quarta-feira, junho 27, 2012
"Quizás Quizás Quizás", Nat King Cole
Roubado a "O Último Abencerragem". Uma canção muito filosófica.
quinta-feira, junho 21, 2012
MULHER NA PRAIA
Por que
marés de algas chegas até mim
à flor da
praia? De que ilhas vens, por correntes e ventos
que desconheço? Estendo a mão
para te apanhar, como a uma concha
estriada de luz sobre a areia húmida.
Mas não chego lá.
segunda-feira, junho 18, 2012
LUZ COADA POR FERROS
Leio o “Discurso Preliminar” que precede as Memórias do Cárcere. São cerca de trinta
páginas que revelam, para além da reconhecida imaginação novelística, o pendor
autobiográfico e memorialista da escrita de Camilo.
“O criminoso é fácil de conhecer, porque tem buracos na cara.” – Assim rezava uma carta, saída de fonte da Justiça, que intimava os aguazis a deterem o adúltero nas Caldas das Taipas.
Em Amarante, por onde passara o fugitivo, são-lhe pedidos versos para as festas do Coração de Maria da irmandade de S. Gonçalo.
“– Queríamos uns versinhos para as cavalhadas do Coração de Maria.”
“ – Pois o Coração de Maria é festejado com cavalhadas em Amarante!? Conte-me isso, mestre. Como é que a irmandade mete cavalos e poetas na sua devoção?”
Pinto de Magalhães e Fanny Owen não são esquecidos: “Vi agora os retratos de ambos. Sempre que os contemplo, creio que me falam e dizem: ‘E tu vives ainda! (…)’.”
As Memórias do Cárcere foram escritas por Camilo “na convalescença duma grande enfermidade moral” (prefácio da segunda edição). Foram 384 dias que o escritor romântico passou na cadeia da Relação do Porto (em regime de prisão não muito severo, diga-se), conhecendo homicidas, ladrões, moedeiros falsos e outras castas de delinquentes. Escreveu sobre eles talvez com mais imaginação que preocupação realista. E também sobre si, memórias de si mesmo, autobiografia: no capítulo XII evoca os amigos que o não esqueceram durante o longo tempo de provação; e no seguinte refere o encontro fortuito com a guerrilha miguelista do tenente Milhundres, quando regressava de Coimbra a Vila Real, na companhia de um colega, por a universidade ter sido encerrada devido à revolta da Patuleia.
A luz que entrava da cadeia da Relação do Porto era uma “Luz Coada por Ferros”, titulo do livro de Ana Plácido, também ela sujeita aos rigores da reclusão. Uma frase em tudo camiliana.
“O criminoso é fácil de conhecer, porque tem buracos na cara.” – Assim rezava uma carta, saída de fonte da Justiça, que intimava os aguazis a deterem o adúltero nas Caldas das Taipas.
Em Amarante, por onde passara o fugitivo, são-lhe pedidos versos para as festas do Coração de Maria da irmandade de S. Gonçalo.
“– Queríamos uns versinhos para as cavalhadas do Coração de Maria.”
“ – Pois o Coração de Maria é festejado com cavalhadas em Amarante!? Conte-me isso, mestre. Como é que a irmandade mete cavalos e poetas na sua devoção?”
Pinto de Magalhães e Fanny Owen não são esquecidos: “Vi agora os retratos de ambos. Sempre que os contemplo, creio que me falam e dizem: ‘E tu vives ainda! (…)’.”
As Memórias do Cárcere foram escritas por Camilo “na convalescença duma grande enfermidade moral” (prefácio da segunda edição). Foram 384 dias que o escritor romântico passou na cadeia da Relação do Porto (em regime de prisão não muito severo, diga-se), conhecendo homicidas, ladrões, moedeiros falsos e outras castas de delinquentes. Escreveu sobre eles talvez com mais imaginação que preocupação realista. E também sobre si, memórias de si mesmo, autobiografia: no capítulo XII evoca os amigos que o não esqueceram durante o longo tempo de provação; e no seguinte refere o encontro fortuito com a guerrilha miguelista do tenente Milhundres, quando regressava de Coimbra a Vila Real, na companhia de um colega, por a universidade ter sido encerrada devido à revolta da Patuleia.
