terça-feira, setembro 03, 2013

ROMANCEIRO

(...)
- «Renego de ti, demónio,
Que me estavas a atentar!
A minha alma é só de Deus;
O corpo dou eu ao mar.»
Tomou-o um anjo nos braços,
Não no deixou afogar,
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a nau Catrineta
Estava em terra a varar.

"A NAU CATRINETA"

segunda-feira, setembro 02, 2013

ISABEL DE ARAGÃO ou RAINHA SANTA ISABEL (Saragoça, 1271 - Estremoz, 1336)

O milagre da consorte do nosso rei trovador evocado num vitral da Cathédrale Notre-Dame Ste-Marie de Dax (Landes):
SEIGNEUR DIT ELISABETH
CE SONT DES ROSES
 

domingo, setembro 01, 2013

SETEMBRO


Agosto acabou como um milagre inconsútil,
com os seus teares de luz extinguindo-se
na trama roxa da noite.
Continuarei a sentar-me diante do mar,
mas escusas de vir: bastam-me,
na promessa do novo mês,
o sol e o sal sobre a pele,
o triângulo duma vela de barco,
fendendo, como numa epopeia,
a superfície rasa das águas.


1-9-2013

sábado, agosto 31, 2013

quinta-feira, agosto 29, 2013

NO SUSPEITO CONFORMISMO, poema leve com gatos

Gato de Mont-de-Marsan

Os poemas são poliedros do indizível, irregulares
volutas nas sombras parietais dos sonhos sonhados.
Por isso – e não por qualquer outra razão
mais ou menos válida – é que cada um vê neles
aquilo que muito bem quer ver:
planície ou montanha, ribeiro ou estuário, árvore
ou floresta. Já cheguei a pensar – mas isso
é algo de que muitas vezes me rio por não ser coisa
de levar a sério – que os poemas têm parecenças
com os gatos: felpudos e incertos, belos e perigosos,
fugidios moradores das nossas almas de donos
                                                              angustiados
no suspeito conformismo
de nos descobrirem sempre de maneira diferente.

29-8-2013

TANGO NA RUA

Esta noite, na estação do Cais do Sodré

terça-feira, agosto 27, 2013


Estou à beira do mar e espero sob este vento
que risca de cabeleiras brancas a superfície
das águas. Pergunto-me que frases,
que palavras devo dizer que não venham
nos dicionários informais do amor,
que gestos me devo permitir
para além dos imponderáveis acenos
ou dos cerrados encontros das mãos.
Esperarei como se não tivesse feito mais nada
desde o princípio dos tempos,
com o mesmo desejo de quem volta  
de uma longa viagem
e abre a porta de casa para morar num novo lugar
ou se abrigar no coração de alguém.

26-8-2013

 

segunda-feira, agosto 26, 2013

CENOTÁFIO DE GOYA

No Cimetière de la Chartreuse, em Bordéus. Entre outras inscrições, as seguintes: "Mort a Bordeaux en 1828" e "Le celèbre peintre a reposé en face a huit metres d' ici. Ses cendres ont été transportées a Madrid en 1899 et son tombeau a Saragosse en 1927."

domingo, agosto 25, 2013

A TORRE DE MONTAIGNE


"A primeira de todas as coisas deste mundo é saber pertencer a si mesmo. Já é tempo de nos desligarmos da sociedade, posto que nada podemos procurar nela, e a quem não pode emprestar, imponha-se o sacrifício de não pedir emprestado. Quando nos faltar alento, retiremo-nos e concentremo-nos. Aquele que puder deitar por terra, tirando-as das suas próprias forças, as obrigações da amizade e da sociedade, que o faça. No período de decaimento que converte o homem em ser inútil, pesado e importuno para os outros, livre-se de ser importuno para si mesmo, pesado e inútil. Curve-se e acaricie-se, e sobretudo governe-se, respeitando e temendo a sua razão, e a sua consciência até ao ponto em que não possa, sem que o seu poder sofra, tropeçar na presença delas."

MONTAIGNE, Ensaios

sábado, agosto 24, 2013

A VÉNUS COM CORNO

Baixo-relevo do paleolítico superior - Musée d´Aquitaine, Bordéus
 
Vénus com corno, do ventre inchado e rasgado
na sucessão natural dos compassos lunares.
Ubérrima mãe da humanidade nascente,
                                                 Eva sem pecado
– que artista te arrancou à pedra da gruta,
ao olvido glaciar dos profundos milénios?
Não nasceste das águas, como a dos panteões,
não geraste a linhagem de Eneias
de que nos fala o Mantuano no seu poema.
Deusa dum Olimpo sem deuses e arroubos épicos,
Citereia de carne e sangue,
                                                  minha avó e amante.
 
