quinta-feira, novembro 24, 2011

O FADO

Agora que o fado se candidata a património imaterial da humanidade, vale a pena ler este texto escrito por José Régio há mais de setenta anos:


Várias são as modalidades do fado, conforme o meio em que se desenvolve: Assim, há o fado dos lupanares, das tabernas, das alfurjas; o fado de salão, de palco, de retiro, de coreto de rancho popular estilizado; o fado das alfamas e mourarias de Lisboa; dos luares do Mondego e becos da Alta Coimbra; das revistas chulas do Porto ou dos cegos das feiras dos subúrbios. Assim, há o fado que arrota e o que põe água de cheiro, o que soluça e o que satiriza, o que pode refrescar a literatura e o que a envilece, o que vai barra fora em terceira classe, guardado numa caixa de guitarra como no coração dum búzio saudoso, e o que se embarca em discos ou navega em ondas sonoras enviadas pelas emissoras. Assim há o fado às vezes execrável e o fado às vezes tocante, – um e outro característicos através das suas várias modalidades. Mas seja como for, entre muitas manifestações da nossa alta literatura culta e essa manifestação primária que é o fado (tão primária nas suas formas mais espontâneas como no risível pedantismo ingénuo das mais aperaltadas) – não há nenhum abismo senão o da expressão artística e mentalidade do autor. A fonte de inspiração é a mesma; e muitas vezes os motivos são os mesmos: paixão do solo pátrio, vontade de aventuras, desgosto das injustiças sociais, exibicionismo da desgraça, amor filial e amor maternal, sede de piedade, “saudades de tudo” [verso de António Nobre], penas de amor de toda a casta.

JOSÉ RÉGIO, no ensaio António Botto e o Amor, 1938.

quarta-feira, novembro 23, 2011

"A CATÁSTROFE" - Eça de Queirós

A situação descrita no texto de Eça de Queirós não está longe da que hoje se vive no nosso país. De quem é a culpa? Há seis meses era, segundo a maioria dos portugueses, de um mau governo e de excessos por ele cometidos. O mau governo foi-se embora, mas os sacrifícios exagerados que o mesmo pedia – e que, recorde-se, foram recusados por todos os partidos da oposição, do CDS ao BE – são hoje maiores e de mais desigual incidência do que aqueles que então pretendiam impor-nos.
A hipocrisia política refugia-se agora na crise internacional, na acção dos mercados e na necessidade de o governo implementar reformas para salvar o país, ou seja, cumprir as regras severas que nos foram ditadas com vista não a garantir o desenvolvimento económico ou a retoma do emprego, mas para que os credores possam ter o seu dinheiro de volta, com juros, dentro do prazo combinado.
Penso não haver dúvida de que estamos sob ocupação estrangeira – daí ter chamado Eça e A Catástrofe à colação –, governados por um ministério colaboracionista, de certa forma semelhante ao de Vichy em França durante a Grande Guerra.
É o estado de necessidade, dirão, como na França de 1940. É verdade, mas não foi por isso que deixou de aparecer De Gaulle e a luta da Resistência. Então era o poder militar alemão, agora é o poder económico dos mercados e, de novo, o poder da Alemanha, já não militar, simplesmente económico e político, querendo manter uma moeda forte e uma liderança acéfala contra os interesses da maioria dos povos da Europa.
As medidas que estão a ser tomadas e as que ainda acabarão por chegar configuram a catástrofe queirosiana. O país perdeu a independência e não creio que a retome tão cedo, a não ser que haja um golpe de conjurados como o de 1640.
É por isso que sou pela greve geral de amanhã. Sei que no imediato não vai resolver nada e, provavelmente, até agravará os sacrifícios por que estão a passar as classes mais desfavorecidas. Compreendo que muitos irão trabalhar com medo de represálias ou por não poderem dar-se ao luxo de perder um dia de salário. Compreendo isso e também a posição dos que, apesar de tudo, não deixarão calar a revolta . Quando se dá um murro de desagravo na cara de alguém há sempre o risco de se partir os dedos. Porém, não é por tão pouco que se deve ficar de mãos nos bolsos.

sábado, novembro 19, 2011

AS GARÇAS

Hoje, ao fim do dia, no relvado da praceta. Vieram cedo, este ano.

DESCOBRIMENTO DA ILHA DA MADEIRA, ANO 2011

Eminentes os oiteiros, & profundos os valles, em sua desproporção, guardavão arquitectura rigorosa & agradavel; (...).

D. Francisco Manuel de Melo, Epanaphoras, "Descobrimento da Ilha da Madeira, Anno 1420"

quinta-feira, novembro 03, 2011

UM POSTAL DE BRUGES

Recebido hoje.

VOU LENDO

Efectivamente, aquele chá parecera a Swann algo de precioso, tal como a ela, e o amor tem tanta necessidade de encontrar uma justificação para si mesmo, uma garantia de duração, em prazeres que, pelo contrário, sem ele o não seriam e com ele terminam, que, quando saíra às sete horas para ir a casa vestir-se, durante todo o trajecto que fez no seu coupé, não podendo conter a alegria que aquela tarde lhe causara, repetia para si mesmo: “Seria muito agradável ter assim uma pessoazinha, em casa de quem se pudesse achar essa coisa tão rara que é um bom chá.” Uma hora depois recebeu um bilhete de Odette e reconheceu logo aquela grande letra, em que um fingimento de rigidez britânica impunha uma aparência de disciplina aos caracteres informes que porventura teriam significado para olhos menos prevenidos a desordem do pensamento, a insuficiência da educação, a falta de franqueza e de vontade. Swann esquecera-se da cigarreira em casa de Odette. “Se se tivesse esquecido também do coração, não deixaria que o recuperasse.”

MARCEL PROUST, Em Busca do Tempo Perdido, volume I, Do Lado de Swann, tradução de Pedro Tamen, Lisboa, Círculo de Leitores, 2003, p. 236.

segunda-feira, outubro 24, 2011

O "JONGLEUR" DE ESTRELAS E O SEU JOGO

Já me desgostei da poesia de José Régio, chegando mesmo a crer que só no teatro e na ensaística, quiçá em alguma das suas ficções curtas, se manifestava o génio artístico do seu perfil de “contemporâneo capital”, como lhe chamou Eduardo Lourenço. Se é nos Poemas de Deus e do Diabo e em Biografia que melhor me encontro com a sua lírica, há sempre alguns poemas, fora daquelas obras, que não deixam de me entusiasmar. Este é um deles, e adivinhe-se porquê:

O jongleur de estrelas tem os pés de barro,
Tem as mãos de cinza…

Sobre os pés de barro salta no infinito,
Com as mãos de cinza movimenta os astros.

O jongleur de estrelas tem os olhos fixos,
Mas em todo o corpo nervos dinamistas.

Seus nervos dispersos dão um acorde único…
Não! seus olhos fixos é que olham mil pistas.

O jongleur de estrelas é mentira!: mente
Na retina fosca dos que julgam vê-lo.

O jongleur de estrelas não se vê de fora,
Por ser de mais belo!

Ora um dia, o dedo do Senhor, clemente,
Tocar-lhe-á, misericordiamente.

E o jongleur de estrelas há-de desfazer-se
Sobre os pés de barro, sobre as mãos de cinza…

Do jongleur de estrelas restam as estrelas,
E outros brincarão com elas!

