quinta-feira, março 22, 2012

A FICÇÃO E O MUNDO

Umberto Eco
Leio um texto de Umberto Eco: “O Estranho Caso  da Rue Servandoni”, relacionado com Os Três Mosqueteiros de Dumas, quinto capítulo de Seis Passeios nos Bosques da Ficção. Trata dos pactos ficcionais, das relações entre ficção e História, entre ficção e mundo real. E então coloca-se a seguinte questão: que diria o leitor de um romancista que numa das suas obras colocasse o Empire State Building em Berlim e a Alexanderplatz num bairro de Nova Iorque?  O processo de suspensão da incredulidade, que leva o leitor a aceitar o lobo falante do Capuchinho Vermelho ou a metamorfose de Gregor Samsa no livro de Kafka, parece não funcionar aqui. A não ser que se trate de ficção do género nonsense… Isto deu-me umas ideias para um certo trabalho sobre A Velha Casa.
ECO, Umberto – Seis Passeios nos Bosques da Ficção, DIFEL, 1995, pp. 103-122.

terça-feira, março 20, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (10)


Leio nas estrofes dum poema de Apollinaire
a inelutável revogação do amor: um rio
que passa na distância das margens
sob a sombra oblíqua duma ponte. Nas águas
passadas de outro rio, procuro os  lugares
e  paisagens de antigas viagens: fotografias
guardadas em velhos álbuns,
carcereiros taciturnos
de um tempo que só a imaginação
aprisiona : memórias
de quando os teus cabelos dormiam
espalhados na minha almofada
e as noites flamejavam como vitrais
o abraço cálido dos corpos.


Nota: a folha em que se encontra este poema está datada de forma singular: "Paris - Pont Mirabeau, Primavera - 9 de Abril do ano derradeiro".

sexta-feira, março 16, 2012

VOU LENDO: "O BARÃO DE LAVOS" (1891)

E assim, na nudez discreta da noite, na voluptuosa penumbra da saleta, aqueles dois esposos, na aparência tão próximos, ambos novos, ambos amantados na carícia do mesmo ambiente perfumado e morno,  obstinavam-se longe, muito longe um do outro; ele galopando o destrambelho do seu vício; ela deliciando a imaginação e envenenando os sentidos na tragédia dissolvente de Madame Bovary.
ABEL BOTELHO, O Barão de Lavos, Lisboa, Edição “Livros do Brasil”, s/d, p. 22.

terça-feira, março 13, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (9)

Aprendi com Orfeu que não poderei
olhar para trás, e que em frente há
a dolorosa extinção do meu canto,
o pérfido baile das bacantes.
Por isso não direi o amor
no pretérito do que fui, ou no futuro
daquilo que não voltarei a ser.
Entrego-me ao condicional
de todas as conjugações como
quem abre uma porta na pedra líquida
dos verbos, bastando-me sentir
que talvez continues em mim
tão presa e livre
como a folha de árvore que se solta e voa.

segunda-feira, março 12, 2012

PIAZZA DI SPAGNA

O editor deste blogue fotografado na escadaria da Piazza di Spagna a fazer horas para o concerto da Laura Pausini.

sexta-feira, março 09, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (8)

Conheço todas as palavras das cartas
que não me escreveste. Palavras cheias,  
tão copiosas que mal caberiam
dentro dos livros que levaste de casa,
ou dos cadernos dos tempos da escola
de que te esqueceste,  talvez por já nada
dizerem de ti nem serem capazes de falar
dos teus novos sonhos. Encontro  essas
palavras em cada verso que faço, em cada
linha que imagino escrever-te, e sinto-as
queimarem-me os olhos e ferirem-me
os dedos: palavras aparentes que fustigam
e doem, pássaros roxos voando em sombra
sobre as searas descontentes.

ESPÓLIO DE JOSÉ RAFAEL (1947-2010)

Uma das raras fotografias de JOSÉ RAFAEL. Tirada em local e data que não conseguimos determinar.

quinta-feira, março 08, 2012

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

APROVEITANDO UMA ABERTA
                              Para António Nobre
“Ó virgens que passais ao sol-poente”
com esses filhos família,
pensai, primeiro, na mobília,
que é mais prudente.
Sim, que essa qualidade,
tão bem reconstituída,
nem sempre, revirgens, há-de
proporcionar-vos  a vida
que levais.
Se um tolo nunca vem só,
quando não vem, não vem mais
ou vem, digamos, por dó…
E o dó doi como um soco,
até mesmo quando parte
de um tolo que a vossa arte
promoveu de tolo a louco.
Eu quando digo mobília,
digo lar, digo família
e aquela espiada fresta,
aberta, patente, honesta,
retrato oval da virtude,
consoladora do triste,
remanso, beatitude
para o colérico em riste.
Assim, sim, virgens sensatas!
(Nos telhados só as gatas…)
Pensai antes na mobília,
honestas mães de família,
E aceitai respeitos mil
do vosso   
              Alexandre O’ Neill!

