quinta-feira, agosto 30, 2012
quarta-feira, agosto 29, 2012
terça-feira, agosto 28, 2012
CIÊNCIAS OCULTAS - OS MAGOS
Os magos das ciências ocultas da Economia estão de novo em
Lisboa. O que é que falhou nas cartas (ou nos búzios?) dos videntes da troika para
que a receita fiscal tenha sido diminuída em 3 mil milhões de euros? O insuspeito Adriano Moreira já veio falar de “fadiga
tributária”, e na universidade de Verão dos jotinhas lembrou as quatro onças de ouro que D. Afonso
Henriques prometeu pagar ao Papa, mas que, na realidade, nunca pagou. Uma
mensagem velada para tão esclarecidos jovens? Se a incompetência governamental e as ilusões neoliberais
pagassem imposto, Gaspar e Coelho seriam políticos bem sucedidos porque o país teria
um saudável superavit orçamental. Assim…
UM SONETO DE ANTERO - "IDEAL"
Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas
Da antiga Vénus de cintura estreita...
Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortais entre ruinas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
D'um corcel e combate satisfeita...
A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...
É como uma miragem, que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo...
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas
Da antiga Vénus de cintura estreita...
Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortais entre ruinas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
D'um corcel e combate satisfeita...
A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...
É como uma miragem, que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo...
segunda-feira, agosto 27, 2012
SONETOS
Café Snack-Bar SONETOS, na mesma rua de Vila do Conde onde Antero de Quental residiu entre 1881 e 1891. A poesia também se escreve nos toldos publicitários dos estabelecimentos.
domingo, agosto 26, 2012
CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (14)
Destapo a
caixa do amor com o sobressalto de quem mexe
no mais
inseguro dos objectos. Não sei o que tem dentro,
nunca soube,
mesmo naquele tempo em que a tua boca
corria o meu
corpo e as noites não prenunciavam
nenhum gume
de sombra. Reinvento, pois, o amor:
caixa de
Pandora com os seus ventos demolidores
e as suas
praias violentas de ternura e cio,
ou sémen de
palavras apetrechadas de asas
com os olhos
glaucos duma deusa ao fundo?
Faço por
acreditar na sua verosímil bondade
com a mesma
força com que se acredita numa pedra
ou num
fruto. Mas não estou seguro de nada. Apenas
sei do corpo
com que me encontro e do cerco de luz
que não ouso
romper.
sábado, agosto 25, 2012
domingo, agosto 19, 2012
sábado, agosto 18, 2012
domingo, agosto 12, 2012
REINALDO FERREIRA (1922-1959)
| Se eu nunca disse que os teus dentes |
Se eu nunca disse que os teus dentes
São pérolas,
É porque são dentes.
Se eu nunca disse que os teus lábios
São corais,
É porque são lábios.
Se eu nunca disse que os teus olhos
São d'ónix, ou esmeralda, ou safira,
É porque são olhos.
Pérolas e ónix e corais são coisas,
E coisas não sublimam coisas.
Eu, se algum dia com lugares-comuns
Houvesse de louvar-te,
Decerto que buscava na poesia,
Na paisagem, na música,
Imagens transcendentes
Dos olhos e dos lábios e dos dentes.
Mas crê, sinceramente crê,
Que todas as metáforas são pouco
Para dizer o que eu vejo.
E vejo lábios, olhos, dentes.
(Poemas, 2ª edição, Lisboa, Portugália Editora, 1962, com um estudo de José Régio) |
LUÍSA COSTA GOMES (1954)
Dizem que tem mau feitio e os leitores queixam-se de nem sempre conseguirem compreender aquilo que escreve. Por mim não tenho reclamações a apresentar. Aconselho a leitura de Império do Amor.
MENTINDO
A primeira imagem que dela guardo
é leve como a da ave que inicia o voo: umas sandálias com atilhos que subiam
até meio das pernas, a saia de tecido bordado, uma blusa sob cujo pano apontava,
numa promessa oculta, o relevo de sombra dos bicos dos seios. Tinha dentes,
lábios e olhos que eram apenas dentes, lábios e olhos, e não pérolas, corais e
esmeraldas, porque, como pode ser lido num poema de Reinaldo Ferreira, coisas
não sublimam coisas e não há metáforas que cheguem para exprimir a beleza
daquilo que vemos.
Para mim, foi sempre uma
desconhecida. Nunca consegui saber o género de música de que mais gostava, o
metal das suas paixões. De livros, sim, acho que sei: folheava “Paroles” de
Jacques Prévert e lia interminavelmente as novelas de Camilo. Mais tarde, muito
mais tarde, acolheu-se a uns livrinhos de capa dura sobre rebirthing, uma
disciplina talvez esotérica, e começou a pesquisar na Internet sobre
pompoarismo, tanto quanto julgo saber uma espécie de demanda tântrica do
inverosímil ponto G.
Uma vez descobri num conto de
Luísa Costa Gomes o sentido oculto dos palíndromos, significantes que podem ser
lidos da frente para trás ou de trás para a frente sem que o seu significado se
altere: “Oír ese Río”. Cheguei a vê-la como um palíndromo muito fácil de ler, mas
isso era o que eu julgava. Percebi depois que ela iludia sempre as minhas
espertezas de leitor batido: metia mais umas letras ou umas sílabas no
conformismo lívido dos sintagmas, assim como se fosse o brinde ou a fava do
bolo-rei, e eu treslia.
Na pior das minhas fases escrevi
contos alucinados em que a dava como louca, mitómana e devassa. Noutros, mais
sensatos, ou talvez simplesmente ingénuos, lamentei que chegasse tarde a casa e
não me desse qualquer explicação, que fosse distante e fria, e tivesse amizades
secretas como as adolescentes têm diários e namoros de praia. Enchi então
centenas de páginas a seu respeito, mais sobre o que dela nunca soube do que o
que sabia ou julgava saber. À força de não a conhecer foi para mim uma
prodigiosa fonte de efabulação: todas as minhas ficções passavam por ela, como
um rio passa sempre pelas suas margens.
Agora que me morreu e nada mais
conservo que a sua memória, os retratos e uma urna de cinzas no armário da
sala, sou obrigado a repensar toda a minha forma de escrever. – Menos efabulação e mais detalhes do real são
os caminhos que terei de seguir.
Sei que vou ter outras
oportunidades, pois o tempo dá-nos couraças e levanta-nos sempre do chão.
Poderei então escrever com sinceridade, dando às palavras o significado exacto
do que é pensado e sentido. Até lá, enquanto a crise não passar, vou-me ficando
pelas histórias do costume. Mentindo.
sexta-feira, agosto 10, 2012
DÍSTICOS PARA FUTURAS HISTÓRIAS DE EDIFICAÇÃO MORAL - o quarto e último
Mentia quase sempre por omissão, e raramente por afirmação.
A mentira era nela uma arte suprema e especiosa, assim como
um soneto barroco ou uma pintura de Miró.
quinta-feira, agosto 09, 2012
DÍSTICOS PARA FUTURAS HISTÓRIAS DE EDIFICAÇÃO MORAL - o terceiro
Trocou o
pobre pelo rico, à espera de mesa farta e de lençóis de seda.
Foi
desprezada pelo rico, e agora anda à procura de outro pobre que lhe dê consolo.
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