domingo, dezembro 31, 2017

ARTES DE ACABAR E COMEÇAR UM ANO


«Dosteievski imagina o destino do mundo através da mediação que lhe oferece o destino do seu povo. É a abordagem típica dos grandes nacionalistas, para quem a humanidade só pode desenvolver-se através da mediação da comunidade popular. A grandeza do romance manifesta-se na relação de dependência recíproca e absoluta através da qual se descrevem as leis metafísicas que regem o desenvolvimento da humanidade e o da nação (...)» --- Walter Benjamin sobre O Idiota.
 
 

sexta-feira, dezembro 29, 2017

quinta-feira, dezembro 28, 2017

quarta-feira, dezembro 27, 2017

SONIA DELAUNAY, pintora (Gradizhsk, Ucrânia, 1885 – Paris, 1979)

Veio viver para Vila do Conde, durante a Primeira Grande Guerra, acompanhada do marido, o artista francês Robert Delaunay. Trabalharam durante cerca de um ano e meio na casa a que chamaram La Simultanée, relacionando-se com os pintores Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros e Eduardo Viana.
A casa situa-se na actual Avenida Bento de Freitas, junto à praia.
= Fotos tiradas em 22-12-2017.
= Pintura:  “Prismas Eléctricos”, óleo s/ tela, Museu Nacional de Arte Moderna, Centro Pompidou, Paris.
 
 

quinta-feira, dezembro 21, 2017

PINACOTECA

FRANÇOIS BOUCHER, Retrato de Marie-Louise O' Murphy (1751)
Óleo sobre tela 59x73cm
Alte Pinakotheke, Munique
 

quarta-feira, dezembro 20, 2017

FICÇÕES


Há tanta coisa que eu ignoro
e é tão irremediável este tempo perdido
Ó boi da paciência sê meu amigo!

António Ramos Rosa

O boi da paciência, explica-me o sentido do boi da paciência, pedia-lhe ela, agitando no frenesim das mãos o livro do poeta António Ramos Rosa.  
E eu sei!? E eu sei!? Resposta dele.
Que ele sabia, sim senhor, não tinha era vontade de lhe dar atenção, de perder tempo com ela, pois se não sabia por que razão lia tão avidamente os escritos dos poetas? A voz fraquejou-lhe em falsete, o peito  sobressaltado e ofegante, tremeu-lhe a vista e uma ruga insinuou-se-lhe no rosto no auge da contrariedade que a tomava.
Ele disse-lhe que a poesia é a expressão de sentimentos indizíveis, inexplicáveis, mas ela não quis ouvir. Atirou com o livro para cima da mesa, o qual ficou estranhamente aberto, as folhas levantadas em leque. Gostava mais de romances e narrativas históricas, o boi da paciência não estava com ela na leitura de poesia.
Não se pode amar alguém que não lê o mesmo poema, pensou ele, lembrando-se de uma conhecida canção popular, e saiu para a varanda a olhar o céu da noite. Julgou ver o poeta na sua viagem através de uma nebulosa, transfigurado de anos e esquecimento, cruzando no carro de Apolo o vasto tecto de estrelas.
Esteve ali muito tempo a olhar o céu, a noite era gelo. Não se pode amar, não se pode amar, ia dizendo baixinho.
Foi então que ela veio ter com ele à varanda. Afagou-lhe o braço, puxou-o para si e levou-o para dentro. A mesa da sala coalhava-se de estrelas que saíam do livro aberto. E ambos conseguiam vê-las.     
 
   

segunda-feira, dezembro 18, 2017

QUINZE POETAS PORTUGUESES DO SÉCULO XX

Selecção de Gastão Cruz para a edição da Assírio e Alvim, ano de 2004. Os quinze poetas mais representativos do nosso século XX: Camilo Pessanha (1867-1926), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), Vitorino Nemésio (1901-1978), Jorge de Sena (1919-1978), Sophia (1919-2004), Carlos de Oliveira (1921-1981), Eugénio de Andrade (1923-2005), Mário Cesariny (1923-2006), António Ramos Rosa (1924-2013), Alexandre O´Neill (1924-1986), Herberto Helder (1930-2015), Ruy Belo (1933-1978), Fiama (1938-2007) e Luiza Neto Jorge (1939-1989). Considerando vinte poetas quem viria a seguir? Teixeira de Pascoaes (1877-1952), José Régio (1901-1969), Mário Dionísio (1916-1993), Manuel Alegre (1936) e Al Berto (1948-1997)? E Gastão Cruz (1941), ficaria entre os vinte e cinco ou os trinta?
 
