terça-feira, março 19, 2013

"presença" (1927-1940) - I

Depois dos modernistas Raul Leal e Mário Saa, Fernando Pessoa e o seu heterónimo Álvaro de Campos chegam à folha coimbrã em 4 de Junho de 1927.
Viver é pertencer a outrem. Morrer é pertencer a outrem. Viver e morrer são a mesma coisa. Mas viver é pertencer a outrem de fora, e morrer é pertencer a outrem de dentro. As duas coisas assemelham-se, mas a vida é o lado de fora da morte. Por isso a vida é a vida e a morte a morte, pois o lado de fora é sempre mais verdadeiro que o lado de dentro, tanto que é o lado de fora que se vê.
Toda a emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois se não dá nela. Toda a emoção verdadeira tem portanto uma expressão falsa. Exprimir-se é dizer o que não se sente.
Os cavalos da cavalaria é que fazem a cavalaria. Sem as montadas, os cavaleiros seriam peões. O lugar é que faz a localidade. Estar é ser.
Fingir é conhecer-se.
 
(Álvaro de Campos, presença nº 5, 4 de Junho de 1927, p. 3)

sexta-feira, março 15, 2013

MANIFESTAÇÃO



O melhor povo do mundo, hoje, em frente dum Ministério das Finanças fortemente defendido.

LÍDIA


Tinha na boca o rumor dos regatos e o hálito das urzes
na solidão das fragas. Percorria-lhe a pele o vento
cálido do desejo, o fervor sensual
dos pousios da carne.

Flor da montanha insciente e pura,
como podia saber, qual vedor de mistérios,
do olho de sangue
que à sua porta crescia?


Nota: Lídia é personagem do conto “Amor”, de Miguel Torga.
 

sábado, março 09, 2013

UMA HISTÓRIA A DOIS TECLADOS


Autores: CRISTINA LEIMART (textos 2 e 4)

               JOÃO ALBERGARIA (textos 1, 3 e 5)

1.

“Pois meu amigo, nas relações amorosas há dois géneros de mulheres: as que não iniciam uma nova relação sem acabarem com a anterior e as que precisam de começar com outra para porem fim àquela que têm. As primeiras são mulheres basicamente honestas, admiro-as de verdade; as segundas não têm carácter, são criaturinhas ínfimas e desprezíveis.”
Quem falava assim era um ajudante de despachante que costumava sentar-se na cervejaria, nas tardes lentas de Verão, à hora em que o pessoal começava a sair dos escritórios e a sede acumulada do dia tomava proporções titânicas. Era um tipo magro, de testa alta e nariz adunco que fazia lembrar uma ave rapace. Trazia sempre consigo uma grossa pasta de couro, refúgio seguro dos processos que, a mando do seu patrão, diariamente levava à alfândega. Sentia-se ali um caso de amor mal resolvido, um desgosto, talvez uma traição, mas quem somos nós para avaliar essas situações que ensombram as almas dos infortunados amantes?
Trincava um tremoço e continuava:
“A mentira mais insidiosa é a que opera por omissão: essa é a grande arte da mentira feminina. Digo-te, meu amigo, são raras as mulheres que simulam orgasmos ou se queixam de enxaquecas quando vão para a cama. Expediente mais comum é deixarem-se ficar a ver televisão até às duas da manhã e só recolherem ao leito conjugal quando estão certas de que o marido dorme o sono dos justos. Enganadoras filhas de Eva!”
O homem que o escutava, um poeta falhado, obtemperava de olhos piscos entre duas trincadas num rissol de camarão:
“A poesia, meu caro, há que ver tudo isso à luz da poesia.

2.

"O amor goza de prazo de validade, não se pode congelá-lo por tempo indeterminado. Há quem admire a relação amorosa como um monumento imponente, quando não passa de construção frágil, uma capelinha vacilante."
“Achas? Em tempos tive uma paixão de caixão ao chão e…”
- Cortaaa! “Uma paixão de caixão ao chão”?? Onde é que isso está no script? Mas isto é alguma novela assente no improviso?
- O texto é monótono…
- Pá. És o argumentista? Não és o argumentista. Ontem também meteste a colher no texto e essa atitude já me começa a trabalhar no estômago. Cinge-te ao guião. Fazes favor.
Iam no décimo primeiro take. A cena, que à partida se oferecia simples, expunha-se a contingências variadas. Primeiro um adereço do cenário, o autocolante a imitar azulejo português sinalizando a “Cervejaria Virginal”, começara a descolar-se, lentamente, por trás da cabeça do ator que fazia de empregado, tirando protagonismo ao seu estudado gesto de poisar o pratinho de tremoços sem ressoar no vidro da mesa - Corta!
Cortaram depois ao ver-se a silhueta de um figurante entrar inadvertidamente no frame, ofendendo, segundo justificação do realizador, o delicado equilíbrio luz -sombra. Cortou-se quando o ator da pasta de couro se atrapalhou em pleno diálogo, falando de “ormas… osmargu… ormasgos… Eh pá desculpem, enrolou-se-me a língua”, corando como uma cereja do Fundão por entre a risota geral. Corta! também quando o ruído de uma avioneta abafou a fala grave do narrador e encrespou os nervos da equipa de filmagens, a quem haviam garantido total ausência de sobrevoos ao local entre as sete e trinta e as dezanove horas desse dia. De contratempo em contratempo, a picuinhice do realizador ainda gritou Corta! no instante em que um close-up revelou os pelos eriçados do braço esquerdo do outro ator, pois a cena, embora invocasse um típico dia de Verão, era filmada logo a seguir aos Reis.
Enfim passava das duas e trinta quando o realizador sentenciou:
- Há mais cenas para filmar, vamos lá. Última tentativa: As Horas sem Maria - Take 12– Ação!