JOSÉ RÉGIO, Livro Terceiro de As Encruzilhadas de Deus

terça-feira, outubro 18, 2011

A OLIVEIRA DE SARAMAGO

Fotografia tirada em 15/10/2011

Agora que está aí um romance inédito de Saramago, atrevo-me a dizer que a oliveira centenária sob a qual repousam as suas cinzas está a secar. Ou serei eu que não percebo nada de árvores?

domingo, outubro 16, 2011

O CÃO GREGO

Em Atenas, há poucas semanas

Em Lisboa, ontem


Encontrei-o na Alexandre Herculano, a preparar-se para entrar na manifestação, ainda os indignados não tinham chegado à sede do Partido Socialista e lançado contra a fachada rosa do edifício aquele clamoroso coro de assobiadelas. Vi-o depois, caninamente surpreendido com o pacifismo dos portugueses, junto à casa de D. Amália, em plena descida da Rua de S. Bento. O pessoal ia embalado, gritando palavras de ordem lixadas, dessas que dizem cobras e lagartos de governantes que trabalham esforçadamente para a salvação do país, e o canídeo abanava o rabo de contentamento.
– Mas este é o cão grego das manifestações! – disse uma rapariga morena, por sinal nada má, que ia à minha frente na manifestação, integrada num grupo Free Hugs. Aproveitou para me dar um forte abraço e tive de aceitar a carinhosa demonstração de mais duas jovens, esquivando-me a tais afectos quando se encaminhava para mim, com igual propósito, um rapaz magro e barbado que vestia uma t-shirt com uma gravura do Che Guevara.
Uma senhora da UMAR, já adiantada nos anos, deu uma bolacha ao animal e fez-lhe uma festa na cabeça. O bicho estranhou, como se visse o Partenon erguer-se de súbito em plena Rua de S. Bento. Habituado que estava a cargas policiais e ao gás lacrimogéneo de Atenas, devia custar-lhe a compreender aquelas demonstrações de afecto dos portugueses. E soltou um ladrido rouco, arrastado, gemente de indignação.
Disseram-me depois que tinha sido o primeiro a ultrapassar as barreiras da polícia e a instalar-se na escadaria do edifício do Parlamento. Pelas dez da noite ainda lá estava, segundo o meu informante, ladrando e abanando o rabo a cada medida aprovada pela assembleia popular. Parece que foi afastado pelo cordão policial, não sem que antes tenha lançado o dente à bota de um pobre polícia que acabara de perder os subsídios de Natal e de férias dos próximos anos.
Acham isto extraordinário? Eu não! Há tantos cães sentados nas bancadas do parlamento e nos cadeirões do governo, a lamberem as botas da troika e do seu títere Vítor Gaspar, que a atitude deste rafeiro é a coisa mais verosímil do mundo.
Acabo esta crónica à pressa. Estou de saída para a assembleia popular das 7 horas. Pelo sim, pelo não, vou levar um agasalho: pode ser que fique para a acampada.

sexta-feira, outubro 14, 2011

15 DE OUTUBRO

Lá estarei, até que a madrugada venha. É o exercício do meu direito à utopia!

"VOCÊ SABE LÁ O QUE É A VIDA" - Jerónimo de Sousa para Passos Coelho

A interpelação de Jerónimo de Sousa a Passos Coelho, hoje, no Parlamento, comoveu-me. Acho que só sabe o que é a vida quem anda todos os meses a contar os tostões, a ver se o dinheiro chega para a alimentação, para a escola das crianças, para a renda de casa ou para a amortização do crédito à habitação. Atrevo-me a dizer que eu não sei o que é vida. Passos Coelho, no entanto, diz que sabe, conforme resposta dada ao líder comunista.
Já tivemos vários mentirosos a chefiar o governo. Este é mais um.

sexta-feira, outubro 07, 2011

AS GARÇAS

Por enquanto só os melros, as rolas e os pardais se avistam sobre o espaço verde da praceta. Mas já não falta muito para que as garças apareçam de novo. Brancas e luminosas, com o seu porte belíssimo, atravessam os espaços entre prédios como se voassem nas larguezas da lezíria. Será preciso que chegue Dezembro, ou Janeiro, quando o rio sobe e os campos naturalmente se alagam.
Espero por elas como quem acredita no dia que vem.

quarta-feira, outubro 05, 2011

DISCURSOS


“Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.”
– Em 9 de Março de 2011, discurso de tomada de posse para o segundo mandato, na vigência do governo de José Sócrates.

“Estamos todos confrontados com uma situação que exige vários sacrifícios. Provavelmente, os maiores sacrifícios que esta geração teve de fazer.”
– Em 5 de Outubro de 2011, discurso de comemoração da implantação da República, na vigência do governo de Passos Coelho.

terça-feira, outubro 04, 2011

RÉGIO E "OS THIBAULT"

Será que José Régio não leu Os Thibault de Roger Martin du Gard com a profundidade que a obra em princípio reclamaria?
Numa entrada de 13 de Dezembro de 1958 do seu diário, encontramos o seguinte:
Diz-me um rapaz de Lisboa que o José Gomes Ferreira dizia de A Velha Casa: “Mas aquilo é Os Thibault…”.
Se A Velha Casa é ou não Os Thibault vou tentar agora tirar a limpo. Entre ontem e hoje já avancei em cinquenta páginas do primeiro volume, e não me parece obra para se deixar de lado.
Régio, no entanto, diz-nos:
Comecei (…) Les Thibault; e também os pus de parte, sem chegar a concluir o primeiro volume. Li fragmentos do segundo, e desisti. Recomecei este mês, neste ano, a leitura da obra, mas começando pelo volume L´été de 1914. Se puder lerei depois os restantes.
E logo depois:
Enfim, quase tudo me desgosta no pobre do meu Martin du Gard! Não mais escreveria eu uma linha n´ A Velha Casa, se acreditasse (como o Gomes Ferreira e, provavelmente, outros) que a minha obra não é senão uma réplica portuguesa, em menor, daquela penosa construção sem qualquer fagulha de génio…
O nosso escritor bem pode ter-se desgostado desta escrita sem fagulha de génio, mas lá que insistiu na sua leitura, insistiu. Alguma razão deveria ter para tal persistência.

segunda-feira, setembro 26, 2011

JOÃO CABRAL DO NASCIMENTO (Funchal, 1897 - Lisboa, 1978)

Retrato de João Cabral do Nascimento por Abel Manta


Fernando Pessoa elogiou o seu primeiro livro, As Três Princesas Mortas num Palácio em Ruínas (1916), dizendo ter visto no autor “qualidades de imaginação e inteligência que podem fazer dele um poeta inadjectivável”.
Vasco Graça Moura diz encontrarem-se na sua escrita ecos que vão da poesia finissecular a Eugénio de Castro e Mário de Sá-Carneiro.
Tem vasta obra no domínio da poesia e da historiografia. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, dedicou-se ao ensino e foi director do Arquivo Histórico da Madeira.


EPIGRAMA

Deixarei vir a noite, a noite escura,
Porque sei que regressa o claro dia.
Verei cair a chuva, sossegadamente,
Porque sei que após ela o sol há-de raiar.
Assistirei tranquilo
Ao decurso do Inverno, porque sei
Que ao fim dessa jornada
Desponta a Primavera – lúcida promessa
Enfim cumprida!

