sábado, abril 27, 2013
quinta-feira, abril 25, 2013
segunda-feira, abril 22, 2013
UM TEXTO ADMIRÁVEL
Joséphine Baker (1906-1975)
(…) A par de Marcel Proust, André
Gide parece pequeno: Crítico traído pelo poder criador, criador traído pelo
demónio crítico, Gide prolonga, continua, desenvolve, complica, desfaz,
contrafaz, refaz – uma Obra que finalmente se nos impõe! Assimilador de génio,
ele próprio se nos desvenda caixa de muitas ressonâncias… Sonho de ser tudo o
que não é – por ser um pouco de tudo sem nada ser completamente… senão ele!
Porque da sua Obra, é ele que fica. Isto é: o seu espírito perverso, torturado,
labiríntico e feminino – no altíssimo grau vedado às mulheres… Depois
Pirandello: Poeta de ideias que se fazem carne! Malabarista esfomeado de
Absoluto, arrastando os homens à compreensão irónica de todos os seus
relativismos. Ou Shaw, Narciso sarcasta e lírico. Violador de falsas
honestidades – escrevendo sátiras sobre os cenários convencionais… Ou Freud,
que revolucionou a psicologia, a psiquiatria, a crítica; (Depois de Bergson ter
revolucionado a filosofia) que nos denunciou (ó Rimbaud!) estudou, e explora
este mar de vida obscura, este abismo que nós trazemos dentro de nós, esta
estância dos Fados – o Subconsciente! E tu, Chaplin, Mestre de todos os poetas
modernos! Boneco mais vivo que todos os homens vivos que tu manejas… como
bonecos. Que tu sabes como se maneja. Escamoteador único duma moeda única – a tua!
aquela em que já não estão em lados opostos os dois lados opostos da vida…
E reagindo sobre as estilizações de Nijinsky,
refrescando a saturação das inteligências, vinda do fundo da terra, da
animalidade e do tempo, Josefina Baker passa dançando – como um vento quente
cujo fim é passar.
JOSÉ RÉGIO, Manifesto
“Literatura Livresca e Literatura Viva”, parte final, “Elogio do século
em que estamos, século XX”, presença, nº
9, 9 de Fevereiro de 1928.
domingo, abril 21, 2013
sábado, abril 20, 2013
EM 2006
Scarlett em Rapariga com Brinco de Pérola. Em 2006, aqui se escreveu isto:
http://sonhocomandavida.blogspot.pt/search?q=rapariga+com+brinco+de+p%C3%A9rola
http://sonhocomandavida.blogspot.pt/search?q=rapariga+com+brinco+de+p%C3%A9rola
sexta-feira, abril 19, 2013
"FADO"
Capa da 1ª edição de 1941 e poema "Fado das Mulheres de Vida Fácil" com desenho de Júlio.
(...)
E homens há de toda a sorte,
Doentes de todo o mal,
Tarados de todo o vício,
Que naquele amor venal,
Filho do crime e da morte
Vão buscar gosto ou flagício.
(...)
AS INESPERADAS LEITURAS
“Imitação de Cristo”, de Tomás de
Kêmpis (1379-1471), Biblioteca Básica VERBO, Livros RTP.
O verdadeiro conhecimento e desprezo de si mesmo é a mais útil e a mais
sublime lição. Grande sabedoria e perfeição é ter em boa conta as virtudes
alheias e evitar de si mesmo qualquer presunção. Se vires que alguém pecou publicamente,
ou comete faltas graves, não te deves julgar por melhor, pois não sabes quanto
poderás perseverar no bem. Todos somos fracos, mas a ninguém tenhas por mais
fraco do que tu.
(II.4 – O HUMILDE JUÍZO DE SI MESMO, p.11)
quinta-feira, abril 18, 2013
METAMORFOSES
Hoje, em conferência de imprensa, quatro lídimos representantes do governo de Miguel de Vasconcelos.
Cessem de Ovídio, Kafka e quejandos as metamorfoses grandes que nos legaram.
Ficámos a saber – o que não é menos
extraordinário! – que o subsídio de Natal de funcionários públicos e aposentados,
pago em 12 prestações suaves, se transformou agora em subsídio de férias.
NÃO SÓ QUEM NOS ODEIA OU NOS INVEJA
Ricardo Reis, gravura incisa de ALMADA NEGREIROS no pórtico da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os Deuses me concedam que,
despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer
nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos Deuses.
RICARDO REIS / 1-11-1930
quarta-feira, abril 17, 2013
"presença" (1927-1940) - V
Número 1 da 2º série, de Novembro de
1939. Após um ano de interrupção, a revista aparecia com novo aspecto gráfico e
número acrescido de páginas.
