EGON SCHIELE (1890-1918), Mulher Deitada (1917).
terça-feira, junho 19, 2018
segunda-feira, junho 11, 2018
domingo, junho 10, 2018
quinta-feira, junho 07, 2018
MADAME HYDE (2017), DE SERGE BOZON
ISABELLE
HUPPERT, foi por ela que me sentei na sala do Monumental. A transfiguração de
uma professora de Física perante uma
classe de jovens descendentes africanos, árabes e magrebinos. Lycée Arthur Rimbaud,
escola com nome de poeta maldito. O rap insubmisso
(«Demasiado trabalho na escola, e depois da escola não há trabalho») e versos
de “Les Phares”, de Charles Baudelaire. Um estranho caso, como o do Dr. Jekyll
e Mr. Hyde.
terça-feira, junho 05, 2018
TOPÓNIMOS
Domingo, 3-6-2018
Nenhum jasmim nestas escadas de luz e
sombra em cujas pedras cresce uma árvore como uma alegoria verde. Árvores em flor em
outros pontos da cidade. Nesta Lisboa, onde agora «a cor dos jacarandás floridos / se
mistura à do Tejo, em flor também,» (Eugénio de Andrade).
quinta-feira, maio 31, 2018
quinta-feira, maio 24, 2018
domingo, maio 06, 2018
segunda-feira, abril 09, 2018
Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma.
(...)
Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra. Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram , absolutos, sob os meus olhos contemplativos. Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.
quinta-feira, abril 05, 2018
PINACOTECA
Praia de Banhos, Póvoa de Varzim (1884), de MARQUES DE OLIVEIRA (Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado).
José Régio veio décadas depois
José Régio veio décadas depois
na nave redonda do Diana Bar.
Não a banhos, como as figuras
do quadro, mas para escrever
a confissão derradeira
no limiar da morte,
a luta perdida
nos corredores do tempo,
a moeda na mão para o sonâmbulo
barqueiro.
28-6-2017
quarta-feira, abril 04, 2018
VOU LENDO
PORTUGAL
O teu Produto Interno
é Bruto.
(p. 50)
--- Com uma epígrafe tirada de Mário de Sá-Carneiro, poema "Caranguejola":
Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras, / Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou. / Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras: / Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.
Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras, / Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou. / Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras: / Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.
terça-feira, abril 03, 2018
domingo, março 25, 2018
terça-feira, março 20, 2018
segunda-feira, março 19, 2018
VOU LENDO
« – Falei-te uma vez de uma
rapariguinha que conheci em Mira, lembras-te? Antes de entrar para a Faculdade…
– Ela assentiu com a cabeça. –
Reencontrei-a há poucas semanas. Não aconteceu nada entre nós, mas já poderia
ter acontecido, só não aconteceu porque nem eu nem ela quisemos, embora
quiséssemos. – Observa-a em silêncio, como se pretendesse seguir os pensamentos
da mulher. – Preferimos manter um futuro de reserva , não o gastar já no
presente, entendes? Recorrer a ele apenas quando tudo o mais tiver falhado.»
--- A superação do tempo linear e a plasticidade das personagens. Uma forma de
narrar não tradicional. Cruzamento de planos narrativos, de vozes, avanços e
recuos na linha da história. A sugestão
de ambientes, como os que nos são dados por uma câmara de filmar. Mais “aventura
da escrita” do que “escrita da aventura”. Ó meus caros amigos, isto está muito à frente do que agora nos é dado pelos escritores da moda.
quarta-feira, março 14, 2018
PINACOTECA
FERNAND LÉGER (1831-1955), Les Loisirs - Hommage à Louis David ou Le Beau est partout (1948-49). Musée national d´art moderne, Centre Pompidou, Paris.
domingo, março 11, 2018
Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.
quarta-feira, março 07, 2018
CARTOON XIRA
A CARTOON XIRA, retrospectiva dos melhores cartoons publicados em 2017, decorre este ano na FÁBRICA DAS PALAVRAS. Na imagem, o trabalho de Cristiano Salgado (n. 1977): Ida de Mário Centeno para presidente do Eurogrupo.
domingo, março 04, 2018
sexta-feira, março 02, 2018
Não se subordinar a nada – nem a um homem, nem a um amor, nem
a uma ideia, ter aquela independência longínqua que consiste em não crer na
verdade, nem, se a houvesse, na utilidade do conhecimento dela – tal é o estado
em que, parece-me, deve decorrer, para consigo mesma, a vida íntima intelectual
dos que não vivem sem pensar. Pertencer – eis a banalidade. Credo, ideal,
mulher ou profissão – tudo isso é a cela e as algemas.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.
