quarta-feira, abril 25, 2012
terça-feira, abril 03, 2012
O MENTALISTA
A surpreendente Teresa Lisbon (Robin Tunney), agente da CBI
(Agência de Investigação da Califórnia), e o seu sagaz colaborador Patrick Jane
(Simon Baker). Programa obrigatório às segundas-feiras (RTP2) para quem recusa
o furor orgíaco dos cem canais da TV por cabo e começa a ficar cansado da
Fátima Campos Ferreira e dos seus bonecos falantes.
quinta-feira, março 29, 2012
PRAIA DA SALEMA
Leio no DN online uma notícia extraordinária: – que a praia da Salema (Vila do Bispo) fora
eleita como uma das melhores praias secretas do planeta pela revista americana “Travel&Leisure”,
especialista em viagens e lazer.
Para mim, que sempre fui avesso às praias do Allgarve
turístico (excepção feita aos Olhos de Água e à Falésia), há trinta e tal anos que
tenho a praia da Salema como nada secreta.
Memórias de tempos em que nela fazia férias de Verão e de
Páscoa, o ar carregado de sal, o perfume das estevas, e, em qualquer baiuca, o
trago de medronho genuíno, esse sim, hoje secreto.
quinta-feira, março 22, 2012
A FICÇÃO E O MUNDO
Umberto Eco
Leio um texto de Umberto Eco: “O Estranho Caso da Rue Servandoni”, relacionado com Os Três Mosqueteiros de Dumas, quinto
capítulo de Seis Passeios nos Bosques da
Ficção. Trata dos pactos ficcionais, das relações entre ficção e História,
entre ficção e mundo real. E então coloca-se a seguinte questão: que diria o
leitor de um romancista que numa das suas obras colocasse o Empire State Building
em Berlim e a Alexanderplatz num bairro de Nova Iorque? O processo de suspensão da
incredulidade, que leva o leitor a aceitar o lobo falante do Capuchinho Vermelho ou a metamorfose de
Gregor Samsa no livro de Kafka, parece não funcionar aqui. A não ser que se
trate de ficção do género nonsense… Isto
deu-me umas ideias para um certo trabalho sobre A Velha Casa.
ECO, Umberto – Seis
Passeios nos Bosques da Ficção, DIFEL, 1995, pp. 103-122.
terça-feira, março 20, 2012
CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (10)
Leio nas estrofes dum poema de Apollinaire
a inelutável revogação do amor: um rio
que passa na distância das margens
sob a sombra oblíqua duma ponte. Nas águas
passadas de outro rio, procuro os lugares
e paisagens de
antigas viagens: fotografias
guardadas em velhos álbuns,
carcereiros taciturnos
de um tempo que só a imaginação
aprisiona : memórias
de quando os teus cabelos dormiam
espalhados na minha almofada
e as noites flamejavam como vitrais
o abraço cálido dos corpos.
sexta-feira, março 16, 2012
VOU LENDO: "O BARÃO DE LAVOS" (1891)
E assim, na nudez discreta da noite, na voluptuosa penumbra
da saleta, aqueles dois esposos, na aparência tão próximos, ambos novos, ambos
amantados na carícia do mesmo ambiente perfumado e morno, obstinavam-se longe, muito longe um do outro;
ele galopando o destrambelho do seu vício; ela deliciando a imaginação e
envenenando os sentidos na tragédia dissolvente de Madame Bovary.
ABEL BOTELHO, O Barão
de Lavos, Lisboa, Edição “Livros do Brasil”, s/d, p. 22.
terça-feira, março 13, 2012
CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (9)
Aprendi com Orfeu que não poderei
olhar para trás, e que em frente há
a dolorosa extinção do meu canto,
o pérfido baile das bacantes.
Por isso não direi o amor
no pretérito do que fui, ou no futuro
daquilo que não voltarei a ser.
Entrego-me ao condicional
de todas as conjugações como
quem abre uma porta na pedra líquida
dos verbos, bastando-me sentir
que talvez continues em mim
tão presa e livre
como a folha de árvore que se solta e voa.
olhar para trás, e que em frente há
a dolorosa extinção do meu canto,
o pérfido baile das bacantes.
Por isso não direi o amor
no pretérito do que fui, ou no futuro
daquilo que não voltarei a ser.
Entrego-me ao condicional
de todas as conjugações como
quem abre uma porta na pedra líquida
dos verbos, bastando-me sentir
que talvez continues em mim
tão presa e livre
como a folha de árvore que se solta e voa.
segunda-feira, março 12, 2012
PIAZZA DI SPAGNA
O editor deste blogue fotografado na escadaria da Piazza di Spagna a fazer horas para o concerto da Laura Pausini.
domingo, março 11, 2012
sexta-feira, março 09, 2012
CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (8)
Conheço todas as palavras das cartas
que não me escreveste. Palavras cheias,
tão copiosas que mal caberiam
dentro dos livros que levaste de casa,
ou dos cadernos dos tempos da escola
de que te esqueceste, talvez por já nada
dizerem de ti nem serem capazes de falar
dos teus novos sonhos. Encontro essas
palavras em cada verso que faço, em cada
linha que imagino escrever-te, e sinto-as
queimarem-me os olhos e ferirem-me
os dedos: palavras aparentes que fustigam
e doem, pássaros roxos voando em sombra
sobre as searas descontentes.
que não me escreveste. Palavras cheias,
tão copiosas que mal caberiam
dentro dos livros que levaste de casa,
ou dos cadernos dos tempos da escola
de que te esqueceste, talvez por já nada
dizerem de ti nem serem capazes de falar
dos teus novos sonhos. Encontro essas
palavras em cada verso que faço, em cada
linha que imagino escrever-te, e sinto-as
queimarem-me os olhos e ferirem-me
os dedos: palavras aparentes que fustigam
e doem, pássaros roxos voando em sombra
sobre as searas descontentes.
quinta-feira, março 08, 2012
DIA INTERNACIONAL DA MULHER
APROVEITANDO UMA ABERTA
Para António Nobre
“Ó virgens que passais ao sol-poente”
com esses filhos família,
pensai, primeiro, na mobília,
que é mais prudente.
com esses filhos família,
pensai, primeiro, na mobília,
que é mais prudente.