("Poemas com endereço", Lisboa, Livraria Morais Editora, 1962, pp. 32 e 33)

Poema datado, mesmo assim digno de ser lembrado neste dia de celebrações emancipadoras. Tenho o livrinho comigo, uma jóia sem preço.

terça-feira, março 06, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (7)


Nunca percebi o que se passou naquela noite,
no hotel perto da estrada onde ficámos
depois de uma viagem de horas por entre
clâmides de searas  sob a luz e o vento
das planícies do sul. Os faróis dos carros
projectavam súbitas claridades nas paredes
do quarto, relâmpagos breves e surdos
como os de uma trovoada dentro de um sonho.
E então vi que choravas, um choro silencioso,
inexplicado, mas tão real que nos tolheu
por muito tempo os gestos do amor.
Penso hoje que teria bastado uma palavra tua,
ou minha, um compreensível sinal contra o silêncio
absurdo daquele prenúncio de distância.

sexta-feira, março 02, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (6)

Embora não o deseje, sei que me esperas
numa qualquer praça do tempo, e que ainda
conversaremos como dois amigos que se reencontram
depois de uma viagem ou de uma longa doença.
Mostrar-te-ei os meus versos, e tu me contarás
cada uma das ficções com que adornaste
a indiferença dos dias. Continuo a acreditar na verdade
singular da poesia, e apenas espero  ver cumprir-se
o meu livro para que possa entregar-me
ao silêncio definitivo de quem já fez
o que tinha a fazer.  Gostaria que fosse
por uma manhã cálida de Novembro, ao expirar
do Outono,  com os salgueiros respirando
nas margens do rio a prosopopeia dum choro.

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (5)

Em frente do mar, como Júdice

Na esplanada, em frente do mar, vejo-te
como naquela tarde em que te sentaste no muro
de pedra que dava para a praia, e gozando
o voo das gaivotas sobre o areal e a espuma,
levantaste a fímbria da saia um palmo acima
dos joelhos. Na minha mão despertou
a carícia que a tua pele insinuava, e tu riste
com a alegria de quem vê cumprir-se a promessa
dum afecto. Hoje pergunto-me como foi possível
chegarmos a este silêncio de olhos e vozes
que tomou conta de nós como um nevoeiro de gumes
insidioso e frio.  Estendo o braço sob a mesa
da esplanada à procura da carícia antiga.
Mas já não a encontro.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (4)


Falo de um livro em que escrevi
as palavras pinheiro, resina, agulha.
Um livro com uma dedicatória
de quando o teu ventre era vagem
e os teus seios breves pomos.
Falo de um livro antigo
como os que inventaram
a palavra pão ou a palavra amor.
Um livro que percorreu a memória
e os hexágonos do tempo
por entre desencanto e traição:
uma ferida e cicatriz de lume
(ajeno de placer y de contento)
na minha pele de bibliotecário cego.

Nota:
A palavra “ferida”, no décimo segundo verso do soneto monóstrofo, encontra-se no manuscrito  como “herida”. Tratando-se de um possível lapso,  adoptámos a correspondente expressão portuguesa. Já de mais problemática compreensão (ou talvez não)  é a inclusão parentética do verso castelhano que julgamos pertencer a San Juan de la Cruz.  

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (3)

Deixa-me acreditar, meu pequeno pássaro,
que voaremos ainda sobre os telhados
da nossa cidade desfeita, e que desenharás,
com os teus lápis de cor, os ilesos campos
que a ruína não logrou  tocar.
Aí ficaremos os dois, na manhã
que o teu traço anuncia, correndo e brincando
por entre as macieiras da verosímil imaginação,
até que cansados nos deitemos de costas,
a tua pequena mão no meu polegar,
as nossas cabeças juntas, sob o sol amarelo
que radia sonho e a alegria única
do nosso amor
contra as paredes hirtas da desilusão.

sábado, fevereiro 25, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (2)

Da próxima vez, não nos deitaremos
em leitos de penas nem cobriremos de sedas
o livor da indiferença.
A pele esperará pela outra pele,
a voz contará sempre com a outra voz.
Haverá ramos de árvores sobre
o beiral da casa, a chaminé transpirará
vagarosamente a excitação da noite,
e da praia virá, como um arrulho de ave,
o rumor incessante e renascente do mar.
Da próxima vez haverá poemas,
e no metal das palavras
conheceremos o perfil do amor.
Da próxima vez, se houver próxima vez.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

O QUE ELES INVENTAM!

Os desempregados inscritos nos centros de emprego vão ter um gestor de carreira para facilitar o regresso ao mercado de trabalho, anunciou hoje o ministro da Economia, no final da reunião do conselho de ministros.

(Notícia dn)

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (1)

Entras em todos os meus sonhos,
como um rio de lava doloso e lábil.
Vejo-te nos degraus da noite,
nas ágoras do dia, e sabes de mim
aquilo que nunca cheguei a dizer-te.
Devassas-me a imperfeição do corpo,
os escaninhos do ser, azougue
que me percorre e enche, desassossego
que se deita comigo, mão fria
que me violenta o sexo
e desafia a humanidade.
Mando-te embora, sombra lívida
que não tolero nem desejo.
Mas voltas sempre.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

JOSÉ RAFAEL

JOSÉ RAFAEL (1947-2010), poeta tomarense. Viveu ignorado e ignorado morreu numa manhã cálida de Novembro. Deixou um maço de poemas inéditos, em caligrafia espessa e desigual, de difícil leitura. As mais de trezentas folhas, sobrepujadas por uma placa de cartão que servia de capa, encontravam-se atadas por três voltas cruzadas de barbante. Sobre a capa de cartão estava escrito a marcador de tinta preta: CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL.