quinta-feira, março 01, 2018
A DAMA DO OCULTO
«Decretado o divórcio,
a dama do oculto estabeleceu-se com um homem mais novo sem papéis nem
assinaturas. Uma espécie de toy boy, na
sugestiva expressão que só a língua de Shakespeare e John Keats é capaz de nos
dar. Mas não durou muito este casamento do diabo, expressão da Carta de Guia de Casados de D. Francisco
Manuel de Melo: casamento de Deus, o dos noivos da mesma idade; da morte, o do
velho com a jovem; do diabo, o que tem lugar entre o jovem e a velha. O toy boy não desistira de ser brinquedo
de outras senhoras, e a dama do oculto, dona da casa que servia de cenário às
brincadeiras do casal, demitiu-o das suas funções sem sobressalto ou angústia
de qualquer das partes.»
---
Excerto duma narrativa inédita.
quarta-feira, fevereiro 28, 2018
PINACOTECA
HENRIQUE POUSÃO (Vila Viçosa, 1859-1884), Cecília (1882), óleo s/ tela 82 x 57,5 cm, Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.
terça-feira, fevereiro 27, 2018
CATERINA DE CAMÕES
«Não
se sabe ao certo quando e por que razões começou a tomar medicamentos
homeopáticos. Segundo as notas do dossiê, Hermes falara do assunto com a
florista, tendo sabido que além de tomar os ditos medicamentos Caterina de
Camões adquirira o hábito de os prescrever a amigos e familiares como se fosse
mestra encartada daquelas artes de curar. Watson lembrou-se então do falso
homeopata José Dias, agregado da família de Bentinho Santiago no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. E
aproveitou, no desenvolvimento da conversa, para arrasar o método terapêutico e
o princípio similia similibis curantur, o
mesmo é dizer o semelhante pelo
semelhante se cura, classificando-os como pseudociência e charlatanismo.»
---
Excerto duma narrativa inédita.
quarta-feira, fevereiro 21, 2018
segunda-feira, fevereiro 19, 2018
LA FEMME DE MES RÊVES
Exposição da
artista Bela Silva (n. 1966) na galeria Alecrim 50. Aqui, o trabalho de desenho-pintura-colagem La femme de mes
rêves. Não imaginava que pudesse ser assim, mas senti-o como tal. Uma questão de percepção sinestésica, talvez. Gostei.
=Fotos de 17-2-2018=
sexta-feira, fevereiro 16, 2018
quinta-feira, fevereiro 15, 2018
PINACOTECA
NICOLAAS VERKOLJE (1678-1764), Thamar violada por Amnón, óleo sobre tela, 49x57,5cm, Staatsgalerie Stuttgart.
Episódio bíblico, 2 SAMUEL 13 (Thamar e Amnón eram meios-irmãos, filhos de David).
Poema de F. García Lorca em Romancero Gitano (excerto):
«Thamar, bórrame los ojos
con tu fija madrugada.
Mios hilos de sangre tejen
volantes sobre tus faldas.
Déjame tranquila, hermano.
Son tus besos en mi espalda,
avispas y vientecillos
en doble enjambre de flautas.
Thamar, en tus pechos altos
hay dos peces que me llaman,
y en las yemas de tus dedos
rumor de rosa encerrada.»
quarta-feira, fevereiro 14, 2018
terça-feira, fevereiro 13, 2018
sábado, fevereiro 10, 2018
sexta-feira, fevereiro 09, 2018
PINACOTECA
BORIS TASLITZKY, Télégramme (1936), óleo sobre tela, 27x35cm.
IGNORONS LIEU RESIDENCE ACTUEL DE
MONSIEUR GARCIA LLORCA
MONSIEUR GARCIA LLORCA
COLONEL ESPINOSA COMMANDANT MILITAIRE
DE LA PLACE DE GRANADE
ESPAGNE
quinta-feira, fevereiro 08, 2018
"A CARTOMANTE", DE MACHADO DE ASSIS
Nada canónico. No conto, a carta
anónima não foi enviada ao marido, mas ao amante prevaricador, por sinal amigo
extremoso do atraiçoado. Chamava-lhe imoral e pérfido, avisando-o de que a
aventura era sabida de todos. Uma subtileza de Machado de Assis no século de
Emma Bovary e Luiza Carvalho. A cartomante, uma italiana, sondara o insondável
na claridade fosca do seu baralho de cartas, e encorajou-os a ambos: a infeliz
apaixonada e o fogoso ragazzo innamorato.