Mas como hei-de deixar correr a vida?

(Digressão, 1953)

sábado, setembro 24, 2011

O DESCOBRIMENTO DA ILHA DA MADEIRA

Nenhum dos companheiros conhecia aquele lugar e os mais experimentados na navegação duvidaram pudesse haver terra em uma paragem do mundo nunca até então descoberta dos homens.

(D. Francisco Manuel de Melo, Epanáforas)

domingo, setembro 18, 2011

CLÁUDIA DE CAMPOS (1859-1916) - escritora de Sines

Ficcionista e ensaísta, recebeu referências elogiosas de diversas personalidades literárias do seu tempo: Bulhão Pato, Trindade Coelho, Thomaz Ribeiro e Abel Botelho. Inspirada pela tradição inglesa, escreveu sobre Percy Shelley e Charlotte Brontë. Deixou uma narrativa à clefEle – da qual ela mesma é personagem com o poético nome de Cléo.
Tive agora notícia desta interessante mulher durante os poucos dias que passei em Sines.

SINES

Praia Vasco da Gama de Sines em 14 de Setembro de 2011

domingo, setembro 11, 2011

"APARIÇÃO"

O livro é velho, dos mais velhos que possuo. Li-o pela primeira vez há muito tempo, depois de ter ouvido falar dele e do seu autor num almoço de colaboradores do suplemento juvenil do “Diário de Lisboa”. O meu exemplar pertence à 4.ª edição de 1964, 12.º milhar, uma cifra editorial que não deixa de surpreender.
Nunca mais esqueci o episódio da mão do Bailote (capítulo V), o semeador que se enforca por não dispor de condições físicas para trabalhar, logo, por não poder garantir a sua subsistência:
– Quando foi da sementeira, o patrão Arnaldo disse-me: “Ó Bailote, tu já não tens a mesma mão para semear.” Porque eu, senhor doutor, tive sempre uma mão funda, assim grande, como um cocho de cortiça. Eu metia a mão ao saco e vinha cheia de semente. Atirava-a à terra e semeava uma jeira num ar.
(…)
E mostrava a sua desgraçada mão, envelhecida, carbonizada de anos e soalheira.
(…)
– Dê-me um remédio, senhor doutor. Um remédio que me ponha a mão como a tinha. Assim, grande, assim, funda, assim, assim…
Aparição
é um belo romance-ensaio sobre o Homem e a sua condição existencial, sobre a privação de Deus e o destino trágico do pensamento. Mas este episódio da mão do Bailote, pela questão social que levanta, sabe de certa forma a neo-realismo.

sexta-feira, setembro 09, 2011

AMARANTE VI

Casa de Teixeira de Pascoaes

Quem traz o outono ao meu jardim agora?/ Quem muda em cinza o fogo do meu lar?/ E quem soluça em mim? Quem é que chora?

Teixeira de Pascoaes, Elegias.

AMARANTE V

O Tâmega, um rio que vem da Galiza.


AMARANTE IV

Túmulo de S. Gonçalo. Sobre a estátua jacente do taumaturgo, dois ramos de cravos e umas perninhas de cera. A fé é que nos salva, diz o povo.

AMARANTE III

Igrejas de S. Gonçalo e S. Domingos

AMARANTE II

"Se a Ciência é a realidade das coisas fora de nós, a Poesia é a sua realidade dentro em nós."
Teixeira de Pascoaes, A Arte de Ser Português, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998, p. 67.

AMARANTE I

"Chega a Amarante o Macdonell, general-em-chefe dos revoltosos, ex-frades, morgados, soldados e oficiais do extinto exército legitimista, bandos de campónios armados, de chapéu de palha e tamancos de pau, prontos a largarem-nos para a fuga, ante o inimigo aparecido no primeiro cabeço de monte ou curva de caminho. Camilo, ao saber da estada do escocês, na Flor do Tâmega, faz dum cordel um correão, dependura dele uma pistola, monta no Pégaso dos raptos alados, e vai juntar-se ao célebre general, que o nomeia seu ajudante-às-ordens."
Teixeira de Pascoaes, O Penitente (Camilo Castelo Branco), Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, p. 88.

quarta-feira, agosto 24, 2011

MEMÓRIAS

As Pequenas Memórias de José Saramago, focando o período da infância e o início da adolescência, visam suprir a falta de um registo que os diários iniciados em 1993 (Cadernos de Lanzarote) dificilmente poderiam dar: o da origem humilde de que tanto se orgulhava, sentimento bem patente no discurso de Estocolmo perante a Academia Sueca (7 de Dezembro de 1998):
O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcos de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia.
No entanto, é interessante verificar que alguns registos de As Pequenas Memórias apareçem já em Manual de Pintura e Caligrafia de 1977. Romance autobiográfico, então? Talvez não. Para um romance ser autobiográfico terá de haver uma clara identificação entre o protagonista e o autor empírico, o que parece não acontecer aqui. É verdade que há esses registos avulsos da infância de Saramago, é verdade que o autor deverá ter feito as peregrinações nele referidas por museus, monumentos e pinacotecas de Itália. Mas não chega. Manual de Pintura e Caligrafia, não obstante a deriva final em que surgem em cena o apodrecimento do regime marcelista e o movimento do 25 de Abril, é um ensaio em forma de ficção sobre a autobiografia, o auto-retrato e a posição do artista perante a obra de arte. Diz o narrador: Biografamos tudo. Às vezes, contamos certo, mas o acerto é muito maior quando inventamos. A invenção não pode ser confrontada com a realidade, logo, tem mais probabilidades de ser exacta.

terça-feira, agosto 23, 2011

O "EU" QUE FALA DE SI

Por esta passagem se percebe como a autobiografia de Roland Barthes é tudo menos a explanação da noção tradicional de autobiografia:

A mim, eu (Moi, je)

Um estudante americano (positivista ou contestatário: já não consigo distinguir) identifica, como se fosse óbvio, subjectividade com narcisismo; pensa certamente que a subjectividade consiste em falar de si, para dizer bem. Isto, por ser vítima dum velho casal, dum velho paradigma: subjectividade/objectividade. Todavia, hoje em dia o sujeito toma-se noutro lado e a “subjectividade” pode regressar noutro ponto da espiral: desconstruída, desunida, deportada, sem amarras: porque não hei-de falar de “eu”, uma vez que “eu” já não é “mim mesmo” (je – moi-même)?

segunda-feira, agosto 22, 2011

"AS PALAVRAS" - A AUTOBIOGRAFIA DE SARTRE

Da sua autobiografia, diz Sartre: Penso que Les mots (As Palavras) não é mais verdadeiro do que La nausée ou Les chemins de la liberté. Não que os factos que aí relato não sejam verdadeiros, mas Les mots é uma espécie de romance também, um romance em que acredito. Significa para Sartre que a autobiografia, usando os mesmos processos técnicos e formais do romance, com este se igualiza em dignidade artística, não se limitando a uma escrita meramente referencial.
As Palavras é um retorno não sentimentalista à infância do autor com a descoberta de dois tesouros: a leitura e a escrita. O menino Jean-Paul, órfão de pai, tutelado por um avô culto e liberal, conheceu cedo o episódio protagonizado por Carlos V, dobrando-se humildemente para apanhar do chão o pincel de Ticiano. Ficou assim a saber que a arte está acima do poder dos príncipes.
Sobre a importância da escrita na construção da sua personalidade, diz: Nasci da escrita: antes dela, havia apenas um jogo de espelhos; desde o meu primeiro romance, soube que uma criança se introduzira no palácio dos espelhos. Escrevendo, eu existia, e se dizia eu, isso significava eu que escrevo.

