quarta-feira, fevereiro 13, 2013

NA PONTE DA ASSECA

“Ora donde veio este nome da Asseca? Algures aqui perto deve de haver sítio, lugar ou coisa que o valha, com o nome de Meca; e daí talvez o admirável rifão português que ainda não foi bem examinado como devia ser, e que decerto encerra algum grande ditame de moral primitiva: «andou por Seca (Asseca?) e Meca e olivais de Santarém»  – Os tais olivais ficam logo adiante. É uma etimologia como qualquer outra.”         (Cap. IX das Viagens)
Garrett no seu melhor, mesmo quando brinca às etimologias com o "leitor benévolo". Vou indagar sobre a origem deste intrigante e "admirável rifão português", mas se alguém tiver alguma ideia, diga.

terça-feira, fevereiro 12, 2013

O CANTINHO DO HOOLIGAN (título copiado de Francisco José Viegas)

Proença, o indefectível. Acho que o sucesso lhe subiu à cabeça. A sua glória é fazer acabar as partidas com 9 jogadores: vermelhuscos, se possível; adversários do FCP, quando não dá para isso. É Carnaval, ninguém leva a mal - só voltarei a falar destas tretas de aqui a um ano.

domingo, fevereiro 10, 2013

Uma mulher é como uma guitarra
Não é qualquer que a abraça e faz vibrar.
Mas quem souber na forma como agarra,
Prende-lhe a alma nas mãos que sabe tocar.

Letra para fado de Álvaro Duarte Simões

sábado, fevereiro 09, 2013

VILA NOVA, concelho de Miranda do Corvo, a SENDIM de "A Criação do Mundo"

Busto de Miguel Torga (1907-1995)
Edifício da Junta de Freguesia, onde o médico-escritor tinha consultório
Casa onde residiu Miguel Torga. Inscrição na placa da parede: Aqui viveu Miguel Torga, 1934-1937. "E pude devotadamente levar durante alguns anos a saúde e a esperança a muitos lares" - A Criação do Mundo, vol. II, 3º dia. Vila Nova, 1-6-95.

(Fotografias tiradas hoje)

domingo, fevereiro 03, 2013

"ORGULHO E PRECONCEITO"

Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, romance que leio de novo na tradução de Maria Francisca Ferreira de Lima, edição da Europa-América (Janeiro de 2002).
Uma obra perfeita, com uma história estupenda e um insuperável desenho psicológico das personagens. Lamentavelmente, o texto está cheio de gralhas, o que não abona o trabalho da editora.

sábado, fevereiro 02, 2013

DISCURSO DO GUARDA DA ÚLTIMA FRONTEIRA CONTRA A TEIA DE ARANHA, CHAMADA XÂNTILA, DAS TREMENDAS E DESOLADAS REGIÕES DA LUA DE SOMBRA (fragmento)

Dinis Machado, imagem © rabiscos vieira 
(…) a minha obrigação é ver passaportes, avisar contra as regiões da lua de sombra e passar a guia para a Praia de Pensar Nisso, mas voltemos às estrelas, aquela ali é Dick Tracy, um polícia à paisana que conseguiu o exacto ponto de equilíbrio entre o dever e a solidariedade, ainda me lembro dele quando chegou aqui, disse que tinha deixado tudo em ordem lá atrás e perguntou se tudo corria bem nas outras estrelas, na estrela Mãe, na Bigodes Piaçaba, na de César, conversámos um pouco, tinha muita franqueza no olhar, passei-lhe a guia para a Praia de Pensar Nisso, partiu de chapéu na mão, depois temos a estrela Aurora, lúcida e louca, nasceu de uma máquina de escrever sem teclas, agora é nela manhã todos os dias, e a estrela Morango, ou estrela Wilson, ortodoxa e desorbitada, toca-se lá Stravinsky em inebriantes noites jardineiras, e outras estrelas e estrelinhas de constelações descentralizadas e iglantónicas, olhe agora para aquela galáxia, para a luz maravilhosa que irradia, os diferentes formatos e as várias intensidades, os entendidos sabem o nome de todas elas, eu conheço algumas, é a de Mozart, a de Rimbaud, a de Gorki, a de Van Gogh, de Bach, a de Eluard, a de Dostoiewski, a de Neruda, a de Goya, a de Cesário, aquela ali, muito intensa, é a de Beethoven, (…)
DINIS MACHADO, O que diz Molero, Lisboa, Círculo de Leitores, 1978, pp. 148 e 149.