Morreram – o que a cartomante não previra (ou se calhar previra) – às mãos justiceiras do varão desonrado.
= Leitura a 22 de Fevereiro na Comunidade de Leitores da Casa da Achada.
quinta-feira, fevereiro 01, 2018
RÉGIO, PESSOA E AS VIAGENS
«Neste meu
estado, falam-me em viagens! Digo, eu próprio, que tenciono ir a Itália no
próximo ano; – e o mais curioso é que efectivamente alimento esse vago plano:
ir lá com os Mirandas. Na verdade, porém, que me interessam actualmente as
viagens? que me interessam pessoal e
profundamente? que poderão ensinar-me que eu não saiba, dar-me que eu não
tenha? (O que não quer dizer que não me possam entreter muito.) É aos extrovertidos que as viagens interessam: aos
cujo relativo vazio da vida interior se tapa com uma aparência de
enriquecimento. Eu sei que é em mim que tenho o mundo – o mundo que me é
possível apreender. Em mim vive toda a multidão dos meus personagens possíveis;
e são em multidão! Em mim se desenrolam os dramas, tragédias, comédias que
posso criar. Em mim há diversos meios, ambientes, paisagens…»
--- JOSÉ
RÉGIO, Páginas do Diário Íntimo, Vila
do Conde, 27 de Setembro de 1948.
«A ideia de
viajar nauseia-me.
Já vi tudo
que nunca tinha visto.
Já vi tudo
que ainda não vi.
(…)
Ah, viagem
os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida.
Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos
comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.
(…)
Quando se sente
de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até
outro universo.»
--- BERNARDO
SOARES, Livro do Desassossego.
quarta-feira, janeiro 31, 2018
PINACOTECA
BORIS TASLITZKY, Le wagon des déportés, 1945, óleo sobre tela, 285 x188,5, Musée d´art et d´histoire de Saint-Denis. - Boris Taslitzky (Paris,1911-2005) esteve detido no campo de concentração de Buchenwald entre 6 de Agosto de 1944 e 11 de Abril de 1945, data da libertação dos detidos pelas tropas americanas.
quarta-feira, janeiro 24, 2018
terça-feira, janeiro 23, 2018
PORTUGAL SACRO-PROFANO
O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar (...)
--- RUY BELO, "Portugal Sacro-Profano / Vila do Conde", Homem de Palavra[s].
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar (...)
--- RUY BELO, "Portugal Sacro-Profano / Vila do Conde", Homem de Palavra[s].
segunda-feira, janeiro 22, 2018
EPIFANIAS
Apareceu-me hoje, de repente, na Rua Dona Estefânia, num cartaz colado numa parede decrépita.
Dizem que o filme é fracote. Não sei, ainda não vi, mas gostei muito de a ver.
domingo, janeiro 21, 2018
sábado, janeiro 20, 2018
sexta-feira, janeiro 19, 2018
AINDA "O IDIOTA"
A propósito de O Idiota, de Fiódor Dostoievski, lembrei-me deste texto de João
Gaspar Simões publicado no nº 6, de 18 de Julho de 1927, da presença. À data, eram directores da
revista coimbrã José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, empenhados que
estavam na introdução de novos conceitos de apreciação crítica na literatura
portuguesa. «Em Dostoievski tudo é vivo», diz Gaspar Simões a abrir, o que
remete de imediato para os manifestos da presença
“Literatura Viva” (nº 1, de 10 de Março de 1927) e “Literatura Livresca e
Literatura Viva” (nº 9, de 9 de Fevereiro de 1928). A valorização do elemento
humano na sua vertente psicológica veio a ser o modelo seguido pelos
romancistas da presença na criação das suas obras. João Gaspar Simões assinala
o interesse de se explorar o «sub-solo humano» das personagens, mostrando a sua
natureza contraditória e imprevisível, diferentemente do que era feito até
Dostoievski mesmo por grandes mestres do romance como Stendhal, Balzac, Dickens
e Flaubert. A concepção do homem uno e consequente, expresso através de personagens
que reagiam sempre da mesma maneira, sem uma contradição por onde se manifestasse
a sua complexidade e «natureza verdadeiramente humana», não seria mais possível depois de Dostoievski. Lendo O Idiota, encontramos essas personagens psicologicamente
estilhaçadas em Nastássia Fillíppovna, Aglaia Ivánovna, Rogójin e,
naturalmente, no protagonista, o príncipe Míchkin. Disse Nietzsche, segundo citação de Gaspar Simões, que o escritor russo foi o único que lhe ensinou alguma coisa em psicologia.