Mas seria o canto do cisne.
Graves desinteligências entre os seus directores (José Régio, João Gaspar
Simões e Adolfo Casais Monteiro) não permitiriam ir além de um segundo número
da série, saído em Fevereiro de 1940.
Em carta escrita de Portalegre para
Alberto de Serpa (secretário de redacção
da revista), com data de 1 de Abril de 1940, diz José Régio: “Estou resolvido a
sair da presença, isto é: a acabar
com a presença. (…) A causa mais
próxima desta minha resolução é que o Adolfo, outra vez incompatibilizado com o
João, viu manifestações irritantes de conformismo e burguesismo
no “Diálogo Inútil” do nº 2, e pretende responder-lhe, no próximo número, com
um artigo que exibiria aos leitores os desencontros internos da direcção da presença… Isso não posso eu suportar.”
A inviabilidade da continuação da
revista não resultava somente das divergências existentes entre os seus
directores. Havia, por assim dizer, uma dificuldade de ordem espacial: José
Régio residia em Portalegre, João Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro em
Lisboa, Alberto de Serpa no Porto. A folha coimbrã - "provincialista", segundo David Mourão-Ferreira - deixara de pertencer ao velho burgo académico.
Cada número passara a ser um exercício delicado, gerido a distância, desde a
angariação da colaboração e revisão das provas até à impressão e expedição dos
exemplares para os assinantes. Além de que José Régio, que era quem
efectivamente mandava na presença,
tinha outros projectos a que se dedicar.
terça-feira, abril 16, 2013
sexta-feira, abril 12, 2013
"A VELHA CASA"
Visita facultada pelo actual proprietário da casa, Sr. António, em 9 de Abril.
Vocabulário filosófico num livro que pertenceu a José Régio.
Quadro do pintor Júlio (irmão de Régio). Estava guardado num vetusto armário, e não foi fácil encontrar a chave.
quinta-feira, abril 11, 2013
LENDO EM VIAGEM
Passa, lento vapor, passa e não fiques...
Passa de mim, passa da minha vista,
Vai-te de dentro do meu coração,
Perde-te no Longe, no Longe, bruma de
Deus,
Perde-te, segue o teu destino e
deixa-me...
Eu quem sou para que chore e
interrogue?
Eu quem sou para que te fale e te ame?
Em quem sou para que me perturbe
ver-te?
Larga do cais, cresce o sol, ergue-se
ouro,
Luzem os telhados dos edifícios do
cais,
Todo o lado de cá da cidade brilha...
Parte, deixa-me, torna-te
Primeiro o navio a meio do rio,
destacado e nítido,
Depois o navio a caminho da barra,
pequeno e preto,
Depois ponto vago no horizonte (ó
minha angústia!),
Ponto cada vez mais vago no horizonte...,
Nada depois, e só eu e a minha
tristeza,
E a grande cidade agora cheia de sol
E a hora real e nua como um cais já
sem navios,
E o giro lento do guindaste que como
um compasso que gira,
Traça um semicírculo de não sei que
emoção
No silêncio comovido da minh´alma...
Álvaro de Campos, “Ode Marítima” (versos
finais)
domingo, abril 07, 2013
terça-feira, abril 02, 2013
"A EDUCAÇÃO DO ESTÓICO" - V
Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos.
RICARDO REIS, Ode 113, 1-11-1930
segunda-feira, abril 01, 2013
"presença" (1927-1940) - IV
Carlota, “a que ficou sem par”, no desenho de José Régio, oferecido a João Gaspar Simões, que serviu para a capa do nº 22 da folha de arte e crítica coimbrã.
"Criada para todo o serviço” na pensão da Rua das Flores, nº 37 (Alta de Coimbra), onde José Régio se alojou durante a sua formatura, era, segundo Simões*, “rebarbativa e terna a um tempo”, tendo "pelo Zé Maria [Régio] uma dedicação de cadela, embora não poucas vezes lhe arreganhasse caninamente os dentes”.
Aparece como personagem em Os Avisos do Destino, terceiro volume do ciclo A Velha Casa.