quarta-feira, janeiro 30, 2013

FRAGMENTOS DE UMA CARTA


A carta missiva ou mandadeira (…) é uma mensageira fiel que interpreta o nosso ânimo aos ausentes (…)
FRANCISCO RODRIGUES LOBO, Corte na Aldeia


Minha Querida Amiga,
Há muito que não te escrevia. O tempo corre depressa, bem sabes, mais depressa do que as ilusões que vamos construindo, e quando damos por ele está muito à frente de nós, longe daquilo que pensámos e desejámos fazer. Das últimas cartas que te escrevi, não tenho, de resto, boas recordações: foram cartas que ficaram sem resposta ou a que só respondeste com meias palavras, discursos que deixavam espaço para a dúvida e a incerteza. Aceitei essas cartas com bonomia, (…)
Se te escrevo hoje, não o escondo, é porque ultimamente muito me têm falado de ti. Dizem-me que estás diferente, que têm dificuldade em compreender-te, e, o que mais me preocupa, que terias deixado de sorrir e renunciado talvez ao refúgio do amor. Imagina, tu que sempre te deixaste guiar pelo coração, tu que amavas, conhecias e sentias a voz solar da poesia: Paroles de Jacques Prévert, lembro-me bem, Rappelle-toi Barbara / Il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là / Et tu marchais souriante / Épanouie ravie ruisselante / Sous la pluie.
Não sei o que se terá passado contigo, mas a acreditar no que me dizem acho que o caso é sério e merece uma palavra minha. Por vezes, Minha Amiga, as coisas acontecem de forma diferente da que esperamos. Nem tudo é como parece, nem todos os sentimentos se desenvolvem como os imaginamos. Sei bem que (…)

domingo, janeiro 13, 2013


EROS E SONHO

                         Ao João, leitor de D. H. Lawrence, que soube
                         sonhar o sonho e o contou
                   
Conhecias o flagelo do esquecimento, a exígua memória
que habita a matéria dos sonhos, e por isso os escrevias
num caderno que tinhas à cabeceira da cama. Foi assim
que pudeste falar do corcel do amor, priapo de asas
com que penetravas as húmidas cavernas da satisfação.
Deixavas-te levar na sela múltipla do seu dorso e sobrevoavas
planícies brancas que só existem na inocência
dos bons. Depois, ao rumor da noite, vias ondular o quimono
de seda duma gueixa, havia uma vibração de línguas
desafiando os equinócios da indiferença.
O poder iniciático cingia-te a fronte de miosótis,
caía no bosque do teu corpo a chuva agra e doce
do contentamento. Seguravas um livro, assim
como quem repousa a mão sobre um seio de mulher.

JOSÉ RAFAEL                                                                                    
                                                       

quinta-feira, janeiro 10, 2013


FUNDAMENTO DA INVECTIVA

Descubro, nas interjeições febris de mulheres amadas, as paisagens
belgas. A prosaica antecâmara dos lamentos,
Annie Playden, ó Desconhecida,
sicómoros crepusculares, Transcendência!
(…)

O resto em NUNO JÚDICE, Crítica Doméstica dos Paralelepípedos  (1973)

quarta-feira, janeiro 09, 2013

O PRIMEIRO DIA


FMI, QUATRO MIL MILHÕES


Até nem desgosto da senhora. Mesmo vivendo no meio de bárbaros, consegue não perder o charme parisiense tão presente em figuras públicas como Segolène Royal e Valérie Trierweiler. Neste particular, nada que se compare às cansativas Sarah Palin ou Hillary Clinton dos rebarbativos States. Se outra razão não houvesse para a minha afeição, bastava o cuidado que põe no acordo social em torno do célebre corte dos quatro mil milhões. Bem haja. Uma mulher muito inteligente! E sensual, ainda.