domingo, agosto 21, 2011

AS "CONFISSÕES" DE ROUSSEAU

Do preâmbulo do autor: Este é o único retrato de homem, pintado exactamente segundo o natural e em toda a sua verdade, que existe e que provavelmente existirá jamais.
Do início do Livro Primeiro: Eis aqui o que fiz, o que pensei, aquilo que fui. Falei, com igual franqueza, do bem e do mal. Nada calei de mau, nada acrescentei de bom, e, se me aconteceu empregar qualquer insignificante adorno, foi tão-somente para tapar uma lacuna motivada pela minha falta de memória; posso ter tomado como verdadeiro o que sabia havê-lo podido ser, nunca o que sabia ser falso.
Estes excertos das Confissões remetem-nos para três perspectivas teóricas sobre a autobiografia: 1ª. A de que a autobiografia, como documento, é referencial: há um sujeito que precede a escrita; 2ª. A de que o autobiógrafo, embora querendo dizer a verdade, não está imune aos desvios da memória, aos impulsos do inconsciente e ao desejo de construir um mito pessoal; 3ª. A de que a escrita não pode narrar a vida de ninguém, partindo da ilusão referencial para sempre chegar à ficção; assim, a escrita autobiográfica não reproduz o sujeito, este é que se cria através da escrita.

sábado, agosto 20, 2011

NABOKOV: AUTOBIOGRAFIA E MNEMÓSINE

A autobiografia de Vladimir Nabokov (1899-1977), cujo título na edição portuguesa é Na Outra Margem da Memória, foi designada como Speak, Memory desde a sua primeira versão de 1947.
No prefácio da edição de 1966 é referido pelo autor que a primeira ideia para título teria sido Speak, Mnemosyne , ideia entretanto abandonada por razões comerciais, porque, segundo conselho recebido, “as velhinhas nunca pediriam um livro com um título que não soubessem pronunciar”. As “velhinhas”daqueles já distantes tempos eram, pelos vistos, grandes leitoras. Convinha pois tê-las em conta.
Ao ler hoje o prefácio e os três primeiros capítulos da edição portuguesa, e ao reparar na palavra que não vingou no título – Mnemosyne – pensei na questão da memória, aspecto importante da teoria autobiográfica pelo uso que dela faz o autobiógrafo quando se dispõe a recuperar factos passados há muitos anos, alguns deles do período longínquo da infância.
É o problema da verdade da autobiografia, dos sempre possíveis desvios da memória (sob a forma de omissões ou embelezamento dos factos narrados) e dos impulsos inconscientes que levam a dar como verdadeiro aquilo que nunca foi.
Mnemósine era na mitologia grega a deusa da Memória. Mas mais do que isso era a mãe das nove musas das artes liberais, sendo que uma delas, Calíope, era a musa da poesia e da eloquência. E é assim que tudo faz sentido no título que Nabokov escolheu e não teve coragem de levar por diante. A autobiografia, que nasce da memória, acolhe-se por direito ao templo de Calíope: porque embora sendo história, é também poesia; porque sendo eloquência, é sobretudo retórica. Tanto como deleitar, a autobiografia está obrigada a convencer o leitor das verdades que narra. Mesmo que sejam ficções.

quinta-feira, agosto 18, 2011

ASSUNÇÃO!

A rapariga até é engraçadinha. Com o seu ar sensato e voluntarioso, com o seu olhar de inteligência calma e irradiante, assemelha-se bastante à colega que todos gostaríamos de ter tido na faculdade para nos passar os apontamentos das aulas a que faltávamos ou para nos explicar as matérias que a nossa limitada compreensão de machos dificilmente conseguia absorver. É ministra da agricultura, actividade humana à qual se aplica na perfeição o decreto do Eterno: “Comerás o pão com o suor do teu rosto”.
Don Lope, ancião por quem começo a ganhar algum afecto (co-extensivo, em moldes especiosos, à sua filha dilecta) dizia-me há tempos que o chefe partidário de Assunção era o único homem em Portugal que poderia salvar a nossa agricultura! Afinal foi salvar outras agriculturas, mas deixou a pequena no lugar em que ele deveria estar – o lugar que lhe pertencia por todas as razões e mais uma, que é a de ser um lugar em que nunca se poderia meter a comprar submarinos ou a fazer outras despesas intoleráveis com material de guerra.
Vi ontem a Assunção numa herdade do Alentejo, na reportagem do telejornal, a escolher tomate ao lado de mulheres de chapéu e lenço sobre a nuca (é bom ver os governantes a meterem a mão na massa – na do trabalho, entenda-se) e aproveitando para falar de fundos que se encontravam paralisados por incompetência de anteriores governos, e que ela acabava de desbloquear para felicidade de todos os agricultores.
Enquanto não chegam as manifestações dos polícias, da Intersindical, dos indignados do Rossio e da Avenida da Liberdade, enquanto não se sentir bem o peso dos efeitos do IVA na electricidade, no gás e os que resultarão da redução da TSU, enquanto não chegar o Natal mais pobre das últimas décadas, é bom que a televisão nos dê estas imagens tranquilizantes. Para susto já bastam as malcriadices do Alberto João, a voz gutural do Aníbal, a cidadania apocalíptica do Nobre.
Haja Deus!

quarta-feira, agosto 17, 2011

"DESVIO COLOSSAL" II

Uma cena de Ettore Scola, "Feios, Porcos e Maus"

Governo Regional diz que faz sacrifícios, por isso também tem direito a empréstimo.
A Madeira exige uma fatia dos 78 mil milhões de euros que a 'troika' emprestou a Portugal para pôr em ordem as contas da região. Alberto João Jardim fez saber isso mesmo a Passos Coelho e a Cavaco Silva, mas a região autónoma não parece disposta a fazer mais sacrifícios, além dos que estão escritos no memorando. As Finanças estão a estudar a hipótese de ajuda, depois de a 'troika' ter descoberto um buraco de 277 milhões nas contas da região, que contribuiu para o "desvio colossal" do Estado.

