Hoje, o ar está finalmente mais fresco e respirável. Como é bom
ir para fora de portas e bebê-lo a plenos pulmões.
terça-feira, julho 02, 2013
CARTA ABERTA AO EX-MINISTRO GASPAR
Excelentíssimo Senhor,
Entre ontem e hoje – logo que tive
conhecimento do seu pedido de demissão –, procurei-o no Ministério das
Finanças, na sede local do FMI à Avenida da República, até na Buenos Aires,
naquele nobre espaço onde se acoita a plêiade de génios que tanto têm feito
pela salvação da nossa querida Pátria. Não consegui encontrá-lo, daí que me
veja obrigado a escrever-lhe esta carta.
Pretendo manifestar-lhe o meu maior apreço.
Estrangeirado que é, na linha de ilustres portugueses como Luís António Verney
e Sebastião de Carvalho e Melo, Vossa Excelência foi uma lufada de ar fresco
numa classe política caduca, obsoleta e corrompida, constituída por bacharéis
de baixa extracção, ex-operários estalinistas, economistas de saberes duvidosos
e titulares de cursos académicos obtidos por processos mais ou menos obscuros.
Se lhe escrevo – perdoe-me a
impertinência – é porque para além da grande admiração que pretendo
manifestar-lhe, duas coisas, apenas duas, acho por bem fazer notar junto de um alto
espírito que por direito se constituiu como esperança e reserva moral deste pobre
país.
Primeira delas: proferiu Vossa
Excelência, num momento crítico em que a oposição
socialista-comunista-bloquista pretendia rebaixar as altas qualificações morais
da sua pessoa, uma afirmação que ainda hoje guardo no meu coração: “eu não
minto, eu não engano, eu não ludibrio”. Assim, muito me surpreendeu a carta
deixada ao nosso esforçado primeiro-ministro – que Deus e Nossa Senhora de
Fátima o guardem! – pela qual se soube estar Vossa Excelência para abandonar o
governo da Nação desde, pelo menos, 22 de Outubro de 2012, sem que nós, seus indefectíveis
admiradores, sequer o suspeitássemos. Estávamos nós descansados, pensando que
Vossa Excelência se encontrava a trabalhar, de ânimo firme, para superar o mal
causado pelo desgoverno socialista, e afinal andava a preparar a sua saída, com
um pé já fora do governo, como qualquer rato de bordo perante o naufrágio
iminente. Por outras palavras, andava Vossa Excelência a mentir, a enganar e a
ludibriar os que em si confiavam.
Segunda coisa, mais delicada, ter
Vossa Excelência garantido, não há muito tempo, que todo o trabalho que
arduamente desenvolvia ao serviço da Nação era para pagar o investimento feito
pelo erário público na sua formação escolar – aliás notável – , desde os tempos
distantes do ensino pré-primário ao brilhantismo do MBA e outras graduações
académicas. Pois aqui é que está o problema, ficando-se sem saber, ao ter interrompido
de forma tão abrupta as suas funções, se chegou a liquidar na íntegra essa dívida espontaneamente assumida. Considerando que Vossa Excelência cessou os
pagamentos a meio do prazo estipulado, quando ainda faltavam dois anos para o
termo da legislatura, então só terá liquidado metade, pelo que será de
considerar, em nome da sua honra e do seu bom nome, que entregue em dinheiro ou
espécie a parte que ainda lhe falta pagar.
Sabemos que os tempos estão difíceis,
que Vossa Excelência tem mulher e filhos necessitados de apoio financeiro e que,
se calhar, algum período de carência se lhe antolhará até à sua merecida
reintegração em algum rendoso emprego em Frankfurt, Washington D.C. ou Bruxelas.
Para obviar a tão delicada situação, poderá Vossa Excelência fazer um plano de
pagamentos em 24 prestações suaves até ao fim desta legislatura, a qual – para
bem da Pátria e graças a homens como Pedro Coelho e Aníbal Silva – , não será
certamente interrompida pelo furor esquerdista e antipatriótico de Seguros,
Jerónimos e quejandos.
Como não me ocorre mais nada, e ainda
aturdido por tão inesperado desfecho da sua carreira política em Portugal,
termino desejando-lhe as maiores felicidades, esperando que saia depressa
deste país minúsculo que o não merece e que tão más recordações certamente lhe
terá deixado.