A luz que entrava da cadeia da Relação do Porto era uma “Luz Coada por Ferros”, titulo do livro de Ana Plácido, também ela sujeita aos rigores da reclusão. Uma frase em tudo camiliana.
CAMILO
CASTELO BRANCO, Mémórias do Cárcere,
fixação do texto e prefácio de Aníbal Pinto de Castro, Lisboa, Parceria A.M. Pereira, 2001.
sábado, junho 16, 2012
BREVE APONTAMENTO SOBRE ARTE POÉTICA
Há
contentamentos nas minhas noites que se riem
da claridade
dos dias.
Eu sei que
não devia dizer isto no poema,
a voz tão
próxima do eu que escreve, designadanos compêndios como sujeito lírico, e tentar,
segundo o cânone da poética moderna, a despersonalização
ou o fingimento adequados aos fins em vista, pois o poeta
deve falar de si, sim, mas com a máscara de outro.
Porém, como
renunciar ao nítido perfil do sonho?
Como não
falar das mulheres que todas as noitespassam pela minha cama,
algumas que mal conheço, outras que conheço bem de mais:
um nu deitado de Modigliani, a Ester que vejo entrar no banho
no quadro luminoso de Chassériau,
o mármore branco de corpo feminino
com que me deparei em certa tarde numa sala do museu de Orsay?
Sigo ao
contrário da norma e pelo voo do sonho.
No cume da
noite
abraço-me ao corpo que dorme comigo, abro-lhea nuvem lúcida do seio
e respiro-o doridamente
até que a manhã desfaça o encanto.
sexta-feira, junho 15, 2012
QUASE EPIGRAMA
Tudo podia
ter acontecido de outra maneira, dizes
com o desencanto
de quem chega ao fim dum romancee não se conforma com o desfecho da história.
Não sei se
sabes, mas os romancistas lidam arduamente
com as
personagens que criam. Muitas vezes, contra
tudo o que esperam, são elas que galopam os corcéis da fábula,
que tomam conta dos fios da trama.
Que podias
tu fazer, na tua ingénua simplicidade,
para
segurares o curso da história que te meteste a escrever? Onde tinhas o tear para urdir as ficções?
Onde estava o modelo que devias seguir?
Fizeste-te personagem
trágica dum romance fechado
e nenhum deus ex machina veio em teu auxílio.
quinta-feira, junho 14, 2012
quarta-feira, junho 13, 2012
domingo, junho 03, 2012
CAROLINA E A RAZÃO
Florival Aureliano tinha um
caderno de argolas, assim do tamanho de um livro grande, em que ia anotando
poemas, impressões de leituras, ditos pitorescos que ouvia nas ruas e nos
transportes públicos. Tive o privilégio de ver esse caderno ao fim da tarde do
dia 6 de Junho de 2010, sentado com o seu detentor num café da Avenida de
Berna, ali mesmo ao lado da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, enquanto fazia
horas para o jantar de aniversário duma amiga de infância, Maria Carolina, por
quem sempre tive um certo fraquinho e que a rapaziada brava costumava arreliar
com aquela conhecida canção:
A saia da Carolina
Tem um lagarto pintado
Sim Carolina ó - i - ó - ai
Sim Carolina ó - ai meu bem.
Tem um lagarto pintado
Sim Carolina ó - i - ó - ai
Sim Carolina ó - ai meu bem.
O dono do caderno de argolas era
um tipo um bocado estranho, de idiossincrasias raras. Nunca saía à noite, mesmo
no Verão, sem enfiar pela cabeça um grosso pulôver; só bebia cerveja morna e
preferia o vinho tinto ao branco; gostava de mulheres inacessíveis; e se algum
homem lhe punha a mão afectuosa sobre o ombro tomava-o um arrepio de nervos
capaz de produzir um efeito trágico. Sabia-se que tinha medo de adoecer e que era
vagamente homofóbico.
Uma nota curiosa, logo nas primeiras
páginas do caderno, referia as perseguições de Diocleciano na
civitas de Olisipo (anos 303 a 305) e os mártires Máximo, Severo e Júlia, o que demonstra o
interesse do anotador por assuntos históricos e religiosos. Seguia-se a
transcrição duma passagem da alegoria da Caverna, extraída de Platão, um poema
do próprio Florival a uma sua amada que simplesmente o ignorava, e uma conversa
entre duas comadres ouvida no eléctrico da Graça:
“- Pois nem queira saber ao que
aquilo chegou.