(DN on line)

terça-feira, agosto 16, 2011

OBRA COMPLETA DE ALMEIDA GARRETT

Quem possuir os dois tomos que se perfilam na banda direita desta imagem, pode estar certo de que tem consigo uma obra valiosa. Para comprová-lo bastará ler a abertura do capítulo II das Viagens, um exemplo vívido e inultrapassável de ironia romântica:

Estas minhas interessantes viagens hão-de ser uma obra-prima, erudita, brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do século. Preciso de o dizer ao leitor, para que ele esteja prevenido; não cuide que são quaisquer dessas rabiscaduras da moda (…) sem nenhum proveito da ciência e do adiantamento da espécie.
Porém, há quem nunca abra estes livros e os tenha como simples ornamento de estantes nas salas harmoniosas, em sintonia decorativa com a cor dos cortinados e os galões das sanefas. Ignoram os tesouros que a obra contém, mas não desconhecem certamente o seu valor de mercado:


Uma obra valiosa, de facto: 1000 EUR a custo justo!

segunda-feira, julho 18, 2011

UM NOVO BLOGUE

É altura de saudar o blogue A CURVA DOS LIVROS - www.acurvadoslivros.blogspot.com - do Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro. Nasceu a 13 de Julho e, por enquanto, tem apenas três contribuidores.

sábado, julho 09, 2011

NO CARTAXO, HOJE

Veja-se este monumento ao vinho e o edifício em fundo com a figuração de um tonel na artística platibanda. Já tivemos uma arquitectura do Port Wine; aqui é simplesmente do Wine ou, melhor dizendo, do Cartaxo Wine. Abençoada terra!

quinta-feira, julho 07, 2011

A " LONGA MANUS" DA JUSTIÇA PORTUGUESA

O Ministério Público solicitou um parecer à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) no âmbito da investigação aberta após queixa contra as agências de 'rating'. [Fonte: DN]

Não é impunemente que se dão murros no estômago do Primeiro-Ministro de Portugal. Força contra as forças obscurantistas dos mercados! Cavaco Silva, insuspeitíssima figura, será arrolado como testemunha; Sócrates, a estudar Filosofia em Paris, fará o seu depoimento por escrito. O País tem finalmente um novo Timor, uma nova causa. Podia parecer que nos faltava um Baltasar Garzón, mas não. “Avancemos sem medos” contra a barbárie capitalista!

domingo, julho 03, 2011

"PATOLOGIA SOCIAL"

O Primo Basílio, novo romance de Eça de Queirós, é um fenómeno artístico revestindo um caso patológico. Para bem se compreender esta obra é preciso discriminar o que nela pertence à jurisdição da arte e o que pertence aos domínios da patologia social.

Eis a doença que êste livro acusa: – A dissolução dos costumes burgueses.
O mais característico sintoma dêsse mal é a falsa educação. A educação burguesa tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrível, a mais perigosa de todas as fraquezas. Esta fraqueza consiste no seguinte: No fundo mais íntimo e mais secreto da sua existência de artifício e de aparato, a burguesa sente-se conscenciosamente mesquinha e reles. Vamos ver porquê.

Veja-se em As Farpas de Ramalho Ortigão, tomo IX, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1944, pp. 245-262

sábado, julho 02, 2011

VÓRTICES

Um dos vórtices da minha existência, tumultuoso e belo, foi quando me apaixonei aos catorze anos. Ela tinha a pele muito branca, os cabelos negros de azeviche, era uma menina da escola e sabia de mim da mesma forma que a flor sabe da abelha que lhe toma o néctar. Ou seja, não sabia! Não me declarei em tempo oportuno, nem sei se tão denodado acto teria tido algum efeito útil, e quando menos esperava já ela namorava com um colega meu.
O problema, para mim, era insuperável. A jovem morava na rua da escola, cem metros abaixo, quase a chegar ao Largo do Calvário do cinema Promotora e da esquadra da PSP. Cem metros era espaço curto para uma declaração vorticista que nunca poderia acontecer no pátio escolar ou nas escadas e corredores do velho edifício da Rua da Creche.
Rua da Creche, do bairro típico de Alcântara. A creche, de que recebeu o nome, ficava mais acima, na Calçada da Tapada. Quem por lá passar, ainda hoje pode ver, inscrita no frontispício dum velho edifício, a palavra “parvulário” – do latim parvulus, que quer dizer criança ainda pequena. Parvulário era um infantário, uma creche – coisas e nomes do tempo erudito da I República!
Esta Rua da Creche é histórica. Era lá que morava, num rés-do-chão revestido de marmorite e com cortinas de renda nas janelas, o mestre Fonseca, professor de dactilografia e caligrafia que escreveu livros e críticas de televisão com o sibilante pseudónimo de Mário Castrim. Foi ele que me publicou uns poemas no Diário de Lisboa – Juvenil, ou, melhor dizendo, publicou dois ou três poemas e deitou para o caixote do lixo uns vinte ou trinta. Como eu lhe agradeço a medida higiénica! Que a terra te seja leve, meu Mestre!
Foi nesta rua que a Pide matou José Dias Coelho, o pintor da balada de José Afonso, e eu estava lá para ouvir o tiro e não saber nada do que acontecera. A Rua da Creche chama-se hoje Rua José Dias Coelho e uma lápide atesta, no local, o hediondo crime.


A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai.


Foi num dia de Dezembro ao principio da noite, fazia frio nas ruas e nas almas. Um vórtice.

No Coliseu -A Morte Saiu à Rua(José Afonso) TvRip.By.Gui.

sexta-feira, julho 01, 2011

"Abandono" (Fado de Peniche) - Amália Rodrigues



Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar.
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar.
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar.

Levaram-te, a meio da noite:
A treva tudo cobria.
Foi de noite, numa noite
De todas a mais sombria.
Foi de noite, foi de noite,
E nunca mais se fez dia.

Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar.
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar.
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar.

(Cantado ontem por Cristina Branco no espectáculo de encerramento das Festas de Lisboa.)

terça-feira, junho 28, 2011

INESPERADAMENTE A MEIO DA TARDE

Acabo de ler na introdução de José Manuel Mendes a “Encontros com Fernando Namora” as seguintes citações de Cesare Pavese (1908-1950):

1/. “A única alegria neste mundo é a de começar”;

2/. “Nada se acrescenta ao que ficou para trás, ao passado. Recomeçamos sempre”.

Fez-me bem. Atiro-me ao trabalho com renovada alegria.

quarta-feira, junho 22, 2011

REYNO DE BABYLONIA

Inspirada no tema e nos emblemas duma obra do jesuíta flamengo Hermano Hugo, também com influências da novela A Preciosa de Sóror Maria do Céu, a narrativa moral REYNO DE BABYLONIA GANHADO PELAS ARMAS DO EMPYREO, de Sóror Magdalena da Glória (pseudónimo: Leonarda Gil da Gama), foi publicada em Lisboa no ano de 1749.

Sóror Magdalena da Glória nasceu em Sintra em 11 de Maio de 1672. Professou com dezasseis anos no Convento da Esperança de Lisboa, da regra de S. Francisco, tendo falecido em provecta idade por volta de 1760.

A seguir se transcreve um resumo da narrativa, feito por este escriba em 2008 no quadro de um trabalho sobre Literatura Portuguesa do Período Barroco.