* JOÃO GASPAR SIMÕES, José Régio e A História do Movimento da Presença, Porto, Brasília Editora, 1977, p. 79
* JOÃO GASPAR SIMÕES, José Régio e A História do Movimento da Presença, Porto, Brasília Editora, 1977, p. 79
domingo, março 31, 2013
RESSURREIÇÃO
PIERO DELLA FRANCESCA, Ressurreição (1463-65), Museo Civico di Sansepolcro
Segundo a tradição, a figura do soldado adormecido à direira de Cristo, sob a bandeira, é um auto-retrato do pintor. Em certa obra (?) recentemente apresentada à academia, pode ler-se: "É no período histórico do Renascimento que se agudiza no homem o sentimento da efémera duração da vida e que se lhe coloca a necessidade de se perpetuar pela memória. O retrato pictórico surge então entre as elites sociais como uma forma de imortalização, enquanto os artistas, entretanto reconhecidos no seu estatuto de criadores do belo, manifestam uma tendência para se retratarem, tanto em figuração individual como inserida em obras de motivação religiosa. É desta forma que Piero della Francesca se representa como soldado adormecido na Ressurreição (1463-65); que Sandro Botticelli pinta a sua figura na Adoração dos Reis Magos (1475) ao lado de vários membros da família Medicis; e que Albrecht Dürer se faz representar no Martírio dos Dez Mil Cristãos (1495-96), atravessando a paisagem saturada de sofrimento e morte na companhia de um amigo."
sexta-feira, março 29, 2013
O FUMO E O FOGO
Ai disse, disse!
Nicolau Santos
9:58 Quinta feira, 28 de março de 2013
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A reação dos partidos políticos à intervenção de José Sócrates na RTP pautou-se pela afirmação de que não teria dito nada de novo.
Como é óbvio, o que pretendem é desvalorizar o regresso do ex-primeiro-ministro à ribalta. Mas goste-se ou odeie-se Sócrates, vai ser difícil ignorá-lo pela simples razão que, como disse José Miguel Júdice, ele é um político altamente profissional, que está a léguas de distância de Passos Coelho ou de António José Seguro - goste-se ou odeie-se, insisto.
O que disse José Sócrates de novo? Quatro coisas. 1) Fez o mais violento ataque em democracia a um Presidente da República, culpando-o diretamente pela crise política que levou à queda do anterior Governo e à atual solução governativa. Ninguém o tinha dito com tanta brutalidade. Ninguém tinha dito que foi ele a mão por trás do arbusto. Ninguém tinha dito que foi ele o patrono da crise política e desta solução governativa, com a qual está completamente comprometido.
2) Sublinhou que o PEC IV tinha o apoio do BCE, do Conselho Europeu e da Comissão Europeia. Não era claro para toda a gente embora a irritação de Angela Merkel com o chumbo do PEC IV constitua uma possível confirmação. Isso não quer dizer, como é evidente, que o PEC IV seria o buraco da agulha por onde escaparíamos sem ter de pedir um resgate ao FMI. Mas que havia apoio da União ao PEC IV, lá isso havia.
3) Nas parcerias público-privadas, uma das principais acusações que lhe faziam, Sócrates lembrou que das 22 PPP existentes só 8 lhe podem ser atribuídas. E que recebeu encargos de 23 mil milhões com as PPP, que reduziu para 19 mil milhões quando deixou o Governo. Os números são oficiais, estão nos Orçamentos do Estado - e contrariam o discurso que tem sido feito sobre esta matéria.
4) No que toca ao memorando, recusou que o que está em prática tenha sido o documento que assinou. Disse que já houve sete mudanças e que muitas medidas - subida do IVA para a restauração e para a energia, corte de meio subsídio de Natal logo em 2011 e confisco dos dois subsídios à função pública em 2012 - não estavam no documento original, o que é verdade. Se se podia fugir a elas ou seguir outro caminho, é outra discussão que o ex-primeiro-ministro defende, ao dizer ao Governo para parar de escavar o buraco da austeridade.
Na entrevista à RTP-1, Sócrates ajustou contas com o passado e reivindicou o direito a defender a sua versão dos acontecimentos e a ser comentador televisivo, tanto mais que, lembrou, quatro ex-líderes do PSD tem espaços desse tipo nas televisões.
A partir de agora, vai ser um crítico feroz da atuação do Governo. Os seus comentários terão também danos colaterais sobre a atual direção do PS.
José Sócrates disse que não vem à procura de nenhum cargo. Logo veremos. Mas o que ele vem fazer é política pura e dura. Cavaco, Passos e Seguro que se cuidem.
NICOLAU SANTOS, director-adjunto do Expresso.
quarta-feira, março 27, 2013
"A EDUCAÇÃO DO ESTÓICO" - IV
Não quero,
Cloe, teu amor, que oprime
Porque me
exige amor. Quero ser livre.
A sperança é
um dever do sentimento.