 

quinta-feira, dezembro 14, 2017

O EU E O OUTRO

«Há um ser que ocupa o meu ser e me domina quer eu queira ou não queira. Quem há aí capaz de dizer que a mesma ideia o não persegue? – Se ela morresse… – Arreda-a. Também eu. Mas saio disto aos gritos. Esfacelado. Tenho por força de o admitir na minha companhia. Subjuga-me. Pior: faz-me falta quando o não tenho ao pé de mim.»
--- RAUL BRANDÃO, Húmus, 10 de Janeiro
 


quinta-feira, dezembro 07, 2017

PINACOTECA

FRANÇOIS BOUCHER (1703-1770), Visita de Vénus a Vulcano (1757), óleo sobre tela, Museu do Louvre.
[Livro VIII da Eneida, Vénus exerce o seu poder de sedução para pedir armas para Eneias.]
 

quarta-feira, dezembro 06, 2017

FICÇÕES


Era tão insegura que as pernas lhe tremiam nervosamente sempre que estava perto da pessoa amada. Tinha receios inexplicáveis, como imaginar que ele a diminuía aos olhos dos outros ou que se ria dela depois de terem terminado uma conversa telefónica. Por vezes, ligava-lhe de seguida, dizendo que o tinha ouvido rir, que não se enganara, indagando a razão do suposto riso. Achava-se feia e sem graça, vivendo temerosa da possibilidade de ter mau hálito ou de não vestir a roupa certa quando saía para ir com ele ao cinema. Coisa mais extraordinária, beijava sempre de olhos abertos, como se quisesse certificar-se de que o céu não lhe caía em cima nos momentos de prazer em que lhe entregava os lábios. Um dia deixou de responder aos seus convites por temer que ele lhe aparecesse com outra mulher só para a ofender e humilhar. E passou a andar sozinha, sem falar com ninguém, lendo histórias infantis para adormecer e sonhar. Uma noite leu a história do patinho feio e pensou que ainda poderia vir a ser um cisne. Deve-se ter afogado no lago ou voado para longe, tal como o cisne do conto, pois nunca mais foi vista.
 
 
 

domingo, dezembro 03, 2017

PINACOTECA

VAN GOGH, "Casa Amarela de Arles", óleo sobre tela, Fundação Vincent van Gogh (Arles). Foto de Julho de 2014
 
«Tenciono ir morar para a casa amanhã; mas como comprei coisas e ainda faltam outras (...), preciso que me envies mais uma vez 100 francos em lugar de 50.»
--- Cartas de Van Gogh a seu irmão Theo, 17 de Setembro de 1888.
 


sábado, dezembro 02, 2017

FRAUTA MINHA, QUE TANGENDO


CABEÇA (c. 1913), DE GUILHERME SANTA-RITA

O pintor dizia-se ultramonárquico e imperialista,
como se lê numa carta de Mário de Sá-Carneiro
para Fernando Pessoa, datada de Paris,
28 de Outubro de 1912,
quando provavelmente já começara a esboçar
o rútilo delírio da sua cabeça cubo-futurista.
Filho de oleiro, dizia-se,
saltimbanco em Badajoz,
pintou o silêncio num quarto sem móveis
e foi Gervásio Vila-Nova
em A Confissão de Lúcio.
Cabeça diferente de todas as cabeças,
elmo de perfil trágico, prenúncio
da carnificina próxima.

quinta-feira, novembro 30, 2017

TOPÓNIMOS

rio Nabão é um afluente do rio Zêzere que passa na cidade de Tomar. Nasce no concelho de Ansião, no lugar dos Olhos de Água, e a ele junta-se, a cerca de dez quilómetros de Tomar, a nascente do Agroal. Tem um percurso de 61,47 km.
= Fotos de 30-11-2017=
 
 

quarta-feira, novembro 29, 2017

FRAUTA MINHA, QUE TANGENDO

GADANHEIRO (1949), DE JÚLIO POMAR

Lança o brilho da sua lâmina
ao manto plúmbeo do céu.
Deus, escondido e indiferente,
dorme entre as nuvens roxas
da Eternidade.
A terra a quem a trabalha,
grita. E um anjo caído
vem acender línguas de fogo
no ouro da seara.

segunda-feira, novembro 27, 2017

PIZICATO

PIZICATO – Passagem ou trecho de música que se toca dedilhando as cordas de instrumento de arco. Execução da juvenil Orquestra de Cordas do Conservatório Regional Silva Marques, este domingo em Vila Franca de Xira, interpretando justamente Pizzicato Polka, de Johann Strauss II.
 