3.

O poeta falhado expendeu, entretanto, algumas considerações sobre mulheres que conheceu e amou: a morgadinha dos canaviais, Emma Bovary, a Barbara de Jacques Prévert.
Regurgitava de gente a Cervejaria Virginal, Vaginal se chamaria se o produtor, atento ao negócio, não tem intervindo no script para corrigir a enormidade.
– Depois deste filme, que me parece poder descambar em algumas ousadias torpes, só investirei em histórias com meninas do tipo Jenny ou Joaninha dos olhos verdes – terá dito.
A anotadora, uma rapariga de cachecol ondulante e saia cor de tijolo da Mango, trocou um olhar de entendimento com o realizador, enquanto a barra zebrada da claquete era movimentada por um assistente, produzindo aquele ruído seco parecido com uma palmadinha nas costas ou um beijo repenicado. Iniciado o take, disse o ajudante de despachante para o poeta falhado:
“Percebes bem pouco de mulheres, meu caro amigo. Fica a saber que as piores gajas são as da alta. Se te decidires a começar com alguma, escolhe uma costureirinha, uma rapariguinha do shopping, uma funcionária municipal com vencimento não superior a 550 euros. O meu patrão é casado com uma tipa cheia de massa, e ainda por cima quinze anos mais nova do que ele, sei bem o que se passa na vida daquele casal, nem me atrevo a falar. Razão tinha o nosso D. Francisco Manuel de Melo na sua carta de guia de casados!”
O poeta falhado contrapunha:
“Mas o amor, meu amigo, e deixamos de acreditar no amor?”
O ajudante de despachante mandou vir mais uma imperial; abriu a pasta de couro para se certificar de que não havia perdido o processo de despacho aduaneiro respeitante às peças para submarinos do Ministério da Defesa; tirou de um dente lascado, com a unha do dedo mínimo, um pedaço de tremoço que o afligia; deu liberdade, em discreto flato, a um congestionante gás estomacal.
Ia finalmente falar, mas foi interrompido pela realização. À porta da cervejaria, em grande algazarra de concertinas, violas, cavaquinhos e passinhos, passava o rancho folclórico de Aranda dos Montes, concelho de Alguidares da Beira, que tinha ido a S. Bento cantar as janeiras ao senhor primeiro-ministro. Era nos dias a seguir aos Reis, lembram-se?

4.

Era nos dias a seguir aos Reis, e o cortejo era a gota de água que fazia transbordar a paciência do realizador. César Gorjão berrou“Corta!”, sibilou “Campónios lambe-botas, de onde é que saiu esta cambada, paciência, o sol já desceu demasiado, temos a luz feita num oito, recomeça-se amanhã” e fingiu ignorar um afago de solidariedade esboçado pela jovem anotadora.
Técnicos e figurantes começaram a dispersar. E o mesmo teriam feito os dois atores de serviço à mesa da Cervejaria Virginal, se o diálogo do argumento não estivesse de molde a colar-se às almas sensíveis e despertas que ambos eram.
Dizia Pablo Aleixo, o ator no papel de poeta:
- Estou com a minha personagem: Deixamos de acreditar no amor?
Por entre os arbustos aparados dos jardins de Belém viam-se, ao fundo, pequenos fractais que os raios oblíquos do sol pareciam formar ao incidir sobre a superfície agitada do Tejo. O arraial melódico do rancho perdia volume à medida que se afastava, substituído por risos, frases soltas e pregões de familiaridade “Ó Augusto, agora só falta uns pasteizinhos de Belém ali adiante e depois - camioneta!”.
- Amor, no sentido bíblico do termo? - perguntou André Amado, ajudante de despachante.
- Não - esclareceu Aleixo, arreganhando o lábio superior, num gesto pouco percetível que alguns evolucionistas e psicólogos da etologia interpretam como remota atitude de desdém.
- Amor, tipo de gaivota?
- De gaivota?
- Sim, há na nossa costa uma espécie de gaivota, a tridáctila, cujo casal se une para sempre e fica sete semanas a velar os filhotes. Vi no Odisseia…
- Não, pá, o amor romântico. Estou em sintonia com o argumentista. Aquele de que o Alberoni (alguma vez leste os livros dele?) falava no Enamoramento e Amor. O dos amantes, pá, não é esse o amor que interessa?
- Não sei, não penso muito nisso. Os meus pais, ao fim de trinta anos juntos e até à morte da minha mãe, já não era possível saber que características de um pertenciam também do outro. Lembro-me de o meu pai dizer, para aí com uns 55, 56 anos e já sozinho, que em matéria de mulheres só ambicionava uma relação que fosse “quentinha no Inverno e refrescante no Verão”.
Riram-se desta imagem possível do amor tardio, resignado, imagem mais difícil de desmontar do que o cenário da entrada da Cervejaria Virginal, que por altura destas palavras se encontrava já tapado. Eram risos diferentes, em forma e em substância.
Amado continuou:
- Eu, com mulheres, estou como o devoto Senhor dos Passos: sempre um pé atrás! Sempre com um pé atrás e, se posso, nem chego a pegar na cruz.
Riram-se de novo.