RICARDO REIS, Ode 115, 1-11-1930.
segunda-feira, março 25, 2013
TEATRO
Vi ontem no
São Luiz e gostei. A história de uma cidade arruinada, obrigada a aceitar um resgate económico
sob condições de grande indignidade. Vale tudo? Tudo pode ser imposto pelo
poder do dinheiro? A peça, de Friedrich Dürrenmatt, foi escrita em 1956, muito
antes daquilo que bem conhecemos: Irlanda, Grécia, Portugal e Chipre. Em cena até
dia 27, para quem puder.
sexta-feira, março 22, 2013
"presença" (1927-1940) - III
Afonso Duarte (1884-1958), poeta
entre a geração do Orpheu e a da presença, colaborou na revista desde o
seu primeiro número, tendo nele publicado, logo a seguir ao manifesto “Literatura
viva” de José Régio, quatro pequenos textos com o título “Pedras britadas”.
No nº 12, de 9 de Maio de 1928,
publicou o interessante artigo “Para uma nova posição estética – Subsídios de
arte popular portuguesa” sobre os desenhos ou feituras da arte decorativa de oleiro em Miranda do Corvo.
As preocupações estéticas da revista,
como desde cedo se percebeu, não se confinavam à literatura.
quinta-feira, março 21, 2013
SÓCRATES, O MARCELO DA RTP?
Leio no DN que foi contratado como comentador da RTP. Se for verdade, acho justo: - audiências, a quanto obrigais!
Já imagino a turbulência que desabrochará por aí. A verdade é que o último a rir…
"presença" (1927-1940) - II
Ricardo Reis – o das
musas Lídia, Cloe e Neera – , seguidor da aurea mediocritas e do carpe diem
horacianos, chega à revista em 18 de Julho de 1927, no seu nº 6, com três odes.
Uma delas:
Quanta tristeza e amargura afoga
Em confusão a streita vida! Quanto
Infortúnio mesquinho
Nos oprime supremo!
Feliz ou o bruto que nos verdes campos
Pasce, para si mesmo anónimo, e entra
Na morte como em casa;
Ou o sábio que, perdido
Na sciência, a fútil vida austera eleva
Além da nossa, como o fumo que ergue
Braços que se desfazem
A um céu inexistente.
terça-feira, março 19, 2013
"presença" (1927-1940) - I
Depois dos modernistas Raul Leal e Mário Saa, Fernando
Pessoa e o seu heterónimo Álvaro de Campos chegam à folha coimbrã em 4 de Junho
de 1927.
Viver é pertencer a outrem. Morrer é pertencer
a outrem. Viver e morrer são a mesma coisa. Mas viver é pertencer a outrem de fora, e morrer é pertencer a outrem de dentro. As duas coisas assemelham-se,
mas a vida é o lado de fora da morte. Por isso a vida é a vida e a morte a
morte, pois o lado de fora é sempre mais verdadeiro que o lado de dentro, tanto
que é o lado de fora que se vê.
Toda a emoção verdadeira é mentira na
inteligência, pois se não dá nela. Toda a emoção verdadeira tem portanto uma
expressão falsa. Exprimir-se é dizer o que não se sente.
Os cavalos da cavalaria é que fazem a
cavalaria. Sem as montadas, os cavaleiros seriam peões. O lugar é que faz a
localidade. Estar é ser.
Fingir é conhecer-se.
(Álvaro de Campos, presença
nº 5, 4 de Junho de 1927, p. 3)
sexta-feira, março 15, 2013
LÍDIA
Tinha na boca o rumor dos regatos e o
hálito das urzes
na solidão das fragas. Percorria-lhe a
pele o vento
cálido do desejo, o fervor sensual
dos pousios da carne.
Flor da montanha insciente e pura,
como podia saber, qual vedor de
mistérios,
do olho de sangue
que à sua porta crescia?
Nota: Lídia é personagem do conto “Amor”,
de Miguel Torga.
sábado, março 09, 2013
UMA HISTÓRIA A DOIS TECLADOS
Autores: CRISTINA LEIMART (textos 2 e 4)
JOÃO ALBERGARIA (textos 1, 3 e 5)
1.
“Pois meu amigo,
nas relações amorosas há dois géneros de mulheres: as que não iniciam uma nova
relação sem acabarem com a anterior e as que precisam de começar com outra
para porem fim àquela que têm. As primeiras são mulheres basicamente honestas,
admiro-as de verdade; as segundas não têm carácter, são criaturinhas ínfimas e
desprezíveis.”
