domingo, junho 10, 2018


A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


quinta-feira, junho 07, 2018

MADAME HYDE (2017), DE SERGE BOZON


ISABELLE HUPPERT, foi por ela que me sentei na sala do Monumental. A transfiguração de uma professora de Física  perante uma classe de jovens descendentes africanos, árabes e magrebinos. Lycée Arthur Rimbaud, escola com nome de poeta maldito.  O rap insubmisso («Demasiado trabalho na escola, e depois da escola não há trabalho») e versos de “Les Phares”, de Charles Baudelaire. Um estranho caso, como o do Dr. Jekyll e Mr. Hyde. 


terça-feira, junho 05, 2018

TOPÓNIMOS



Domingo, 3-6-2018
Nenhum jasmim nestas escadas de luz e sombra em cujas pedras cresce uma árvore como uma alegoria verde. Árvores em flor em outros pontos da cidade. Nesta Lisboa, onde agora «a cor dos jacarandás floridos / se mistura à do Tejo, em flor também,» (Eugénio de Andrade).



segunda-feira, abril 09, 2018


Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma.
(...)
Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra. Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram , absolutos, sob os meus olhos contemplativos. Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.

quinta-feira, abril 05, 2018

PINACOTECA

Praia de Banhos, Póvoa de Varzim (1884), de MARQUES DE OLIVEIRA (Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado).

José Régio veio décadas depois
na nave redonda do Diana Bar.
Não a banhos, como as figuras
do quadro, mas para escrever
a confissão derradeira
no limiar da morte,
a luta perdida
nos corredores do tempo,
a moeda na mão para o sonâmbulo
barqueiro.  
  
28-6-2017

quarta-feira, abril 04, 2018

VOU LENDO

PORTUGAL

O teu Produto Interno
é Bruto.

(p. 50)

--- Com uma epígrafe tirada de Mário de Sá-Carneiro, poema "Caranguejola":
Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras, / Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou. / Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras: / Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou. 

terça-feira, abril 03, 2018


A vida prejudica a expressão da vida. Se eu vivesse um grande amor nunca o poderia contar.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


terça-feira, março 20, 2018


Não o amor, mas os arredores é que vale a pena...
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.

segunda-feira, março 19, 2018

VOU LENDO


« – Falei-te uma vez de uma rapariguinha que conheci em Mira, lembras-te? Antes de entrar para a Faculdade…  – Ela assentiu com a cabeça. – Reencontrei-a há poucas semanas. Não aconteceu nada entre nós, mas já poderia ter acontecido, só não aconteceu porque nem eu nem ela quisemos, embora quiséssemos. – Observa-a em silêncio, como se pretendesse seguir os pensamentos da mulher. – Preferimos manter um futuro de reserva , não o gastar já no presente, entendes? Recorrer a ele apenas quando tudo o mais tiver falhado.» --- A superação do tempo linear e a plasticidade das personagens. Uma forma de narrar não tradicional. Cruzamento de planos narrativos, de vozes, avanços e recuos na linha da história.  A sugestão de ambientes, como os que nos são dados por uma câmara de filmar. Mais “aventura da escrita” do que “escrita da aventura”.  Ó meus caros amigos, isto está muito à frente do que agora nos é dado pelos escritores da moda.



quarta-feira, março 14, 2018

PINACOTECA

FERNAND LÉGER (1831-1955), Les Loisirs - Hommage à Louis David ou Le Beau est partout (1948-49). Musée national d´art moderne, Centre Pompidou, Paris. 

domingo, março 11, 2018


Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


quarta-feira, março 07, 2018

CARTOON XIRA

A CARTOON XIRA, retrospectiva dos melhores cartoons publicados em 2017, decorre este ano na FÁBRICA DAS PALAVRAS. Na imagem, o trabalho de Cristiano Salgado (n. 1977): Ida de Mário Centeno para presidente do Eurogrupo.