5.

Pablo Aleixo riu como se não risse. Achara frouxa e gasta a piada sobre o Senhor dos Passos. Nada o entusiasmava naquela conversa, tudo lhe parecia estranho, não conseguindo perceber se debitava o guião dum filme ou se era a realidade que o fazia falar. Esta incerteza prenunciava certamente a suprema condição da arte: a de se confundir com a vida. Sou eu ou a minha personagem?
Não estava, no entanto, para entrar em grandes aprofundamentos. Alberoni? Afinal é uma leitura banal! Que disse ele que não tivesse já sido dito por Camões, Ronsard, Botto, Eugénio de Andrade? Do amor, fala quem o sente, não quem o disseca ou computa. Achou curioso o pensamento, a tríade silábica da palavra pensada: com-pu-ta. Computai, computai a nossa falha – lá dizia o Alexandre O´Neill.
André Amado, o outro actor, não deveria ser muito amado, desamado, sim, a avaliar pelo turbilhão azedo do seu discurso.
“Pablo Aleixo, meu caro, mulheres só para aquilo que a gente sabe. São criaturas ornamentais, mas perigosas.”
Voltaram ao trabalho no dia seguinte. A anotadora que – é a altura de o dizer – era militante do grupo feminista MERDE (Mulheres de Esquerda Revolucionária em Defesa da Emancipação), percebeu que o desamado actor insistia em pronunciar frases alheias ao script. Foi fazer queixa ao realizador, segredando-lhe mansamente enquanto o seu seio roçava a placa óssea do ombro cineasta.
O realizador soltou um “merde!” perfeitamente audível e compreensível no contexto em que se produzia. Esta interjeição, tinha-a aprendido a usar no tempo em que frequentara o Conservatoire Libre du Cinéma Français, em Levallois-Perret, especializando-se em casting, direction d´ acteurs et mise en scène.
“Merde, merde!”, voltou à carga.
Para o acalmar, a anotadora deu-lhe de beber de uma garrafa de água de Vichy, borbulhante e fresca, tirada de uma caixa que se encontrava a seus pés, embora na verdade se tratasse de água Castelo, com o rótulo alterado por causa de uma cena passada em França que ia ser filmada no dia seguinte.
Houve um momento de perturbação e, coisa surpreendente, Aleixo e Amado avançaram para a cadeira articulada do realizador, em cujas costas de lona se inscreviam as iniciais C. G. com uma estrelinha amarela de cada lado. Pediram para falar com o produtor e ali mesmo declararam, sem delongas, a intenção de se despedirem.
"Porcaria de filme e porcaria de mulheres que aqui trabalham!", vociferou o desamado.
"Uma pena, em certo sentido este trabalho até era poético", disse o Aleixo.
"Poético o caraças", replicou o outro, "quero sair deste filme o mais depressa possível."
Os autores da história a dois teclados foram chamados a depor na azeda circunstância.
"Acabamos com isto?", perguntou ele; "Se calhar é o melhor", disse ela, "tenho muito trabalho a fazer na Faculdade". Selaram o acordo.
Os actores ou actantes, já por conta própria, atravessaram a porta de vidro da cervejaria Virginal e encheram-se da luz do dia. Os carros buzinavam nas ruas, Janeiro doía, a sede fustigava.
"Meu Amigo, e se fôssemos beber umas cervejas a outro sítio?", inquiriu Amado, agarrado à pasta dos despachos.
Aleixo não respondeu. Mentalmente, fazia um poema.
 

terça-feira, março 05, 2013

CASSANDRA E A TROIKA - poema de Manuel Alegre

Quis falar com os da troika, mas não lho permitiram
Então Cassandra apareceu na rua
trazia um cartaz para entregar à Troika
saúde educação dizia ela. E havia
em seu olhar a cólera e a beleza
ela era a filha de Príamo aquela
por quem Apolo se apaixonou
nos seus ouvidos passaram as serpentes
e por isso ela ouvia o que ninguém ouvia
tinha vindo para avisar que a Troika
é o novo cavalo falso dentro da cidade
os seguranças rodearam-na mas ela falava
seus longos cabelos soltos sob o sol de Lisboa
clamava por justiça e dignidade
ouvissem ou não ouvissem ela era a sibila
e apontava o cavalo dentro da cidade.

