira de todas as coisas deste mundo é saber pertencer a si mesmo. Já é tempo de nos desligarmos da sociedade, posto que nada podemos procurar nela, e a quem não pode emprestar, imponha-se o sacrifício de não pedir emprestado. Quando nos faltar alento, retiremo-nos e concentremo-nos. Aquele que puder deitar por terra, tirando-as das suas próprias forças, as obrigações da amizade e da sociedade, que o faça. No período de decaimento que converte o homem em ser inútil, pesado e importuno para os outros, livre-se de ser importuno para si mesmo, pesado e inútil. Curve-se e acaricie-se, e sobretudo governe-se, respeitando e temendo a sua razão, e a sua consciência até ao ponto em que não possa, sem que o seu poder sofra, tropeçar na presença delas."

MONTAIGNE, Ensaios

sábado, agosto 24, 2013

A VÉNUS COM CORNO

Baixo-relevo do paleolítico superior - Musée d´Aquitaine, Bordéus
 
Vénus com corno, do ventre inchado e rasgado
na sucessão natural dos compassos lunares.
Ubérrima mãe da humanidade nascente,
                                                 Eva sem pecado
– que artista te arrancou à pedra da gruta,
ao olvido glaciar dos profundos milénios?
Não nasceste das águas, como a dos panteões,
não geraste a linhagem de Eneias
de que nos fala o Mantuano no seu poema.
Deusa dum Olimpo sem deuses e arroubos épicos,
Citereia de carne e sangue,
                                                  minha avó e amante.
 
14-8-2013



sexta-feira, agosto 23, 2013

PONTE-CANAL DE AGEN

Ponte-canal de Agen (Lot et Garonne), 18 de Agosto de 2013. Os barquinhos passam sobre a ponte. Vem-me à memória um filme com Jean Gabin, de 1959: "Le baron de l´écluse".

quinta-feira, agosto 22, 2013

"CYRANO", de Edmond Rostand

Bergerac, 17 de Agosto de 2013
 
Um Cyrano histórico (1619-1655), cantado na comédia heróica de Edmond Rostand,  que na verdade não era de Bergerac, mas de Paris. Poeta, espadachim, mosqueteiro do rei, fidalgo insolente e extravagante, só para efeitos de nobilitação juntou ao seu nome o título "de Bergerac". A cidade ficou-lhe agradecida.

domingo, agosto 11, 2013

"CYRANO DE BERGERAC"

 
 
CYRANO:
Quem amo?... Pensa bem. A mim, é-me interdito
sonhar que me amem, pois nem a mais feia o pede,
que sempre um quarto de hora o nariz me precede;
Então, eu amo quem?... Mas já decerto viste!
Amo - mas é forçoso! - a mais bela que existe!
 
EDMOND ROSTAND, Cyrano de Bergerac, edição bilingue de Vasco Graça Moura, Lisboa, Bertrand Editora, 2007, p. 151. 




sábado, agosto 10, 2013

MONTAIGNE - SOBRE A AMIZADE E O AMOR

A afeição para com as mulheres, embora nasça da nossa escolha, também não se pode equiparar à amizade. O seu fogo, confesso-o, é mais activo, mais forte e mais rude, mas é um fogo temerário,  inseguro, ondulante e vário; fogo febril, sujeito a acessos e intermitências e que só se apodera de nós por um lado. Na amizade, pelo contrário, o calor é geral, igualmente distribuído por todas as partes, temperado; um calor constante e tranquilo, todo doçura e sem asperezas, que nada tem de violento nem de possante.
(…) Quanto ao matrimónio, e o facto de ser um mercado em que só a entrada é livre, se considerarmos que a sua duração é obrigatória e forçada, e dependente de circunstâncias alheias à nossa vontade, obedece ordinariamente a fins bastardos; acontecem nele uma quantidade de acidentes que os esposos têm que resolver, os quais bastam para romper o fio da afeição e alterar o curso da mesma, enquanto na amizade não há nada que lhe ponha travões por ser ela própria o seu fim.
 
MICHEL DE MONTAIGNE, Ensaios, Lisboa, Amigos do Livro, s/d, pp. 154-156.

quinta-feira, agosto 08, 2013

"POEMA PARA JULIANO O APÓSTATA"

Casa de Cultura MARIO QUINTANA, Porto Alegre, Outubro de 2012
No tempo dos deuses tudo
era simples como eles
e natural e humano
e eles reinavam no mundo.

Mas veio um deus usurpador e único
e tornou o mundo incompreensível
porque o seu reino não era deste mundo.
     
E até hoje ninguém soube por que então ele expulsou os outros
                                                                                       [deuses
e ficou reinando sozinho
e fez todos os homens pecarem
- coisa que eles jamais haviam feito antes -
porque pecar com inocência não é pecar...

E os homens conheceram o terror maravilhoso do pecado
- e assim o novo deus lhes trouxe uma volúpia nova.

MARIO QUINTANA

segunda-feira, agosto 05, 2013

CINCO HAICAIS* SOBRE BORBOLETAS


1
Amo as borboletas:
bolhas de luz, enganosas
setas coloridas.

2
Vão na direcção
do sol, roubam a ironia
a quem lhes resiste.

3
Amo as borboletas
de tetra e tântricas asas:
faúlhas de amor.

4
Borboletas são
as grandes violadoras
do sono dos justos.

5
Amo as borboletas
inda que não queira amá-las.
Amores fugazes.


*  Haicai: breve composição poética, de origem japonesa, que se funda nas relações profundas entre homem e natureza, nos conceitos de transitoriedade e fugacidade, obedecendo à estrutura formal de 17 sílabas métricas distribuídas em 3 versos (5-7-5).