Sem outro assunto, creia-me seu
admirador estreme e dedicado que se subscreve com apreço, estima e veneração,
segunda-feira, julho 01, 2013
PRIMEIRO DE JULHO
O mês entrou da melhor maneira: o ar é mais puro, ondulam nas
praias as bandeiras azuis, começam a retirar-se os ogres que têm assustado as
criancinhas. Em Belém, sobretudo em Belém dá gosto passear na orla do rio. Primeiro de Julho com sabor a Primavera.
À VOLTA DO MESMO
Mas há
alguma dúvida de que este governo pudesse não conhecer os contratos swap negociados pelas empresas públicas?
A existência destes contratos – cujos resultados até poderiam ter sido
vantajosos, não se tivesse dado, devido à crise financeira, a queda das taxas
de juro –, nem precisaria de ser transmitida ao novo ministro das finanças por
Teixeira dos Santos, pois obrigação natural de qualquer governo é inteirar-se dos
instrumentos de gestão financeira das empresas públicas que tutela.
Se Gaspar, o
ogre, mais a sua secretária de estado – loira bonita e, sabe-se agora, também
mentirosa – não agiram, é porque sempre estiveram mais interessados em ir ao bolso dos reformados e
funcionários públicos do que em afrontar os interesses dos banqueiros que lhes
garantem as prebendas e asseguram o futuro.
Claro que,
dois anos depois, com os prejuízos a aumentarem, tinham que sacudir a água do
capote e fazer o papel de donzelas ofendidas.
A História,
essa velha senhora, falará deles como merecem.
DISSONÂNCIAS
Um grande livro é um grande mal.
CALÍMACO, poeta e gramático grego,
310 a. C. – 240 a. C.
Além disso, meu filho, presta
atenção: escrever livros é um trabalho sem fim, e muito estudo cansa o corpo.
Eclesiastes, 12, 12
Livros são papéis pintados com tinta.
/ Estudar é uma coisa em que está indistinta / A distinção entre nada e coisa
nenhuma.
FERNANDO PESSOA, “Liberdade”
domingo, junho 30, 2013
FESTIVAL AO LARGO - TNSC
Ontem. Cardápio rico: Ruggero Leoncavallo, Claude Debussy, Giuseppe Verdi, Richard Wagner, Gaetano Donizetti, Astor Piazzolla, Nino Rota e John Williams. Soprano Cristiana Oliveira, Barítono Luís Rodrigues. Solistas Iva Barbosa (clarinete) e Gonçalo Pescada (acordeão). Orquestra Sinfónica Portuguesa com direcção musical de João Paulo Santos.
DIAS 5 E 6 DE JULHO HÁ MAIS.
sexta-feira, junho 28, 2013
quinta-feira, junho 27, 2013
quarta-feira, junho 26, 2013
UT PICTURA POESIS *
Un enterrement à Ornans (1850, Paris, Musée d´Orsay), de Gustave Courbet (1819-1877),
pintor enaltecido por Eça de Queiroz na sua célebre conferência do Casino
Lisbonense em Maio de 1871. Já houve quem visse na descrição do enterro de
Amélia, penúltimo capítulo de O Crime do
Padre Amaro, um diálogo intertextual com esta pintura da escola
realista: “O menino do coro cravou no chão a haste da cruz prateada, e o abade
Ferrão, adiantando-se até à beira do buraco escuro, murmurou o Deus cujus miseratione… Então João
Eduardo, muito pálido, vacilou de repente, e o guarda-chuva caiu-lhe das mãos;
um dos criados de farda correu, segurou-o pela cinta; mas ele resistiu, e ali
ficou, com os dentes cerrados, segurando-se desesperadamente à manga do criado,
vendo o coveiro e os dois moços amarrarem as cordas no caixão, fazerem-no resvalar
entre a terra esfarelada que rolava, com um ranger de tábuas mal pregadas.”
* Arte Poética, Horácio,
v. 361, tradução de Rosado Fernandes: “Como a pintura é a poesia”.
terça-feira, junho 25, 2013
TRÊS DÍSTICOS FINGIDOS SEM ENDEREÇO EXPLÍCITO
I
Entre a vida
e a morte, afogo-
-me no pego
húmido do teu seio.