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

A LAMENTAÇÃO DE PROCUSTO

I
Reconheço os crimes que cometi, o terror que espalhei pela Ática, infligindo aos viandantes os suplícios do leito. Via-os chegar exaustos ao cais do porto onde os esperava, queimados de vento e  pó, as sandálias e as túnicas desfeitas, –  de bom grado aceitavam a miragem de repouso que lhes prometia.
II
Confesso que  sofria.  Perturbava-me a impiedade dos deuses, o fogo sombrio da desigualdade nos olhos dos homens, o rápido fluir da vida sob as pontes  do destino  absurdo. Mas o mal que pratiquei nunca me concedeu a satisfação, nunca tive prazer em ver no rosto das vítimas o reflexo cruel do pavor sem limites: fiz apenas o que estava destinado  fazer-se  desde o princípio dos tempos.
III
Capturou-me Teseu numa vereda que levava a  Elêusis. O dia era uma promessa de luz e havia no ar um cheiro brando a pinheiros. Eu tinha os olhos rasgados de viandantes e as mãos tolhidas de sangue.
IV
Morri no suplício do leito, mas os meus membros decepados,  vivos em metáforas, atravessaram o martírio da História por séculos de luz e de trevas.
V
Bastava o frio castigo de Teseu e a mortalha de silêncio sobre o meu ser desprezível:  a moeda ao barqueiro, o rio sem  regresso. Teria descido em paz ao reino das sombras, aliviado dos meus crimes e da tirania dos deuses.  Teria  descansado, enfim, no leito do olvido.

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

CAVACO SILVA CANCELA VISITA A ESCOLA POR CAUSA DOS PROTESTOS

Escola António Arroio, hoje (foto JN)
Os figurões têm medo. Perante os protestos dos alunos e da Associação de Pais por causa das condições da escola e dos preços dos passes de transporte, nada melhor que meter o rabo entre as pernas.

sábado, fevereiro 11, 2012

MULHERES EM LUTA

Manifestação da Intersindical em Lisboa - 11/2/2012
Eram, agora, ainda mais frequentes essas reuniões, que às vezes se prolongavam pela noite dentro. Vinha o Januário, o Zé Olívio, o Rúdio, – já velhos conhecidos. Vinha o Margarido, quase sempre acompanhado do Paulo Bastos, – mais recentes.  Apresentado por qualquer destes, de vez em quando vinha um desconhecido, que depois continuava de aparecer, ou não. Geralmente, era um camarada que, de passagem pelo Porto, fazia uma visita. Chegara, já, a vir um ou outro indivíduo com cara de estrangeiro. Maria Clara servia cafés a todos, Joaquim trazia do guarda-loiça a garrafa do conhaque. “Não são conversas de mulheres”, dissera Joaquim, uma vez que, mais por sondar que por outra razão, ela aparentara querer assistir a uma de tais reuniões. “Também há mulheres que se metem nessas coisas”, retorquiu ela. “Quais coisas?”. “Essas da política.” Bem se vê que tu não”, rematara ele. E, para rematar a contento dela: “Nem eu te queria metida nisto. Quero-te como és.” “Julgava que só os burgueses é que pensam assim das mulheres!” “Toma!”, exclamara o Januário, rindo.
JOSÉ RÉGIO, A Velha Casa, vol. IV, Obra Completa, Lisboa, IN-CM, 2003, pp. 245 e 246.

domingo, janeiro 29, 2012

A MORTE DE AL BERTO

Al Berto (Coimbra, 11 de Janeiro de 1948 - Lisboa, 13 de Junho de 1997)

Não foi como a de Rimbaud: a noite não estendeu
o seu manto sobre a copa das árvores,
a luz que tomou conta do tempo não sossegou
o coração dos pássaros,
não suspendeu os jogos das crianças.
À tua frente havia um mar de que não sabias
o nome, um pélago onde chegavam rios esquálidos
que abraçavam a voragem.

O chicote da tosse rachava-te as arcadas
do peito, doía-te como a febre ou o sono,
enquanto na cidade havia uma alegria de asas
sobre as cabeças dos homens,
algazarras de meninos,
brandas conversas de tertúlias.
Quando a dor cessou por completo,
ainda viste sair de ti a nuvem da alma.

Van Gogh, de quem eras íntimo, veio receber-te.
Podia ter sido no céu de Arles, ou de Lisboa,
ou de Paris. Mas não:
foi num campo amarelo de trigo, algures
num patamar do tempo
entre a poesia muda da cor.
Trazia numa mão a última carta escrita a Theo
e na outra o brilho metálico dum revólver.
E tu entraste no campo de trigo:
uma tela que ondulava ao vento
com revoadas de corvos escuros
esburacando a claridade dos astros.

Sumiste-te por aquele espaço
em que se imagina estar a ceifeira.
Era Verão.

Feito em 13 de Junho de 2007, no décimo aniversário da morte do poeta.

sábado, janeiro 21, 2012

"A FORMA DA ESPADA"


“A forma da espada” é uma ficção de Borges. As ficções – há muito que se sabe – são os mais verdadeiros dos textos literários.
Parece que certos sindicalistas em sede de concertação social conhecem bem o texto do escritor argentino: é fácil dizer “ele” ou “eles”, e tão difícil assumir a infâmia na primeira pessoa.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

ALBERTO JOÃO!