2.3.2013
Manuel Alegre
http://www.manuelalegre.com/

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Luís de FREITAS BRANCO | Tentações de São Frei Gil (1/3)


"À esquerda o imenso convento do Sítio ou de Jesus, logo o das Donas, depois o de S. Domingos, célebre pelo jazigo do nosso Fausto português – seja dito sem irreverência à memória de S. Frei Gil que, é verdade, veio a ser grande santo, mas que primeiro foi grande bruxo."
Viagens na Minha Terra, capitulo XXVII.

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

FOI O SENHOR QUE NÃO PEDIU FACTURA?

Francisco José Viegas, poeta e romancista, ex-secretário de estado da Cultura do governo de Vítor Gaspar: - a expressão adequada contra os mastins do fisco.
Ver em
Publicado hoje.

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

NA PONTE DA ASSECA

“Ora donde veio este nome da Asseca? Algures aqui perto deve de haver sítio, lugar ou coisa que o valha, com o nome de Meca; e daí talvez o admirável rifão português que ainda não foi bem examinado como devia ser, e que decerto encerra algum grande ditame de moral primitiva: «andou por Seca (Asseca?) e Meca e olivais de Santarém»  – Os tais olivais ficam logo adiante. É uma etimologia como qualquer outra.”         (Cap. IX das Viagens)
Garrett no seu melhor, mesmo quando brinca às etimologias com o "leitor benévolo". Vou indagar sobre a origem deste intrigante e "admirável rifão português", mas se alguém tiver alguma ideia, diga.

terça-feira, fevereiro 12, 2013

O CANTINHO DO HOOLIGAN (título copiado de Francisco José Viegas)

Proença, o indefectível. Acho que o sucesso lhe subiu à cabeça. A sua glória é fazer acabar as partidas com 9 jogadores: vermelhuscos, se possível; adversários do FCP, quando não dá para isso. É Carnaval, ninguém leva a mal - só voltarei a falar destas tretas de aqui a um ano.

domingo, fevereiro 10, 2013

Uma mulher é como uma guitarra
Não é qualquer que a abraça e faz vibrar.
Mas quem souber na forma como agarra,
Prende-lhe a alma nas mãos que sabe tocar.

Letra para fado de Álvaro Duarte Simões

sábado, fevereiro 09, 2013

VILA NOVA, concelho de Miranda do Corvo, a SENDIM de "A Criação do Mundo"

Busto de Miguel Torga (1907-1995)
Edifício da Junta de Freguesia, onde o médico-escritor tinha consultório
Casa onde residiu Miguel Torga. Inscrição na placa da parede: Aqui viveu Miguel Torga, 1934-1937. "E pude devotadamente levar durante alguns anos a saúde e a esperança a muitos lares" - A Criação do Mundo, vol. II, 3º dia. Vila Nova, 1-6-95.

(Fotografias tiradas hoje)

domingo, fevereiro 03, 2013

"ORGULHO E PRECONCEITO"

Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, romance que leio de novo na tradução de Maria Francisca Ferreira de Lima, edição da Europa-América (Janeiro de 2002).
Uma obra perfeita, com uma história estupenda e um insuperável desenho psicológico das personagens. Lamentavelmente, o texto está cheio de gralhas, o que não abona o trabalho da editora.

sábado, fevereiro 02, 2013

DISCURSO DO GUARDA DA ÚLTIMA FRONTEIRA CONTRA A TEIA DE ARANHA, CHAMADA XÂNTILA, DAS TREMENDAS E DESOLADAS REGIÕES DA LUA DE SOMBRA (fragmento)

Dinis Machado, imagem © rabiscos vieira 
(…) a minha obrigação é ver passaportes, avisar contra as regiões da lua de sombra e passar a guia para a Praia de Pensar Nisso, mas voltemos às estrelas, aquela ali é Dick Tracy, um polícia à paisana que conseguiu o exacto ponto de equilíbrio entre o dever e a solidariedade, ainda me lembro dele quando chegou aqui, disse que tinha deixado tudo em ordem lá atrás e perguntou se tudo corria bem nas outras estrelas, na estrela Mãe, na Bigodes Piaçaba, na de César, conversámos um pouco, tinha muita franqueza no olhar, passei-lhe a guia para a Praia de Pensar Nisso, partiu de chapéu na mão, depois temos a estrela Aurora, lúcida e louca, nasceu de uma máquina de escrever sem teclas, agora é nela manhã todos os dias, e a estrela Morango, ou estrela Wilson, ortodoxa e desorbitada, toca-se lá Stravinsky em inebriantes noites jardineiras, e outras estrelas e estrelinhas de constelações descentralizadas e iglantónicas, olhe agora para aquela galáxia, para a luz maravilhosa que irradia, os diferentes formatos e as várias intensidades, os entendidos sabem o nome de todas elas, eu conheço algumas, é a de Mozart, a de Rimbaud, a de Gorki, a de Van Gogh, de Bach, a de Eluard, a de Dostoiewski, a de Neruda, a de Goya, a de Cesário, aquela ali, muito intensa, é a de Beethoven, (…)
DINIS MACHADO, O que diz Molero, Lisboa, Círculo de Leitores, 1978, pp. 148 e 149.