= Obra em discussão na Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal José Saramago, Feijó, Almada =
= Obra em discussão na Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal José Saramago, Feijó, Almada =
domingo, dezembro 31, 2017
ARTES DE ACABAR E COMEÇAR UM ANO
«Dosteievski imagina o destino do mundo através da mediação que lhe oferece o destino do seu povo. É a abordagem típica dos grandes nacionalistas, para quem a humanidade só pode desenvolver-se através da mediação da comunidade popular. A grandeza do romance manifesta-se na relação de dependência recíproca e absoluta através da qual se descrevem as leis metafísicas que regem o desenvolvimento da humanidade e o da nação (...)» --- Walter Benjamin sobre O Idiota.
sexta-feira, dezembro 29, 2017
quinta-feira, dezembro 28, 2017
quarta-feira, dezembro 27, 2017
SONIA DELAUNAY, pintora (Gradizhsk, Ucrânia, 1885 – Paris, 1979)
Veio viver para Vila do Conde, durante a
Primeira Grande Guerra, acompanhada do marido, o artista francês Robert
Delaunay. Trabalharam durante cerca de um ano e meio na casa a que chamaram La
Simultanée, relacionando-se com os pintores Amadeo de Souza-Cardoso, Almada
Negreiros e Eduardo Viana.
A casa situa-se na actual Avenida Bento de
Freitas, junto à praia.
= Fotos tiradas em 22-12-2017.
= Pintura: “Prismas Eléctricos”, óleo s/ tela, Museu
Nacional de Arte Moderna, Centro Pompidou, Paris.
quinta-feira, dezembro 21, 2017
PINACOTECA
FRANÇOIS BOUCHER, Retrato de Marie-Louise O' Murphy (1751)
Óleo sobre tela 59x73cm
Alte Pinakotheke, Munique
quarta-feira, dezembro 20, 2017
FICÇÕES
Há tanta coisa que eu ignoro
e é tão irremediável este tempo perdidoÓ boi da paciência sê meu amigo!
António Ramos Rosa
O boi da paciência,
explica-me o sentido do boi da paciência, pedia-lhe ela, agitando no frenesim
das mãos o livro do poeta António Ramos Rosa.
E eu sei!? E eu sei!?
Resposta dele.
Que ele sabia, sim
senhor, não tinha era vontade de lhe dar atenção, de perder tempo com ela, pois
se não sabia por que razão lia tão avidamente os escritos dos poetas? A voz
fraquejou-lhe em falsete, o peito sobressaltado
e ofegante, tremeu-lhe a vista e uma ruga insinuou-se-lhe no rosto no auge da
contrariedade que a tomava.
Ele disse-lhe que a
poesia é a expressão de sentimentos indizíveis, inexplicáveis, mas ela não quis
ouvir. Atirou com o livro para cima da mesa, o qual ficou estranhamente aberto,
as folhas levantadas em leque. Gostava mais de romances e narrativas históricas,
o boi da paciência não estava com ela na leitura de poesia.
Não se pode amar alguém
que não lê o mesmo poema, pensou ele, lembrando-se de uma conhecida canção
popular, e saiu para a varanda a olhar o céu da noite. Julgou ver o poeta na
sua viagem através de uma nebulosa, transfigurado de anos e esquecimento,
cruzando no carro de Apolo o vasto tecto de estrelas.
Esteve ali muito tempo
a olhar o céu, a noite era gelo. Não se pode amar, não se pode amar, ia dizendo
baixinho.