- Alguma coisa má, comadre?
- Má? Se o é! Uma pouca vergonha! Descobri que ele é homem-sexual.”
Para além destes apontamentos
esparsos, frutos da poliédrica inquietação de Florival Aureliano, o
que mais me entusiasmou foi um conjunto
de páginas preenchidas com quadros de dupla entrada, uma espécie de fichas para
um estudo sociológico inédito. Na horizontal, indicação de
lugares, datas e horas correspondentes a observações realizadas; na vertical,
duas simples colunas: “loiras falsas” e “loiras verdadeiras”.
Apresento um exemplo:
Data,
local e hora da observação
|
Loiras falsas
|
Loiras verdadeiras
|
15 de Maio, Café Bijou, entre as 10 e
as 11 horas
|
3
|
1
|
16 de Maio, Jardim de Oeiras,
entre as 18 e as 19 horas
|
7
|
0
|
Florival explicou-me tudo. Há muito
que se interessava pela cor dos cabelos das mulheres. Tinha como quase certo
que em Portugal haveria noventa e cinco por
cento de mulheres morenas (de cabelos pretos ou castanhos) e apenas cinco por
cento de loiras. As ruivas nem dava para considerar, tão exíguo era entre nós esse
tipo feminino, embora se percebesse que as mesmas exerciam sobre si algum
fascínio: havia no caderno um poema de Florival com o sugestivo título de “A
uma cenourinha bonita que passa por mim sem olhar”. A questão que se colocava é
que já não se conseguia saber quais eram as loiras e as morenas, tais os
artifícios capilares em uso, chegando-se ao cúmulo de não se excluir a hipótese
de também algumas loiras autênticas, por
razões que a própria razão desconhece, poderem pintar os cabelos de preto ou
castanho. Era a confusão completa e Florival tinha resolvido tirar tudo a limpo.
Deixando de parte a questão das falsas morenas, atirou-se às loiras, autênticas
e fingidas, e assim encheu mais de trinta páginas dos seus gloriosos hypomnemata. Este termo, aqui lançado como prova da vasta
intelectualidade do escrevente, foi recuperado por Michel Foucault no século
XX, correspondendo aos apontamentos tomados em pequenos cadernos pelos gregos
letrados da Antiguidade. Para que se saiba e se pasme.
Como é que Florival estatuía a condição
verdadeira ou falsa das loiras? Ora aí é que está o busílis da questão. Posso adiantar
que era a partir de demoradas e penetrantes observações do objecto em análise:
comparação com os pêlos das sobrancelhas ou dos braços, se os havia, com o tom da pele
e a cor dos olhos. Mais longe não podia ir, embora talvez desejasse, mas mesmo
assim havia os seus riscos. Uma jovem que se sentava com uma amiga, numa manhã
de sábado, num café do centro comercial,
levantou-se abruptamente ao fim de quinze minutos de assédio visual e disse
para quem a quis ouvir:
“ - O velho deve ser tarado! Vamos mas é embora
que estou farta de anormais”.
O observante, impávido, anotou:
“loira falsa”. Outra vez, no mesmo café, uma senhora de cerca de cinquenta anos,
por sinal muito desfavorecida de beleza, loira igualmente espúria, mandou-lhe
um papelinho enrolado com um número de telefone, mas Florival fez-se sabiamente
desentendido, limitando-se a anotar o resultado da sua observação.
Episódio nada agradável
registou-se com uma loira genuína que seguia acompanhada do marido no comboio
para Lisboa. Florival passou Paço d´Arcos, Caxias e Algés com o olho posto na
mulher. Quando chegou à estação do Cais do Sodré, o varão, enciumado,
acercou-se dele e quase lhe deitou as mãos aos gorgomilos. O observante
apoucou-se perante o ímpeto do capanga, justamente receoso que lhe dentassem a
febra com os olhos. Aguentou os impropérios que o outro lhe dirigiu e
alegrou-se interiormente: já tinha observado e anotado no seu caderno o brilho
veraz daqueles cabelos de oiro.
