domingo, julho 01, 2018

CASA DE ANTERO DE QUENTAL EM VILA DO CONDE

O autor de Odes Modernas e Causas da Decadência dos Povos Peninsulares viveu nesta casa de Vila do Conde entre 1881 e 1891. De construção recente é a escada de madeira que liga os diversos pisos da casa, materialização simbólica dos versos do soneto "Evolução", de Março de 1882:
Hoje sou homem - e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade...

=Fotos de 28-6-2018=



terça-feira, junho 26, 2018

PINACOTECA

JULIO (Vila do Conde, 1902-1983), Burguês e Prostituta (1931), óleo sobre tela, 78,5 x 63 cm.

domingo, junho 24, 2018

NO MUSEU DO FADO

Num dos painéis alusivos a figuras do fado, os poetas David Mourão-Ferreira, José Régio e Alexandre O' Neill cujos poemas foram e são cantados por renomados fadistas. Destaque para Régio que no ensaio António Boto e o Amor (1938) tece interessantes considerações sobre a canção nacional: «Várias são as modalidades do fado, conforme o meio em que se desenvolve: Assim há o fado dos lupanares, das tabernas, das alfurjas: o fado de salão, de palco, de retiro, de coreto de rancho popular estilizado; o fado das alfamas e mourarias de Lisboa; dos luares do Mondego e becos da Alta de Coimbra; das revistas chulas do Porto ou dos cegos das feiras dos subúrbios. Assim há o fado que arrota e o que põe água de cheiro, o que soluça e o que satiriza, o que pode refrescar a literatura e o que a envilece, o que vai barra fora em terceira classe, guardado numa caixa de guitarra como no coração dum búzio saudoso, e o que se embarca em discos ou navega em ondas sonoras enviadas pelas emissoras. Assim há o fado às vezes execrável e o fado às vezes tocante, - um e outro característicos através das suas modalidades.» Mais adiante, o poeta de Vila do Conde e Portalegre aponta como fontes de inspiração do fado a «paixão do solo pátrio», a «vontade de aventura», o «desgosto das injustiças sociais», o «exibicionismo da desgraça», o «amor filial» e o «amor maternal», a «sede de piedade» e as saudades de tudo, palavras de um verso de António Nobre. Penso que o Museu do Fado terá em arquivo este texto do poeta, mas não deixarei de perguntar da próxima vez que lá for. 

sábado, junho 23, 2018

PINACOTECA

 ANITA MALFATTI (1889-1964), Festa de São João com Guirlanda
DI CAVALCANTI (1897-1976), São João


sexta-feira, junho 22, 2018

LEITURAS TARDIAS

Ainda nos primeiros capítulos. Ismael, o narrador, professor rural oriundo de famílias distintas, embarca como marinheiro em qualquer navio sempre que se sente atacado por estados mórbidos. É, diz ele, a sua estratégia de luta contra o suicídio.

quinta-feira, junho 21, 2018

quarta-feira, junho 20, 2018

RECOLHA DE TEXTO E COLAGEM *

uma voz existe intersticial.
mole é contudo a espera
e tu jazes no chão.
passos na escada vacilante enganam.
é ela ou não ainda?
é ela quem sobe firmamente
é ela.
sem bater entrou 
correu beijou-te a testa os olhos e a boca
o lábio inferior dela no superior da tua boca
num instante de paz.
hoje não posso
problemas de fêmea.
autoirónica sorriu e tu sorriste:
que chatice.

* ALMEIDA FARIA, I Fragmento de Rumor Branco, 5ª edição revista, Lisboa, Assírio & Alvim, 2012.



domingo, junho 10, 2018


A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


quinta-feira, junho 07, 2018

MADAME HYDE (2017), DE SERGE BOZON


ISABELLE HUPPERT, foi por ela que me sentei na sala do Monumental. A transfiguração de uma professora de Física  perante uma classe de jovens descendentes africanos, árabes e magrebinos. Lycée Arthur Rimbaud, escola com nome de poeta maldito.  O rap insubmisso («Demasiado trabalho na escola, e depois da escola não há trabalho») e versos de “Les Phares”, de Charles Baudelaire. Um estranho caso, como o do Dr. Jekyll e Mr. Hyde. 


terça-feira, junho 05, 2018

TOPÓNIMOS



Domingo, 3-6-2018
Nenhum jasmim nestas escadas de luz e sombra em cujas pedras cresce uma árvore como uma alegoria verde. Árvores em flor em outros pontos da cidade. Nesta Lisboa, onde agora «a cor dos jacarandás floridos / se mistura à do Tejo, em flor também,» (Eugénio de Andrade).



segunda-feira, abril 09, 2018


Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma.
(...)
Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra. Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram , absolutos, sob os meus olhos contemplativos. Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.

quinta-feira, abril 05, 2018

PINACOTECA

Praia de Banhos, Póvoa de Varzim (1884), de MARQUES DE OLIVEIRA (Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado).

