quinta-feira, junho 21, 2012

MULHER NA PRAIA

"Mulher na Praia" (2011), Milu Petersen, http://www.artmajeur.com/milupetersen/

Por que marés de algas chegas até mim
à flor da praia? De que ilhas vens,
por correntes e ventos
que desconheço? Estendo a mão
para te apanhar, como a uma concha
estriada de luz sobre a areia húmida.
Mas não chego lá.

segunda-feira, junho 18, 2012

LUZ COADA POR FERROS

Leio o “Discurso Preliminar” que precede as Memórias do Cárcere. São cerca de trinta páginas que revelam, para além da reconhecida imaginação novelística, o pendor autobiográfico e memorialista da escrita de Camilo. 
“O criminoso é fácil de conhecer, porque tem buracos na cara.” – Assim rezava uma carta, saída de fonte da Justiça, que intimava os aguazis a deterem o adúltero nas Caldas das Taipas.
Em Amarante, por onde passara o fugitivo, são-lhe pedidos versos para as festas do Coração de Maria da irmandade de S. Gonçalo.
“– Queríamos uns versinhos para as cavalhadas do Coração de Maria.”
“ – Pois o Coração de Maria é festejado com cavalhadas em Amarante!? Conte-me isso, mestre. Como é que a irmandade mete cavalos e poetas na sua devoção?”
Pinto de Magalhães e Fanny Owen não são esquecidos: “Vi agora os retratos de ambos. Sempre que os contemplo, creio que me falam e dizem: ‘E tu vives ainda! (…)’.”
As Memórias do Cárcere foram escritas por Camilo “na convalescença duma grande enfermidade moral” (prefácio da segunda edição). Foram 384 dias que o escritor romântico passou na cadeia da Relação do Porto (em regime de prisão não muito severo, diga-se), conhecendo homicidas, ladrões, moedeiros falsos e outras castas de delinquentes. Escreveu sobre eles talvez com mais imaginação que preocupação realista. E também sobre si, memórias de si mesmo, autobiografia: no capítulo XII  evoca os amigos que o não esqueceram durante o longo tempo de provação; e no seguinte refere o encontro fortuito com a guerrilha miguelista do tenente Milhundres,  quando regressava de Coimbra a Vila Real, na companhia de um colega, por a universidade ter sido encerrada devido à revolta da Patuleia.
A luz que entrava da cadeia da Relação do Porto era uma “Luz Coada por Ferros”, titulo do livro de Ana Plácido, também ela sujeita aos rigores da reclusão. Uma frase em tudo camiliana.
CAMILO CASTELO BRANCO, Mémórias do Cárcere, fixação do texto e prefácio de Aníbal Pinto de Castro, Lisboa, Parceria A.M. Pereira, 2001.

sábado, junho 16, 2012

BREVE APONTAMENTO SOBRE ARTE POÉTICA

Há contentamentos nas minhas noites que se riem
da claridade dos dias.

Eu sei que não devia dizer isto no poema,
a voz tão próxima do eu que escreve, designada
nos compêndios como sujeito lírico, e tentar,
segundo o cânone da poética moderna, a despersonalização
ou o fingimento adequados aos fins em vista, pois o poeta
deve falar de si, sim, mas com a máscara de outro.

Porém, como renunciar ao nítido perfil do sonho?
Como não falar das mulheres que todas as noites
passam pela minha cama,
algumas que mal conheço, outras que conheço bem de mais:
um nu deitado de Modigliani, a Ester que vejo entrar no banho
no quadro luminoso de Chassériau,
o mármore branco de corpo feminino
com que me deparei  em certa tarde numa sala do museu de Orsay?

Sigo ao contrário da norma e pelo voo do sonho.

No cume da noite
abraço-me  ao corpo que dorme comigo, abro-lhe
a nuvem lúcida do seio
e respiro-o doridamente
até que a manhã desfaça o encanto.

sexta-feira, junho 15, 2012

QUASE EPIGRAMA

Tudo podia ter acontecido de outra maneira, dizes
com o desencanto de quem chega ao fim dum romance
e não se conforma com o desfecho da história.

Não sei se sabes, mas os romancistas lidam arduamente
com as personagens que criam.  Muitas vezes, contra tudo
o que esperam, são elas que galopam os corcéis da fábula,
que tomam conta dos fios da trama.

Que podias tu fazer, na tua ingénua simplicidade,
para segurares o curso da história que te meteste a escrever?
Onde tinhas o tear para urdir as ficções?
Onde estava o modelo que devias seguir?