II
Não me
chames que corro perigo. Desejo
o abismo, e
nem sequer sei voar.
III
À noite, é
preferível à noite. A luz
não se rirá da
imperfeição do meu corpo.
segunda-feira, junho 24, 2013
PRIMEIRO APONTAMENTO PARA UMA GEOGRAFIA DA AMIZADE
Da amizade conheço planícies, outeiros e alguns píncaros sólidos.
Gosto de lagos e de praias, mas detesto os vales escuros e as encostas penhascosas.
Um certo olhar sobre a amizade. Pintura de Vittorio Reggianini (1858-1938)
DISCURSO ERÓTICO-NEVRÓTICO SOBRE A AMIZADE E O AMOR (SEM NENHUMA RAZÃO ESPECIAL)
A amizade é
o que sobra por vezes duma impossibilidade. Assim, tem perigos e inspira
receio, embora mais temível seja o receio sem perigos.
Se não amas,
esquece.
Se não
desejas, dorme.
Se não és
amigo, eleva-te.
Faz por ser
feliz com aquilo que tens, pois o que não tens não te pertence. Lembra-te,
sobretudo, de que podes sempre beijar-lhe a cara, pensando que é a boca.
domingo, junho 23, 2013
quinta-feira, junho 20, 2013
PROMULGAÇÕES
Kavaco Hanibal, de bolinha vermelha no nariz, em diligente promulgação da lei palhaça dos subsídios de férias. (Vamos lá a ver se consigo escapar ao processo crime.)
quarta-feira, junho 19, 2013
A NAU CATRINETA
Roubado aqui: http://fotosfr.blogs.sapo.pt/13840.html
(Lenda Recolhida por Almeida Garrett, Romanceiro)
(…)
- “Capitão, quero a tua alma,
Para comigo a levar!”
Para comigo a levar!”
- “Renego de ti, demónio,
Que me estavas a tentar!
A minha alma é só de Deus;
O corpo dou eu ao mar.”
Que me estavas a tentar!
A minha alma é só de Deus;
O corpo dou eu ao mar.”
Tomou-o um anjo nos braços,
Não no deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;
Não no deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a Nau Catrineta
Estava em terra a varar.
Estava em terra a varar.
Isto mesmo recomendei hoje a um amigo: a alma só se entrega a Deus, o corpo que se dê ao mar. Depois, é seguir a nau e quem a olha de olhos puros.
segunda-feira, junho 17, 2013
domingo, junho 16, 2013
MADURO, MADUREZAS E A GREVE DOS PROFESSORES
Quer-me cá parecer que este é um novo Relvas, ainda que com
curso superior e vasto currículo académico.
quarta-feira, junho 12, 2013
terça-feira, junho 11, 2013
ÁTROPOS E O FIO DA VIDA
Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,
Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.
Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?
Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?
Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra
Que será quando fores
Na noite e ao fim da estrada?
Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.
RICARDO REIS, obra citada, pp. 39 e 40.
segunda-feira, junho 10, 2013
HÁBITOS SIMPLES E FRUGALIDADE
Hoje ao almoço: caracol médio, riscadinho e liso, da região demarcada do Cartaxo. Agradeço à minha fornecedora.
domingo, junho 09, 2013
DA SABEDORIA DOS ESTÓICOS
Não quero a glória, que comigo a têm
Heróstrato e o pretor
Ser olhado de todos - que se eu fosse
Só belo, me olhariam.
O fausto repudio, porque o compram.
O amor, porque acontece.
Amigo fui, talvez não contente,
Porém certo e sem erro.
RICARDO REIS, Poesia, edição de Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, pp. 80 e 81.
sexta-feira, junho 07, 2013
ORÇAMENTO RECTIFICATIVO
Que diferença há entre o Professor Karamba, médium vidente
africano, e Vítor Gaspar, bruxo com MBA ? -- Pouca, ou nenhuma. Ambos auguram e
não acertam. O Professor Karamba agita pozinhos de perlimpimpim , lê nos astros,
promete soluções para as nossas vidas;
Gaspar elabora orçamentos anuais, rectificativos e rectificativos de
rectificativos, aplica modelos, falsifica os deflatores do PIB e garante o
regresso aos mercados em amanhãs que cantam.