Fiquei até ao cair da noite a percorrer
as páginas do caderno, a ouvir as explicações de Florival. Este, entretanto, mandara
vir mais uma cerveja morna, mastigara um rissol de camarão, não sem que antes
perguntasse ao empregado se o marisco era de confiança. Só depois é que me
contou, em tom lamentoso, o episódio da enfermeira, uma loura assim-assim com
quem aprazara vários encontros sem resultados palpáveis. Era fascinante escutar
Florival e perceber a singularidade que emanava da sua pessoa.
Às nove e tal dei por mim. Corri
para o restaurante onde se realizava o jantar de aniversário de Maria Carolina.
Encontrei-a furibunda pelo meu atraso, tendo ao seu lado o execrável António
Abel, meu rival de sempre, com quem ela fugira em certo Verão para uma semana
de férias escaldantes na Île de Ré. Engoli contrafeito os bifinhos com
cogumelos, abusei do tinto de Pegões, vinguei-me da privação no pudim caseiro e
sorvi sem moderação uma aguardente envelhecida em cascos de carvalho.
Parecia-me que o António Abel, assim como quem não quer a coisa, palpava as coxas de
Maria Carolina enquanto davas vivas à aniversariante. Enfim, uma noite para
esquecer.
Guardei desse 6 de Junho a
memória da conversa solar com Florival Aureliano. Nunca mais soube nada dele. Desapareceu
das tertúlias que frequentávamos como quem já não cabe nelas e se eleva ao
empíreo da inteligência e do pensamento audaz, talvez também do sofrimento e da
solidão, a única forma de superarmos as nossas limitações. Não voltei à festa
de aniversário de Carolina: à de 2011 e, seguramente, também não irei à que se
fará este ano. Conservo dela as três cartas que há muito tempo me escreveu: uma
delas para dizer que não esperasse nada de si, que continuaria amiga, mas que
eu não era homem que pudesse servir-lhe. Por muito que me custe admitir, acho que estava
cheia de razão.
sábado, junho 02, 2012
sexta-feira, junho 01, 2012
TRABALHEM, MALANDROS!
Trabalhem e tirem o país do buraco em que o meteu a classe
política – os Relvas, os Sócrates, os Passos e os Cavacos. Trabalhem,
incompetentes, e não venham com
histórias da carochinha para justificar o injustificável: 36,6% de desemprego
jovem, 15,2% de desemprego em todas as faixas etárias, 1 200 000 desempregados
se se considerar os que já desistiram de procurar trabalho e que por isso não
entram nas estatísticas.
Há um ano, um agora ministro que tenta passar despercebido
aparecia indignado nos telejornais de cada vez que uma velhinha era assaltada
na rua pelo processo do esticão. Hoje assaltam-se bombas de gasolina à mão
armada, atacam-se à bomba as caixas multibanco, as máfias andam em roda livre –
mas o tal ministro anda mais calado que uma estátua de pedra.
Trabalhem, malandros! Não inventem desculpas! Ou então digam que não
são capazes e vão tratar da vidinha! Não tenham medo que não ficam no
desemprego como o cidadão comum: há sempre
uma colocação internacional ou a empresa dum amigo à vossa espera.
quarta-feira, maio 16, 2012
segunda-feira, maio 07, 2012
NO PIANO BAR
Gosto muito de cama, disse ela, a meio de uma conversa banal sobre um romance
de Philip Roth. Distraído como andava, ele começou por pensar que se tratava da
fala de alguma personagem, ali trazida à conversa para mais viva representação
da trama romanesca. Mas não, logo percebeu que não era possível, que a amiga falava
na própria voz, e, como homem sério não tem ouvidos, fez-se desentendido, tricando
o caju e escorrendo a cerveja, enquanto o pianista martelava um “Summertime” angustiado
e frouxo por entre espirais de fumo que
morriam nos exaustores cravados no tecto.
Estava cansado e com vontade de dormir. Passara a tarde de sábado em
Cascais, numa tertúlia vagamente literária, a que se seguira um jantar pacato com
um amigo. Depois, fizera a viagem de comboio até Lisboa, as luzes da margem
escorrendo para o rio com o perfil luminoso da velha ponte ao fundo, e agora ali estava, duas e tal da manhã, com uma
cerveja fria na mesa em frente de uma mulher quente que lia Philip Roth e
gostava muito de cama.