Fizeste-te personagem trágica dum romance fechado
e nenhum deus ex machina veio em teu auxílio.

domingo, junho 03, 2012

CAROLINA E A RAZÃO

Florival Aureliano tinha um caderno de argolas, assim do tamanho de um livro grande, em que ia anotando poemas, impressões de leituras, ditos pitorescos que ouvia nas ruas e nos transportes públicos. Tive o privilégio de ver esse caderno ao fim da tarde do dia 6 de Junho de 2010, sentado com o seu detentor num café da Avenida de Berna, ali mesmo ao lado da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, enquanto fazia horas para o jantar de aniversário duma amiga de infância, Maria Carolina, por quem sempre tive um certo fraquinho e que a rapaziada brava costumava arreliar com aquela conhecida canção:
A saia da Carolina
Tem um lagarto pintado
Sim Carolina ó - i - ó - ai
Sim Carolina ó - ai meu bem.
O dono do caderno de argolas era um tipo um bocado estranho, de idiossincrasias raras. Nunca saía à noite, mesmo no Verão, sem enfiar pela cabeça um grosso pulôver; só bebia cerveja morna e preferia o vinho tinto ao branco; gostava de mulheres inacessíveis; e se algum homem lhe punha a mão afectuosa sobre o ombro tomava-o um arrepio de nervos capaz de produzir um efeito trágico. Sabia-se que tinha medo de adoecer e que era vagamente homofóbico.
Uma nota curiosa, logo nas primeiras páginas do caderno, referia as perseguições de Diocleciano  na civitas de Olisipo (anos 303 a 305) e os mártires Máximo, Severo e Júlia, o que demonstra o interesse do anotador por assuntos históricos e religiosos. Seguia-se a transcrição duma passagem da alegoria da Caverna, extraída de Platão, um poema do próprio Florival a uma sua amada que simplesmente o ignorava, e uma conversa entre duas comadres ouvida no eléctrico da Graça:
“- Pois nem queira saber ao que aquilo chegou.
- Alguma coisa má, comadre?
- Má? Se o é! Uma pouca vergonha! Descobri que ele é homem-sexual.”
Para além destes apontamentos esparsos, frutos da poliédrica inquietação de Florival Aureliano, o que mais me entusiasmou  foi um conjunto de páginas preenchidas com quadros de dupla entrada, uma espécie de fichas para um estudo sociológico inédito. Na horizontal, indicação de lugares, datas e horas correspondentes a observações realizadas; na vertical, duas simples colunas: “loiras falsas” e “loiras verdadeiras”.
Apresento um exemplo:
Data, local e hora da observação
Loiras falsas
Loiras verdadeiras
15 de Maio, Café Bijou, entre as 10 e as 11 horas
3
1
16 de Maio, Jardim de Oeiras,
entre as 18 e as 19 horas
7
0
Florival explicou-me tudo. Há muito que se interessava pela cor dos cabelos das mulheres. Tinha como quase certo que em Portugal  haveria noventa e cinco por cento de mulheres morenas (de cabelos pretos ou castanhos) e apenas cinco por cento de loiras. As ruivas nem dava para considerar, tão exíguo era entre nós esse tipo feminino, embora se percebesse que as mesmas exerciam sobre si algum fascínio: havia no caderno um poema de Florival com o sugestivo título de “A uma cenourinha bonita que passa por mim sem olhar”. A questão que se colocava é que já não se conseguia saber quais eram as loiras e as morenas, tais os artifícios capilares em uso, chegando-se ao cúmulo de não se excluir a hipótese de também algumas loiras  autênticas, por razões que a própria razão desconhece, poderem pintar os cabelos de preto ou castanho. Era a confusão completa e Florival tinha resolvido tirar tudo a limpo. Deixando de parte a questão das falsas morenas, atirou-se às loiras, autênticas e fingidas, e assim encheu mais de trinta páginas dos  seus gloriosos hypomnemata. Este termo, aqui lançado como prova da vasta intelectualidade do escrevente, foi recuperado por Michel Foucault no século XX, correspondendo aos apontamentos tomados em pequenos cadernos pelos gregos letrados da Antiguidade. Para que se saiba e se pasme.
