sexta-feira, abril 28, 2017

O QUE ELES DIZEM

Não há mais elegante delineio da Natureza que aquela abençoada fenda, sulcada em macios conchegos, figurando duas mãos que rezam, unidas ao alto, entrada de catedral, gasalho de mistério.
--- MÁRIO DE CARVALHO, Ronda das Mil Belas em Frol (2016).
 
retrato oval da virtude,
consoladora do triste,
remanso, beatitude
para o colérico em riste.
--- ALEXANDRE O´NEILL, Poemas com Endereço (1962).

quinta-feira, abril 27, 2017

DON JUAN

 
 
O Sedutor de Sevilha e o Convidado de Pedra, texto fundador do mito de Don Juan. Na língua original, El Burlador de Sevilla, o que demonstra que o catálogo de mulheres não se constituía pela aquiescência das mesmas, mas pelo engano a que eram levadas. Foi assim com Isabela, com a pescadora Tisbea, com D. Ana ou com a inocente Aminta na noite que deveria ter sido das suas núpcias. Releitura a propósito do último livro de Mário de Carvalho, Ronda das Mil Belas em Frol, e de algumas ideias que vejo formarem-se em espíritos menos avisados. O narrador das Mil Belas não é um Don Juan, embora o autor nos dê uma epígrafe retirada do libreto de Don Giovanni, de Mozart. Ainda sobre o incómodo que estes contos parecem ter gerado em alguns leitores, veja-se o que publiquei em www.comolhosdeler.blogspot.com. Há 90 anos, José Régio estava mais avançado do que certos "críticos" do século XXI. A distinção entre "literatura viva" e "literatura livresca" ainda não é, hoje,  um dado adquirido. Posto isto...

terça-feira, abril 25, 2017

JORNAIS DE ANTANHO

Jornal Globo, fundado por Bento de Jesus Caraça e José Rodrigues Miguéis. De efémera existência - dois números, apenas, saídos em Novembro de 1933 -, publicou um artigo não assinado "O velho Marrocos visto por um escritor novo" contra uma crónica de viagem de Ferreira de Castro na edição de O Século de 16 de Setembro do mesmo ano. Estou a tentar avaliar o caso.

sexta-feira, abril 21, 2017

RELEITURAS

Edição em que se inclui o ensaio de 1953 "Caracterização da Presença ou as Definições Involuntárias", no qual David Mourão-Ferreira sustenta o provincialismo dos escritores do movimento da Presença.
 

quarta-feira, abril 19, 2017

ORA NUMA NOITE DE LUAR MEDONHO

Capa da 2º edição corrigida, de 1943 (Portugália Editora), dos Poemas de Deus e do Diabo, aquela em que surge o posfácio "Um trecho das minhas memórias críticas", depois sucessivamente reformulado por José Régio até à sua versão final de 1969.
 

quarta-feira, abril 12, 2017

A TORRE DE ANTO

Torre do Prior do Ameal, fazia parte das muralhas de Coimbra, tendo sido transformada em habitação no princípio do século XVI. Nela morou António Nobre (Anto), o poeta do "Só".
«Ouvi estes carmes que eu compus no exílio, / Ouvi-os vós todos, meus bons Portugueses! / Pelo cair das folhas, o melhor dos meses, / Mas, tende cautela, não vos faça mal... / Que é o livro mais triste que há em Portugal.»
(Fotos de 9-4-2017)
 

quarta-feira, abril 05, 2017

ALMADA NEGREIROS

Os belos desenhos de Almada nas capas da presença. Há mais dois: no nº 38, de Abril de 1933, e no nº 48, de Julho de 1936. Nenhum deles se encontra na actual exposição da Gulbenkian.

quarta-feira, março 29, 2017

ALICE NAS CIDADES (1974), DE WIM WENDERS

«Quando Philip, num jogo com Alice, escolhe a palavra "sonho", ela protesta que "só vale coisas que existam". Do outro lado do espelho, Alice lança esta displicente questão infantil ao seu pai adoptivo e temporário: o sonho é uma coisa que existe? O sonho americano, por exemplo, o sonho da paisagem americana, da sua mitologia, do seu cinema, o sonho de uma deriva feliz, de imagens verdadeiras, o sonho de uma família. São isso "coisas que existem"?»
--- Pedro Mexia, folha de sala. Em exibição no cinema Nimas.
 

terça-feira, março 28, 2017

FRAUTA MINHA, QUE TANGENDO (4)

Queria conhecê-la, intimamente conhecê-la, como Ruy Belo queria conhecer a rapariga estendida ao sol num relvado de Cambridge. Queria inclinar-me sobre o ângulo do seu ombro e vê-la a ler estendida num relvado ao sol como a rapariga de Cambridge. O meu reino pela rapariga que não é a rapariga de Cambridge. Queria conhecê-la, mas isso, se calhar, talvez não seja possível. A rapariga que eu queria conhecer, intimamente conhecer, não é fotografia de bilhete postal como a rapariga de Cambridge que Ruy Belo queria conhecer mas nunca conheceu. A fotografia de um bilhete postal não é igual à realidade e a realidade é às vezes mais incompreensível que o sonho.
 

domingo, março 26, 2017

DOMINGO DE CHUVA

A chuva enlaça-se ao domingo,
ávida noiva perturbada:
cinge-lhe os rins, desfaz-lhe o cinto,
numa volúpia toda de água…
(…)
DAVID MOURÃO-FERREIRA, Os Quatro Cantos do Tempo [1953-1958]
 

sexta-feira, março 24, 2017

CARLOS DE OLIVEIRA (Belém do Pará, 1921 - Lisboa, 1981)