sexta-feira, março 02, 2018



Não se subordinar a nada – nem a um homem, nem a um amor, nem a uma ideia, ter aquela independência longínqua que consiste em não crer na verdade, nem, se a houvesse, na utilidade do conhecimento dela – tal é o estado em que, parece-me, deve decorrer, para consigo mesma, a vida íntima intelectual dos que não vivem sem pensar. Pertencer – eis a banalidade. Credo, ideal, mulher ou profissão – tudo isso é a cela e as algemas.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


quinta-feira, março 01, 2018

A DAMA DO OCULTO


«Decretado o divórcio, a dama do oculto estabeleceu-se com um homem mais novo sem papéis nem assinaturas. Uma espécie de toy boy, na sugestiva expressão que só a língua de Shakespeare e John Keats é capaz de nos dar. Mas não durou muito este casamento do diabo, expressão da Carta de Guia de Casados de D. Francisco Manuel de Melo: casamento de Deus, o dos noivos da mesma idade; da morte, o do velho com a jovem; do diabo, o que tem lugar entre o jovem e a velha. O toy boy não desistira de ser brinquedo de outras senhoras, e a dama do oculto, dona da casa que servia de cenário às brincadeiras do casal, demitiu-o das suas funções sem sobressalto ou angústia de qualquer das partes.»
--- Excerto duma narrativa inédita.

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

PINACOTECA

HENRIQUE POUSÃO (Vila Viçosa, 1859-1884), Cecília (1882), óleo s/ tela 82 x 57,5 cm, Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

terça-feira, fevereiro 27, 2018

CATERINA DE CAMÕES


«Não se sabe ao certo quando e por que razões começou a tomar medicamentos homeopáticos. Segundo as notas do dossiê, Hermes falara do assunto com a florista, tendo sabido que além de tomar os ditos medicamentos Caterina de Camões adquirira o hábito de os prescrever a amigos e familiares como se fosse mestra encartada daquelas artes de curar. Watson lembrou-se então do falso homeopata José Dias, agregado da família de Bentinho Santiago no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. E aproveitou, no desenvolvimento da conversa, para arrasar o método terapêutico e o princípio similia similibis curantur, o mesmo é dizer o semelhante pelo semelhante se cura, classificando-os como pseudociência e charlatanismo.»
--- Excerto duma narrativa inédita.

quarta-feira, fevereiro 21, 2018


Amo-a como ao poente ou ao luar, com o desejo de que o momento fique, mas sem que seja meu nele mais que a sensação de tê-lo.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


segunda-feira, fevereiro 19, 2018

LA FEMME DE MES RÊVES

Exposição da artista Bela Silva (n. 1966) na galeria Alecrim 50. Aqui, o trabalho de desenho-pintura-colagem La femme de mes rêves. Não imaginava que pudesse ser assim, mas senti-o como tal. Uma questão de percepção sinestésica, talvez. Gostei.

=Fotos de 17-2-2018=

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

PINACOTECA


NICOLAAS VERKOLJE (1678-1764), Thamar violada por Amnón, óleo sobre tela, 49x57,5cm, Staatsgalerie Stuttgart. 
Episódio bíblico, 2 SAMUEL 13 (Thamar e Amnón eram meios-irmãos, filhos de David).
Poema de F. García Lorca em Romancero Gitano (excerto): 
«Thamar, bórrame los ojos
con tu fija madrugada.
Mios hilos de sangre tejen
volantes sobre tus faldas.
Déjame tranquila, hermano.
Son tus besos en mi espalda,
avispas y vientecillos
en doble enjambre de flautas.
Thamar, en tus pechos altos
hay dos peces que me llaman,
y en las yemas de tus dedos
rumor de rosa encerrada.»

quarta-feira, fevereiro 14, 2018


A doçura de não ter família nem companhia, esse suave gosto como o do exílio, em que sentimos o orgulho do desterro esbater-nos em volúpia incerta a vaga inquietação de estar longe - tudo isto eu gozo a meu modo, indiferentemente.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


sábado, fevereiro 10, 2018


Em mim todas as afeições se passam à superfície, mas sinceramente. Tenho sido actor sempre, e a valer. Sempre que amei, fingi que amei, e para mim mesmo o finjo.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


sexta-feira, fevereiro 09, 2018

PINACOTECA

BORIS TASLITZKY, Télégramme (1936), óleo sobre tela, 27x35cm. 
 IGNORONS LIEU RESIDENCE ACTUEL DE
MONSIEUR GARCIA LLORCA
COLONEL ESPINOSA COMMANDANT MILITAIRE
DE LA PLACE DE GRANADE
ESPAGNE