Como é que Florival estatuía a condição verdadeira ou falsa das loiras? Ora aí é que está o busílis da questão. Posso adiantar que era a partir de demoradas e penetrantes observações do objecto em análise: comparação com os pêlos das sobrancelhas  ou dos braços, se os havia, com o tom da pele e a cor dos olhos. Mais longe não podia ir, embora talvez desejasse, mas mesmo assim havia os seus riscos. Uma jovem que se sentava com uma amiga, numa manhã de sábado,  num café do centro comercial, levantou-se abruptamente ao fim de quinze minutos de assédio visual e disse para quem a quis ouvir:
 “ - O velho deve ser tarado! Vamos mas é embora que estou farta de anormais”.
O observante, impávido, anotou: “loira falsa”. Outra vez, no mesmo café, uma senhora de cerca de cinquenta anos, por sinal muito desfavorecida de beleza, loira igualmente espúria, mandou-lhe um papelinho enrolado com um número de telefone, mas Florival fez-se sabiamente desentendido, limitando-se a anotar o resultado da sua observação.
Episódio nada agradável registou-se com uma loira genuína que seguia acompanhada do marido no comboio para Lisboa. Florival passou Paço d´Arcos, Caxias e Algés com o olho posto na mulher. Quando chegou à estação do Cais do Sodré, o varão, enciumado, acercou-se dele e quase lhe deitou as mãos aos gorgomilos. O observante apoucou-se perante o ímpeto do capanga, justamente receoso que lhe dentassem a febra com os olhos. Aguentou os impropérios que o outro lhe dirigiu e alegrou-se interiormente: já tinha observado e anotado no seu caderno o brilho veraz daqueles cabelos de oiro.
Fiquei até ao cair da noite a percorrer as páginas do caderno, a ouvir as explicações de Florival. Este, entretanto, mandara vir mais uma cerveja morna, mastigara um rissol de camarão, não sem que antes perguntasse ao empregado se o marisco era de confiança. Só depois é que me contou, em tom lamentoso, o episódio da enfermeira, uma loura assim-assim com quem aprazara vários encontros sem resultados palpáveis. Era fascinante escutar Florival e perceber a singularidade que emanava da sua pessoa.
Às nove e tal dei por mim. Corri para o restaurante onde se realizava o jantar de aniversário de Maria Carolina. Encontrei-a furibunda pelo meu atraso, tendo ao seu lado o execrável António Abel, meu rival de sempre, com quem ela fugira em certo Verão para uma semana de férias escaldantes na Île de Ré. Engoli contrafeito os bifinhos com cogumelos, abusei do tinto de Pegões, vinguei-me da privação no pudim caseiro e sorvi sem moderação uma aguardente envelhecida em cascos de carvalho. Parecia-me que o António Abel, assim como quem não quer a coisa, palpava as coxas de Maria Carolina enquanto davas vivas à aniversariante. Enfim, uma noite para esquecer.
Guardei desse 6 de Junho a memória da conversa solar com Florival Aureliano. Nunca mais soube nada dele. Desapareceu das tertúlias que frequentávamos como quem já não cabe nelas e se eleva ao empíreo da inteligência e do pensamento audaz, talvez também do sofrimento e da solidão, a única forma de superarmos as nossas limitações. Não voltei à festa de aniversário de Carolina: à de 2011 e, seguramente, também não irei à que se fará este ano. Conservo dela as três cartas que há muito tempo me escreveu: uma delas para dizer que não esperasse nada de si, que continuaria amiga, mas que eu não era homem que pudesse servir-lhe. Por muito que me custe admitir, acho que estava cheia de razão.