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.


Álvaro de Campos, "Ode Marítima"

AMANHEÇO-ME


terça-feira, janeiro 08, 2013

HISTÓRIAS VERÍDICAS DE JOÃO ALBERGARIA - O Meu Caso com M.


– Mas se ele não serviu para as outras, como pode servir para mim?
Os olhos dela, onde havia uma sombra de verde, viravam-se para a luz do dia que entrava pela porta do restaurante. Era o momento em que a conta chegava à mesa a anunciar o fim da conversa. Mais uns minutos e voltaríamos ao escritório, duas ruas acima, a cumprir o período de trabalho da tarde.
Não conseguia compreender o que é que ela esperava de mim em cada um daqueles almoços de que tentava excluir, quase sempre com êxito, os demais colegas. O técnico de contas, um homem de corpo volumoso e personalidade miudinha, colava-se algumas vezes à nossa mesa, e a conversa derivava, soturna, para coisas importantes e estranhamente sérias: obrigações tributárias, reembolsos de IVA , taxas de importação de países terceiros e respectivas imposições fiscais. Mas M., assim devo chamar-lhe, tinha artes de o afastar nos dias seguintes: alegava outro horário de almoço e o homem conformava-se a repor sozinho, numa mesa triste, o nível necessário da sua força de trabalho.
Nem sei dizer se M. chegava a ser bela. Eu deixava-me arrastar pela serenidade sobressaltada do seu corpo, como se não fosse uns vinte anos mais velho do que ela e ainda tivesse veleidades de impressionar as mulheres com a minha conversa e o meu aspecto físico. Foi justamente por essa altura que comecei a reparar nas minhas fotografias e a ver nelas, talvez porque fixassem o instante fugidio e revelador, aquilo que o espelho se negava a dizer-me: que estava irremediavelmente acabado, gasto como uma pedra rolada.  Além do mais vivia desiludido do amor, como se fosse possível desiludirmo-nos de algo por que nunca verdadeiramente passámos.
M. revelava-se em cada almoço mais confiante e afectuosa. Contava-me coisas íntimas e surpreendentes que não ouso aqui delatar, fazia-me queixas:
 – Chegou a casa às quatro da manhã. E eu vou aguentar isto?
Eu conhecia o homem, era cliente do escritório, um marialva bem apessoado que demolia corações femininos e gozava à tripa-forra as carnalidades vagabundas. A sua relação com M., de que resultara um filho, fora precedida de dois casamentos fugazes. Dizia-se que foram as mulheres que lhe puseram as malas à porta de casa, se é que não lhe chegaram a pôr algo mais, mas fora dela. Se ele não serviu para as outras, como poderia servir para M.? E dava comigo a espantar-me com a sabedoria daquela mulher que numa simples interrogativa conseguia condensar todo o desafecto duma relação conjugal, saindo da penumbra da incompreensão e vendo claro as ínfimas mas reveladoras modulações do seu caso amoroso.
M. pretendia que eu lhe falasse de mim. Mas que tinha eu para dizer que ela não adivinhasse, que narrativa poderia fazer do meu caso que ultrapassasse em interesse o canto de sereia da sua epopeia? Calava-me.
O técnico de contas, invejoso da nossa intimidade, começou a espalhar coisas feias no escritório. Sempre detestei a inveja dos homens em relação aos casos que envolvem mulheres. Mas havia algum caso? Aí é que estava a questão.
Então tentei acabar com os almoços a dois. Convidei  colegas que frequentavam habitualmente outros restaurantes, fiz-me desencontrado, comecei a sair em serviço a partir do meio da manhã. Evitava-a. Mas um certo dia, M. esperou-me à saída e chamou-me cobarde. Pisquei os olhos como quem vê, de súbito, um grande clarão, e no dia seguinte já estava a almoçar com ela. Por resguardo, mudámos para um restaurante discreto.
Num desses almoços, num momento menos feliz em que M. me entrava pelos olhos como uma epifania, a minha mão ganhou movimento próprio, fugiu-me do corpo e do controle da mente, poisando sobre a sua em cujos dedos ondulavam anéis serpentinos e brilhantes. Foi um momento mágico. Acho que a mão logo ganhou consciência do perigo em que se metia, retraindo-se como uma lagarta quando se sente tocada. Porém, coisa espantosa, já a mão de M. a retinha, aconchegando-a no calor da sua, passando-lhe uma corrente eléctrica que me golfava sangue nas mais íntimas e secretas cavidades do meu dispositivo amoroso. Vacilei.
Falei a M. na inconveniência da nossa aventura. Eu era um homem estruturalmente sério e não tinha sequer possibilidade de a acompanhar: estava velho e gasto. E foi então que ela se riu de mim e me acusou das mais inconsequentes efabulações a seu respeito. Disse-me que tinha o casamento em risco, era certo, mas que estava disposta a lutar por ele. Que não alimentasse eu ideias, pois que amava o marido e não andava à procura de novas experiências.
Aceitei o que me dizia. Este caso, ou pseudocaso, foi o meu canto de cisne. Nunca mais olhei para uma mulher com aquelas intenções que os homens tantas vezes têm de as tomarem como amantes. Ainda bem que tudo acabou assim e que voltei à tranquilidade do meu trabalho e dos meus pensamentos.
M. almoça agora todos os dias com C., um jovem estagiário de Contabilidade e Administração, engravatado e magro, mas alegre e de muito boa figura. Não ouso pensar em nada de reprovável a respeito da amizade que parece uni-los. Já os tenho visto a saírem, ao fim da tarde, no carro de M., algo que acharia estranho se eu não soubesse que moram ambos na mesma zona da cidade. E ela anda mais feliz, e o seu desempenho profissional é agora satisfatório, como ainda ontem me confidenciou o técnico de contas.
Deverá ter reequilibrado a sua relação conjugal.  Fico satisfeito. Isso é fundamental para que qualquer mulher se possa sentir bem.