Quem falava assim
era um ajudante de despachante que costumava sentar-se na cervejaria, nas
tardes lentas de Verão, à hora em que o pessoal começava a sair dos escritórios
e a sede acumulada do dia tomava proporções titânicas. Era um tipo magro, de
testa alta e nariz adunco que fazia lembrar uma ave rapace. Trazia sempre
consigo uma grossa pasta de couro, refúgio seguro dos processos que, a mando do
seu patrão, diariamente levava à alfândega. Sentia-se ali um caso de amor mal
resolvido, um desgosto, talvez uma traição, mas quem somos nós para avaliar
essas situações que ensombram as almas dos infortunados amantes?
Trincava um tremoço
e continuava:
“A mentira mais
insidiosa é a que opera por omissão: essa é a grande arte da mentira feminina.
Digo-te, meu amigo, são raras as mulheres que simulam orgasmos ou se queixam de
enxaquecas quando vão para a cama. Expediente mais comum é deixarem-se ficar a
ver televisão até às duas da manhã e só recolherem ao leito conjugal quando
estão certas de que o marido dorme o sono dos justos. Enganadoras filhas de
Eva!”
O homem que o
escutava, um poeta falhado, obtemperava de olhos piscos entre duas trincadas
num rissol de camarão:
“A poesia, meu
caro, há que ver tudo isso à luz da poesia.
2.
"O amor goza
de prazo de validade, não se pode congelá-lo por tempo indeterminado. Há quem
admire a relação amorosa como um monumento imponente, quando não passa de
construção frágil, uma capelinha vacilante."
“Achas? Em tempos
tive uma paixão de caixão ao chão e…”
- Cortaaa! “Uma
paixão de caixão ao chão”?? Onde é que isso está no script? Mas isto
é alguma novela assente no improviso?
- O texto é
monótono…
- Pá. És o
argumentista? Não és o argumentista. Ontem também meteste a colher no texto e
essa atitude já me começa a trabalhar no estômago. Cinge-te ao guião. Fazes
favor.
Iam no décimo
primeiro take.
A cena, que à partida se oferecia simples, expunha-se a contingências variadas.
Primeiro um adereço do cenário, o autocolante a imitar azulejo português
sinalizando a “Cervejaria Virginal”, começara a descolar-se, lentamente, por
trás da cabeça do ator que fazia de empregado, tirando protagonismo ao seu
estudado gesto de poisar o pratinho de tremoços sem ressoar no vidro da mesa -
Corta!
Cortaram depois ao
ver-se a silhueta de um figurante entrar inadvertidamente no frame, ofendendo,
segundo justificação do realizador, o delicado equilíbrio luz -sombra.
Cortou-se quando o ator da pasta de couro se atrapalhou em pleno diálogo,
falando de “ormas… osmargu… ormasgos… Eh pá desculpem, enrolou-se-me a língua”,
corando como uma cereja do Fundão por entre a risota geral. Corta! também
quando o ruído de uma avioneta abafou a fala grave do narrador e encrespou os
nervos da equipa de filmagens, a quem haviam garantido total ausência de
sobrevoos ao local entre as sete e trinta e as dezanove horas desse dia. De
contratempo em contratempo, a picuinhice do realizador ainda gritou Corta! no
instante em que um close-up
revelou os pelos eriçados do braço esquerdo do outro ator, pois a cena, embora
invocasse um típico dia de Verão, era filmada logo a seguir aos Reis.
Enfim passava das
duas e trinta quando o realizador sentenciou:
- Há mais cenas
para filmar, vamos lá. Última tentativa: As Horas sem Maria -
Take 12– Ação!
3.
O poeta falhado
expendeu, entretanto, algumas considerações sobre mulheres que conheceu e amou:
a morgadinha dos canaviais, Emma Bovary, a Barbara de Jacques Prévert.
Regurgitava de
gente a Cervejaria Virginal, Vaginal se chamaria se o produtor, atento ao
negócio, não tem intervindo no script para
corrigir a enormidade.
– Depois deste
filme, que me parece poder descambar em algumas ousadias torpes, só investirei
em histórias com meninas do tipo Jenny ou Joaninha dos olhos verdes – terá
dito.
A anotadora, uma
rapariga de cachecol ondulante e saia cor de tijolo da Mango, trocou um olhar
de entendimento com o realizador, enquanto a barra zebrada da claquete era
movimentada por um assistente, produzindo aquele ruído seco parecido com uma
palmadinha nas costas ou um beijo repenicado. Iniciado o take, disse o
ajudante de despachante para o poeta falhado:
“Percebes bem pouco
de mulheres, meu caro amigo. Fica a saber que as piores gajas são as da alta.