quarta-feira, janeiro 30, 2013

FRAGMENTOS DE UMA CARTA


A carta missiva ou mandadeira (…) é uma mensageira fiel que interpreta o nosso ânimo aos ausentes (…)
FRANCISCO RODRIGUES LOBO, Corte na Aldeia


Minha Querida Amiga,
Há muito que não te escrevia. O tempo corre depressa, bem sabes, mais depressa do que as ilusões que vamos construindo, e quando damos por ele está muito à frente de nós, longe daquilo que pensámos e desejámos fazer. Das últimas cartas que te escrevi, não tenho, de resto, boas recordações: foram cartas que ficaram sem resposta ou a que só respondeste com meias palavras, discursos que deixavam espaço para a dúvida e a incerteza. Aceitei essas cartas com bonomia, (…)
Se te escrevo hoje, não o escondo, é porque ultimamente muito me têm falado de ti. Dizem-me que estás diferente, que têm dificuldade em compreender-te, e, o que mais me preocupa, que terias deixado de sorrir e renunciado talvez ao refúgio do amor. Imagina, tu que sempre te deixaste guiar pelo coração, tu que amavas, conhecias e sentias a voz solar da poesia: Paroles de Jacques Prévert, lembro-me bem, Rappelle-toi Barbara / Il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là / Et tu marchais souriante / Épanouie ravie ruisselante / Sous la pluie.
Não sei o que se terá passado contigo, mas a acreditar no que me dizem acho que o caso é sério e merece uma palavra minha. Por vezes, Minha Amiga, as coisas acontecem de forma diferente da que esperamos. Nem tudo é como parece, nem todos os sentimentos se desenvolvem como os imaginamos. Sei bem que (…)

domingo, janeiro 13, 2013


EROS E SONHO

                         Ao João, leitor de D. H. Lawrence, que soube
                         sonhar o sonho e o contou
                   
Conhecias o flagelo do esquecimento, a exígua memória
que habita a matéria dos sonhos, e por isso os escrevias
num caderno que tinhas à cabeceira da cama. Foi assim
que pudeste falar do corcel do amor, priapo de asas
com que penetravas as húmidas cavernas da satisfação.
Deixavas-te levar na sela múltipla do seu dorso e sobrevoavas
planícies brancas que só existem na inocência
dos bons. Depois, ao rumor da noite, vias ondular o quimono
de seda duma gueixa, havia uma vibração de línguas
desafiando os equinócios da indiferença.
O poder iniciático cingia-te a fronte de miosótis,
caía no bosque do teu corpo a chuva agra e doce
do contentamento. Seguravas um livro, assim
como quem repousa a mão sobre um seio de mulher.

JOSÉ RAFAEL                                                                                    
                                                       

quinta-feira, janeiro 10, 2013


FUNDAMENTO DA INVECTIVA

Descubro, nas interjeições febris de mulheres amadas, as paisagens
belgas. A prosaica antecâmara dos lamentos,
Annie Playden, ó Desconhecida,
sicómoros crepusculares, Transcendência!
(…)

O resto em NUNO JÚDICE, Crítica Doméstica dos Paralelepípedos  (1973)

quarta-feira, janeiro 09, 2013

O PRIMEIRO DIA


FMI, QUATRO MIL MILHÕES


Até nem desgosto da senhora. Mesmo vivendo no meio de bárbaros, consegue não perder o charme parisiense tão presente em figuras públicas como Segolène Royal e Valérie Trierweiler. Neste particular, nada que se compare às cansativas Sarah Palin ou Hillary Clinton dos rebarbativos States. Se outra razão não houvesse para a minha afeição, bastava o cuidado que põe no acordo social em torno do célebre corte dos quatro mil milhões. Bem haja. Uma mulher muito inteligente! E sensual, ainda.

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.


Álvaro de Campos, "Ode Marítima"

AMANHEÇO-ME


terça-feira, janeiro 08, 2013

HISTÓRIAS VERÍDICAS DE JOÃO ALBERGARIA - O Meu Caso com M.