Tudo se passa num vale confuso da antiga Babilónia (o mundo terreno, lugar de pecado), onde um Príncipe, fiho do Supremo Emperador (Deus Todo Poderoso), põe os olhos apaixonados numa formosa aldeã de nome Angélica (a Alma). Longe de corresponder ao sentimento do seu amante, Angélica mantém-se indiferente, gozando os prazeres mundanos, o que desgosta profundamente o Príncipe. Este envia-lhe diversos membros da sua corte com o intuito de a demoverem de tão ingratos propósitos: fiéis conselheiras (as Virtudes), um embaixador (o Anjo da Guarda) e até um ancião muito respeitado e valoroso que era o mais importante dos seus vassalos (Santo Agostinho).
Ao longo do assédio que lhe move o Príncipe, Angélica tem momentos em que parece inclinar-se para ele, e outros, menos felizes, em que persiste nas vaidades de Babilónia. Manifesta-se então o ciúme do amador, doído por não encontrar correspondência em tal paixão, vendo a sua amada a ceder às tentações de falsos conselheiros (os anjos revoltados) que lhe enalteciam os prazeres dos cinco sentidos. Pretende o Príncipe castigá-la, pois tinha poderes para tal, mas, infinitamente bom e apaixonado, está sempre disposto a conceder-lhe o perdão.
Entre avanços e recuos, rasgos místicos e recaídas no erro, debate-se Angélica com a sua própria inconstância. São trazidos ao leitor exemplos de mulheres que nunca negaram o seu amor ao Divino Amante: Santa Luzia, Santa Rosa de Lima, Santa Catarina de Alexandria, Santa Clara.
O Príncipe, que nunca deixou de seguir a inconstante aldeã, consegue no final que ela se lhe entregue. Emendada a profia dos descaminhos, desfeitos os fumos da vaidade, Angélica une-se com o Príncipe (Jesus Cristo), subindo com ele ao trono do Empíreo.

Se estas tivessem sido as leituras de Emma Bovary…

domingo, junho 19, 2011

"MADAME BOVARY"

Isabelle Huppert (Emma) no filme Madame Bovary (1991) de Claude Chabrol

Agora que ando a reler Madame Bovary, mais me convenço de que o raio da mulher era mesmo má! Tendo-se fascinado pelo requinte do baile de Vaubyessard (fascinação simbolicamente representada pela charuteira de seda verde que amorosamente guardava), gostando portanto de frequentar a alta-roda social e os seus bons modos, não se importou de abandonar a filha recém-nascida na casa de uma ama da pior condição – uma espécie de bruxa suja, miserável e, pelo que se percebe, consumidora regular de aguardente.
E, no entanto, Emma Bovary lia. Lia e tinha amantes, uma associação de gostos (ou uma relação de causa e efeito) frequentemente estabelecida na ficção naturalista de oitocentos. A Luiza d’ O Primo Bazilio também era leitora de novelas, o que vem reforçar aquela máxima que vi inscrita não sei em que livro ou revista:
mulheres que lêem são perigosas!
Também me convenço de que O Primo Bazilio de Eça de Queiroz, em que já se viu uma imitação de Flaubert, é bem melhor do que o romance do mestre francês. Luiza, apesar de tudo, amava o marido; era vítima da criada Juliana, uma das mais notáveis personagens criadas pelo nosso grande romancista; tinha no seu círculo de amigos um conselheiro Acácio, figura muito mais interessante do que o jacobínico Homais; e quanto a refinamentos amorosos, bem, não sei se Léon ou Rodolphe alguma vez fizeram a Emma aquilo que Bazilio fez a Luiza em certa tarde de amor no “Paraíso”…
A terminar, uma pequena declaração: não concordo com a máxima citada. Acho que hoje em dia, mulheres perigosas são mesmo as que não lêem!
Tenho dito, e já me safei (espero).

segunda-feira, junho 13, 2011

PENEDONO, MEU AMOR

Castelo de Penedono: fotografia tirada há cerca de dez anos

    Ao jantar veio um naco de carne assada acompanhado de batatas loiras num molho castanho e espesso. Um arroz solto, tostado, apresentou-se em pequenas taças individuais. Uma alface de folhas lisas, rescendendo a horta, jazia na saladeira debaixo de rodelas de cebola branca, azeitonas e pimentos vermelhos como o sol  no horizonte. Um vinho de Mêda em jarro de cristal fulgia como um luzeiro sobre a toalha branca.
    Comia-se numa mesa rectangular a que se juntavam cadeiras de espaldar alto: o pai e a mãe nos topos, a filha e o convidado de cada um dos lados.
    A sala era digna de um solar: lajedo no chão, granito nas paredes, grossas traves de carvalho no tecto, candelabros de ferro forjado, retratos de avós em cima de móveis de nogueira e uma escada de madeira que rangia na direcção dos quartos.
    O leite-creme sumiu-se da travessa de loiça com os bordos pintados de flores, deixando ver no fundo uma cena bucólica em azul pálido. Vieram bagaceiras e cafés, charutos que o convidado recusou não se sabe bem porquê.
    A mãe era uma senhora roliça, com muitas rugas, setenta anos bem medidos. O pai, que andava pela mesma roda, parecia uma personagem de Buñuel, talvez o Don Lope de Tristana, Amor Perverso. Só que este Don Lope tinha mulher em casa e a filha era mesmo filha, ainda que um bocado mais velha que a Catherine Deneuve do filme.
    Isto passava-se em Penedono. Para quem não saiba, é terra que fica lá para as bandas de S. João da Pesqueira e Foz Côa, perto do Douro, à volta de um castelo medieval que parece um cenário de filme sobre cavaleiros da Távola Redonda. D. Álvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço, um dos Doze de Inglaterra, saiu dali, num tempo de brumas e cavalarias, para ir defender a sua dama em terras dos Duques de Lencastre. Camões, pela boca do marinheiro Veloso, enaltece o feito no Canto VI d’Os Lusíadas – estrofes 43 a 69 para quem queira queimar os olhos com tão incerto episódio histórico.
    Veio o serão. Don Lope gabava o novo rumo que o país finalmente ia tomar, os resultados eleitorais, o governo com uma maioria e um presidente. O convidado concordava por delicadeza, os olhos postos nas traves do tecto como quem pede o auxílio de Deus, trocando olhares com a filha e fazendo uma figa atrás das costas.
    A filha ia bocejando, a semana de trabalho tinha sido dura, estava cansada e queria dormir. Subiu com a mãe as escadas rangentes.       

    Don Lope falava de economia e finanças, de política agrícola. Que havia, sim, um político em Portugal capaz de endireitar a nossa agricultura, assim o deixassem! Não só capaz de endireitar a agricultura como de restabelecer a segurança no país! Uma pouca vergonha o que se passava em matéria de segurança, a polícia sem autoridade, os tribunais contra a polícia, libertando os delituosos e atenuando-lhes as penas.   
    Parece que o político de Don Lope tinha lugar garantido como vice-primeiro-ministro! O convidado, por desfastio ou maldade, pedia mais um balão de bagaceira e lembrava-se de Alexandre O´Neill: Neste país em diminutivo… Respeitinho é que é preciso.   
    Foi por respeito que a mãe mandou a empregada preparar dois quartos. Não se tratava de um namoro de miúdos, afinal a filha até já tinha sido casada, mas há coisas que em certas casas e em certos momentos não são assumidas sem ponderação.
    Enquanto falava com Don Lope o convidado recordava-se da primeira vez que viera a Penedono, em outros tempos e noutro histórico de afectos, já lá iam uns bons dez anos, talvez mais.
    No piso de cima, dizia a mãe para a filha:
    – Se ficarem na mesma cama, desfaçam a do outro quarto como se alguém tivesse lá dormido. A empregada não tem que saber, muito menos o pai.
    O pai, Don Lope, aproveitava uma pausa na conversa para repousar os olhos. Era a sonolência que lhe costumava vir por volta das onze da noite, efeito da medicação, do vinho ou da diabetes ferina.
    O convidado aproveitou para sair de mansinho. Encaminhou-se para as escadas e começou a subi-las, enquanto uma voz lhe atravessava a mente: “Penedono, meu amor”. Por mais que quisesse, não conseguia perceber de que tempo, próximo ou distante, provinha ela.  
 

sexta-feira, junho 03, 2011

CASAMENTO DA MORTE








































Dizia um nosso grande cortesão, que havia três castas de casamento no mundo: casamento de Deus, casamento do diabo, casamento da morte. De Deus, o do mancebo com a moça. Do diabo, o da velha com o mancebo. Da morte, o da moça com o velho.