Podem-se-lhe imputar diatribes e atitudes espúrias, ditos grotescos e perversos cálculos, mas aí está a figura dum resistente! Contra os desígnios dum governo que quer reduzir o seu povo à indigência e ao descalabro moral, que verga os sindicalistas pelo medo e os trabalhadores pelo espectro da fome – força, força Companheiro Jardim!

terça-feira, janeiro 10, 2012

segunda-feira, janeiro 09, 2012

A RIQUEZA DAS NAÇÕES

A memória mais antiga que tenho de um merceeiro, é a do Sr. João, um comerciante simpático que tinha o seu negócio numa loja escura ao fundo da rua da minha infância. Desconheço-lhe o apelido e a biografia completa, mas fiquei com a ideia de que teria descido das Beiras ou do Minho, no princípio dos anos cinquenta, em demanda duma vida melhor. Era, portanto, um emigrante, aquilo que, nos tempos que correm, qualquer um de nós está habilitado a ser.
Ainda me recordo da sua loja, cuja peça mais extraordinária era a gaveta do dinheiro a que se acoplava um pequeno guizo. Ninguém, empregado ou familiar, podia abrir aquela gaveta sem que de tal se apercebesse o prudente comerciante.
O negócio do merceeiro corria, como se pode imaginar, sem grandes sobressaltos. O rendimento dos consumidores era parco, comprava-se uma quarta de feijão, meio litro de azeite, uma posta de bacalhau demolhado, lá de vez em quando um garrafão de vinho Sanguinhal ou Camillo Alves, mas tudo corria sem crédito da banca, não havia preocupações com o escudo, que era uma moeda forte, e o marçano-infantil-de-cesto-às-costas trabalhava pelo que comia mais uma nota de vinte escudos que mensalmente era enviada para os pais em Arcos de Valdevez .
O Sr. João tinha uma vida modesta e absolutamente normal. Não gozava férias, pagava as suas contribuições, fazia filhos à mulher, dava bodo aos pobres pelo Natal, votava como chefe de família para a Junta de Freguesia, e, julgo eu, nunca pensou expandir a actividade para além daquela viela e daquela loja escura onde ganhava o suficiente para si e para a sua prole.
Hoje, o negócio de mercearias transfigurou-se. Os merceeiros são gente fina, que dá entrevistas à televisão e tem artes de abalar qualquer governo democraticamente eleito. As lojas são amplas e bem iluminadas, expandem-se em rede por todo o país com agressivas campanhas de imagem e sensibilização dos consumidores. Recurso publicitário de efeitos garantidos é dizer-se que se aposta nos produtos nacionais, o-que é-nacional-é-bom, mesmo bom, mas dito a sério, não como na campanha daquele poeta-publicitário dos anos sessenta que quis convencer os consumidores de que “Bosch é brom”, felizmente que havia censura e não deixou passar o despautério.
Os merceeiros de hoje é vê-los de fatinho e gravata, engalanados como em dia de festa, criando esse-gê-pê-esses, trabalhando com o dinheiro dos bancos e dos fornecedores, abrindo lojas no leste da Europa, no Estreito de Magalhães ou no deserto da Namíbia, porque, conforme se diz, o capital merceeiro não tem fronteiras, conhece os corredores das bolsas, não há pê-esse-i-vinte que lhe resista.
Porém, nem tudo é fácil. Há as incertezas do euro, essa espécie de moeda que os governos insistem em dizer que é para continuar, mas de que os merceeiros desconfiam como Maomé desconfiava do toucinho e da entremeada. Há os impostos, coisas lixadas para qualquer merceeiro que se preze. Felizmente que o mundo é vasto e os caminhos fáceis de percorrer. Há paraísos que acolhem as drogas leves e despenalizam os capitais estrangeiros. Há ilhas caimão, aligátor, jacaré e gavial. Há montes de possibilidades para quem aposta na internacionalização.
Como nada percebo de economia e negócios, pouco mais sei dizer. Só sei que tenho saudades de mercearias como a do Sr. João, onde ninguém ia ao engano, onde todos sabíamos o que comprávamos: uma lata de sardinhas era uma lata de sardinhas, um chouriço era um chouriço, um quilo de batatas era um quilo de batatas. Hoje vamos a uma mercearia moderna e arriscamo-nos a comprar a queda do governo, a ruína da moeda única ou a derrapagem da nossa consolidação orçamental.
Por mim, estava-me marimbando para estes negócios de mercearias finas e deixava-os ir à vida na paz do Senhor. É certo que poderíamos perder alguns benefícios da internacionalização, como o salmão fumado da Noruega, as tâmaras não sei de onde ou os chocolates da Ferrero Rocher. Paciência. Continuaríamos bem servidos com a sardinha de Peniche, a broa de Avintes, o vinho tinto do Cartaxo e o porco preto alentejano.
Merceeiros há muitos, meu amigos, o que é preciso é conhecê-los, amá-los, e, depois… (aqui entraria uma palavra feia a que o escrevente não se atreve ). Houve um inglês que em tempos que já lá vão se pôs a discorrer sobre a riqueza das nações. Eu digo que a riqueza das nações, pelo menos a da nossa, não é nada disso. É, nesta situação de estarmos a ser lixados todos os dias, ainda sermos capazes de resistir pelo riso e por algo mais, como cruzar o braço com o punho, à Bordalo, para as caras gordas dos figurões. Ora tomem!

sábado, janeiro 07, 2012

FANTASIAS NOCTURNAS

Scarlett Johansson

Já não podia ver aquela cara barbada no topo do blogue. Assim está bem melhor.