– Mas se ele não serviu para as outras, como pode servir para mim?
Os olhos dela, onde havia uma sombra de verde, viravam-se para a luz do dia que entrava pela porta do restaurante. Era o momento em que a conta chegava à mesa a anunciar o fim da conversa. Mais uns minutos e voltaríamos ao escritório, duas ruas acima, a cumprir o período de trabalho da tarde.
Não conseguia compreender o que é que ela esperava de mim em cada um daqueles almoços de que tentava excluir, quase sempre com êxito, os demais colegas. O técnico de contas, um homem de corpo volumoso e personalidade miudinha, colava-se algumas vezes à nossa mesa, e a conversa derivava, soturna, para coisas importantes e estranhamente sérias: obrigações tributárias, reembolsos de IVA , taxas de importação de países terceiros e respectivas imposições fiscais. Mas M., assim devo chamar-lhe, tinha artes de o afastar nos dias seguintes: alegava outro horário de almoço e o homem conformava-se a repor sozinho, numa mesa triste, o nível necessário da sua força de trabalho.
Nem sei dizer se M. chegava a ser bela. Eu deixava-me arrastar pela serenidade sobressaltada do seu corpo, como se não fosse uns vinte anos mais velho do que ela e ainda tivesse veleidades de impressionar as mulheres com a minha conversa e o meu aspecto físico. Foi justamente por essa altura que comecei a reparar nas minhas fotografias e a ver nelas, talvez porque fixassem o instante fugidio e revelador, aquilo que o espelho se negava a dizer-me: que estava irremediavelmente acabado, gasto como uma pedra rolada.  Além do mais vivia desiludido do amor, como se fosse possível desiludirmo-nos de algo por que nunca verdadeiramente passámos.
M. revelava-se em cada almoço mais confiante e afectuosa. Contava-me coisas íntimas e surpreendentes que não ouso aqui delatar, fazia-me queixas:
 – Chegou a casa às quatro da manhã. E eu vou aguentar isto?
Eu conhecia o homem, era cliente do escritório, um marialva bem apessoado que demolia corações femininos e gozava à tripa-forra as carnalidades vagabundas. A sua relação com M., de que resultara um filho, fora precedida de dois casamentos fugazes. Dizia-se que foram as mulheres que lhe puseram as malas à porta de casa, se é que não lhe chegaram a pôr algo mais, mas fora dela. Se ele não serviu para as outras, como poderia servir para M.? E dava comigo a espantar-me com a sabedoria daquela mulher que numa simples interrogativa conseguia condensar todo o desafecto duma relação conjugal, saindo da penumbra da incompreensão e vendo claro as ínfimas mas reveladoras modulações do seu caso amoroso.
M. pretendia que eu lhe falasse de mim. Mas que tinha eu para dizer que ela não adivinhasse, que narrativa poderia fazer do meu caso que ultrapassasse em interesse o canto de sereia da sua epopeia? Calava-me.
O técnico de contas, invejoso da nossa intimidade, começou a espalhar coisas feias no escritório. Sempre detestei a inveja dos homens em relação aos casos que envolvem mulheres. Mas havia algum caso? Aí é que estava a questão.
Então tentei acabar com os almoços a dois. Convidei  colegas que frequentavam habitualmente outros restaurantes, fiz-me desencontrado, comecei a sair em serviço a partir do meio da manhã. Evitava-a. Mas um certo dia, M. esperou-me à saída e chamou-me cobarde. Pisquei os olhos como quem vê, de súbito, um grande clarão, e no dia seguinte já estava a almoçar com ela. Por resguardo, mudámos para um restaurante discreto.
Num desses almoços, num momento menos feliz em que M. me entrava pelos olhos como uma epifania, a minha mão ganhou movimento próprio, fugiu-me do corpo e do controle da mente, poisando sobre a sua em cujos dedos ondulavam anéis serpentinos e brilhantes. Foi um momento mágico. Acho que a mão logo ganhou consciência do perigo em que se metia, retraindo-se como uma lagarta quando se sente tocada. Porém, coisa espantosa, já a mão de M. a retinha, aconchegando-a no calor da sua, passando-lhe uma corrente eléctrica que me golfava sangue nas mais íntimas e secretas cavidades do meu dispositivo amoroso. Vacilei.
Falei a M. na inconveniência da nossa aventura. Eu era um homem estruturalmente sério e não tinha sequer possibilidade de a acompanhar: estava velho e gasto. E foi então que ela se riu de mim e me acusou das mais inconsequentes efabulações a seu respeito. Disse-me que tinha o casamento em risco, era certo, mas que estava disposta a lutar por ele. Que não alimentasse eu ideias, pois que amava o marido e não andava à procura de novas experiências.
Aceitei o que me dizia. Este caso, ou pseudocaso, foi o meu canto de cisne. Nunca mais olhei para uma mulher com aquelas intenções que os homens tantas vezes têm de as tomarem como amantes. Ainda bem que tudo acabou assim e que voltei à tranquilidade do meu trabalho e dos meus pensamentos.
M. almoça agora todos os dias com C., um jovem estagiário de Contabilidade e Administração, engravatado e magro, mas alegre e de muito boa figura. Não ouso pensar em nada de reprovável a respeito da amizade que parece uni-los. Já os tenho visto a saírem, ao fim da tarde, no carro de M., algo que acharia estranho se eu não soubesse que moram ambos na mesma zona da cidade. E ela anda mais feliz, e o seu desempenho profissional é agora satisfatório, como ainda ontem me confidenciou o técnico de contas.
Deverá ter reequilibrado a sua relação conjugal.  Fico satisfeito. Isso é fundamental para que qualquer mulher se possa sentir bem.