sábado, janeiro 05, 2013

DE COMO JOAQUIM MESTRE (1955-2009), ESCRITOR E DIRECTOR DA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE BEJA, FOI PERSONAGEM DE MÁRIO DE CARVALHO


"Está Emanuel à porta da biblioteca que, na cidade, é onde todos os caminhos vão dar, e examina com muita atenção as colunas à entrada, feitas de livros de pedra empilhados, em harmónico desequilíbrio. (…) Atrasadíssima chegou uma rapariga, (…) Um homem ainda novo, de cabelo à escovinha e barba de três dias, ia a entrar, com dois pacotes de papel pardo, que pareciam pesados.
– Doutor Joaquim Mestre! – gritou ela com uma risadinha. – Olhe que me prometeu uma entrevista…
O homem voltou-se e sorriu, sem parar de subir os degraus:
– Amanhã logo se vê. Amanhã.
E desapareceu, portas vidradas adentro.
– Este há quase um ano que me vem dizendo “amanhã”… Ah, esta vida de jornalista… – suspirou a rapariga." 


(---- MÁRIO DE CARVALHO, Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina, 2ª edição, Caminho, 2003, p. 208.)


sábado, dezembro 22, 2012

Poema de NataL


De novo o alarde rútilo dos luzeiros de NataL, o colorido
das árvores, a música que alastra sobre o plasma
da noite. Estou do lado de cá da festa, na margem
do passeio, rente à sombra dos muros por onde crescem,
quando é tempo, os  braços meigos das buganvílias.
Vejo de fora, através das janelas, o recorte de lentas
figuras de cera. Transportam no bojo, como numa
mala, a inexequível persuasão da vida, o pano gasto
de alegrias reeditadas em cada época. Nada me move,
nada me comove. Peço-te, por isso, que não venhas
agora: para além do mais seria de mau gosto
e nada adiantaria ao nosso caso. Deixa que se extingam
as volutas da quadra e procura-me depois, pela manhã
de um tempo mais verdadeiro e mais humano.