Sim, que essa qualidade,
tão bem reconstituída,
nem sempre, revirgens, há-de
proporcionar-vos a vida
tão bem reconstituída,
nem sempre, revirgens, há-de
proporcionar-vos a vida
que levais.
Se um tolo nunca vem só,
quando não vem, não vem mais
ou vem, digamos, por dó…
Se um tolo nunca vem só,
quando não vem, não vem mais
ou vem, digamos, por dó…
E o dó doi como um soco,
até mesmo quando parte
de um tolo que a vossa arte
promoveu de tolo a louco.
até mesmo quando parte
de um tolo que a vossa arte
promoveu de tolo a louco.
Eu quando digo mobília,
digo lar, digo família
e aquela espiada fresta,
aberta, patente, honesta,
digo lar, digo família
e aquela espiada fresta,
aberta, patente, honesta,
retrato oval da virtude,
consoladora do triste,
remanso, beatitude
para o colérico em riste.
consoladora do triste,
remanso, beatitude
para o colérico em riste.
Assim, sim, virgens sensatas!
(Nos telhados só as gatas…)
Pensai antes na mobília,
honestas mães de família,
E aceitai respeitos mil
do vosso
(Nos telhados só as gatas…)
Pensai antes na mobília,
honestas mães de família,
E aceitai respeitos mil
do vosso
Alexandre O’ Neill!
("Poemas com endereço", Lisboa, Livraria Morais Editora, 1962, pp. 32 e 33)
Poema datado, mesmo assim digno de ser lembrado neste dia de celebrações emancipadoras. Tenho o livrinho comigo, uma jóia sem preço.
quarta-feira, março 07, 2012
terça-feira, março 06, 2012
CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (7)
Nunca percebi o que se passou naquela noite,
no hotel perto da estrada onde
ficámos
depois de uma viagem de horas por
entre
clâmides de searas sob a luz e o vento
das planícies do sul. Os faróis
dos carros
projectavam súbitas claridades nas
paredes
do quarto, relâmpagos breves e
surdos
como os de uma trovoada dentro de
um sonho.
E então vi que choravas, um choro
silencioso,
inexplicado, mas tão real que nos tolheu
por muito tempo os gestos do
amor.
Penso hoje que teria bastado uma
palavra tua,
ou minha, um compreensível sinal contra
o silêncio
absurdo daquele prenúncio de
distância.
sexta-feira, março 02, 2012
CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (6)
Embora não o deseje, sei que me
esperas
numa qualquer praça do tempo, e
que ainda
conversaremos como dois amigos
que se reencontram
depois de uma viagem ou de uma longa
doença.
Mostrar-te-ei os meus versos, e tu
me contarás
cada uma das ficções com que
adornaste
a indiferença dos dias. Continuo
a acreditar na verdade
singular da poesia, e apenas
espero ver cumprir-se
o meu livro para que possa
entregar-me
ao silêncio definitivo de quem já fez
o que tinha a fazer. Gostaria que fosse
por uma manhã cálida de Novembro,
ao expirar
do Outono, com os salgueiros respirando
nas margens do rio a prosopopeia
dum choro.
quarta-feira, fevereiro 29, 2012
CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (5)
Em frente do mar, como Júdice
Na esplanada, em frente do mar, vejo-te
como naquela tarde em que te sentaste no muro
de pedra que dava para a praia, e gozando
o voo das gaivotas sobre o areal e a espuma,
levantaste a fímbria da saia um
palmo acima
dos joelhos. Na minha mão despertou
a carícia que a tua pele insinuava, e tu riste
com a alegria de quem vê cumprir-se a promessa
dum afecto. Hoje pergunto-me como foi possível
chegarmos a este silêncio de olhos e vozes
que tomou conta de nós como um nevoeiro de gumes
insidioso e frio. Estendo o braço sob a mesa
da esplanada à procura da carícia antiga.
Mas já não a encontro.
dos joelhos. Na minha mão despertou
a carícia que a tua pele insinuava, e tu riste
com a alegria de quem vê cumprir-se a promessa
dum afecto. Hoje pergunto-me como foi possível
chegarmos a este silêncio de olhos e vozes
que tomou conta de nós como um nevoeiro de gumes
insidioso e frio. Estendo o braço sob a mesa
da esplanada à procura da carícia antiga.
Mas já não a encontro.
terça-feira, fevereiro 28, 2012
CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL (4)
Falo de um livro em que escrevi
as palavras pinheiro, resina,
agulha.
Um livro com uma dedicatória
de quando o teu ventre era vagem
e os teus seios breves pomos.
Falo de um livro antigo
como os que inventaram
a palavra pão ou a palavra amor.
Um livro que percorreu a memória
e os hexágonos do tempo
por entre desencanto e traição:
uma ferida e cicatriz de lume
(ajeno de placer y de contento)
na minha pele de bibliotecário
cego.
Nota:
A palavra “ferida”, no décimo
segundo verso do soneto monóstrofo, encontra-se no manuscrito como “herida”. Tratando-se de um possível
lapso, adoptámos a correspondente
expressão portuguesa. Já de mais problemática compreensão (ou talvez não) é a inclusão parentética do verso castelhano
que julgamos pertencer a San Juan de la Cruz.
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