sexta-feira, junho 01, 2012

TRABALHEM, MALANDROS!

Trabalhem e tirem o país do buraco em que o meteu a classe política – os Relvas, os Sócrates, os Passos e os Cavacos. Trabalhem, incompetentes,  e não venham com histórias da carochinha para justificar o injustificável: 36,6% de desemprego jovem, 15,2% de desemprego em todas as faixas etárias, 1 200 000 desempregados se se considerar os que já desistiram de procurar trabalho e que por isso não entram nas estatísticas.
Há um ano, um agora ministro que tenta passar despercebido aparecia indignado nos telejornais de cada vez que uma velhinha era assaltada na rua pelo processo do esticão. Hoje assaltam-se bombas de gasolina à mão armada, atacam-se à bomba as caixas multibanco, as máfias andam em roda livre – mas o tal ministro anda mais calado que uma estátua de pedra.
Trabalhem, malandros!  Não inventem desculpas! Ou então digam que não são capazes e vão tratar da vidinha! Não tenham medo que não ficam no desemprego como o cidadão comum: há sempre  uma colocação internacional ou a empresa dum amigo à vossa espera.

segunda-feira, maio 07, 2012

NO PIANO BAR


Gosto muito de cama, disse ela, a meio de uma conversa banal sobre um romance de Philip Roth. Distraído como andava, ele começou por pensar que se tratava da fala de alguma personagem, ali trazida à conversa para mais viva representação da trama romanesca. Mas não, logo percebeu que não era possível, que a amiga falava na própria voz, e, como homem sério não tem ouvidos, fez-se desentendido, tricando o caju e escorrendo a cerveja, enquanto o pianista martelava um “Summertime” angustiado e frouxo por entre espirais de fumo que  morriam nos exaustores cravados no tecto.
Estava cansado e com vontade de dormir. Passara a tarde de sábado em Cascais, numa tertúlia vagamente literária, a que se seguira um jantar pacato com um amigo. Depois, fizera a viagem de comboio até Lisboa, as luzes da margem escorrendo para o rio com o perfil luminoso da velha ponte ao fundo,  e agora ali estava, duas e tal da manhã, com uma cerveja fria na mesa em frente de uma mulher quente que lia Philip Roth e gostava muito de cama.
Há muito que estaria em casa se o telefone não tivesse tocado pelas dez e tal. Sim, estou em Lisboa, acabei de sair do comboio no Cais do Sodré. Que coincidência, retorquiu ela, eu estou na Brasileira, é só subir um pouco. De aqui a dez minutos, então, anuiu ele.
Andava muito ocupado com a escritura de um romance. Já ia em trinta e duas páginas, nunca tinha chegado tão longe, mas  começava a baralhar-se com os desígnios das personagens e os contornos da história, como se a vida nunca lhe tivesse ensinado nada e nada conseguisse tirar dela para encher as suas fracassadas ficções. Queria contar a história de dois amantes, mas não percebia nada de tal matéria. O escritor só fala do que conhece, diz-se, e todas as relações amorosas lhe tinham passado ao lado, como se apenas as tivesse vivido nas margens do rio (torrencial) do amor, sem nunca chegar a meter os pés na água. A negação de Heraclito. O telefonema da amiga quase lhe soube bem, quem sabe se não seria um empurrão para conseguir sair da melancolia letárgica em que o seu romance se encontrava.
A amiga não era má de todo. Bons seios, boas pernas, um rosto razoavelmente conservado à custa de muito cremes hidratantes e especiosos esteticismos. Poderia vê-la até como uma mulher sensual, naquela acepção mais óbvia da palavra, se ele não andasse tão arredado de vertigens sensualistas e mais dado a arroubos contemplativos da beleza pura. E lá foi falando de Philip Roth, que mal conhecia, dos seus romances e ensaios, grande virtude e prova de inteligência é conseguirmos  falar de livros que nunca lemos.
Ainda tentou desviar a conversa com impertinentes referências ao romance psicológico, à lírica barroca, à poesia licenciosa de Catulo e às odes de Horácio. Ela julgou que estava a topá-lo, Philip Roth ali à mão, e passou ao ataque: gosto muito de cama.  Ele esmerdou-se, palavra que não deve vir no dicionário Houaiss mas de que qualquer jongleur do amor conhece bem o sentido.
O gajo é parvo, pensou ela, ou então já não aguenta uma noite com uma mulher. Olhou para o relógio largo que usava no braço direito, fechou a pequena cigarreira prateada, ajeitou a saia verde orlada de preto, sacudiu o colar, afagou o peito como se buscasse no gesto uma ínvia compensação de algo, e fez questão de pagar a conta. Fui eu que convidei, disse.  
Saíram do piano bar. Ele acompanhou-a ao parque de estacionamento, apanhou um táxi e rumou a casa. Apetecia-lhe dormir, descansar até altas horas de domingo. À sua maneira, também ele gostava muito de cama.

quinta-feira, maio 03, 2012

CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (11)


Sinto que passaste por mim como um pequeno rio
de que apenas ouvi o murmúrio, ou como a música
dum coreto distante trazida no bojo dos ventos
em entrecortados soluços. Nunca soube nada de ti,
nem das ciências inexactas do amor. Sei, no entanto,
que me enchias o tempo duma alegria breve,
eternizada de cada vez que chegavas a casa
com a singela disposição dos teus modos
no sorriso do olhar e da voz, no anel da tua cintura
que o fogo-fátuo da minha carne nunca tangeu
na plenitude. Por isso escrevo o poema deste tempo
de reencontro com o que nunca fui, nesta sala
povoada de livros, pó e algumas sombras,
no prazer quase mórbido da tua ausência.