sábado, janeiro 05, 2013

DE COMO JOAQUIM MESTRE (1955-2009), ESCRITOR E DIRECTOR DA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE BEJA, FOI PERSONAGEM DE MÁRIO DE CARVALHO


"Está Emanuel à porta da biblioteca que, na cidade, é onde todos os caminhos vão dar, e examina com muita atenção as colunas à entrada, feitas de livros de pedra empilhados, em harmónico desequilíbrio. (…) Atrasadíssima chegou uma rapariga, (…) Um homem ainda novo, de cabelo à escovinha e barba de três dias, ia a entrar, com dois pacotes de papel pardo, que pareciam pesados.
– Doutor Joaquim Mestre! – gritou ela com uma risadinha. – Olhe que me prometeu uma entrevista…
O homem voltou-se e sorriu, sem parar de subir os degraus:
– Amanhã logo se vê. Amanhã.
E desapareceu, portas vidradas adentro.
– Este há quase um ano que me vem dizendo “amanhã”… Ah, esta vida de jornalista… – suspirou a rapariga." 


(---- MÁRIO DE CARVALHO, Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina, 2ª edição, Caminho, 2003, p. 208.)


sábado, dezembro 22, 2012

Poema de NataL


De novo o alarde rútilo dos luzeiros de NataL, o colorido
das árvores, a música que alastra sobre o plasma
da noite. Estou do lado de cá da festa, na margem
do passeio, rente à sombra dos muros por onde crescem,
quando é tempo, os  braços meigos das buganvílias.
Vejo de fora, através das janelas, o recorte de lentas
figuras de cera. Transportam no bojo, como numa
mala, a inexequível persuasão da vida, o pano gasto
de alegrias reeditadas em cada época. Nada me move,
nada me comove. Peço-te, por isso, que não venhas
agora: para além do mais seria de mau gosto
e nada adiantaria ao nosso caso. Deixa que se extingam
as volutas da quadra e procura-me depois, pela manhã
de um tempo mais verdadeiro e mais humano.

 JOSÉ RAFAEL

quinta-feira, dezembro 20, 2012

YOGA

Sessões de yoga orientadas pela modelo germânica Jordan Carver. Acabei de me inscrever.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

A ESFERA E AS ESTRELAS

Ilusões de Natal na baixa de Lisboa. É preciso que alguns pequenos pontos se iluminem para que a noite possa continuar a crescer.

segunda-feira, novembro 26, 2012

LA NIÑA BUENA


                      Rodolfo Castro, em grande nível.
   Autor do conto: Hector Hugh Munro "Saki" (1870-1916)

domingo, novembro 25, 2012

CONTADORES DE HISTÓRIAS

RODOLFO CASTRO, artista argentino, um rapsodo dos tempos modernos. Uma sessão das suas incríveis narrações teve lugar na passada sexta-feira na Biblioteca Municipal de Oeiras. Não perder a próxima: Cinema São Jorge, Festival da revista LER, quarta-feira, 5 de Dezembro, às 22 horas.

quinta-feira, novembro 15, 2012

"O MELHOR POVO DO MUNDO"

Fotos DN
O povo de brandos costumes, uma invenção do salazarismo recentemente recuperada pelo inefável Vítor Gaspar, é capaz de coisas como as que ontem se viram nas imediações do parlamento. Não era isto que este governo de Vichy queria mostrar à ocupação estrangeira, e daí a atrapalhação, as loas à polícia, a pressa inusitada com que veio declarar a inocência da Intersindical.
Não adianta reduzir o sucedido às proporções do crime vulgar, diabolizar os poucos que provocaram e atiraram pedras, incendiando  e transformando uma zona de Lisboa em cenário que faz lembrar a revolta popular de Londres em 2011. O mal não está nesses por enquanto ainda poucos desesperados, mas nas políticas em curso que geram o desemprego e arruínam a esperança.
Tenham cuidado os Miguéis de Vasconcelos que nos governam que este povo não é brando e coisas piores podem vir a acontecer. Inquisidores, bandidos, regicidas e torcionários – temos de tudo isso no nosso sangue.

sexta-feira, novembro 09, 2012

FRAU EUROPA E OS SEUS TÍTERES

Lisboa, Amoreiras, Av. Conselheiro Fernandes de Sousa. Fotografia tirada hoje. Trabalho realizado pelos artistas Nomen, Slap e Kurtz em 20 e 21-10-2012.

quinta-feira, novembro 08, 2012

Johannes Brahms: Symphony N. 4, Allegro non troppo (1)


"Durante a escrita das numerosas versões de A Maçã  no Escuro, a autora [Clarice Lispector] ouviu até à exaustão a Quarta Sinfonia de Brahms, número que se exprime no livro como símbolo do mundo criado e de vida"

Da contracapa da edição Relógio d´Água, 2000.