Como bruxo, Gaspar é, no entanto, mais credível. Num casting para a saga
fílmica de Harry Potter, seria ele, sem dúvida, o meu eleito. Que outra figura poderia aparecer com mais
expressão sob os tectos assustadores da escola de Hogwarts ou por entre os inquietantes
recônditos da floresta de Dean? Basta olhar para a fotografia.
quinta-feira, junho 06, 2013
O RECONHECIMENTO DA CIDADE
Aqui, neste endereço, notícia e galeria de fotos:
Nunca em tão curto tempo se viu tanta mediocridade e hipocrisia.
Uma plêiade de académicos, ideólogos e políticos carreiristas, tomados de uma ideia espúria da Europa. Cumprem a apregoada
missão de salvação da pátria, de braço dado com agiotas e especuladores.
Finalmente imortalizados na toponímia da cidade.
terça-feira, junho 04, 2013
terça-feira, maio 28, 2013
quinta-feira, maio 23, 2013
segunda-feira, maio 20, 2013
EM BELÉM
Hoje, em Belém, talvez mais polícias que manifestantes.
Em matéria de segurança, há que não confiar em milagres de Nossa Senhora de
Fátima.
O "SUPREMO EXTREMISTA"
Autor: GABRIEL VIGIL
O "supremo Extremista", segundo JOSÉ RÉGIO em "Multiplicidade de Jesus", Confissão dum Homem Religioso, Lisboa, IN-CM, 2001, pp. 96-116.
quinta-feira, maio 16, 2013
EDUARDO GUERRA CARNEIRO (1942-2004)
A dor é isto: um vazio. E sentir
depois um vazio maior - esperar
a morte. Escrevo, assim, convicto,
num estado semelhante já ao pó,
mas em lava ardente procuro
a maneira ainda de incendiar.
A morte é isto? Um vazio? Mas
escrevo para contar aos outros
deste sentimento estranho. Ao espelho
vejo ressentimento, usura, uso
e abuso do tempo que me deram.
E ardo na paixão gelada, sem morrer.
Espero por ti, seguro que já sei
nada mais de ti esperar.
EDUARDO GUERRA CARNEIRO
depois um vazio maior - esperar
a morte. Escrevo, assim, convicto,
num estado semelhante já ao pó,
mas em lava ardente procuro
a maneira ainda de incendiar.
A morte é isto? Um vazio? Mas
escrevo para contar aos outros
deste sentimento estranho. Ao espelho
vejo ressentimento, usura, uso
e abuso do tempo que me deram.
E ardo na paixão gelada, sem morrer.
Espero por ti, seguro que já sei
nada mais de ti esperar.
EDUARDO GUERRA CARNEIRO
quarta-feira, maio 15, 2013
CAPELINHA DAS APARIÇÕES
Não se
renovou a inspiração de Fátima revelada pelo vidente Aníbal no desfecho
auspicioso da 7ª avaliação da troika. Os fiéis esperaram, esperaram, mas a bênção do milagre não foi recebida. Aqui fica a imagem da malograda capelinha das
aparições. É de aspecto modesto, sim, mas em qualquer local se pode levantar um
altar, porque o importante é não deixar morrer a fé no coração dos homens.
REVISITAÇÃO
Revisito a
obra por boas razões. Segundo capítulo,
e reencontro D. Corina Peters, velha prima dos Dulmos, uma personagem
interessante: “Era literata, amadora de mistérios; gostava de proteger
inclinações romanescas. Os seus olhinhos doces falavam da floresta de Atala, tinha uma inocência picante,
cheia de cabelos brancos.” - É possível dizer melhor?
Corina, a elegíaca
Corina de Ovídio (Amores), cuja Arte de Amar tenho aí sobre a mesa. Isto
anda tudo ligado – lá dizia o poeta*.
* Eduardo Guerra Carneiro (1942-2004).
* Eduardo Guerra Carneiro (1942-2004).
terça-feira, maio 14, 2013
"EU AMO O LONGE E A MIRAGEM"
"Sempre serei odiado, não tanto pelos meus defeitos como, principalmente, por certas singularidades relacionadas com o que tenho de melhor." - JOSÉ RÉGIO pela voz de Lelito (Manuel Maria Trigueiros) no cap. I de Os Avisos do Destino.
segunda-feira, maio 13, 2013
OBVIAMENTE, DEMITAM-SE!