"CAPITÃES DA AREIA"

                                      Do filme de Cecília Amado                                                          
  Museu do neo-realismo em Vila Franca de Xira
Romance engajado e militante duma literatura que influenciou decisivamente o neo-realismo português, conforme pode ser apreendido na célebre polémica de 1939, nas páginas da “Seara Nova”, entre José Régio e o jovem Álvaro Cunhal.  Já houve quem notasse a correspondência de “Esteiros” de Soeiro Pereira Gomes (publicado em 1941), um romance de meninos operários, com a narrativa dos meninos da rua de Salvador da Bahia: Gineto no Ribatejo e Pedro Bala na região nordestina do Brasil. Homens que nunca foram meninos ou meninos que sempre foram homens, a contraditória disjuntiva que exprime uma opressão social e política que teve lugar de ambos os lados do Atlântico. Por isso é bom ler Jorge Amado no ano do seu centenário e tentar conhecer o neo-realismo português cujo romance inaugural – “Gaibéus” de Alves Redol – se publicou em 1939, dois anos depois de “Capitães de Areia”.

quarta-feira, maio 02, 2012

ENSAIO SOBRE A CUPIDEZ

Loja Pingo Doce da Av. Almirante Reis, de portas fechadas e sob aparato policial, à hora em que desfilavam os manifestantes do 1º de Maio.

As cenas reais bem poderiam pertencer a um romance que Saramago nunca escreveu, mas que seria no género de “Ensaio sobre a Cegueira” ou “Ensaio sobre a Lucidez”: uma turba ávida, descontrolada, lançando-se sobre as prateleiras dos supermercados para beneficiar de um desconto de metade do preço nos produtos adquiridos. Na voragem cúpida, levam o que precisam e o que não precisam, porque o importante é atingir o valor mínimo que dá direito ao desconto. Os gerentes dos supermercados exultam, os clientes grunhem e a polícia é chamada para serenar os ânimos.
E assim queimam um dia de descanso, que daria para passear ou ir ao cinema, em longas filas de espera para os talhos e peixarias, roubando dos carrinhos dos competidores produtos já esgotados nas prateleiras, envolvendo-se em desacatos, soltando impropérios, carregando as bagageiras dos automóveis para logo voltarem de olhos baços ao rodízio consumista.
O gerente duma loja de Sintra, entrevistado pela televisão, dizia que os clientes tinham respondido positivamente ao aproveitarem a boa oportunidade de negócio que se lhes deparara. E pelo negócio lá se foi o ócio, pela picanha e pelo uísque de 12 anos perderam um feriado, trocaram o ar fresco e luminoso do dia pelas luzes das lojas e o delírio dos escaparates.
Tudo isto enquanto o primeiro-ministro  dizia tranquilamente, numa assembleia do seu partido,  que os portugueses deveriam preparar-se para níveis de desemprego ainda mais altos, para maior austeridade.  Esta gente que irá suportar mais desemprego tem a austeridade de que precisa e no poder os governantes que merece. É sabido que nas próximas eleições vão tirá-los de lá, não por convicções políticas, mas por simples ganância: porque lhes foram aos ordenados e ao preço do bife.  Se o merceeiro Alexandre Soares dos Santos viesse a candidatar-se, teria fortes probabilidades de ganhar.

terça-feira, abril 03, 2012

O MENTALISTA

A surpreendente Teresa Lisbon (Robin Tunney), agente da CBI (Agência de Investigação da Califórnia), e o seu sagaz colaborador Patrick Jane (Simon Baker). Programa obrigatório às segundas-feiras (RTP2) para quem recusa o furor orgíaco dos cem canais da TV por cabo e começa a ficar cansado da Fátima Campos Ferreira e dos seus bonecos falantes.

quinta-feira, março 29, 2012

PRAIA DA SALEMA

Leio no DN online uma notícia extraordinária:  – que a praia da Salema (Vila do Bispo) fora eleita como uma das melhores praias secretas do planeta pela revista americana “Travel&Leisure”, especialista em viagens e lazer.
Para mim, que sempre fui avesso às praias do Allgarve turístico (excepção feita aos Olhos de Água e à Falésia), há trinta e tal anos que tenho a praia da Salema como nada secreta.
Memórias de tempos em que nela fazia férias de Verão e de Páscoa, o ar carregado de sal, o perfume das estevas, e, em qualquer baiuca, o trago de medronho genuíno, esse sim, hoje secreto.