 JOSÉ RAFAEL

quinta-feira, dezembro 20, 2012

YOGA

Sessões de yoga orientadas pela modelo germânica Jordan Carver. Acabei de me inscrever.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

A ESFERA E AS ESTRELAS

Ilusões de Natal na baixa de Lisboa. É preciso que alguns pequenos pontos se iluminem para que a noite possa continuar a crescer.

segunda-feira, novembro 26, 2012

LA NIÑA BUENA


                      Rodolfo Castro, em grande nível.
   Autor do conto: Hector Hugh Munro "Saki" (1870-1916)

domingo, novembro 25, 2012

CONTADORES DE HISTÓRIAS

RODOLFO CASTRO, artista argentino, um rapsodo dos tempos modernos. Uma sessão das suas incríveis narrações teve lugar na passada sexta-feira na Biblioteca Municipal de Oeiras. Não perder a próxima: Cinema São Jorge, Festival da revista LER, quarta-feira, 5 de Dezembro, às 22 horas.

quinta-feira, novembro 15, 2012

"O MELHOR POVO DO MUNDO"

Fotos DN
O povo de brandos costumes, uma invenção do salazarismo recentemente recuperada pelo inefável Vítor Gaspar, é capaz de coisas como as que ontem se viram nas imediações do parlamento. Não era isto que este governo de Vichy queria mostrar à ocupação estrangeira, e daí a atrapalhação, as loas à polícia, a pressa inusitada com que veio declarar a inocência da Intersindical.
Não adianta reduzir o sucedido às proporções do crime vulgar, diabolizar os poucos que provocaram e atiraram pedras, incendiando  e transformando uma zona de Lisboa em cenário que faz lembrar a revolta popular de Londres em 2011. O mal não está nesses por enquanto ainda poucos desesperados, mas nas políticas em curso que geram o desemprego e arruínam a esperança.
Tenham cuidado os Miguéis de Vasconcelos que nos governam que este povo não é brando e coisas piores podem vir a acontecer. Inquisidores, bandidos, regicidas e torcionários – temos de tudo isso no nosso sangue.

sexta-feira, novembro 09, 2012

FRAU EUROPA E OS SEUS TÍTERES

Lisboa, Amoreiras, Av. Conselheiro Fernandes de Sousa. Fotografia tirada hoje. Trabalho realizado pelos artistas Nomen, Slap e Kurtz em 20 e 21-10-2012.

quinta-feira, novembro 08, 2012

Johannes Brahms: Symphony N. 4, Allegro non troppo (1)


"Durante a escrita das numerosas versões de A Maçã  no Escuro, a autora [Clarice Lispector] ouviu até à exaustão a Quarta Sinfonia de Brahms, número que se exprime no livro como símbolo do mundo criado e de vida"

Da contracapa da edição Relógio d´Água, 2000.

VOU LENDO

Quando ela era menina, por pura tendência à subtileza e à fraqueza, dissera a um menino de quem gostara: «vou lhe dar uma pedra que encontrei no jardim» – e ele entendera que ela gostara dele, tanto que lhe dera em troca uma caixa de fósforos com um biscoito dentro.
(…)
Seus motivos de desejá-lo eram os de uma mulher que deseja amor – o que lhe parecia terrivelmente subtil. E como se não bastasse esse motivo estranho, ela o entrelaçara com um motivo mais subtil ainda: o de se salvar – que é certo ponto que o amor às vezes atinge.
(…)
 – Olhe esta samambaia! disse ela para o homem porque uma pessoa não pode dizer «eu te amo».
 
CLARICE LISPECTOR, A Maçã no Escuro, segunda parte, capítulo 6, pp. 155 e 156.