quinta-feira, fevereiro 08, 2018

"A CARTOMANTE", DE MACHADO DE ASSIS

Nada canónico. No conto, a carta anónima não foi enviada ao marido, mas ao amante prevaricador, por sinal amigo extremoso do atraiçoado. Chamava-lhe imoral e pérfido, avisando-o de que a aventura era sabida de todos. Uma subtileza de Machado de Assis no século de Emma Bovary e Luiza Carvalho. A cartomante, uma italiana, sondara o insondável na claridade fosca do seu baralho de cartas, e encorajou-os a ambos: a infeliz apaixonada e o fogoso ragazzo innamorato. Morreram – o que a cartomante não previra (ou se calhar previra) – às mãos justiceiras do varão desonrado. 
= Leitura a 22 de Fevereiro na Comunidade de Leitores da Casa da Achada.


quinta-feira, fevereiro 01, 2018

RÉGIO, PESSOA E AS VIAGENS


«Neste meu estado, falam-me em viagens! Digo, eu próprio, que tenciono ir a Itália no próximo ano; – e o mais curioso é que efectivamente alimento esse vago plano: ir lá com os Mirandas. Na verdade, porém, que me interessam actualmente as viagens? que me interessam pessoal e profundamente? que poderão ensinar-me que eu não saiba, dar-me que eu não tenha? (O que não quer dizer que não me possam entreter muito.) É aos extrovertidos que as viagens interessam: aos cujo relativo vazio da vida interior se tapa com uma aparência de enriquecimento. Eu sei que é em mim que tenho o mundo – o mundo que me é possível apreender. Em mim vive toda a multidão dos meus personagens possíveis; e são em multidão! Em mim se desenrolam os dramas, tragédias, comédias que posso criar. Em mim há diversos meios, ambientes, paisagens…»
--- JOSÉ RÉGIO, Páginas do Diário Íntimo, Vila do Conde, 27 de Setembro de 1948.

«A ideia de viajar nauseia-me.
Já vi tudo que nunca tinha visto.
Já vi tudo que ainda não vi.
(…)
Ah, viagem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.
(…)
Quando se sente de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.»
--- BERNARDO SOARES, Livro do Desassossego. 


quarta-feira, janeiro 31, 2018

PINACOTECA

BORIS TASLITZKY, Le wagon des déportés, 1945, óleo sobre tela, 285 x188,5, Musée d´art et d´histoire de Saint-Denis. - Boris Taslitzky (Paris,1911-2005) esteve detido no campo de concentração de Buchenwald entre 6 de Agosto de 1944 e 11 de Abril de 1945, data da libertação dos detidos pelas tropas americanas.



quarta-feira, janeiro 24, 2018

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
= Álvaro de Campos, "Tabacaria"

terça-feira, janeiro 23, 2018

PORTUGAL SACRO-PROFANO

O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar (...)

--- RUY BELO, "Portugal Sacro-Profano / Vila do Conde", Homem de Palavra[s].



segunda-feira, janeiro 22, 2018

EPIFANIAS






Apareceu-me hoje, de repente, na Rua Dona Estefânia, num cartaz colado numa parede decrépita. 

Dizem que o filme é fracote. Não sei, ainda não vi, mas gostei muito de a ver.


domingo, janeiro 21, 2018


Como todo o indivíduo de grande mobilidade mental, tenho um amor orgânico e fatal à fixação. Abomino a vida nova e o lugar desconhecido.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego

sexta-feira, janeiro 19, 2018

AINDA "O IDIOTA"

A propósito de O Idiota, de Fiódor Dostoievski, lembrei-me deste texto de João Gaspar Simões publicado no nº 6, de 18 de Julho de 1927, da presença. À data, eram directores da revista coimbrã José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, empenhados que estavam na introdução de novos conceitos de apreciação crítica na literatura portuguesa. «Em Dostoievski tudo é vivo», diz Gaspar Simões a abrir, o que remete de imediato para os manifestos da presença “Literatura Viva” (nº 1, de 10 de Março de 1927) e “Literatura Livresca e Literatura Viva” (nº 9, de 9 de Fevereiro de 1928). A valorização do elemento humano na sua vertente psicológica veio a ser o modelo seguido pelos romancistas da presença  na criação das suas obras. João Gaspar Simões assinala o interesse de se explorar o «sub-solo humano» das personagens, mostrando a sua natureza contraditória e imprevisível, diferentemente do que era feito até Dostoievski mesmo por grandes mestres do romance como Stendhal, Balzac, Dickens e Flaubert. A concepção do homem uno e consequente, expresso através de personagens que reagiam sempre da mesma maneira, sem uma contradição por onde se manifestasse a sua complexidade e «natureza verdadeiramente humana», não seria mais possível depois de Dostoievski. Lendo O Idiota, encontramos essas personagens psicologicamente estilhaçadas em Nastássia Fillíppovna, Aglaia Ivánovna, Rogójin e, naturalmente, no protagonista, o príncipe Míchkin. Disse Nietzsche, segundo citação de Gaspar Simões, que o escritor russo foi o único que lhe ensinou alguma coisa em psicologia. 