D. Francisco Manuel de Melo
Carta de Guia de Casados


Ela dava aulas na faculdade, lia Foucault, tinha a cabeça cheia de filosofia e o corpo muito feito a satisfações metafísicas, a fenomenologias frenéticas, a ontologias gritantes. Ele limitava-se a passear os olhos por romances, por um ou outro livro de poesia, e tentava uma vaga investigação literária num trabalho académico de improvável mérito.
Como é que tudo começou? Ninguém pode dizer ao certo o princípio das coisas! Se fosse possível saber onde se levanta o vento, em que região do mar se forma a onda, em que recesso da alma desponta o amor – então o homem seria um lago de águas paradas, não haveria a emoção da vida nem o milagre da dúvida, estaria condenado ao mais pardo dos conformismos existenciais, sujeito a um determinismo tirânico, abominável e destruidor.
Na primeira noite que passaram juntos a coisa não correu mal de todo. Quando entraram na alcova, ela fechou um livro que estava aberto sobre a cama, no qual se viam grandes sublinhados a lápis castanho, tirou os óculos, a camisa e as calças, deixou brilhar o mármore dos seios e a promessa segura do triângulo púbico, e ele agiu como se lhe lesse, sem perceber, uma página densa de Heidegger. A parada era alta, mas lá se safou.
Na noite imediata foi como se lhe recitasse um poema mal decorado. Falhou nas estrofes preliminares, conseguiu recompor-se a meio do texto, e acabou no limiar duma indisposição grave, o coração a galope nas arcadas do peito.
Foram assim as duas primeiras noites. Nas que se seguiram é que foi pior. Ela queria Foucault, Deleuze, Derrida, e ele mal lhe conseguia ler um capítulo de Régio, um poema de Sophia, um artigo do JL dos mais ligeiros.
O amor pelas leituras, no entanto, parecia feito de uma liga forte. Ao fim do dia, antes de se meterem pelo Calhariz e subirem a Rua da Rosa a caminho do segundo andar do prédio em que ela morava, bebiam imperiais na Trindade e passeavam no Chiado de mãos dadas. Uma vez, uma senhora idosa que ia para a missa da tarde na Igreja dos Mártires gabou aquela ternura que via entre pai e filha, algo a que já não se assistia num tempo tão dado a conflitos geracionais. Uma amiga não menos carregada de anos que a acompanhava, mais preparada, contudo, para as realidades do século, pediu-lhe que não dissesse asneiras e ficasse calada. A senhora caiu em si e benzeu-se com veemência, rezando mentalmente a Santo Expedito por todos os que neste mundo se desviam do caminho certo.
O tempo foi passando. Na maior parte das noites não havia filosofia que viesse em seu auxílio. Ela mostrava-se compreensiva, lia e sublinhava encostada ao espaldar da cama, enquanto ele dormia, passeando por sonhos em que entravam pastoras da arcádia, toques de flauta e amores castos.
Sentiu o cheiro da morte numa madrugada de Primavera assustadora e quente. Ela lera os filósofos até tarde, os olhos correndo as páginas como se as quisesse meter dentro de si. Da rua vinha o ruído da malta dos copos, peregrinando de bar em bar. Ele estivera ao computador, escrevendo umas linhas frouxas, e a inevitabilidade do diálogo filosófico crescia como a sombra da noite. Os primeiros embates ultrapassou-os de forma satisfatória, só depois veio o mais complicado. Ela fixava-se num texto de Blanchot sobre Foucault e sexualidade, sabendo ele que quem fala em barcos quer embarcar. Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!, disse o poeta. Ele sentiu saudades de outros tempos e de outros cais onde embarcara, e deixou-se ir na corrente como quem se entrega. Acabou destroçado do excesso, um comprimido de emergência debaixo da língua. Filosofias…
Foi então que se lembrou de ter visto e fotografado no campus universitário de São Paulo, nas paredes de uma qualquer faculdade, uma inscrição a que agora dava completo sentido:

FOUCAULT É A MORTE DA FILOSOFIA!
DELEUZE E DERRIDA TAMBÉM!

Gostava muito dela, mas não aguentou o alto nível do debate filosófico em curso. Nunca mais poderá esquecer o andar velhinho da Rua da Rosa, a alcova semeada de livros, a roupa íntima espalhada pelo chão e o ruído que subia da rua até alta madrugada. Às vezes, por muito que custe, é preciso aprender com os clássicos. Casamento da morte…

segunda-feira, maio 30, 2011

BONNIE AND CLYDE

Faye Dunaway



O filme de que José Régio não gostou. Vi-o na RTP 2, no passado sábado, e só tive olhos para ela.