A BEGÓNIA


Agora que ela partira e só por raras cartas recebia notícias suas, doía-lhe que nunca lhe falasse da begónia, a planta que ambos criaram com um misto de carinho e sobressaltado encanto. Não compreendia como se pudera apagar do passado o milagre daquele pequeno ser que juntos viram crescer, ganhando o direito à vida, e que não raro os encheu de cuidados e lhes tirou o sono.
Trouxeram-na para casa num Inverno distante, como que adormecida, o pequeno vaso de plástico vestido de um jornal velho, as folhas redondas e miúdas espreitando sobre as letras machucadas que compunham notícias antigas, já sem préstimo.
Deixaram-na ao lado da televisão, exposta às destemperadas radiações de telejornais e reality shows, e a frágil planta ressentiu-se. Tempos depois, os caules que sustentavam as folhas vacilavam nas suas disposições orgânicas, via-se que a pobre estava em sofrimento, e eles lançaram-se a pesquisar em livros de botânica o remédio para o inesperado mal. Transferiram a planta para um vaso de barro, adubaram e regaram, vigiaram os efeitos nocivos de ácaros e fungos, e, como a Primavera tivesse então chegado, instalaram-na na varanda, recebendo o calor renascente do novo ciclo cósmico. Salvou-se.
Pensavam na begónia como se de um filha se tratasse. Amavam-na, falavam com ela mesmo durante aquelas fases em que cada vez menos falavam entre si, e viam-na já como uma planta adulta, uma árvore florida sobrepujando as diminutas proporções dos seus progenitores adoptivos. Eram uns pais felizes.
Depois ela foi-se embora e levou a begónia. E nunca mais lhe falou da planta, como se exclusivamente lhe pertencesse e nada tivesse que fosse de outrem. Ele ainda insinuou, uma vez, na correspondência que espaçadamente mantinham, que a filha era de ambos, que os dois a tinham criado e protegido nos transes mais difíceis da sua lenta progressão vital. Porém, as cartas que recebia continuavam a falar apenas de assuntos práticos e  tangíveis, como partilhas e outras disposições legais, não da begónia que parecia nunca ter existido nas suas vidas. 
Uma vez encheu-se de coragem e foi espreitá-la, manhã cedo, para não ser surpreendido pela vizinhança, sob a nova varanda em que vivia. Deu com uma planta alta, assim como uma mulher jovem e muito senhora de si, mas fosse pela distância que ia do chão ao segundo andar, ou talvez pela hora tão matinal em que só algumas plantas estão já completamente acordadas, juraria que ela não o havia reconhecido. Estava rodeada de companheiras, novas plantas cheias de cor, algumas em flor, que deviam encher-lhe os dias de juvenil satisfação. Queria lá ela saber daquele senhor de quem nem sequer recordava o nome.
Isto foi o que sentiu, e por isso logo se retirou, sem reparar que uma pequena folha, verde como só uma pequena folha sabe ser, se desprendia do caule e caía, tocada por um vento leve, sobre a calçada a que virava costas.
Seguiu o seu caminho, desolado e pensativo. Talvez na próxima carta, se houvesse uma próxima carta, chegassem notícias daquela begónia que nunca deixaria de amar. E neste pensamento se alegrou a manhã, subitamente bela como uma maçã mordida, um sonho na madrugada ou a memória feliz de um tempo antigo.

terça-feira, novembro 06, 2012

domingo, novembro 04, 2012

RETRATO DE VIDA COM NARCISO AO FUNDO

Dominava-o uma espécie de dislexia dos fonemas
do amor e por isso se acomodava ao fulgor
dos silêncios, à morosa retórica dos actos falhados
que a psicanálise tão bem explicou.
Era um solitário entre penhascos povoados,
um viajante que não conhecia a viagem.
Pensa agora que se pudesse recomeçar separaria
o afecto do orgulho e saberia distinguir
o viço de uma folha de árvore de um galho seco da mesma.
Mas isso é o que pensa e só diz nas escritas de água
com que se paramenta. Na prática,
faz como o filho de Cefiso e Liríope:
debruça-se no regato do seu ego
e continua a amar-se.

quinta-feira, outubro 25, 2012

ERICO VERÍSSIMO

Porto Alegre, Casa de Cultura Mário Quintana
Porto Alegre, monumento a Júlio de Castilhos
"Na praça, os jacarandás estão cobertos de flores roxas. Lá em cima, no topo do monumento, a imagem da República – uma mulher que tem na mão uma bandeira – faísca ao sol, recortando o seu perfil de ouro falso contra o azul puro do céu. Há pelos canteiros verdes e pelos caminhos de pedra miúda, sombras móveis e crivos luminosos.
Clarissa fica um instante a contemplar as árvores."
 