Na exposição “CARLOS DE OLIVEIRA: a parte submersa do iceberg” – no Museu do Neo-Realismo até 29 de Outubro de 2017 – um móvel com fotografias da Gândara e vários livros: entre os autores, Ilse Losa, Cecília Meireles, Ferreira de Castro e Afonso Ribeiro.
=Fotos de 23-3-2017=

quinta-feira, março 16, 2017

JOSÉ BACELAR (1900-1960)

Colaborador da Seara Nova, autor do ensaio Da viabidade do romance português de interesse universal (1939) e de considerável obra bibliográfica, colaborou na presença nos números 52, 1 e 2 da segunda série, respectivamente de Julho de1938, Novembro de 1939 e Fevereiro de1940. No número de 1938 publicou estas "72 anotações à margem da vida quotidiana", dedicadas a José Régio. -- Três delas: O elogio é sempre benéfico - excepto quando corrompe; Ser filósofo é afinal saber encontrar uma faceta vantajosa em cada escravidãoSe queres ser profundo, aprende a pensar à beira do paradoxo. -- José Régio tinha em grande consideração o seu perfil intelectual e o seu ensaísmo muito peculiar.

quinta-feira, março 09, 2017

DIREITOS DA MULHER - CONVERSA OUVIDA NO COMBOIO

PICASSO, Retrato de mulher
«Era o Dia da Mulher e eu pensei, Hoje não vou fazer nada em casa. Tinha sobrado um bocado de carne com esparguete, era só aquecer no micro-ondas, mas nem isso me apetecia fazer. Só que ele estava tão atrapalhado com a apresentação das contas do condomínio, tinha de estar na reunião às nove e meia, que eu disse, Vamos jantar que eu vou já aquecer a comida e pôr a mesa. Acabámos de comer e eu pus-me a lavar a loiça, Já estou a fazer o que não devia, disse, e ele ficou a olhar para mim muito admirado, via-se mesmo o que estava a pensar, Se calhar querias que fosse eu a ir lavar a loiça, era o que faltava…»

terça-feira, março 07, 2017

LA DERNIÈRE CLASSE

La dernière classe – Récit d’ un petit alsacien, conto de Alphonse Daudet referido por Antonio Tabucchi em Afirma Pereira.* Anexadas a Alsácia e a Lorena no termo da Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), é determinado por Berlim que cesse nas escolas o ensino do francês, dando lugar à língua alemã. O professor Hamel dá a sua última aula de francês com a solenidade que o momento exige, deixando como derradeira inscrição no quadro negro da sala o grito patriótico VIVE LA FRANCE! O pequeno Franz viu e contou. Pelo meio, uma citação de Frédéric Mistral: «S´il tient sa langue, - il tient la clé que de ses chaînes le délivre.»


* Afirma Pereira, de Antono Tabucchi, em discussão na Comunidade de Leitores da Biblioteca José Saramago, Feijó (Almada), no próximo sábado.

domingo, março 05, 2017

ANTÍGONA

Antígona afrontou com coragem o poder tirânico de Creonte em Tebas. O discurso do vómito polaco no Parlamento Europeu ignora a tradição ocidental, abundante de mulheres fortes, grandes e inteligentes como a filha de Édipo e Jocasta. É verdade que é um mito, mas, como disse Pessoa na Mensagem, «o mito é o nada que é tudo.»  
 

quinta-feira, março 02, 2017

LUBITSCH AMERICANO

 
Retrospectiva da obra americana de Ernst Lubitsch durante os meses de Março e Abril na Cinemateca Portuguesa. O realizador alemão chegou a Hollywood em finais de 1922. Vi hoje O Céu Pode Esperar (1943) com a fulgurante Gene Tierney (Martha) no papel principal. Uma comédia sobre o julgamento da vida de um homem comum (um anti-herói) no tribunal do além. Deus ou o Diabo, qual dos dois deve ficar com ele?
 

quarta-feira, março 01, 2017

FRAUTA MINHA, QUE TANGENDO (3)

O amor é um work in progress. Anda-se para a frente e para trás, vagando e circunvagando, como uma maré ou um vento. A razão aparece nos umbrais do tempo. Vem ínvia de carnes e rotunda de pensamentos, cobre-se de roupa, tapa-se até ao anel do pescoço, escondendo a nudez da paixão e o natural dos sentimentos. A razão fere e mata o amor como uma lâmina ou um veneno.
     PAOLO VERONESE (1528-1588), Vénus desarmando Cupido (c. 1555), óleo sobre tela, Worcester Art Museum
 

terça-feira, fevereiro 28, 2017

D. QUIXOTE E OS MOINHOS

AMADEO DE SOUZA-CARDOSO, Le Moulin, tinta-da-China e guache s/ papel. Desenho exposto no Porto e em Lisboa nas exposições individuais de 1916 e 2017. (Museu Calouste Gulbenkian - Colecção Moderna.)
 

domingo, fevereiro 26, 2017

ALEXANDRE CABRAL, MEMÓRIA DE UM RESISTENTE

Exposição no Museu do Neo-Realismo ( 25 de Fevereiro – 25 de Junho de 2017) comemorativa do centenário do lutador político, escritor, artista plástico e grande camiliano. Na foto, desenho de D. Ana Plácido feito na cadeia do Aljube em 11 de Dezembro de 1963. Estão expostos todos os desenhos do período em que esteve preso.