sexta-feira, janeiro 06, 2012

BREVE APONTAMENTO SOBRE ECONOMIA E FISCALIDADE

Este rapazinho barbado, deputado do CDS, é um patriota! Indignado pela conduta do Sr. Alexandre Soares dos Santos, sugeriu no Parlamento que os consumidores podem (ou devem?) tirar consequências da decisão de deslocalização do seu grupo empresarial.
Por mim, já aderi. Nas mercearias do tal Alexandre, nem uma caixa de fósforos!
O Rei Mago é que não diz nada. Nem o Álvaro. Nem o Primeiro. Tanto têm defendido a emigração das pessoas, como podem estar agora contra a emigração das empresas?

quinta-feira, dezembro 22, 2011

CEMITÉRIO DA VENERÁVEL ORDEM TERCEIRA DE S. FRANCISCO DE VILA DO CONDE





EPITÁFIO PARA UM POETA

As asas não lhe cabem no caixão!
A farpela de luto não condiz
Com seu ar grave, mas, enfim, feliz;
A gravata e o calçado também não.
Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!
Descalcem-lhe os sapatos de verniz!
Não vêem que ele, nu, faz mais figura,
Como uma pedra, ou uma estrela?
Pois atirem-no assim à terra dura,
Ser-lhe-á conforto:
Deixem-no respirar ao menos morto!


JOSÉ RÉGIO, Filho do Homem (1961)

sábado, dezembro 03, 2011

"A ARTE E A REVOLUÇÃO"

Com a docilidade que a caracteriza, a pretendida arte soviética fez deste mito burocrático um dos seus temas predilectos. Sverdlov, Derjinsky, Uritsky e Bubnov são representados nas pinturas ou esculturas, sentados ou de pé em torno de Estaline, escutando os seus discursos com extrema atenção. (…) Que se pode esperar ou exigir de artistas obrigados a borrar com os seu pincéis os rasgos grosseiros de uma falsificação histórica evidente para eles mesmos?

LEON TROTSKY, Sobre arte y cultura, Madrid, Alianza Editorial, 1974, pp.205 e 206.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

OS TRÁGICOS AFECTOS

Fotografias do arquivo privado de Frida Kahlo (Coyoacán, México, 1907 - Coyoacán, México, 1954) em exposição no MUSEU DA CIDADE.

Leon Trotsky, no México, com o pintor muralista Diego Rivera.

A pintora Frida Kahlo - uma obra caracterizada por André Breton como de um "surrealismo espontâneo, surgido do insconsciente".

A explicação dos afectos.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

PRIMEIRO DE DEZEMBRO

Hoje, na nobre cidade de Alverca do Ribatejo, a fanfarra da Sociedade Filarmónica Recreio Alverquense percorrendo as ruas com os acordes do Hino da Restauração. Avante! Avante! Pela defenestração do novo Miguel de Vasconcelos!

quinta-feira, novembro 24, 2011

O FADO

Agora que o fado se candidata a património imaterial da humanidade, vale a pena ler este texto escrito por José Régio há mais de setenta anos:


Várias são as modalidades do fado, conforme o meio em que se desenvolve: Assim, há o fado dos lupanares, das tabernas, das alfurjas; o fado de salão, de palco, de retiro, de coreto de rancho popular estilizado; o fado das alfamas e mourarias de Lisboa; dos luares do Mondego e becos da Alta Coimbra; das revistas chulas do Porto ou dos cegos das feiras dos subúrbios. Assim, há o fado que arrota e o que põe água de cheiro, o que soluça e o que satiriza, o que pode refrescar a literatura e o que a envilece, o que vai barra fora em terceira classe, guardado numa caixa de guitarra como no coração dum búzio saudoso, e o que se embarca em discos ou navega em ondas sonoras enviadas pelas emissoras. Assim há o fado às vezes execrável e o fado às vezes tocante, – um e outro característicos através das suas várias modalidades. Mas seja como for, entre muitas manifestações da nossa alta literatura culta e essa manifestação primária que é o fado (tão primária nas suas formas mais espontâneas como no risível pedantismo ingénuo das mais aperaltadas) – não há nenhum abismo senão o da expressão artística e mentalidade do autor. A fonte de inspiração é a mesma; e muitas vezes os motivos são os mesmos: paixão do solo pátrio, vontade de aventuras, desgosto das injustiças sociais, exibicionismo da desgraça, amor filial e amor maternal, sede de piedade, “saudades de tudo” [verso de António Nobre], penas de amor de toda a casta.

JOSÉ RÉGIO, no ensaio António Botto e o Amor, 1938.