José Régio veio décadas depois
na nave redonda do Diana Bar.
Não a banhos, como as figuras
do quadro, mas para escrever
a confissão derradeira
no limiar da morte,
a luta perdida
nos corredores do tempo,
a moeda na mão para o sonâmbulo
barqueiro.  
  
28-6-2017

quarta-feira, abril 04, 2018

VOU LENDO

PORTUGAL

O teu Produto Interno
é Bruto.

(p. 50)

--- Com uma epígrafe tirada de Mário de Sá-Carneiro, poema "Caranguejola":
Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras, / Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou. / Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras: / Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou. 

terça-feira, abril 03, 2018


A vida prejudica a expressão da vida. Se eu vivesse um grande amor nunca o poderia contar.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


terça-feira, março 20, 2018


Não o amor, mas os arredores é que vale a pena...
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.

segunda-feira, março 19, 2018

VOU LENDO


« – Falei-te uma vez de uma rapariguinha que conheci em Mira, lembras-te? Antes de entrar para a Faculdade…  – Ela assentiu com a cabeça. – Reencontrei-a há poucas semanas. Não aconteceu nada entre nós, mas já poderia ter acontecido, só não aconteceu porque nem eu nem ela quisemos, embora quiséssemos. – Observa-a em silêncio, como se pretendesse seguir os pensamentos da mulher. – Preferimos manter um futuro de reserva , não o gastar já no presente, entendes? Recorrer a ele apenas quando tudo o mais tiver falhado.» --- A superação do tempo linear e a plasticidade das personagens. Uma forma de narrar não tradicional. Cruzamento de planos narrativos, de vozes, avanços e recuos na linha da história.  A sugestão de ambientes, como os que nos são dados por uma câmara de filmar. Mais “aventura da escrita” do que “escrita da aventura”.  Ó meus caros amigos, isto está muito à frente do que agora nos é dado pelos escritores da moda.



quarta-feira, março 14, 2018

PINACOTECA

FERNAND LÉGER (1831-1955), Les Loisirs - Hommage à Louis David ou Le Beau est partout (1948-49). Musée national d´art moderne, Centre Pompidou, Paris. 

domingo, março 11, 2018


Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


quarta-feira, março 07, 2018

CARTOON XIRA

A CARTOON XIRA, retrospectiva dos melhores cartoons publicados em 2017, decorre este ano na FÁBRICA DAS PALAVRAS. Na imagem, o trabalho de Cristiano Salgado (n. 1977): Ida de Mário Centeno para presidente do Eurogrupo.


sexta-feira, março 02, 2018



Não se subordinar a nada – nem a um homem, nem a um amor, nem a uma ideia, ter aquela independência longínqua que consiste em não crer na verdade, nem, se a houvesse, na utilidade do conhecimento dela – tal é o estado em que, parece-me, deve decorrer, para consigo mesma, a vida íntima intelectual dos que não vivem sem pensar. Pertencer – eis a banalidade. Credo, ideal, mulher ou profissão – tudo isso é a cela e as algemas.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


quinta-feira, março 01, 2018

A DAMA DO OCULTO


«Decretado o divórcio, a dama do oculto estabeleceu-se com um homem mais novo sem papéis nem assinaturas. Uma espécie de toy boy, na sugestiva expressão que só a língua de Shakespeare e John Keats é capaz de nos dar. Mas não durou muito este casamento do diabo, expressão da Carta de Guia de Casados de D. Francisco Manuel de Melo: casamento de Deus, o dos noivos da mesma idade; da morte, o do velho com a jovem; do diabo, o que tem lugar entre o jovem e a velha. O toy boy não desistira de ser brinquedo de outras senhoras, e a dama do oculto, dona da casa que servia de cenário às brincadeiras do casal, demitiu-o das suas funções sem sobressalto ou angústia de qualquer das partes.»
--- Excerto duma narrativa inédita.