A VIZINHA

O assédio durava há meses. No elevador, à porta do prédio, nos encontros casuais no café da rua de baixo, a vizinha dirigia-lhe a saudação e inquiria:
- Então o seu menino como está? E a senhora? Faz tempo que não a vejo!
Ele mastigava umas palavras contidas, delicadas, que causavam consternação e dúvida.
- Então está em casa da mãe… Era o que eu devia fazer, tenho a minha mãezinha muito doente. Devia deixar tudo isto e ir ajudá-la.
A vizinha era talvez daquele tempo em que uma das filhas costumava ficar solteira para assistir a mãe nos achaques da velhice. Ela, porém, tinha constituído família, deixado o marido quando já não lhe fazia falta, e agora estava em casa da filha, que era casada- descasada-recasada, com descendência da união actual e da antecedente, e ali cumpria a sua nobre missão de auxílio doméstico: filha, netos e genro actual ao seu cuidado, a mãezinha doente que esperasse.
Isto começara em Novembro. O Inverno, entretanto, despira o arvoredo da praceta, correra veloz sobre a sombra dos dias, insuflando-lhes, semana a semana, suplementos líquidos de luz: em Janeiro uma hora por inteiro, e quem bem contar hora e meia vai achar.
O cheiro das lareiras, esfumado por chaminés altas, foi diminuindo. Escassearam as manchas brancas das garças que vinham do campo debicar a relva dos jardins. Os pássaros miúdos, de penas tufadas, já voltavam mais tarde para os ramos das árvores onde pernoitavam. No escuro da rua, encostados às paredes dos prédios, os jovens beijavam-se enquanto bebiam cervejas, línguas de alterne entre os gargalos frios das garrafas e o húmido quente das bocas.
Quando a Primavera chegou houve ameaços de felicidade em todos os rostos. De um dia para o outro passaram a vestir-se calções e camisas de manga curta. A senhora do segundo andar, que numa manhã partilhara com ele o elevador, já mostrava com naturalidade o terço superior dum seio redondo mas ainda pálido. Se ao menos a senhora do segundo andar lhe perguntasse alguma coisa… Mas não, limitava-se a um breve cumprimento, nada mais, e apenas a vizinha, avó de família, lhe dirigia impiedosamente a palavra.
Um dia em que dera com ele debruçado sobre o estendal da roupa, expondo ao sol três camisas e um par de calças, atirou-lhe de janela para janela, a voz bem timbrada como fazem os artistas de teatro, uma fala laudatória, audaciosa e clara:
- O meu marido nunca me ajudou em nada. Um homem não tem que se envergonhar de fazer o trabalho de casa.
E rematou:
- E a sua senhora, quando volta? Olhe, se precisar de alguma coisa minha…
O assédio continuava com o crescendo dos dias. Por motivos despropositados tocava-lhe à porta a meio da tarde, interpelava-o na rua, e lá vinham os rodeios, as perguntas. Ele já tinha feito o levantamento das suas rotinas: as horas em que ia ao supermercado ou ao café, quando saía para ir buscar a netinha ao colégio. E esquivava-se.
Em Maio veio um Verão precoce e desaustinado. A senhora do segundo andar continuava a mostrar o apetecível. Num domingo em que descera tranquilamente à rua deu com a figura lábil da vizinha que ia atravessando sem grandes pressas a porta larga do prédio. Tentou evitá-la. Deu-lhe a salvação e ia escapar-se, mas ela não lho permitiu:
- Olhe lá, senhor Manuel…
Ele parou, por delicadeza, e para evitar as incómodas perguntas passou ao ataque: começou a falar-lhe da reunião do condomínio, da falta de luz no terceiro andar. Há dois meses que a lâmpada ou o detector tinham falido e ninguém da administração parecia interessado em solucionar o problema; como é que ela se arranjava quando saía do elevador e tratava de introduzir a chave na fechadura da porta?
- Olhe, vou às apalpadelas. Ainda se fosse para apalpar alguma coisa de jeito.
Calou-se uns segundos e contra-atacou:
- Mostre-me as suas mãos.
Ele, surpreendido, levantou-as à altura da cara como quem se rende perante uma arma que acabasse de lhe ser apontada. E a vizinha, exultante, depois de uma observação rápida, disparou:
- Eu bem me parecia, não tem aliança! Já andava desconfiada de que alguma coisa não estava bem!
De soslaio, viu que a senhora do segundo andar se debruçava na sua varanda. Não podia garantir, mas parecia haver nela uma expressão de comiseração enternecida e calma.

sexta-feira, maio 27, 2011

PLAÇA CATALUNYA

Plaça Catalunya - Foto "La Vanguardia"


Tenho um jovem que anda por lá. A verdade é que há mais de 24 horas que não consigo falar-lhe.

terça-feira, maio 24, 2011

COLÓQUIO INTERNACIONAL CARLOS DE OLIVEIRA

27 e 28 de Maio na Casa Fernando Pessoa

"EURICO, O PRESBÍTERO"

LIMA DE FREITAS, painel de azulejos na Estação dos Caminhos de Ferro do Rossio. Evocação esotérica dum episódio de "Eurico, o Presbítero".


Há livros a que sempre voltamos, nem que seja para nos certificarmos de como estávamos errados naqueles tempos antigos em que lhes torcíamos o nariz. Eram as grandes secas dos programas escolares, os trechos das selectas literárias dissecados perante os mestres como se fossem partes de cadáveres numa mesa de anatomia.
Herculano disse de “Eurico” que não sabia como classificar o seu livro: romance histórico, lenda, ou crónica-poema. Tampouco isso o preocupava. O Romantismo foi um período de rupturas, de miscigenação dos géneros literários, de liberdade e libertação da linguagem poética. “Eurico” é um poema em prosa, dos mais belos livros que já se escreveram em língua portuguesa. Reli-o entre sábado e o dia de hoje, e não me saem dos olhos o povoado de Carteia, a sombra escura do Calpe, os alcantis dos Montes Cantábricos. Ler é encher os olhos de imagens, é viajar no espaço e no tempo.

quarta-feira, maio 18, 2011

"A SALA MAGENTA"




Duas peças paratextuais de “A Sala Magenta”


1ª Uma ADVERTÊNCIA do autor:

A acção e as figuras deste romance reportam-se a um mundo ficcional de entrada franca, sem chaves ou gazuas. Procurar moldes da vida real para acontecimentos e personagens é ter em má conta a imaginação do autor. Pode ser que ele o mereça, mas não os lesados por equívocos de leitura.

MdC


2ª Uma das cinco epígrafes do romance – parte de uma carta de Eça de Queirós em que o grande mestre do nosso realismo-naturalismo procura explicar que a personagem Tomás de Alencar de “Os Maias” nada tem a ver com a personagem real do escritor ultra-romântico Bulhão Pato:

E visto que nada agora pode justificar a permanência do Sr. Bulhão Pato no interior do Sr. Tomás de Alencar, causando-lhe manifesto desconforto e empanturramento – o meu intuito final com esta carta é apelar para a conhecida cortesia do autor da “Sátira”, e rogar-lhe o obséquio extremo de se retirar de dentro do meu personagem.


Digo-vos à puridade (comecei agora a usar esta expressão!) que acredito tanto em Eça como em Mário de Carvalho. Ou seja, apreço literário à parte, não tomo como sinceras nem a advertência do autor de “A Sala Magenta” nem a carta do grande escritor de “Os Maias”.

quinta-feira, maio 12, 2011

Catroga e as discussões de pentelhos




Já houve um ministro que contou anedotas de mau gosto sobre alentejanos; outro que fez corninhos para a assembleia. Ambos se demitiram. Será que este ainda vai chegar de novo a Ministro das Finanças?

segunda-feira, maio 09, 2011

PORTUGAL E A FINLÂNDIA

O vídeo da Câmara de Cascais para os finlandeses é um caso perfeito de esperteza saloia, um rol de vulgaridades bacocas e provincianas – como se Mourinho, Ronaldo, o futebol e o uso desproporcionado de telemóveis (esqueceram-se do Allgarve!), tivessem alguma coisa a ver com a grandeza dum povo e com a sua civilização. Garcia da Orta, Magalhães e outros casos interessantes da nossa História estão lá metidos na mixórdia, desvalorizados entre a apologia do bacalhau, do pastel de nata e do porco que se come por inteiro! Aquela do jogo do Benfica em Paris ter tido mais assistentes portugueses do que franceses é de escangalhar a rir. Como se o facto de Paris ser a cidade da Europa com maior número de portugueses não fosse a prova provada da miséria dum povo que teve de encontrar na emigração a solução para a sua sobrevivência. Sobre a cultura portuguesa – literária, artística – nem uma palavra! Parece que em Cascais não há cultura, apenas praias, tias, shopping centers e hotéis que são sempre anunciados como os maiores da Europa ou da Península Ibérica. Na resposta, os finlandeses já disseram que têm belas mulheres, algo de que os autores do nosso vídeo, coitados, nem sequer se lembraram de considerar entre os grandes trunfos das lusas gentes. E, de facto, é a melhor coisinha que temos por cá, as mulheres, especialmente aquelas que não se metem na política e se riem entre o irónico e o sério de toda esta porcaria que é feita pelos machos.