Se te decidires a começar com alguma, escolhe uma costureirinha, uma
rapariguinha do shopping,
uma funcionária municipal com vencimento não superior a 550 euros. O meu patrão
é casado com uma tipa cheia de massa, e ainda por cima quinze anos mais nova do
que ele, sei bem o que se passa na vida daquele casal, nem me atrevo a falar.
Razão tinha o nosso D. Francisco Manuel de Melo na sua carta de guia de
casados!”
O poeta falhado
contrapunha:
“Mas o amor, meu
amigo, e deixamos de acreditar no amor?”
O ajudante de despachante
mandou vir mais uma imperial; abriu a pasta de couro para se certificar de que não
havia perdido o processo de despacho aduaneiro respeitante às peças para
submarinos do Ministério da Defesa; tirou de um dente lascado, com a unha do
dedo mínimo, um pedaço de tremoço que o afligia; deu liberdade, em discreto
flato, a um congestionante gás estomacal.
Ia finalmente
falar, mas foi interrompido pela realização. À porta da cervejaria, em grande
algazarra de concertinas, violas, cavaquinhos e passinhos, passava o rancho
folclórico de Aranda dos Montes, concelho de Alguidares da Beira, que tinha ido
a S. Bento cantar as janeiras ao senhor primeiro-ministro. Era nos dias a
seguir aos Reis, lembram-se?
4.
Era nos dias a
seguir aos Reis, e o cortejo era a gota de água que fazia transbordar a
paciência do realizador. César Gorjão berrou“Corta!”, sibilou “Campónios
lambe-botas, de onde é que saiu esta cambada, paciência, o sol já desceu
demasiado, temos a luz feita num oito, recomeça-se amanhã” e fingiu ignorar um
afago de solidariedade esboçado pela jovem anotadora.
Técnicos e
figurantes começaram a dispersar. E o mesmo teriam feito os dois atores de
serviço à mesa da Cervejaria Virginal, se o diálogo do argumento não estivesse
de molde a colar-se às almas sensíveis e despertas que ambos eram.
Dizia Pablo Aleixo,
o ator no papel de poeta:
- Estou com a minha
personagem: Deixamos de acreditar no amor?
Por entre os
arbustos aparados dos jardins de Belém viam-se, ao fundo, pequenos fractais que
os raios oblíquos do sol pareciam formar ao incidir sobre a superfície agitada
do Tejo. O arraial melódico do rancho perdia volume à medida que se afastava,
substituído por risos, frases soltas e pregões de familiaridade “Ó Augusto,
agora só falta uns pasteizinhos de Belém ali adiante e depois - camioneta!”.
- Amor, no sentido
bíblico do termo? - perguntou André Amado, ajudante de despachante.
- Não - esclareceu
Aleixo, arreganhando o lábio superior, num gesto pouco percetível que alguns
evolucionistas e psicólogos da etologia interpretam como remota atitude de
desdém.
- Amor, tipo de
gaivota?
- De gaivota?
- Sim, há na nossa
costa uma espécie de gaivota, a tridáctila, cujo casal se une para sempre e
fica sete semanas a velar os filhotes. Vi no Odisseia…
- Não, pá, o amor
romântico. Estou em sintonia com o argumentista. Aquele de que o Alberoni
(alguma vez leste os livros dele?) falava no Enamoramento e Amor.
O dos amantes, pá, não é esse o amor que interessa?
- Não sei, não penso
muito nisso. Os meus pais, ao fim de trinta anos juntos e até à morte da minha
mãe, já não era possível saber que características de um pertenciam também do
outro. Lembro-me de o meu pai dizer, para aí com uns 55, 56 anos e já sozinho,
que em matéria de mulheres só ambicionava uma relação que fosse “quentinha no
Inverno e refrescante no Verão”.
Riram-se desta
imagem possível do amor tardio, resignado, imagem mais difícil de desmontar do
que o cenário da entrada da Cervejaria Virginal, que por altura destas palavras
se encontrava já tapado. Eram risos diferentes, em forma e em substância.
Amado continuou:
- Eu, com mulheres,
estou como o devoto Senhor dos Passos: sempre um pé atrás! Sempre com um pé
atrás e, se posso, nem chego a pegar na cruz.
Riram-se de novo.
5.
Pablo Aleixo riu
como se não risse. Achara frouxa e gasta a piada sobre o Senhor dos Passos.
Nada o entusiasmava naquela conversa, tudo lhe parecia estranho, não
conseguindo perceber se debitava o guião dum filme ou se era a realidade que o fazia
falar. Esta incerteza prenunciava certamente a suprema condição da arte: a de
se confundir com a vida. Sou eu ou a minha personagem?