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

PINACOTECA

HENRIQUE POUSÃO (Vila Viçosa, 1859-1884), Cecília (1882), óleo s/ tela 82 x 57,5 cm, Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

terça-feira, fevereiro 27, 2018

CATERINA DE CAMÕES


«Não se sabe ao certo quando e por que razões começou a tomar medicamentos homeopáticos. Segundo as notas do dossiê, Hermes falara do assunto com a florista, tendo sabido que além de tomar os ditos medicamentos Caterina de Camões adquirira o hábito de os prescrever a amigos e familiares como se fosse mestra encartada daquelas artes de curar. Watson lembrou-se então do falso homeopata José Dias, agregado da família de Bentinho Santiago no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. E aproveitou, no desenvolvimento da conversa, para arrasar o método terapêutico e o princípio similia similibis curantur, o mesmo é dizer o semelhante pelo semelhante se cura, classificando-os como pseudociência e charlatanismo.»
--- Excerto duma narrativa inédita.

quarta-feira, fevereiro 21, 2018


Amo-a como ao poente ou ao luar, com o desejo de que o momento fique, mas sem que seja meu nele mais que a sensação de tê-lo.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


segunda-feira, fevereiro 19, 2018

LA FEMME DE MES RÊVES

Exposição da artista Bela Silva (n. 1966) na galeria Alecrim 50. Aqui, o trabalho de desenho-pintura-colagem La femme de mes rêves. Não imaginava que pudesse ser assim, mas senti-o como tal. Uma questão de percepção sinestésica, talvez. Gostei.

=Fotos de 17-2-2018=

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

PINACOTECA


NICOLAAS VERKOLJE (1678-1764), Thamar violada por Amnón, óleo sobre tela, 49x57,5cm, Staatsgalerie Stuttgart. 
Episódio bíblico, 2 SAMUEL 13 (Thamar e Amnón eram meios-irmãos, filhos de David).
Poema de F. García Lorca em Romancero Gitano (excerto): 
«Thamar, bórrame los ojos
con tu fija madrugada.
Mios hilos de sangre tejen
volantes sobre tus faldas.
Déjame tranquila, hermano.
Son tus besos en mi espalda,
avispas y vientecillos
en doble enjambre de flautas.
Thamar, en tus pechos altos
hay dos peces que me llaman,
y en las yemas de tus dedos
rumor de rosa encerrada.»

quarta-feira, fevereiro 14, 2018


A doçura de não ter família nem companhia, esse suave gosto como o do exílio, em que sentimos o orgulho do desterro esbater-nos em volúpia incerta a vaga inquietação de estar longe - tudo isto eu gozo a meu modo, indiferentemente.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


sábado, fevereiro 10, 2018


Em mim todas as afeições se passam à superfície, mas sinceramente. Tenho sido actor sempre, e a valer. Sempre que amei, fingi que amei, e para mim mesmo o finjo.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


sexta-feira, fevereiro 09, 2018

PINACOTECA

BORIS TASLITZKY, Télégramme (1936), óleo sobre tela, 27x35cm. 
 IGNORONS LIEU RESIDENCE ACTUEL DE
MONSIEUR GARCIA LLORCA
COLONEL ESPINOSA COMMANDANT MILITAIRE
DE LA PLACE DE GRANADE
ESPAGNE


quinta-feira, fevereiro 08, 2018

"A CARTOMANTE", DE MACHADO DE ASSIS

Nada canónico. No conto, a carta anónima não foi enviada ao marido, mas ao amante prevaricador, por sinal amigo extremoso do atraiçoado. Chamava-lhe imoral e pérfido, avisando-o de que a aventura era sabida de todos. Uma subtileza de Machado de Assis no século de Emma Bovary e Luiza Carvalho. A cartomante, uma italiana, sondara o insondável na claridade fosca do seu baralho de cartas, e encorajou-os a ambos: a infeliz apaixonada e o fogoso ragazzo innamorato. Morreram – o que a cartomante não previra (ou se calhar previra) – às mãos justiceiras do varão desonrado. 
= Leitura a 22 de Fevereiro na Comunidade de Leitores da Casa da Achada.