quarta-feira, novembro 23, 2011

"A CATÁSTROFE" - Eça de Queirós

A situação descrita no texto de Eça de Queirós não está longe da que hoje se vive no nosso país. De quem é a culpa? Há seis meses era, segundo a maioria dos portugueses, de um mau governo e de excessos por ele cometidos. O mau governo foi-se embora, mas os sacrifícios exagerados que o mesmo pedia – e que, recorde-se, foram recusados por todos os partidos da oposição, do CDS ao BE – são hoje maiores e de mais desigual incidência do que aqueles que então pretendiam impor-nos.
A hipocrisia política refugia-se agora na crise internacional, na acção dos mercados e na necessidade de o governo implementar reformas para salvar o país, ou seja, cumprir as regras severas que nos foram ditadas com vista não a garantir o desenvolvimento económico ou a retoma do emprego, mas para que os credores possam ter o seu dinheiro de volta, com juros, dentro do prazo combinado.
Penso não haver dúvida de que estamos sob ocupação estrangeira – daí ter chamado Eça e A Catástrofe à colação –, governados por um ministério colaboracionista, de certa forma semelhante ao de Vichy em França durante a Grande Guerra.
É o estado de necessidade, dirão, como na França de 1940. É verdade, mas não foi por isso que deixou de aparecer De Gaulle e a luta da Resistência. Então era o poder militar alemão, agora é o poder económico dos mercados e, de novo, o poder da Alemanha, já não militar, simplesmente económico e político, querendo manter uma moeda forte e uma liderança acéfala contra os interesses da maioria dos povos da Europa.
As medidas que estão a ser tomadas e as que ainda acabarão por chegar configuram a catástrofe queirosiana. O país perdeu a independência e não creio que a retome tão cedo, a não ser que haja um golpe de conjurados como o de 1640.
É por isso que sou pela greve geral de amanhã. Sei que no imediato não vai resolver nada e, provavelmente, até agravará os sacrifícios por que estão a passar as classes mais desfavorecidas. Compreendo que muitos irão trabalhar com medo de represálias ou por não poderem dar-se ao luxo de perder um dia de salário. Compreendo isso e também a posição dos que, apesar de tudo, não deixarão calar a revolta . Quando se dá um murro de desagravo na cara de alguém há sempre o risco de se partir os dedos. Porém, não é por tão pouco que se deve ficar de mãos nos bolsos.

sábado, novembro 19, 2011

AS GARÇAS

Hoje, ao fim do dia, no relvado da praceta. Vieram cedo, este ano.

DESCOBRIMENTO DA ILHA DA MADEIRA, ANO 2011

Eminentes os oiteiros, & profundos os valles, em sua desproporção, guardavão arquitectura rigorosa & agradavel; (...).

D. Francisco Manuel de Melo, Epanaphoras, "Descobrimento da Ilha da Madeira, Anno 1420"

quinta-feira, novembro 03, 2011

UM POSTAL DE BRUGES

Recebido hoje.

VOU LENDO

Efectivamente, aquele chá parecera a Swann algo de precioso, tal como a ela, e o amor tem tanta necessidade de encontrar uma justificação para si mesmo, uma garantia de duração, em prazeres que, pelo contrário, sem ele o não seriam e com ele terminam, que, quando saíra às sete horas para ir a casa vestir-se, durante todo o trajecto que fez no seu coupé, não podendo conter a alegria que aquela tarde lhe causara, repetia para si mesmo: “Seria muito agradável ter assim uma pessoazinha, em casa de quem se pudesse achar essa coisa tão rara que é um bom chá.” Uma hora depois recebeu um bilhete de Odette e reconheceu logo aquela grande letra, em que um fingimento de rigidez britânica impunha uma aparência de disciplina aos caracteres informes que porventura teriam significado para olhos menos prevenidos a desordem do pensamento, a insuficiência da educação, a falta de franqueza e de vontade. Swann esquecera-se da cigarreira em casa de Odette. “Se se tivesse esquecido também do coração, não deixaria que o recuperasse.”

MARCEL PROUST, Em Busca do Tempo Perdido, volume I, Do Lado de Swann, tradução de Pedro Tamen, Lisboa, Círculo de Leitores, 2003, p. 236.

segunda-feira, outubro 24, 2011

O "JONGLEUR" DE ESTRELAS E O SEU JOGO

Já me desgostei da poesia de José Régio, chegando mesmo a crer que só no teatro e na ensaística, quiçá em alguma das suas ficções curtas, se manifestava o génio artístico do seu perfil de “contemporâneo capital”, como lhe chamou Eduardo Lourenço. Se é nos Poemas de Deus e do Diabo e em Biografia que melhor me encontro com a sua lírica, há sempre alguns poemas, fora daquelas obras, que não deixam de me entusiasmar. Este é um deles, e adivinhe-se porquê:

O jongleur de estrelas tem os pés de barro,
Tem as mãos de cinza…

Sobre os pés de barro salta no infinito,
Com as mãos de cinza movimenta os astros.

O jongleur de estrelas tem os olhos fixos,
Mas em todo o corpo nervos dinamistas.

Seus nervos dispersos dão um acorde único…
Não! seus olhos fixos é que olham mil pistas.

O jongleur de estrelas é mentira!: mente
Na retina fosca dos que julgam vê-lo.

O jongleur de estrelas não se vê de fora,
Por ser de mais belo!

Ora um dia, o dedo do Senhor, clemente,
Tocar-lhe-á, misericordiamente.

E o jongleur de estrelas há-de desfazer-se
Sobre os pés de barro, sobre as mãos de cinza…

Do jongleur de estrelas restam as estrelas,
E outros brincarão com elas!