VOU LENDO

Quando ela era menina, por pura tendência à subtileza e à fraqueza, dissera a um menino de quem gostara: «vou lhe dar uma pedra que encontrei no jardim» – e ele entendera que ela gostara dele, tanto que lhe dera em troca uma caixa de fósforos com um biscoito dentro.
(…)
Seus motivos de desejá-lo eram os de uma mulher que deseja amor – o que lhe parecia terrivelmente subtil. E como se não bastasse esse motivo estranho, ela o entrelaçara com um motivo mais subtil ainda: o de se salvar – que é certo ponto que o amor às vezes atinge.
(…)
 – Olhe esta samambaia! disse ela para o homem porque uma pessoa não pode dizer «eu te amo».
 
CLARICE LISPECTOR, A Maçã no Escuro, segunda parte, capítulo 6, pp. 155 e 156.

A BEGÓNIA


Agora que ela partira e só por raras cartas recebia notícias suas, doía-lhe que nunca lhe falasse da begónia, a planta que ambos criaram com um misto de carinho e sobressaltado encanto. Não compreendia como se pudera apagar do passado o milagre daquele pequeno ser que juntos viram crescer, ganhando o direito à vida, e que não raro os encheu de cuidados e lhes tirou o sono.
Trouxeram-na para casa num Inverno distante, como que adormecida, o pequeno vaso de plástico vestido de um jornal velho, as folhas redondas e miúdas espreitando sobre as letras machucadas que compunham notícias antigas, já sem préstimo.
Deixaram-na ao lado da televisão, exposta às destemperadas radiações de telejornais e reality shows, e a frágil planta ressentiu-se. Tempos depois, os caules que sustentavam as folhas vacilavam nas suas disposições orgânicas, via-se que a pobre estava em sofrimento, e eles lançaram-se a pesquisar em livros de botânica o remédio para o inesperado mal. Transferiram a planta para um vaso de barro, adubaram e regaram, vigiaram os efeitos nocivos de ácaros e fungos, e, como a Primavera tivesse então chegado, instalaram-na na varanda, recebendo o calor renascente do novo ciclo cósmico. Salvou-se.
Pensavam na begónia como se de um filha se tratasse. Amavam-na, falavam com ela mesmo durante aquelas fases em que cada vez menos falavam entre si, e viam-na já como uma planta adulta, uma árvore florida sobrepujando as diminutas proporções dos seus progenitores adoptivos. Eram uns pais felizes.
Depois ela foi-se embora e levou a begónia. E nunca mais lhe falou da planta, como se exclusivamente lhe pertencesse e nada tivesse que fosse de outrem. Ele ainda insinuou, uma vez, na correspondência que espaçadamente mantinham, que a filha era de ambos, que os dois a tinham criado e protegido nos transes mais difíceis da sua lenta progressão vital. Porém, as cartas que recebia continuavam a falar apenas de assuntos práticos e  tangíveis, como partilhas e outras disposições legais, não da begónia que parecia nunca ter existido nas suas vidas. 
Uma vez encheu-se de coragem e foi espreitá-la, manhã cedo, para não ser surpreendido pela vizinhança, sob a nova varanda em que vivia. Deu com uma planta alta, assim como uma mulher jovem e muito senhora de si, mas fosse pela distância que ia do chão ao segundo andar, ou talvez pela hora tão matinal em que só algumas plantas estão já completamente acordadas, juraria que ela não o havia reconhecido. Estava rodeada de companheiras, novas plantas cheias de cor, algumas em flor, que deviam encher-lhe os dias de juvenil satisfação. Queria lá ela saber daquele senhor de quem nem sequer recordava o nome.
Isto foi o que sentiu, e por isso logo se retirou, sem reparar que uma pequena folha, verde como só uma pequena folha sabe ser, se desprendia do caule e caía, tocada por um vento leve, sobre a calçada a que virava costas.
Seguiu o seu caminho, desolado e pensativo. Talvez na próxima carta, se houvesse uma próxima carta, chegassem notícias daquela begónia que nunca deixaria de amar. E neste pensamento se alegrou a manhã, subitamente bela como uma maçã mordida, um sonho na madrugada ou a memória feliz de um tempo antigo.

terça-feira, novembro 06, 2012

domingo, novembro 04, 2012

RETRATO DE VIDA COM NARCISO AO FUNDO

Dominava-o uma espécie de dislexia dos fonemas
do amor e por isso se acomodava ao fulgor
dos silêncios, à morosa retórica dos actos falhados
que a psicanálise tão bem explicou.
Era um solitário entre penhascos povoados,
um viajante que não conhecia a viagem.
Pensa agora que se pudesse recomeçar separaria
o afecto do orgulho e saberia distinguir
o viço de uma folha de árvore de um galho seco da mesma.
Mas isso é o que pensa e só diz nas escritas de água
com que se paramenta. Na prática,
faz como o filho de Cefiso e Liríope:
debruça-se no regato do seu ego
e continua a amar-se.