= Obra em discussão na Comunidade de Leitores da Biblioteca  Municipal José Saramago, Feijó, Almada =

domingo, dezembro 31, 2017

ARTES DE ACABAR E COMEÇAR UM ANO


«Dosteievski imagina o destino do mundo através da mediação que lhe oferece o destino do seu povo. É a abordagem típica dos grandes nacionalistas, para quem a humanidade só pode desenvolver-se através da mediação da comunidade popular. A grandeza do romance manifesta-se na relação de dependência recíproca e absoluta através da qual se descrevem as leis metafísicas que regem o desenvolvimento da humanidade e o da nação (...)» --- Walter Benjamin sobre O Idiota.
 
 

sexta-feira, dezembro 29, 2017

quinta-feira, dezembro 28, 2017

quarta-feira, dezembro 27, 2017

SONIA DELAUNAY, pintora (Gradizhsk, Ucrânia, 1885 – Paris, 1979)

Veio viver para Vila do Conde, durante a Primeira Grande Guerra, acompanhada do marido, o artista francês Robert Delaunay. Trabalharam durante cerca de um ano e meio na casa a que chamaram La Simultanée, relacionando-se com os pintores Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros e Eduardo Viana.
A casa situa-se na actual Avenida Bento de Freitas, junto à praia.
= Fotos tiradas em 22-12-2017.
= Pintura:  “Prismas Eléctricos”, óleo s/ tela, Museu Nacional de Arte Moderna, Centro Pompidou, Paris.
 
 

quinta-feira, dezembro 21, 2017

PINACOTECA

FRANÇOIS BOUCHER, Retrato de Marie-Louise O' Murphy (1751)
Óleo sobre tela 59x73cm
Alte Pinakotheke, Munique
 

quarta-feira, dezembro 20, 2017

FICÇÕES


Há tanta coisa que eu ignoro
e é tão irremediável este tempo perdido
Ó boi da paciência sê meu amigo!

António Ramos Rosa

O boi da paciência, explica-me o sentido do boi da paciência, pedia-lhe ela, agitando no frenesim das mãos o livro do poeta António Ramos Rosa.  
E eu sei!? E eu sei!? Resposta dele.
Que ele sabia, sim senhor, não tinha era vontade de lhe dar atenção, de perder tempo com ela, pois se não sabia por que razão lia tão avidamente os escritos dos poetas? A voz fraquejou-lhe em falsete, o peito  sobressaltado e ofegante, tremeu-lhe a vista e uma ruga insinuou-se-lhe no rosto no auge da contrariedade que a tomava.
Ele disse-lhe que a poesia é a expressão de sentimentos indizíveis, inexplicáveis, mas ela não quis ouvir. Atirou com o livro para cima da mesa, o qual ficou estranhamente aberto, as folhas levantadas em leque. Gostava mais de romances e narrativas históricas, o boi da paciência não estava com ela na leitura de poesia.
Não se pode amar alguém que não lê o mesmo poema, pensou ele, lembrando-se de uma conhecida canção popular, e saiu para a varanda a olhar o céu da noite. Julgou ver o poeta na sua viagem através de uma nebulosa, transfigurado de anos e esquecimento, cruzando no carro de Apolo o vasto tecto de estrelas.
Esteve ali muito tempo a olhar o céu, a noite era gelo. Não se pode amar, não se pode amar, ia dizendo baixinho.
Foi então que ela veio ter com ele à varanda. Afagou-lhe o braço, puxou-o para si e levou-o para dentro. A mesa da sala coalhava-se de estrelas que saíam do livro aberto. E ambos conseguiam vê-las.     
 