JOSÉ RÉGIO, Livro Terceiro de As Encruzilhadas de Deus

terça-feira, outubro 18, 2011

A OLIVEIRA DE SARAMAGO

Fotografia tirada em 15/10/2011

Agora que está aí um romance inédito de Saramago, atrevo-me a dizer que a oliveira centenária sob a qual repousam as suas cinzas está a secar. Ou serei eu que não percebo nada de árvores?

domingo, outubro 16, 2011

O CÃO GREGO

Em Atenas, há poucas semanas

Em Lisboa, ontem


Encontrei-o na Alexandre Herculano, a preparar-se para entrar na manifestação, ainda os indignados não tinham chegado à sede do Partido Socialista e lançado contra a fachada rosa do edifício aquele clamoroso coro de assobiadelas. Vi-o depois, caninamente surpreendido com o pacifismo dos portugueses, junto à casa de D. Amália, em plena descida da Rua de S. Bento. O pessoal ia embalado, gritando palavras de ordem lixadas, dessas que dizem cobras e lagartos de governantes que trabalham esforçadamente para a salvação do país, e o canídeo abanava o rabo de contentamento.
– Mas este é o cão grego das manifestações! – disse uma rapariga morena, por sinal nada má, que ia à minha frente na manifestação, integrada num grupo Free Hugs. Aproveitou para me dar um forte abraço e tive de aceitar a carinhosa demonstração de mais duas jovens, esquivando-me a tais afectos quando se encaminhava para mim, com igual propósito, um rapaz magro e barbado que vestia uma t-shirt com uma gravura do Che Guevara.
Uma senhora da UMAR, já adiantada nos anos, deu uma bolacha ao animal e fez-lhe uma festa na cabeça. O bicho estranhou, como se visse o Partenon erguer-se de súbito em plena Rua de S. Bento. Habituado que estava a cargas policiais e ao gás lacrimogéneo de Atenas, devia custar-lhe a compreender aquelas demonstrações de afecto dos portugueses. E soltou um ladrido rouco, arrastado, gemente de indignação.
Disseram-me depois que tinha sido o primeiro a ultrapassar as barreiras da polícia e a instalar-se na escadaria do edifício do Parlamento. Pelas dez da noite ainda lá estava, segundo o meu informante, ladrando e abanando o rabo a cada medida aprovada pela assembleia popular. Parece que foi afastado pelo cordão policial, não sem que antes tenha lançado o dente à bota de um pobre polícia que acabara de perder os subsídios de Natal e de férias dos próximos anos.
Acham isto extraordinário? Eu não! Há tantos cães sentados nas bancadas do parlamento e nos cadeirões do governo, a lamberem as botas da troika e do seu títere Vítor Gaspar, que a atitude deste rafeiro é a coisa mais verosímil do mundo.
Acabo esta crónica à pressa. Estou de saída para a assembleia popular das 7 horas. Pelo sim, pelo não, vou levar um agasalho: pode ser que fique para a acampada.

sexta-feira, outubro 14, 2011

15 DE OUTUBRO

Lá estarei, até que a madrugada venha. É o exercício do meu direito à utopia!

"VOCÊ SABE LÁ O QUE É A VIDA" - Jerónimo de Sousa para Passos Coelho

A interpelação de Jerónimo de Sousa a Passos Coelho, hoje, no Parlamento, comoveu-me. Acho que só sabe o que é a vida quem anda todos os meses a contar os tostões, a ver se o dinheiro chega para a alimentação, para a escola das crianças, para a renda de casa ou para a amortização do crédito à habitação. Atrevo-me a dizer que eu não sei o que é vida. Passos Coelho, no entanto, diz que sabe, conforme resposta dada ao líder comunista.
Já tivemos vários mentirosos a chefiar o governo. Este é mais um.

sexta-feira, outubro 07, 2011

AS GARÇAS

Por enquanto só os melros, as rolas e os pardais se avistam sobre o espaço verde da praceta. Mas já não falta muito para que as garças apareçam de novo. Brancas e luminosas, com o seu porte belíssimo, atravessam os espaços entre prédios como se voassem nas larguezas da lezíria. Será preciso que chegue Dezembro, ou Janeiro, quando o rio sobe e os campos naturalmente se alagam.
Espero por elas como quem acredita no dia que vem.

quarta-feira, outubro 05, 2011

DISCURSOS


“Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.”
– Em 9 de Março de 2011, discurso de tomada de posse para o segundo mandato, na vigência do governo de José Sócrates.

“Estamos todos confrontados com uma situação que exige vários sacrifícios. Provavelmente, os maiores sacrifícios que esta geração teve de fazer.”
– Em 5 de Outubro de 2011, discurso de comemoração da implantação da República, na vigência do governo de Passos Coelho.

terça-feira, outubro 04, 2011

RÉGIO E "OS THIBAULT"

Será que José Régio não leu Os Thibault de Roger Martin du Gard com a profundidade que a obra em princípio reclamaria?
Numa entrada de 13 de Dezembro de 1958 do seu diário, encontramos o seguinte:
Diz-me um rapaz de Lisboa que o José Gomes Ferreira dizia de A Velha Casa: “Mas aquilo é Os Thibault…”.
Se A Velha Casa é ou não Os Thibault vou tentar agora tirar a limpo. Entre ontem e hoje já avancei em cinquenta páginas do primeiro volume, e não me parece obra para se deixar de lado.
Régio, no entanto, diz-nos:
Comecei (…) Les Thibault; e também os pus de parte, sem chegar a concluir o primeiro volume. Li fragmentos do segundo, e desisti. Recomecei este mês, neste ano, a leitura da obra, mas começando pelo volume L´été de 1914. Se puder lerei depois os restantes.
E logo depois:
Enfim, quase tudo me desgosta no pobre do meu Martin du Gard! Não mais escreveria eu uma linha n´ A Velha Casa, se acreditasse (como o Gomes Ferreira e, provavelmente, outros) que a minha obra não é senão uma réplica portuguesa, em menor, daquela penosa construção sem qualquer fagulha de génio…
O nosso escritor bem pode ter-se desgostado desta escrita sem fagulha de génio, mas lá que insistiu na sua leitura, insistiu. Alguma razão deveria ter para tal persistência.