Foi então que ela veio
ter com ele à varanda. Afagou-lhe o braço, puxou-o para si e levou-o para
dentro. A mesa da sala coalhava-se de estrelas que saíam do livro aberto. E
ambos conseguiam vê-las.
terça-feira, dezembro 19, 2017
segunda-feira, dezembro 18, 2017
QUINZE POETAS PORTUGUESES DO SÉCULO XX
Selecção de Gastão Cruz para a edição da Assírio e Alvim, ano de 2004. Os quinze poetas mais representativos do nosso século XX: Camilo Pessanha (1867-1926), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), Vitorino Nemésio (1901-1978), Jorge de Sena (1919-1978), Sophia (1919-2004), Carlos de Oliveira (1921-1981), Eugénio de Andrade (1923-2005), Mário Cesariny (1923-2006), António Ramos Rosa (1924-2013), Alexandre O´Neill (1924-1986), Herberto Helder (1930-2015), Ruy Belo (1933-1978), Fiama (1938-2007) e Luiza Neto Jorge (1939-1989). Considerando vinte poetas quem viria a seguir? Teixeira de Pascoaes (1877-1952), José Régio (1901-1969), Mário Dionísio (1916-1993), Manuel Alegre (1936) e Al Berto (1948-1997)? E Gastão Cruz (1941), ficaria entre os vinte e cinco ou os trinta?
quinta-feira, dezembro 14, 2017
O EU E O OUTRO
«Há um ser que ocupa o meu ser e me
domina quer eu queira ou não queira. Quem há aí capaz de dizer que a mesma
ideia o não persegue? – Se ela morresse… – Arreda-a. Também eu. Mas saio disto
aos gritos. Esfacelado. Tenho por força de o admitir na minha companhia.
Subjuga-me. Pior: faz-me falta quando o não tenho ao pé de mim.»
--- RAUL BRANDÃO, Húmus, 10 de Janeiro
terça-feira, dezembro 12, 2017
quinta-feira, dezembro 07, 2017
PINACOTECA
FRANÇOIS BOUCHER (1703-1770), Visita de Vénus a Vulcano (1757), óleo sobre tela, Museu do Louvre.
[Livro VIII da Eneida, Vénus exerce o seu poder de sedução para pedir armas para Eneias.]
quarta-feira, dezembro 06, 2017
FICÇÕES
Era tão insegura que as pernas lhe tremiam
nervosamente sempre que estava perto da pessoa amada. Tinha receios
inexplicáveis, como imaginar que ele a diminuía aos olhos dos outros ou que se
ria dela depois de terem terminado uma conversa telefónica. Por vezes,
ligava-lhe de seguida, dizendo que o tinha ouvido rir, que não se enganara,
indagando a razão do suposto riso. Achava-se feia e sem graça, vivendo temerosa
da possibilidade de ter mau hálito ou de não vestir a roupa certa quando saía
para ir com ele ao cinema. Coisa mais extraordinária, beijava sempre de olhos
abertos, como se quisesse certificar-se de que o céu não lhe caía em cima nos
momentos de prazer em que lhe entregava os lábios. Um dia deixou de responder
aos seus convites por temer que ele lhe aparecesse com outra mulher só para a
ofender e humilhar. E passou a andar sozinha, sem falar com ninguém, lendo
histórias infantis para adormecer e sonhar. Uma noite leu a história do patinho
feio e pensou que ainda poderia vir a ser um cisne. Deve-se ter afogado no lago
ou voado para longe, tal como o cisne do conto, pois nunca mais foi vista.
domingo, dezembro 03, 2017
PINACOTECA
VAN GOGH, "Casa Amarela de Arles", óleo sobre tela, Fundação Vincent van Gogh (Arles). Foto de Julho de 2014
«Tenciono ir morar para a casa amanhã; mas como comprei coisas e ainda faltam outras (...), preciso que me envies mais uma vez 100 francos em lugar de 50.»
--- Cartas de Van Gogh a seu irmão Theo, 17 de Setembro de 1888.
sábado, dezembro 02, 2017
FRAUTA MINHA, QUE TANGENDO
CABEÇA (c.
1913), DE GUILHERME SANTA-RITA
O pintor dizia-se ultramonárquico e imperialista,
como se lê numa carta de Mário de Sá-Carneiro
para Fernando Pessoa, datada de Paris,
28 de Outubro de 1912,
quando provavelmente já começara a esboçar
o rútilo delírio da sua cabeça cubo-futurista.
Filho de oleiro, dizia-se,
saltimbanco em Badajoz,
pintou o silêncio num quarto sem móveis
e foi Gervásio Vila-Nova
em A Confissão de Lúcio.
Cabeça diferente de todas as cabeças,
elmo de perfil trágico, prenúncio
da carnificina próxima.
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