segunda-feira, abril 09, 2018


Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma.
(...)
Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra. Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram , absolutos, sob os meus olhos contemplativos. Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.

quinta-feira, abril 05, 2018

PINACOTECA

Praia de Banhos, Póvoa de Varzim (1884), de MARQUES DE OLIVEIRA (Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado).

José Régio veio décadas depois
na nave redonda do Diana Bar.
Não a banhos, como as figuras
do quadro, mas para escrever
a confissão derradeira
no limiar da morte,
a luta perdida
nos corredores do tempo,
a moeda na mão para o sonâmbulo
barqueiro.  
  
28-6-2017

quarta-feira, abril 04, 2018

VOU LENDO

PORTUGAL

O teu Produto Interno
é Bruto.

(p. 50)

--- Com uma epígrafe tirada de Mário de Sá-Carneiro, poema "Caranguejola":
Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras, / Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou. / Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras: / Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou. 

terça-feira, abril 03, 2018


A vida prejudica a expressão da vida. Se eu vivesse um grande amor nunca o poderia contar.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


terça-feira, março 20, 2018


Não o amor, mas os arredores é que vale a pena...
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.

segunda-feira, março 19, 2018

VOU LENDO


« – Falei-te uma vez de uma rapariguinha que conheci em Mira, lembras-te? Antes de entrar para a Faculdade…  – Ela assentiu com a cabeça. – Reencontrei-a há poucas semanas. Não aconteceu nada entre nós, mas já poderia ter acontecido, só não aconteceu porque nem eu nem ela quisemos, embora quiséssemos. – Observa-a em silêncio, como se pretendesse seguir os pensamentos da mulher. – Preferimos manter um futuro de reserva , não o gastar já no presente, entendes? Recorrer a ele apenas quando tudo o mais tiver falhado.» --- A superação do tempo linear e a plasticidade das personagens. Uma forma de narrar não tradicional. Cruzamento de planos narrativos, de vozes, avanços e recuos na linha da história.  A sugestão de ambientes, como os que nos são dados por uma câmara de filmar. Mais “aventura da escrita” do que “escrita da aventura”.  Ó meus caros amigos, isto está muito à frente do que agora nos é dado pelos escritores da moda.



quarta-feira, março 14, 2018

PINACOTECA

FERNAND LÉGER (1831-1955), Les Loisirs - Hommage à Louis David ou Le Beau est partout (1948-49). Musée national d´art moderne, Centre Pompidou, Paris. 

domingo, março 11, 2018


Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


quarta-feira, março 07, 2018

CARTOON XIRA

A CARTOON XIRA, retrospectiva dos melhores cartoons publicados em 2017, decorre este ano na FÁBRICA DAS PALAVRAS. Na imagem, o trabalho de Cristiano Salgado (n. 1977): Ida de Mário Centeno para presidente do Eurogrupo.


sexta-feira, março 02, 2018



Não se subordinar a nada – nem a um homem, nem a um amor, nem a uma ideia, ter aquela independência longínqua que consiste em não crer na verdade, nem, se a houvesse, na utilidade do conhecimento dela – tal é o estado em que, parece-me, deve decorrer, para consigo mesma, a vida íntima intelectual dos que não vivem sem pensar. Pertencer – eis a banalidade. Credo, ideal, mulher ou profissão – tudo isso é a cela e as algemas.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


quinta-feira, março 01, 2018

A DAMA DO OCULTO


«Decretado o divórcio, a dama do oculto estabeleceu-se com um homem mais novo sem papéis nem assinaturas. Uma espécie de toy boy, na sugestiva expressão que só a língua de Shakespeare e John Keats é capaz de nos dar. Mas não durou muito este casamento do diabo, expressão da Carta de Guia de Casados de D. Francisco Manuel de Melo: casamento de Deus, o dos noivos da mesma idade; da morte, o do velho com a jovem; do diabo, o que tem lugar entre o jovem e a velha. O toy boy não desistira de ser brinquedo de outras senhoras, e a dama do oculto, dona da casa que servia de cenário às brincadeiras do casal, demitiu-o das suas funções sem sobressalto ou angústia de qualquer das partes.»
--- Excerto duma narrativa inédita.

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

PINACOTECA

HENRIQUE POUSÃO (Vila Viçosa, 1859-1884), Cecília (1882), óleo s/ tela 82 x 57,5 cm, Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

terça-feira, fevereiro 27, 2018

CATERINA DE CAMÕES


«Não se sabe ao certo quando e por que razões começou a tomar medicamentos homeopáticos. Segundo as notas do dossiê, Hermes falara do assunto com a florista, tendo sabido que além de tomar os ditos medicamentos Caterina de Camões adquirira o hábito de os prescrever a amigos e familiares como se fosse mestra encartada daquelas artes de curar. Watson lembrou-se então do falso homeopata José Dias, agregado da família de Bentinho Santiago no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. E aproveitou, no desenvolvimento da conversa, para arrasar o método terapêutico e o princípio similia similibis curantur, o mesmo é dizer o semelhante pelo semelhante se cura, classificando-os como pseudociência e charlatanismo.»
--- Excerto duma narrativa inédita.

quarta-feira, fevereiro 21, 2018


Amo-a como ao poente ou ao luar, com o desejo de que o momento fique, mas sem que seja meu nele mais que a sensação de tê-lo.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


segunda-feira, fevereiro 19, 2018

LA FEMME DE MES RÊVES

Exposição da artista Bela Silva (n. 1966) na galeria Alecrim 50. Aqui, o trabalho de desenho-pintura-colagem La femme de mes rêves. Não imaginava que pudesse ser assim, mas senti-o como tal. Uma questão de percepção sinestésica, talvez. Gostei.

=Fotos de 17-2-2018=

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

PINACOTECA


NICOLAAS VERKOLJE (1678-1764), Thamar violada por Amnón, óleo sobre tela, 49x57,5cm, Staatsgalerie Stuttgart. 
Episódio bíblico, 2 SAMUEL 13 (Thamar e Amnón eram meios-irmãos, filhos de David).
Poema de F. García Lorca em Romancero Gitano (excerto): 
«Thamar, bórrame los ojos
con tu fija madrugada.
Mios hilos de sangre tejen
volantes sobre tus faldas.
Déjame tranquila, hermano.
Son tus besos en mi espalda,
avispas y vientecillos
en doble enjambre de flautas.
Thamar, en tus pechos altos
hay dos peces que me llaman,
y en las yemas de tus dedos
rumor de rosa encerrada.»

quarta-feira, fevereiro 14, 2018


A doçura de não ter família nem companhia, esse suave gosto como o do exílio, em que sentimos o orgulho do desterro esbater-nos em volúpia incerta a vaga inquietação de estar longe - tudo isto eu gozo a meu modo, indiferentemente.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.