Não estava, no
entanto, para entrar em grandes aprofundamentos. Alberoni? Afinal é uma leitura
banal! Que disse ele que não tivesse já sido dito por Camões, Ronsard, Botto,
Eugénio de Andrade? Do amor, fala quem o sente, não quem o disseca ou computa.
Achou curioso o pensamento, a tríade silábica da palavra pensada: com-pu-ta. Computai, computai a
nossa falha – lá dizia o Alexandre O´Neill.
André Amado, o
outro actor, não deveria ser muito amado, desamado, sim, a avaliar pelo
turbilhão azedo do seu discurso.
“Pablo Aleixo, meu
caro, mulheres só para aquilo que a gente sabe. São criaturas ornamentais, mas
perigosas.”
Voltaram ao
trabalho no dia seguinte. A anotadora que – é a altura de o dizer – era
militante do grupo feminista MERDE (Mulheres de Esquerda Revolucionária em
Defesa da Emancipação), percebeu que o desamado actor insistia em pronunciar
frases alheias ao script. Foi fazer
queixa ao realizador, segredando-lhe mansamente enquanto o seu seio roçava a
placa óssea do ombro cineasta.
O realizador soltou
um “merde!” perfeitamente audível e compreensível no contexto em que se
produzia. Esta interjeição, tinha-a aprendido a usar no tempo em que
frequentara o Conservatoire Libre du Cinéma Français, em Levallois-Perret,
especializando-se em casting, direction d´
acteurs et mise en scène.
“Merde, merde!”,
voltou à carga.
Para o acalmar, a
anotadora deu-lhe de beber de uma garrafa de água de Vichy, borbulhante e
fresca, tirada de uma caixa que se encontrava a seus pés, embora na verdade se
tratasse de água Castelo, com o rótulo alterado por causa de uma cena passada
em França que ia ser filmada no dia seguinte.
Houve um momento de
perturbação e, coisa surpreendente, Aleixo e Amado avançaram para a cadeira
articulada do realizador, em cujas costas de lona se inscreviam as iniciais C.
G. com uma estrelinha amarela de cada lado. Pediram para falar com o produtor e
ali mesmo declararam, sem delongas, a intenção de se despedirem.
"Porcaria de
filme e porcaria de mulheres que aqui trabalham!", vociferou o desamado.
"Uma pena, em
certo sentido este trabalho até era poético", disse o Aleixo.
"Poético o
caraças", replicou o outro, "quero sair deste filme o mais depressa
possível."
Os autores da
história a dois teclados foram chamados a depor na azeda circunstância.
"Acabamos com
isto?", perguntou ele; "Se calhar é o melhor", disse ela,
"tenho muito trabalho a fazer na Faculdade". Selaram o acordo.
Os actores ou
actantes, já por conta própria, atravessaram a porta de vidro da cervejaria Virginal e encheram-se da
luz do dia. Os carros buzinavam nas ruas, Janeiro doía, a sede fustigava.
"Meu Amigo, e
se fôssemos beber umas cervejas a outro sítio?", inquiriu Amado, agarrado
à pasta dos despachos.
Aleixo não
respondeu. Mentalmente, fazia um poema.
terça-feira, março 05, 2013
CASSANDRA E A TROIKA - poema de Manuel Alegre
Quis falar com os da troika, mas não lho permitiram
Então Cassandra apareceu na ruatrazia um cartaz para entregar à Troika
saúde educação dizia ela. E havia
em seu olhar a cólera e a beleza
ela era a filha de Príamo aquela
por quem Apolo se apaixonou
nos seus ouvidos passaram as serpentes
e por isso ela ouvia o que ninguém ouvia
tinha vindo para avisar que a Troika
é o novo cavalo falso dentro da cidade
os seguranças rodearam-na mas ela falava
seus longos cabelos soltos sob o sol de Lisboa
clamava por justiça e dignidade
ouvissem ou não ouvissem ela era a sibila
e apontava o cavalo dentro da cidade.
2.3.2013
Manuel Alegre
http://www.manuelalegre.com/
domingo, março 03, 2013
sábado, março 02, 2013
domingo, fevereiro 24, 2013
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
sexta-feira, fevereiro 15, 2013
Luís de FREITAS BRANCO | Tentações de São Frei Gil (1/3)
"À esquerda o imenso convento do Sítio ou de Jesus, logo o das Donas, depois
o de S. Domingos, célebre pelo jazigo do nosso Fausto português – seja dito sem
irreverência à memória de S. Frei Gil que, é verdade, veio a ser grande santo,
mas que primeiro foi grande bruxo."
quinta-feira, fevereiro 14, 2013
FOI O SENHOR QUE NÃO PEDIU FACTURA?