segunda-feira, setembro 26, 2011

JOÃO CABRAL DO NASCIMENTO (Funchal, 1897 - Lisboa, 1978)

Retrato de João Cabral do Nascimento por Abel Manta


Fernando Pessoa elogiou o seu primeiro livro, As Três Princesas Mortas num Palácio em Ruínas (1916), dizendo ter visto no autor “qualidades de imaginação e inteligência que podem fazer dele um poeta inadjectivável”.
Vasco Graça Moura diz encontrarem-se na sua escrita ecos que vão da poesia finissecular a Eugénio de Castro e Mário de Sá-Carneiro.
Tem vasta obra no domínio da poesia e da historiografia. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, dedicou-se ao ensino e foi director do Arquivo Histórico da Madeira.


EPIGRAMA

Deixarei vir a noite, a noite escura,
Porque sei que regressa o claro dia.
Verei cair a chuva, sossegadamente,
Porque sei que após ela o sol há-de raiar.
Assistirei tranquilo
Ao decurso do Inverno, porque sei
Que ao fim dessa jornada
Desponta a Primavera – lúcida promessa
Enfim cumprida!

Mas como hei-de deixar correr a vida?

(Digressão, 1953)

sábado, setembro 24, 2011

O DESCOBRIMENTO DA ILHA DA MADEIRA

Nenhum dos companheiros conhecia aquele lugar e os mais experimentados na navegação duvidaram pudesse haver terra em uma paragem do mundo nunca até então descoberta dos homens.

(D. Francisco Manuel de Melo, Epanáforas)

domingo, setembro 18, 2011

CLÁUDIA DE CAMPOS (1859-1916) - escritora de Sines

Ficcionista e ensaísta, recebeu referências elogiosas de diversas personalidades literárias do seu tempo: Bulhão Pato, Trindade Coelho, Thomaz Ribeiro e Abel Botelho. Inspirada pela tradição inglesa, escreveu sobre Percy Shelley e Charlotte Brontë. Deixou uma narrativa à clefEle – da qual ela mesma é personagem com o poético nome de Cléo.
Tive agora notícia desta interessante mulher durante os poucos dias que passei em Sines.

SINES

Praia Vasco da Gama de Sines em 14 de Setembro de 2011

domingo, setembro 11, 2011

"APARIÇÃO"

O livro é velho, dos mais velhos que possuo. Li-o pela primeira vez há muito tempo, depois de ter ouvido falar dele e do seu autor num almoço de colaboradores do suplemento juvenil do “Diário de Lisboa”. O meu exemplar pertence à 4.ª edição de 1964, 12.º milhar, uma cifra editorial que não deixa de surpreender.
Nunca mais esqueci o episódio da mão do Bailote (capítulo V), o semeador que se enforca por não dispor de condições físicas para trabalhar, logo, por não poder garantir a sua subsistência:
– Quando foi da sementeira, o patrão Arnaldo disse-me: “Ó Bailote, tu já não tens a mesma mão para semear.” Porque eu, senhor doutor, tive sempre uma mão funda, assim grande, como um cocho de cortiça. Eu metia a mão ao saco e vinha cheia de semente. Atirava-a à terra e semeava uma jeira num ar.
(…)
E mostrava a sua desgraçada mão, envelhecida, carbonizada de anos e soalheira.
(…)
– Dê-me um remédio, senhor doutor. Um remédio que me ponha a mão como a tinha. Assim, grande, assim, funda, assim, assim…
Aparição
é um belo romance-ensaio sobre o Homem e a sua condição existencial, sobre a privação de Deus e o destino trágico do pensamento. Mas este episódio da mão do Bailote, pela questão social que levanta, sabe de certa forma a neo-realismo.

sexta-feira, setembro 09, 2011

AMARANTE VI

Casa de Teixeira de Pascoaes

Quem traz o outono ao meu jardim agora?/ Quem muda em cinza o fogo do meu lar?/ E quem soluça em mim? Quem é que chora?

Teixeira de Pascoaes, Elegias.

AMARANTE V

O Tâmega, um rio que vem da Galiza.


AMARANTE IV

Túmulo de S. Gonçalo. Sobre a estátua jacente do taumaturgo, dois ramos de cravos e umas perninhas de cera. A fé é que nos salva, diz o povo.

AMARANTE III

Igrejas de S. Gonçalo e S. Domingos

AMARANTE II

"Se a Ciência é a realidade das coisas fora de nós, a Poesia é a sua realidade dentro em nós."
Teixeira de Pascoaes, A Arte de Ser Português, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998, p. 67.

AMARANTE I

"Chega a Amarante o Macdonell, general-em-chefe dos revoltosos, ex-frades, morgados, soldados e oficiais do extinto exército legitimista, bandos de campónios armados, de chapéu de palha e tamancos de pau, prontos a largarem-nos para a fuga, ante o inimigo aparecido no primeiro cabeço de monte ou curva de caminho. Camilo, ao saber da estada do escocês, na Flor do Tâmega, faz dum cordel um correão, dependura dele uma pistola, monta no Pégaso dos raptos alados, e vai juntar-se ao célebre general, que o nomeia seu ajudante-às-ordens."
Teixeira de Pascoaes, O Penitente (Camilo Castelo Branco), Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, p. 88.