Basta de disparar contra o povo! Dia 20, em Belém, à hora do conselho da indignidade, lá estarei com as minhas armas.
O CROCHÉ E AS ÁRVORES
O começo de todos os projectos de croché é o nó corrediço. Para tal basta ter na agulha uma laçada com um nó e a criatividade começa aqui. -- Fala quem sabe.
Cores de croché em Constância, ali na confluência do Zêzere com o Tejo.
domingo, maio 12, 2013
sexta-feira, maio 10, 2013
TATUAGENS
Por vezes, consigo gostar de algumas tatuagens. É o caso desta: lucky you e um sapatinho de cavalo. Muito interessante... [S. J. em Paris, tanto quanto julgo perceber na Rue Ramey, 18e arrondissement, lá para os lados do Sacré Coeur.]
quinta-feira, maio 09, 2013
O MEU MESTRE RICARDO REIS
Não canto a
noite porque no meu canto
O sol que
canto acabará em noite.
Não ignoro o que esqueço.
Canto por esquecê-lo.
Pudesse eu
suspender, inda que em sonho,
O Apolíneo
curso, e conhecer-me,
Inda que louco, gémeo
De uma hora imperecível!
RICARDO REIS, 2-9-1923, Obra citada.
quarta-feira, maio 08, 2013
A "VELHA CASA" DE AZURARA
Rua Dr. Américo Silva (antiga Rua Direita) em Azurara, Vila do Conde - o modelo físico da "velha casa" de Régio.
Devagar, espaçadas, caíram onze horas no relógio da igreja.
Chegara; e ficou-se a ouvir a vibração
do bronze perdendo-se ao longo da rua deserta… Lá estava ela, a sua casa!
Comprida, muda, quase hostil, vista assim de fora com o seu largo portão
almofadado, a solene fila de janelas de sacada, – e fazendo esquina com a
travessa que a ladeava, e depois acompanhava o muro do quintal até à estrada do
Porto.
JOSÉ RÉGIO, A Velha Casa II (As Raízes do Futuro).
terça-feira, maio 07, 2013
"O INSTINTO SUPREMO"
Romance
prometido a Cândido Rondon e dedicado à sua memória, é uma transposição
ficcional do trabalho desenvolvido pelo etnólogo de origem alemã Curt
Nimuendajú com vista à pacificação dos índios Parintintins.
Publicado em 1968, o livro elogia essa “epopeia de humanitarismo”, embora registe uma certa visão da sua inconsequência social e moral.
O ex-operário Jarbas, possuidor de consciência de classe, uma das personagens envolvidas nas operações conduzidas por Nimuendajú, interroga-se: “ Mas que benefícios terão eles [os índios] em ser civilizados agora? Talvez os índios não sejam mais felizes do que nós, pode ser, mas com certeza mais infelizes também não são.” Civilizá-los, sim – dizia –, mas quando houvesse farinha e feijão para todos, tanto no Brasil como no mundo inteiro, quando o homem tivesse ascendido a uma condição superior e “a civilização já estivesse também civilizada”.
Publicado em 1968, o livro elogia essa “epopeia de humanitarismo”, embora registe uma certa visão da sua inconsequência social e moral.
O ex-operário Jarbas, possuidor de consciência de classe, uma das personagens envolvidas nas operações conduzidas por Nimuendajú, interroga-se: “ Mas que benefícios terão eles [os índios] em ser civilizados agora? Talvez os índios não sejam mais felizes do que nós, pode ser, mas com certeza mais infelizes também não são.” Civilizá-los, sim – dizia –, mas quando houvesse farinha e feijão para todos, tanto no Brasil como no mundo inteiro, quando o homem tivesse ascendido a uma condição superior e “a civilização já estivesse também civilizada”.
(Releitura
para os Encontros Ferreira de Castro, 10 e 11 de Maio em Ossela e Macieira de
Cambra)
domingo, maio 05, 2013
quinta-feira, maio 02, 2013
O ULISSES QUE HÁ EM NÓS
Frequentou Circe, Nausicaa e Calipso, ninfa divina entre as deusas.
Escapou ao insidioso canto das sereias. Anda perdido, mas sabe que Penélope e Telémaco o esperam em Ítaca.
quarta-feira, maio 01, 2013
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