Francisco José Viegas, poeta e romancista, ex-secretário de estado da Cultura do governo de Vítor Gaspar: - a expressão adequada contra os mastins do fisco.
Ver em
Publicado hoje.
quarta-feira, fevereiro 13, 2013
NA PONTE DA ASSECA
“Ora donde
veio este nome da Asseca? Algures aqui perto deve de haver sítio, lugar ou
coisa que o valha, com o nome de Meca; e daí talvez o admirável rifão português
que ainda não foi bem examinado como devia ser, e que decerto encerra algum
grande ditame de moral primitiva: «andou por Seca (Asseca?) e Meca e olivais de
Santarém» – Os tais olivais ficam logo
adiante. É uma etimologia como qualquer outra.” (Cap. IX das Viagens)
Garrett no
seu melhor, mesmo quando brinca às etimologias com o "leitor benévolo". Vou indagar sobre a origem deste intrigante e "admirável rifão português", mas se alguém tiver alguma ideia, diga.
terça-feira, fevereiro 12, 2013
O CANTINHO DO HOOLIGAN (título copiado de Francisco José Viegas)
Proença, o indefectível. Acho que o sucesso lhe subiu à cabeça. A sua glória é fazer acabar as partidas com 9 jogadores: vermelhuscos, se possível; adversários do FCP, quando não dá para isso. É Carnaval, ninguém leva a mal - só voltarei a falar destas tretas de aqui a um ano.
domingo, fevereiro 10, 2013
sábado, fevereiro 09, 2013
VILA NOVA, concelho de Miranda do Corvo, a SENDIM de "A Criação do Mundo"
Busto de Miguel Torga (1907-1995)
Edifício da Junta de Freguesia, onde o médico-escritor tinha consultório
Casa onde residiu Miguel Torga. Inscrição na placa da parede: Aqui viveu Miguel Torga, 1934-1937. "E pude devotadamente levar durante alguns anos a saúde e a esperança a muitos lares" - A Criação do Mundo, vol. II, 3º dia. Vila Nova, 1-6-95.(Fotografias tiradas hoje)
domingo, fevereiro 03, 2013
"ORGULHO E PRECONCEITO"
Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, romance que leio de novo na tradução de Maria
Francisca Ferreira de Lima, edição da Europa-América (Janeiro de 2002).
Uma obra perfeita, com uma história
estupenda e um insuperável desenho psicológico das personagens. Lamentavelmente,
o texto está cheio de gralhas, o que não abona o trabalho da editora.
sábado, fevereiro 02, 2013
DISCURSO DO GUARDA DA ÚLTIMA FRONTEIRA CONTRA A TEIA DE ARANHA, CHAMADA XÂNTILA, DAS TREMENDAS E DESOLADAS REGIÕES DA LUA DE SOMBRA (fragmento)
Dinis Machado, imagem © rabiscos vieira
(…) a minha
obrigação é ver passaportes, avisar contra as regiões da lua de sombra e passar
a guia para a Praia de Pensar Nisso, mas voltemos às estrelas, aquela ali é
Dick Tracy, um polícia à paisana que conseguiu o exacto ponto de equilíbrio
entre o dever e a solidariedade, ainda me lembro dele quando chegou aqui, disse
que tinha deixado tudo em ordem lá atrás e perguntou se tudo corria bem nas
outras estrelas, na estrela Mãe, na Bigodes Piaçaba, na de César, conversámos
um pouco, tinha muita franqueza no olhar, passei-lhe a guia para a Praia de
Pensar Nisso, partiu de chapéu na mão, depois temos a estrela Aurora, lúcida e
louca, nasceu de uma máquina de escrever sem teclas, agora é nela manhã todos
os dias, e a estrela Morango, ou estrela Wilson, ortodoxa e desorbitada,
toca-se lá Stravinsky em inebriantes noites jardineiras, e outras estrelas e
estrelinhas de constelações descentralizadas e iglantónicas, olhe agora para
aquela galáxia, para a luz maravilhosa que irradia, os diferentes formatos e as
várias intensidades, os entendidos sabem o nome de todas elas, eu conheço
algumas, é a de Mozart, a de Rimbaud, a de Gorki, a de Van Gogh, de Bach, a de
Eluard, a de Dostoiewski, a de Neruda, a de Goya, a de Cesário, aquela ali,
muito intensa, é a de Beethoven, (…)
sexta-feira, fevereiro 01, 2013
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