14-8-2013



sexta-feira, agosto 23, 2013

PONTE-CANAL DE AGEN

Ponte-canal de Agen (Lot et Garonne), 18 de Agosto de 2013. Os barquinhos passam sobre a ponte. Vem-me à memória um filme com Jean Gabin, de 1959: "Le baron de l´écluse".

quinta-feira, agosto 22, 2013

"CYRANO", de Edmond Rostand

Bergerac, 17 de Agosto de 2013
 
Um Cyrano histórico (1619-1655), cantado na comédia heróica de Edmond Rostand,  que na verdade não era de Bergerac, mas de Paris. Poeta, espadachim, mosqueteiro do rei, fidalgo insolente e extravagante, só para efeitos de nobilitação juntou ao seu nome o título "de Bergerac". A cidade ficou-lhe agradecida.

domingo, agosto 11, 2013

"CYRANO DE BERGERAC"

 
 
CYRANO:
Quem amo?... Pensa bem. A mim, é-me interdito
sonhar que me amem, pois nem a mais feia o pede,
que sempre um quarto de hora o nariz me precede;
Então, eu amo quem?... Mas já decerto viste!
Amo - mas é forçoso! - a mais bela que existe!
 
EDMOND ROSTAND, Cyrano de Bergerac, edição bilingue de Vasco Graça Moura, Lisboa, Bertrand Editora, 2007, p. 151. 




sábado, agosto 10, 2013

MONTAIGNE - SOBRE A AMIZADE E O AMOR

A afeição para com as mulheres, embora nasça da nossa escolha, também não se pode equiparar à amizade. O seu fogo, confesso-o, é mais activo, mais forte e mais rude, mas é um fogo temerário,  inseguro, ondulante e vário; fogo febril, sujeito a acessos e intermitências e que só se apodera de nós por um lado. Na amizade, pelo contrário, o calor é geral, igualmente distribuído por todas as partes, temperado; um calor constante e tranquilo, todo doçura e sem asperezas, que nada tem de violento nem de possante.
(…) Quanto ao matrimónio, e o facto de ser um mercado em que só a entrada é livre, se considerarmos que a sua duração é obrigatória e forçada, e dependente de circunstâncias alheias à nossa vontade, obedece ordinariamente a fins bastardos; acontecem nele uma quantidade de acidentes que os esposos têm que resolver, os quais bastam para romper o fio da afeição e alterar o curso da mesma, enquanto na amizade não há nada que lhe ponha travões por ser ela própria o seu fim.
 
MICHEL DE MONTAIGNE, Ensaios, Lisboa, Amigos do Livro, s/d, pp. 154-156.

quinta-feira, agosto 08, 2013

"POEMA PARA JULIANO O APÓSTATA"

Casa de Cultura MARIO QUINTANA, Porto Alegre, Outubro de 2012
No tempo dos deuses tudo
era simples como eles
e natural e humano
e eles reinavam no mundo.

Mas veio um deus usurpador e único
e tornou o mundo incompreensível
porque o seu reino não era deste mundo.
     
E até hoje ninguém soube por que então ele expulsou os outros
                                                                                       [deuses
e ficou reinando sozinho
e fez todos os homens pecarem
- coisa que eles jamais haviam feito antes -
porque pecar com inocência não é pecar...

E os homens conheceram o terror maravilhoso do pecado
- e assim o novo deus lhes trouxe uma volúpia nova.

MARIO QUINTANA

segunda-feira, agosto 05, 2013

CINCO HAICAIS* SOBRE BORBOLETAS


1
Amo as borboletas:
bolhas de luz, enganosas
setas coloridas.

2
Vão na direcção
do sol, roubam a ironia
a quem lhes resiste.

3
Amo as borboletas
de tetra e tântricas asas:
faúlhas de amor.

4
Borboletas são
as grandes violadoras
do sono dos justos.

5
Amo as borboletas
inda que não queira amá-las.
Amores fugazes.


*  Haicai: breve composição poética, de origem japonesa, que se funda nas relações profundas entre homem e natureza, nos conceitos de transitoriedade e fugacidade, obedecendo à estrutura formal de 17 sílabas métricas distribuídas em 3 versos (5-7-5).
 

quarta-feira, julho 31, 2013

"UMA AVENTURA DO ESPÍRITO"