Há muito que estaria em casa se o telefone não tivesse tocado pelas dez
e tal. Sim, estou em Lisboa, acabei de sair do comboio no Cais do Sodré. Que
coincidência, retorquiu ela, eu estou na Brasileira, é só subir um pouco. De
aqui a dez minutos, então, anuiu ele.
Andava muito ocupado com a escritura de um romance. Já ia em trinta e
duas páginas, nunca tinha chegado tão longe, mas começava a baralhar-se com os desígnios das
personagens e os contornos da história, como se a vida nunca lhe tivesse ensinado
nada e nada conseguisse tirar dela para encher as suas fracassadas ficções.
Queria contar a história de dois amantes, mas não percebia nada de tal matéria.
O escritor só fala do que conhece, diz-se, e todas as relações amorosas lhe
tinham passado ao lado, como se apenas as tivesse vivido nas margens do rio (torrencial)
do amor, sem nunca chegar a meter os pés na água. A negação de Heraclito. O
telefonema da amiga quase lhe soube bem, quem sabe se não seria um empurrão
para conseguir sair da melancolia letárgica em que o seu romance se encontrava.
A amiga não era má de todo. Bons seios, boas pernas, um rosto
razoavelmente conservado à custa de muito cremes hidratantes e especiosos
esteticismos. Poderia vê-la até como uma mulher sensual, naquela acepção mais óbvia
da palavra, se ele não andasse tão arredado de vertigens sensualistas e mais
dado a arroubos contemplativos da beleza pura. E lá foi falando de Philip Roth,
que mal conhecia, dos seus romances e ensaios, grande virtude e prova de inteligência
é conseguirmos falar de livros que nunca
lemos.
Ainda tentou desviar a conversa com
impertinentes referências ao romance psicológico, à lírica barroca, à poesia
licenciosa de Catulo e às odes de Horácio. Ela julgou que estava a topá-lo, Philip
Roth ali à mão, e passou ao ataque: gosto muito de cama. Ele esmerdou-se, palavra que não deve vir no
dicionário Houaiss mas de que qualquer jongleur
do amor conhece bem o sentido.
O gajo é parvo, pensou ela, ou então já não aguenta uma noite com uma
mulher. Olhou para o relógio largo que usava no braço direito, fechou a pequena
cigarreira prateada, ajeitou a saia verde orlada de preto, sacudiu o colar,
afagou o peito como se buscasse no gesto uma ínvia compensação de algo, e fez
questão de pagar a conta. Fui eu que convidei, disse.
Saíram do piano bar. Ele acompanhou-a ao parque de estacionamento,
apanhou um táxi e rumou a casa. Apetecia-lhe dormir, descansar até altas horas
de domingo. À sua maneira, também ele gostava muito de cama.
quinta-feira, maio 03, 2012
CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (11)
Sinto que passaste por mim como um pequeno rio
de que apenas ouvi o murmúrio, ou como a música
dum coreto distante trazida no bojo dos ventos
em entrecortados soluços. Nunca soube nada de ti,
nem das ciências inexactas do amor. Sei, no entanto,
que me enchias o tempo duma alegria breve,
eternizada de cada vez que chegavas a casa
com a singela disposição dos teus modos
no sorriso do olhar e da voz, no anel da tua cintura
que o fogo-fátuo da minha carne nunca tangeu
na plenitude. Por isso escrevo o poema deste tempo
de reencontro com o que nunca fui, nesta sala
povoada de livros, pó e algumas sombras,
no prazer quase mórbido da tua ausência.
de que apenas ouvi o murmúrio, ou como a música
dum coreto distante trazida no bojo dos ventos
em entrecortados soluços. Nunca soube nada de ti,
nem das ciências inexactas do amor. Sei, no entanto,
que me enchias o tempo duma alegria breve,
eternizada de cada vez que chegavas a casa
com a singela disposição dos teus modos
no sorriso do olhar e da voz, no anel da tua cintura
que o fogo-fátuo da minha carne nunca tangeu
na plenitude. Por isso escrevo o poema deste tempo
de reencontro com o que nunca fui, nesta sala
povoada de livros, pó e algumas sombras,
no prazer quase mórbido da tua ausência.