Erico Veríssimo, Clarissa, IX edição, Lisboa, Livros do Brasil, p. 17.



domingo, outubro 21, 2012

MATA ATLÂNTICA

Região de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 14-10-2012 
A Mata Atlântica é um bioma presente na maior parte no território brasileiro, abrangendo ainda parte do território do Paraguai e da Argentina. As florestas atlânticas são ecossistemas que apresentam árvores com folhas largas e perenes. Abriga árvores que atingem de 20 a 30 metros de altura. Há grande diversidade de epífitas, como bromélias e orquídeas.
Foi a segunda maior floresta tropical em ocorrência e importância na América do Sul, em especial no Brasil. Acompanhava toda a linha do litoral brasileiro do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte (regiões meridionais e nordeste). Nas regiões Sul e Sudeste a Mata Atlântica chegava até a Argentina e o Paraguai. Cobria importantes trechos de serras e escarpas do Planalto Brasileiro, e era contínua com a Floresta Amazônica. Em função do desmatamento, principalmente a partir do século XX, encontra-se hoje extremamente reduzida, sendo uma das florestas tropicais mais ameaçadas do globo. Apesar de reduzida a poucos fragmentos, na sua maioria descontínuos, a biodiversidade de seu ecossistema é uma dos maiores do planeta. Seu clima é subtropical e tropical.
 
(Fonte: Wikipédia)

quarta-feira, outubro 10, 2012

"A EDUCAÇÃO DO ESTÓICO" - III


Flores amo, não busco. Se aparecem
Me agrado ledo, que buscar prazeres
       Tem o esforço da busca.
A vida seja como o sol, que é dado,
Nem arranquemos flores, que, tiradas,
       Não são nossas, mas mortas.

RICARDO REIS, ode 129, 16-6-1932

terça-feira, outubro 09, 2012

"A EDUCAÇÃO DO ESTÓICO" - II


Já sobre a fronte vã se me acinzenta
O cabelo do jovem que perdi.
         Meus olhos brilham menos.
Já não tem jus a beijos minha boca.
Se me ainda amas, por amor, não ames:
         Traíras-me comigo

RICARDO REIS, ode 71, 13-6-1926

 

segunda-feira, outubro 08, 2012

"A EDUCAÇÃO DO ESTÓICO"

Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada te pese que não te amem. Sentem-te
     Quem és, e és estrangeiro. 
Cura de ser quem és, amem-te ou nunca.
Firme contigo, sofrerás avaro
     De penas.
 
RICARDO REIS, ode 131, 10-8-1932

sábado, outubro 06, 2012

O MELHOR POVO DO MUNDO

Hoje, cá pelos meus lados, o melhor povo do mundo celebrando mais um aniversário da Sociedade Filarmónica Recreio Alverquense, fundada, imagine-se, em 6 de Outubro de 1874.

sexta-feira, outubro 05, 2012

VIVA O 5 DE OUTUBRO!

Laetitia Casta
Li já não sei onde que em França, após a libertação de Paris durante a Segunda Grande Guerra, a Associação de Autarcas Parisienses decidiu mudar periodicamente o busto original da República, adoptando como modelos artistas da música e do cinema franceses da actualidade. Assim, o modelo mais recente seria a actriz Laetitia Casta, nascida em Pont-Audemer, Alta Normandia, no ano de 1978.
Entusiasmado com a ideia, e na esperança de que a mesma pudesse estender-se a Portugal, publiquei no blogue em 5 de Outubro de 2010 uma fotografia da talentosa actriz, a qual mereceu comentários de três indefectíveis admiradores (ver arquivos).
Estava longe de imaginar que a voracidade neoliberal dos actuais donos do país nos comeria o feriado de 5 de Outubro, retirando-nos quiçá a possibilidade de aspirarmos a renovados bustos para a ultrapassada imagem da nossa querida República.
No dia em que se celebra o feriado pela última vez, dou um grande VIVA A REPÚBLICA! Por um novo busto, que o mesmo é dizer por uma nova política para a dita República. E já agora sem presidentes escavacados, e com a bandeira içada na posição correcta.