O castelo de Montaigne, no departamento francês de Dordogne, segundo uma gravura de Léo Drouyn (1864)

"Ce ne sont mes gestes que j´escris, c´est moy, c´est mon essence." (Essais, II, 6, 359c)
"Les autheurs se communiquent au peuple par quelque marque particuliere et estrangere; moy, le premier, par mon estre universel, comme Michel de Montaigne, non comme grammairien ou poëte ou jurisconsulte." (Essais, III, 2, 782c)

sábado, julho 27, 2013

A BUSCA DO EU

CASTELO DE SAINT MICHEL DE MONTAIGNE
Mon stile et mon esprit vont vagabondant de mesmes (Essais, III, 9, 937c).

quinta-feira, julho 25, 2013

Saint Michel de Montaigne, Dordogne

É no período histórico do Renascimento que se agudiza no homem o sentimento da efémera duração da vida e que se lhe coloca a necessidade de se perpetuar pela memória. O retrato pictórico surge então entre as elites sociais como uma forma de imortalização, enquanto os artistas, entretanto reconhecidos no seu estatuto de criadores do belo, manifestam uma tendência para se auto-retratarem, tanto em figuração individual como inserida em obras de motivação religiosa. É desta forma que Piero della Francesca se representa como soldado adormecido na Ressurreição (1463-65); que Sandro Botticelli pinta a sua figura na Adoração dos Reis Magos (1475) ao lado de vários membros da família Medicis; e que Albrecht Dürer se faz representar no Martírio dos Dez Mil Cristãos (1495-96), atravessando a paisagem saturada de sofrimento e morte na companhia de um amigo. É ainda sob o influxo do espírito renascentista que Michel de Montaigne empreende os Essais, uma tentativa de descobrir o seu íntimo profundo. Não pretende o senhor de Montaigne fixar a história da sua vida, mas captar o sentido oculto duma personalidade que não se mantém igual a si mesma, que flui e se transforma como tudo o que é humano e aspira à perfeição. O título dado aos seus escritos deixa transparecer a instabilidade e a incompletude do eu que se busca, a dimensão do provisório no processo de introspecção. Escrevendo, lendo, rescrevendo, Montaigne faz o que mais tarde faria Rembrandt ao pintar sucessivos auto-retratos à espera de em algum deles finalmente se reconhecer.

quarta-feira, julho 24, 2013

"QUE SAIS-JE?" - Divisa de Michel de Montaigne

Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592), Esplanade des Quinconces, Bordéus
 "Os Essais organizam-se em torno de um eu, que lhes dá corpo e neles se revela, e, embora assumam de modo particular a relação com essa figura que lhes é central, não se reconhecendo por isso em nenhuma das formas literárias onde se assiste a idêntica valorização do sujeito da escrita, situam-se na encruzilhada do memorialístico com o epistolar, diário com a autobiografia, e abrem-se ainda à reflexão filosófica e à contemplação meditativa."
“Il n´est description pareille en difficulté de la description de soy-mesmes.”
(II, 6, 358c)
“Je ne me trouve pas où je me cherche; et me trouve plus par rencontre que par l’ inquisition de mon jugement.”
(I, 10, 41-42c)
 
 
RIBEIRO,  Cristina Almeida – “Literatura Francesa Clássica”, Universidade Aberta, pp. 217-233.


domingo, julho 21, 2013

"SORRISO TRISTE"


Deu-me vontade de beijar não esses lábios, mas o seu sorriso: como se fora possível beijar uma melodia.
 
- Narrador do conto "Sorriso Triste", de JOSÉ RÉGIO, em Histórias de Mulheres. 

quinta-feira, julho 18, 2013

O ACORDO, filme a não perder

«Sinopse e detalhes  
Um adolescente é preso injustamente por um crime que não cometeu e, após ser julgado, acaba sendo condenado a 10 anos de prisão. Desesperado, seu pai John Matthews (Dwayne Johnson) está disposto a qualquer acordo para livrá-lo da cadeia. É quando recebe a proposta de uma promotora federal (Susan Sarandon) para que trabalhe como agente infiltrado em uma operação em andamento, que tem por meta capturar um poderoso chefão das drogas (Benjamin Bratt).»
VOU TENTAR PERCEBER QUEM SÃO O FILHO E O PAI, A PROMOTORA FEDERAL E O PODEROSO CHEFÃO DAS DROGAS. O tema parece-me estranhamente familiar. Não quero perder, mas só depois do debate da moção de censura, às 15 horas.