"CAPITÃES DA AREIA"
Do filme de Cecília Amado
Museu do neo-realismo em Vila Franca de Xira
Romance
engajado e militante duma literatura que influenciou decisivamente o
neo-realismo português, conforme pode ser apreendido na célebre polémica de
1939, nas páginas da “Seara Nova”, entre José Régio e o jovem Álvaro Cunhal. Já houve quem notasse a correspondência de “Esteiros”
de Soeiro Pereira Gomes (publicado em 1941), um romance de meninos operários,
com a narrativa dos meninos da rua de Salvador da Bahia: Gineto no Ribatejo e
Pedro Bala na região nordestina do Brasil. Homens que
nunca foram meninos ou meninos que sempre foram homens, a contraditória disjuntiva
que exprime uma opressão social e política que teve lugar de ambos os lados do
Atlântico. Por isso é bom ler Jorge Amado no ano do seu centenário e tentar conhecer
o neo-realismo português cujo romance inaugural – “Gaibéus” de Alves Redol – se
publicou em 1939, dois anos depois de “Capitães de Areia”.
quarta-feira, maio 02, 2012
ENSAIO SOBRE A CUPIDEZ
Loja Pingo Doce da Av. Almirante Reis, de portas fechadas e sob aparato policial, à hora em que desfilavam os manifestantes do 1º de Maio.
As cenas reais bem poderiam
pertencer a um romance que Saramago nunca escreveu, mas que seria no género de
“Ensaio sobre a Cegueira” ou “Ensaio sobre a Lucidez”: uma turba ávida,
descontrolada, lançando-se sobre as prateleiras dos supermercados para
beneficiar de um desconto de metade do preço nos produtos adquiridos. Na
voragem cúpida, levam o que precisam e o que não precisam, porque o importante
é atingir o valor mínimo que dá direito ao desconto. Os gerentes dos
supermercados exultam, os clientes grunhem e a polícia é chamada para serenar
os ânimos.
E assim queimam um dia de
descanso, que daria para passear ou ir ao cinema, em longas filas de espera
para os talhos e peixarias, roubando dos carrinhos dos competidores produtos já
esgotados nas prateleiras, envolvendo-se em desacatos, soltando impropérios, carregando
as bagageiras dos automóveis para logo voltarem de olhos baços ao rodízio
consumista.
O gerente duma loja de Sintra,
entrevistado pela televisão, dizia que os clientes tinham respondido
positivamente ao aproveitarem a boa oportunidade de negócio que se lhes
deparara. E pelo negócio lá se foi o ócio, pela picanha e pelo uísque de 12
anos perderam um feriado, trocaram o ar fresco e luminoso do dia pelas luzes
das lojas e o delírio dos escaparates.
Tudo isto enquanto o
primeiro-ministro dizia tranquilamente, numa assembleia do seu partido, que os portugueses deveriam preparar-se para
níveis de desemprego ainda mais altos, para maior austeridade. Esta gente que irá suportar mais desemprego tem
a austeridade de que precisa e no poder os governantes que merece. É sabido que
nas próximas eleições vão tirá-los de lá, não por convicções políticas, mas por
simples ganância: porque lhes foram aos ordenados e ao preço do bife. Se o merceeiro Alexandre Soares dos Santos viesse
a candidatar-se, teria fortes probabilidades de ganhar.
quarta-feira, abril 25, 2012
terça-feira, abril 03, 2012
O MENTALISTA
A surpreendente Teresa Lisbon (Robin Tunney), agente da CBI
(Agência de Investigação da Califórnia), e o seu sagaz colaborador Patrick Jane
(Simon Baker). Programa obrigatório às segundas-feiras (RTP2) para quem recusa
o furor orgíaco dos cem canais da TV por cabo e começa a ficar cansado da
Fátima Campos Ferreira e dos seus bonecos falantes.
quinta-feira, março 29, 2012
PRAIA DA SALEMA
Leio no DN online uma notícia extraordinária: – que a praia da Salema (Vila do Bispo) fora
eleita como uma das melhores praias secretas do planeta pela revista americana “Travel&Leisure”,
especialista em viagens e lazer.
Para mim, que sempre fui avesso às praias do Allgarve
turístico (excepção feita aos Olhos de Água e à Falésia), há trinta e tal anos que
tenho a praia da Salema como nada secreta.
Memórias de tempos em que nela fazia férias de Verão e de
Páscoa, o ar carregado de sal, o perfume das estevas, e, em qualquer baiuca, o
trago de medronho genuíno, esse sim, hoje secreto.
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