   

segunda-feira, dezembro 18, 2017

QUINZE POETAS PORTUGUESES DO SÉCULO XX

Selecção de Gastão Cruz para a edição da Assírio e Alvim, ano de 2004. Os quinze poetas mais representativos do nosso século XX: Camilo Pessanha (1867-1926), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), Vitorino Nemésio (1901-1978), Jorge de Sena (1919-1978), Sophia (1919-2004), Carlos de Oliveira (1921-1981), Eugénio de Andrade (1923-2005), Mário Cesariny (1923-2006), António Ramos Rosa (1924-2013), Alexandre O´Neill (1924-1986), Herberto Helder (1930-2015), Ruy Belo (1933-1978), Fiama (1938-2007) e Luiza Neto Jorge (1939-1989). Considerando vinte poetas quem viria a seguir? Teixeira de Pascoaes (1877-1952), José Régio (1901-1969), Mário Dionísio (1916-1993), Manuel Alegre (1936) e Al Berto (1948-1997)? E Gastão Cruz (1941), ficaria entre os vinte e cinco ou os trinta?
 
 

quinta-feira, dezembro 14, 2017

O EU E O OUTRO

«Há um ser que ocupa o meu ser e me domina quer eu queira ou não queira. Quem há aí capaz de dizer que a mesma ideia o não persegue? – Se ela morresse… – Arreda-a. Também eu. Mas saio disto aos gritos. Esfacelado. Tenho por força de o admitir na minha companhia. Subjuga-me. Pior: faz-me falta quando o não tenho ao pé de mim.»
--- RAUL BRANDÃO, Húmus, 10 de Janeiro
 


quinta-feira, dezembro 07, 2017

PINACOTECA

FRANÇOIS BOUCHER (1703-1770), Visita de Vénus a Vulcano (1757), óleo sobre tela, Museu do Louvre.
[Livro VIII da Eneida, Vénus exerce o seu poder de sedução para pedir armas para Eneias.]
 

quarta-feira, dezembro 06, 2017

FICÇÕES


Era tão insegura que as pernas lhe tremiam nervosamente sempre que estava perto da pessoa amada. Tinha receios inexplicáveis, como imaginar que ele a diminuía aos olhos dos outros ou que se ria dela depois de terem terminado uma conversa telefónica. Por vezes, ligava-lhe de seguida, dizendo que o tinha ouvido rir, que não se enganara, indagando a razão do suposto riso. Achava-se feia e sem graça, vivendo temerosa da possibilidade de ter mau hálito ou de não vestir a roupa certa quando saía para ir com ele ao cinema. Coisa mais extraordinária, beijava sempre de olhos abertos, como se quisesse certificar-se de que o céu não lhe caía em cima nos momentos de prazer em que lhe entregava os lábios. Um dia deixou de responder aos seus convites por temer que ele lhe aparecesse com outra mulher só para a ofender e humilhar. E passou a andar sozinha, sem falar com ninguém, lendo histórias infantis para adormecer e sonhar. Uma noite leu a história do patinho feio e pensou que ainda poderia vir a ser um cisne. Deve-se ter afogado no lago ou voado para longe, tal como o cisne do conto, pois nunca mais foi vista.
 
 
 

domingo, dezembro 03, 2017

PINACOTECA

VAN GOGH, "Casa Amarela de Arles", óleo sobre tela, Fundação Vincent van Gogh (Arles). Foto de Julho de 2014
 
«Tenciono ir morar para a casa amanhã; mas como comprei coisas e ainda faltam outras (...), preciso que me envies mais uma vez 100 francos em lugar de 50.»
--- Cartas de Van Gogh a seu irmão Theo, 17 de Setembro de 1888.
 


sábado, dezembro 02, 2017

FRAUTA MINHA, QUE TANGENDO


CABEÇA (c. 1913), DE GUILHERME SANTA-RITA

O pintor dizia-se ultramonárquico e imperialista,
como se lê numa carta de Mário de Sá-Carneiro
para Fernando Pessoa, datada de Paris,
28 de Outubro de 1912,
quando provavelmente já começara a esboçar
o rútilo delírio da sua cabeça cubo-futurista.
Filho de oleiro, dizia-se,
saltimbanco em Badajoz,
pintou o silêncio num quarto sem móveis
e foi Gervásio Vila-Nova
em A Confissão de Lúcio.
Cabeça diferente de todas as cabeças,
elmo de perfil trágico, prenúncio
da carnificina próxima.