 

sábado, novembro 25, 2017

FICÇÕES


Ela fustigou-o com os olhos incendiados de ciúme, reverberantes e ao mesmo tempo carregados de sombra. Ele disse para si, tem calma que a crise vai passar, daqui a umas horas, no máximo um dia, tudo voltará ao normal, e lembrou-se de coisas filosóficas como o eterno retorno de Nietzsche ou o refluxo das águas dos rios sob o efeito das marés, algo com que Heraclito de Éfeso nunca sonhou. Era sua convicção profunda de que tudo o que vai há-de voltar, e isso dava-lhe ao mesmo tempo uma grande dose de tranquilidade e outra ainda maior de excitação.   
Você não me convidou para sair no fim-de-semana, esqueceu-se de mim que sou sua amiga e fetiche erótico, disse ela.
Doeu-lhe aquela referência do fetiche erótico, não queria acreditar no desconcerto da acusação, ele que se julgava sem perversões e apenas se habituara a lamber-lhe as covas das axilas e os vales húmidos das virilhas antes de partir para os vôos rasantes da satisfação do corpo. Chamar fetiche a um exercício preludial era algo que não conseguia conceber.
Assustou-se quando passadas as primeiras vinte e quatro horas ela continuava sem responder a telefonemas e mensagens. Depois, faltara a um jantar há muito aprazado com um grupo de amigos e, por último, quase deixara de lhe falar quando por acaso se encontravam na rua: boa tarde, boa noite, passe bem que não posso perder tempo.
Para grandes males, grandes remédios, escreveu-lhe uma carta, dessas de envelope e selo de correio, narrando o deserto em que se transformara a sua vida, só areia e nenhum fulgor de welwitschia na dobra cálida das dunas.
Fechemos a caixa de Pandora dos nossos desentendimentos, aproveitemos os dias e ainda mais as noites, riscou o amante em perigo no papel da carta. Lembre-se de quando lhe dei aquele beijo na mão, foi o instante inicial, é pelas mãos que começam os sonhos e a felicidade dos homens, e para lá do beijo na mão todos os beijos que se seguiram em partes mais húmidas e desafiantes do seu corpo de sílfide, a boca, claro, a boca bilingue, como dizia o poeta Ruy Belo, sendo que os meus significados de  boca e de bilingue são diversos, a língua usa-se em várias bocas e de diferentes formas como muito bem sabe por experiência adquirida. Nenhuma resposta veio. Ela que tanto gostava da fluência da sua escrita, tipo escritor pós-moderno com laivos gordos de classicismo, era uma boa arma, a escrita, mas não funcionou. Venha para mim, acrescentou ainda o coitado em desespero de causa, venha para mim que eu segredo-lhe aquela frase que tanto gostava de ouvir, lembra-se?, e era…
Recebeu em troca um grosso sobrescrito normalizado com carimbo redondo sobre vinheta de correio azul: devolvia-lhe todos os poemas que ele lhe fizera durante mais de três meses. Um deles, feito depois de um passeio à beira-Tejo, terminava assim:
Os rios,
água íntima dos lábios
como li em Fiama, antemanhãs
de escaldantes pélagos.
O poema não saiu grande coisa e bem escusava o poetastro de meter a Fiama ao barulho. Foi castigado por tudo isso: ela arranjou um novo namorado e, coisa extraordinária, ficou a odiar poesia.
 
 
 

quinta-feira, novembro 23, 2017

PINACOTECA

BORIS TASLITZKY (Paris, 1911-2005), o pintor de Buchenwald. Esteve internado no campo de concentração alemão de Agosto de 1944 a 11 de Abril de 1945, data da chegada das tropas aliadas. Ali produziu, com grande dificuldade em reunir materiais, mais de uma centena de desenhos e aguarelas sobre as condições em que viviam os prisioneiros. Taslitzky era de ascendência russa, entrara em 1935 no PCF e estivera em Espanha durante a Guerra Civil.
Aguarela: Le petit camp en février 1945.
Desenho: Portrait de Émile Chevalier.
Fotografias obtidas em 111 Dessins faits à Buchenwald 1944-1945, Paris, La Bibliothèque Française, 1946, apresentação de Julien Cain.