quinta-feira, fevereiro 01, 2018

RÉGIO, PESSOA E AS VIAGENS


«Neste meu estado, falam-me em viagens! Digo, eu próprio, que tenciono ir a Itália no próximo ano; – e o mais curioso é que efectivamente alimento esse vago plano: ir lá com os Mirandas. Na verdade, porém, que me interessam actualmente as viagens? que me interessam pessoal e profundamente? que poderão ensinar-me que eu não saiba, dar-me que eu não tenha? (O que não quer dizer que não me possam entreter muito.) É aos extrovertidos que as viagens interessam: aos cujo relativo vazio da vida interior se tapa com uma aparência de enriquecimento. Eu sei que é em mim que tenho o mundo – o mundo que me é possível apreender. Em mim vive toda a multidão dos meus personagens possíveis; e são em multidão! Em mim se desenrolam os dramas, tragédias, comédias que posso criar. Em mim há diversos meios, ambientes, paisagens…»
--- JOSÉ RÉGIO, Páginas do Diário Íntimo, Vila do Conde, 27 de Setembro de 1948.

«A ideia de viajar nauseia-me.
Já vi tudo que nunca tinha visto.
Já vi tudo que ainda não vi.
(…)
Ah, viagem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.
(…)
Quando se sente de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.»
--- BERNARDO SOARES, Livro do Desassossego. 


quarta-feira, janeiro 31, 2018

PINACOTECA

BORIS TASLITZKY, Le wagon des déportés, 1945, óleo sobre tela, 285 x188,5, Musée d´art et d´histoire de Saint-Denis. - Boris Taslitzky (Paris,1911-2005) esteve detido no campo de concentração de Buchenwald entre 6 de Agosto de 1944 e 11 de Abril de 1945, data da libertação dos detidos pelas tropas americanas.



quarta-feira, janeiro 24, 2018

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
= Álvaro de Campos, "Tabacaria"

terça-feira, janeiro 23, 2018

PORTUGAL SACRO-PROFANO

O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar (...)

--- RUY BELO, "Portugal Sacro-Profano / Vila do Conde", Homem de Palavra[s].



segunda-feira, janeiro 22, 2018

EPIFANIAS






Apareceu-me hoje, de repente, na Rua Dona Estefânia, num cartaz colado numa parede decrépita. 

Dizem que o filme é fracote. Não sei, ainda não vi, mas gostei muito de a ver.


domingo, janeiro 21, 2018


Como todo o indivíduo de grande mobilidade mental, tenho um amor orgânico e fatal à fixação. Abomino a vida nova e o lugar desconhecido.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego

sexta-feira, janeiro 19, 2018

AINDA "O IDIOTA"

A propósito de O Idiota, de Fiódor Dostoievski, lembrei-me deste texto de João Gaspar Simões publicado no nº 6, de 18 de Julho de 1927, da presença. À data, eram directores da revista coimbrã José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, empenhados que estavam na introdução de novos conceitos de apreciação crítica na literatura portuguesa. «Em Dostoievski tudo é vivo», diz Gaspar Simões a abrir, o que remete de imediato para os manifestos da presença “Literatura Viva” (nº 1, de 10 de Março de 1927) e “Literatura Livresca e Literatura Viva” (nº 9, de 9 de Fevereiro de 1928). A valorização do elemento humano na sua vertente psicológica veio a ser o modelo seguido pelos romancistas da presença  na criação das suas obras. João Gaspar Simões assinala o interesse de se explorar o «sub-solo humano» das personagens, mostrando a sua natureza contraditória e imprevisível, diferentemente do que era feito até Dostoievski mesmo por grandes mestres do romance como Stendhal, Balzac, Dickens e Flaubert. A concepção do homem uno e consequente, expresso através de personagens que reagiam sempre da mesma maneira, sem uma contradição por onde se manifestasse a sua complexidade e «natureza verdadeiramente humana», não seria mais possível depois de Dostoievski. Lendo O Idiota, encontramos essas personagens psicologicamente estilhaçadas em Nastássia Fillíppovna, Aglaia Ivánovna, Rogójin e, naturalmente, no protagonista, o príncipe Míchkin. Disse Nietzsche, segundo citação de Gaspar Simões, que o escritor russo foi o único que lhe ensinou alguma coisa em psicologia. 

= Obra em discussão na Comunidade de Leitores da Biblioteca  Municipal José Saramago, Feijó, Almada =