segunda-feira, julho 15, 2013

ORAÇÃO AOS MERCADOS

Mercados que estais em toda a parte
Reverenciadas sejam as Vossas Decisões
Venha a nós a Vossa Sabedoria
Seja feita a Vossa Vontade
Assim nos Bancos como nas Bolsas
Os Títulos de Dívida nos comprai hoje
Perdoai-nos as nossas crises políticas
Assim como nós perdoamos
A quem as tem conduzido
E não nos deixeis cair em privação
Mas livrai-nos do Défice
Amém

segunda-feira, julho 08, 2013

"INGLESA", de António Nobre

Porto, 16 de Agosto de 1867 - Foz do Douro, 18 de Março de 1900
 
I
Chama-se Ellen. Nasceu na Grã-Bretanha, e diz-se
Que Deus copiou o céu daquele olhar de Miss.
II
É casta, é ingénua, é boa e tem dez anos só:
Dez rosas da existência extintas sobre o pó!
III
 
E dizem que ela foi, numa manhã radiosa,
Gerada pelo sol no ventre de uma rosa!
IV
De maneira que são – como de mais ninguém –,
Os lírios seus irmãos; a rosa sua mãe!
(…)
O resto em Primeiros Versos (1882-1889), Porto, Lello & Irmãos, 1984, pp. 22-24


quinta-feira, julho 04, 2013

FRANZ KAFKA

Praga, 1883 - Kierling, 1924

Quantas pessoas que coxeiam se julgam mais perto de voar do que aquelas que caminham. Muitas coisas falam por elas. E porque coisa muitas coisas não falariam?
O celibato e o suicídio situam-se em degraus semelhantes de conhecimento; de modo algum o suicídio e o martírio, talvez na realidade o casamento e o martírio.
A ociosidade é o início de todos os vícios, o coroamento de todas as virtudes.
Ao mestre, a verdadeira ausência de dúvida; ao aluno, a sua ausência perpétua.
O verdadeiro caminho passa sobre uma corda que não está estendida no espaço, mas quase ao rés do solo. Parece destinada a fazer tropeçar e não a ser percorrida.
 
“Meditações”, Antologia de Páginas Íntimas, tradução de Alfredo Margarido, Editores Reunidos.

O VERÃO NÃO DESARMA

Anna Chapman, sexy spy, oferecendo-se para casar com o pobre Edward Snowden, dando-lhe assim a possibilidade de obter a cidadania russa. Um episódio muito mais interessante que os intricados sucessos do voo de Evo Morales no espaço aéreo português, as diatribes de Portas, as patéticas declarações de Passos ou os números circenses do palhaço de Belém. Felizmente que o Verão não desarma.

40 GRAUS À SOMBRA


terça-feira, julho 02, 2013

SEGUNDO DIA DE JULHO

Hoje, o ar está finalmente mais fresco e respirável. Como é bom ir para fora de portas e bebê-lo a plenos pulmões.

CARTA ABERTA AO EX-MINISTRO GASPAR


Excelentíssimo Senhor,
Entre ontem e hoje – logo que tive conhecimento do seu pedido de demissão –, procurei-o no Ministério das Finanças, na sede local do FMI à Avenida da República, até na Buenos Aires, naquele nobre espaço onde se acoita a plêiade de génios que tanto têm feito pela salvação da nossa querida Pátria. Não consegui encontrá-lo, daí que me veja obrigado a escrever-lhe esta carta.
Pretendo manifestar-lhe o meu maior apreço. Estrangeirado que é, na linha de ilustres portugueses como Luís António Verney e Sebastião de Carvalho e Melo, Vossa Excelência foi uma lufada de ar fresco numa classe política caduca, obsoleta e corrompida, constituída por bacharéis de baixa extracção, ex-operários estalinistas, economistas de saberes duvidosos e titulares de cursos académicos obtidos por processos mais ou menos obscuros.
Se lhe escrevo – perdoe-me a impertinência – é porque para além da grande admiração que pretendo manifestar-lhe, duas coisas, apenas duas, acho por bem fazer notar junto de um alto espírito que por direito se constituiu como esperança e reserva moral deste pobre país.
Primeira delas: proferiu Vossa Excelência, num momento crítico em que a oposição socialista-comunista-bloquista pretendia rebaixar as altas qualificações morais da sua pessoa, uma afirmação que ainda hoje guardo no meu coração: “eu não minto, eu não engano, eu não ludibrio”. Assim, muito me surpreendeu a carta deixada ao nosso esforçado primeiro-ministro – que Deus e Nossa Senhora de Fátima o guardem! – pela qual se soube estar Vossa Excelência para abandonar o governo da Nação desde, pelo menos, 22 de Outubro de 2012, sem que nós, seus indefectíveis admiradores, sequer o suspeitássemos. Estávamos nós descansados, pensando que Vossa Excelência se encontrava a trabalhar, de ânimo firme, para superar o mal causado pelo desgoverno socialista, e afinal andava a preparar a sua saída, com um pé já fora do governo, como qualquer rato de bordo perante o naufrágio iminente. Por outras palavras, andava Vossa Excelência a mentir, a enganar e a ludibriar os que em si confiavam.
Segunda coisa, mais delicada, ter Vossa Excelência garantido, não há muito tempo, que todo o trabalho que arduamente desenvolvia ao serviço da Nação era para pagar o investimento feito pelo erário público na sua formação escolar – aliás notável – , desde os tempos distantes do ensino pré-primário ao brilhantismo do MBA e outras graduações académicas. Pois aqui é que está o problema, ficando-se sem saber, ao ter interrompido de forma tão abrupta as suas funções, se chegou a liquidar na íntegra essa dívida espontaneamente assumida. Considerando que Vossa Excelência cessou os pagamentos a meio do prazo estipulado, quando ainda faltavam dois anos para o termo da legislatura, então só terá liquidado metade, pelo que será de considerar, em nome da sua honra e do seu bom nome, que entregue em dinheiro ou espécie a parte que ainda lhe falta pagar.  
Sabemos que os tempos estão difíceis, que Vossa Excelência tem mulher e filhos necessitados de apoio financeiro e que, se calhar, algum período de carência se lhe antolhará até à sua merecida reintegração em algum rendoso emprego em Frankfurt, Washington D.C. ou Bruxelas. Para obviar a tão delicada situação, poderá Vossa Excelência fazer um plano de pagamentos em 24 prestações suaves até ao fim desta legislatura, a qual – para bem da Pátria e graças a homens como Pedro Coelho e Aníbal Silva – , não será certamente interrompida pelo furor esquerdista e antipatriótico de Seguros, Jerónimos e quejandos.
Como não me ocorre mais nada, e ainda aturdido por tão inesperado desfecho da sua carreira política em Portugal, termino desejando-lhe as maiores felicidades, esperando que saia depressa deste país minúsculo que o não merece e que tão más recordações certamente lhe terá deixado.
Sem outro assunto, creia-me seu admirador estreme e dedicado que se subscreve com  apreço, estima e veneração,
 

segunda-feira, julho 01, 2013

PRIMEIRO DE JULHO

 
O mês entrou da melhor maneira: o ar é mais puro, ondulam nas praias as bandeiras azuis, começam a retirar-se os ogres que têm assustado as criancinhas. Em Belém, sobretudo em Belém dá gosto passear na orla do rio.  Primeiro de Julho com sabor a Primavera.

À VOLTA DO MESMO

Mas há alguma dúvida de que este governo pudesse não conhecer os contratos swap negociados pelas empresas públicas? A existência destes contratos – cujos resultados até poderiam ter sido vantajosos, não se tivesse dado, devido à crise financeira, a queda das taxas de juro –, nem precisaria de ser transmitida ao novo ministro das finanças por Teixeira dos Santos, pois obrigação natural de qualquer governo é inteirar-se dos instrumentos de gestão financeira das empresas públicas que tutela.
Se Gaspar, o ogre, mais a sua secretária de estado – loira bonita e, sabe-se agora, também mentirosa –  não agiram, é porque sempre estiveram mais interessados em ir ao bolso dos reformados e funcionários públicos do que em afrontar os interesses dos banqueiros que lhes garantem as prebendas e asseguram o futuro.
Claro que, dois anos depois, com os prejuízos a aumentarem, tinham que sacudir a água do capote e fazer o papel de donzelas ofendidas.
A História, essa velha senhora, falará deles como merecem.
 

DISSONÂNCIAS


Um grande livro é um grande mal.
          CALÍMACO, poeta e gramático grego, 310 a. C. – 240 a. C.

Além disso, meu filho, presta atenção: escrever livros é um trabalho sem fim, e muito estudo cansa o corpo.
          Eclesiastes, 12, 12

Livros são papéis pintados com tinta. / Estudar é uma coisa em que está indistinta / A distinção entre nada e coisa nenhuma.
          FERNANDO PESSOA, “Liberdade”