CONSTANCE TOWERS e JEFFREY HUNTER em Sergeant Rutledge (1960), de John Ford. Estreado em Portugal a 7 de Abril de 1961 com o título O Sargento Negro. Passou esta noite no FOX HD MOVIES.
sexta-feira, junho 12, 2020
quinta-feira, junho 11, 2020
FICÇÕES
MÁSCARAS
Ela usava máscaras a condizerem com o
padrão dos vestidos e a cor dos sapatos. Acomodava-as numa gaveta da cómoda ao
lado de sutiãs, meias de vidro e cuecas de renda. Antes de escolher uma para
sair, soltava os dedos sobre a textura dos panos e a flexibilidade dos
elásticos, correndo-as de uma ponta à outra como quem toca em alguma coisa
realmente querida e desejável.
Assim, num momento de pachorra deixou
no mural do facebook a seguinte mensagem:
«Eu uso máscara em público e fico a
dois metros de distância. Não, não
"vivo com medo" do vírus, só quero fazer parte da solução e não do
problema. Não sinto que o "governo me controle", sinto que sou uma
adulta contribuindo para a sociedade. O mundo não gira em torno de mim. Usar uma máscara e estar a dois metros de distância não
me deixa fraca, assustada, estúpida ou mesmo "controlada", mas
atenciosa e respeitosa», etc.
Fique claro que
o texto não saíra da sua imaginação – aliás, o que de menos há naquela rede
social é imaginação –, tratava-se de uma “corrente” para copiar e colar, inventada
não se sabe por quem, mas com assinalado êxito em meio de acefalia dominante.
Choveram os
likes e os comentários dos amigos prodigamente simpáticos. Um comentário,
porém, prontamente apagado e denunciado, era de índole maliciosa, troçando do “medo
do vírus” e da suposta pretensão do governo em impor as máscaras para “controlar”,
entregando-se a outras considerações que tinham tanto de impertinente como de
ordinário.
O namorado, um
macho ciumento e feroz, advertiu-a: É o que dá tanta conversa no facebook, para
controlar os cidadãos o governo já tem o Ministério das Finanças e a polícia, quer
lá saber das máscaras, e quanto a isso de não teres medo do vírus, só o não tem
quem é estúpido ou mal esclarecido, vais mas é apagar as baboseiras que
escreveste e aproveita a embalagem para dares menos trela a uns quantos tipos
que andam por lá a fazer-te olhinhos e a enviar-te mensagens privadas, olha que
já m´estou a chatear com estas porras todas.
Ela apagou, mas
ficou amuada durante uns dias. Aliás, deixou de pôr likes e comentários nas
mensagens dos amigos, tanto daqueles que conhecia como dos que nunca vira, apanhados
ali na rede sem engodo nem isco, mil seiscentos e vinte e sete ao todo.
Coisa surpreendente,
deixou de usar as belas máscaras de pano e passou a sair com as vulgarmente
designadas como cirúrgicas, uma pobreza de estilo naquele falso tecido fininho
de cor azul bebé sem a espessura protectora das outras. Fora uma imposição do
ciumento, porque as máscaras que ela usava chamavam muito a atenção e os homens
mais atrevidos paravam a olhar com uma persistência irritante tentando imaginar
os lábios deliciosos que se escondiam sob os seus olhos de sílfide. É sabido
que o que está escondido mais encoraja as pulsões da líbido.
O pior foi ter começado
a sentir-se insegura com as máscaras cirúrgicas, passando a viver com medo do
vírus. Resolveu pedir ao namorado que lhe arranjasse uma viseira bonita capaz
de reforçar a protecção, uma viseira de policarbonato incolor, com fita
elástica colorida e placa de espuma na zona da testa. Se há que usar estas
coisas, pensava, ao menos que se faça com estilo.
E na sensaboria
dos dias estranhos, com o vírus à solta e o namorado à perna, já não se
importava de se sentir controlada, porque um namorado não é o governo,
aguenta-se bem, mau é viver com medo do vírus, sentir-se fraca, assustada ou
estúpida, e isso, em definitivo, é que ela não queria mesmo. Ah, tão atenciosa e respeitosa que era, se ao menos pudesse voltar às belas máscaras de pano!
quarta-feira, junho 10, 2020
CINEMA, POIS ENTÃO
Hoje, na reabertura
do NIMAS, Non ou a vã glória de mandar, de Manoel de Oliveira, filme apropriado para um 10 de
Junho que já foi da Raça e de outros mitos.
Três fotos
para recordação futura:
– Café, antes
do cinema, à luz dos jacarandás da Av. 5 de Outubro;
– O jubiloso público acercando-se da bilheteira;
e
– Título de
ingresso na sessão memorável.
domingo, junho 07, 2020
PASSEIOS DE DOMINGO
PAÇOS DO CONCELHO DE PALMELA. Edifício seiscentista que sobreviveu aos terramotos de 1755 e 1858. Diz o painel informativo que o Salão Nobre ostenta uma galeria dos reis portugueses de D. Henrique a D. Manuel II.
Dedicado aos que de Palmela só conhecem o castelo.
7-6-2020
sábado, junho 06, 2020
sexta-feira, junho 05, 2020
FICÇÕES
CAVALEIRO DA TRISTE FIGURA
Suportara o vexame dos dois metros de
distância, a opressão da máscara e das luvas, a medição diária das temperaturas
num velho termómetro de pôr sob o braço. Às vezes, vacilava-lhe a vista na
determinação do ponto da escala onde se detinha a fita de mercúrio. Nesses
segundos de incerteza, pensava que a natureza bondosa o abandonara, que o
líquido metálico já se estendia aos dígitos altos da casa dos trinta ou mesmo às
primícias dos quarenta. Finalmente, por uma particular inclinação do termómetro
conseguia fazer a leitura: abaixo dos trinta e sete, valor normal, e anotava-o alegremente
num bloco de folhas cinzentas com a indicação da data e da hora.
Ela via diariamente os valores que
ele lhe mostrava. Recomendava-lhe que não andasse de transportes públicos, que
usasse gel desinfectante e, sobretudo, não colhesse flores campestres para lhe
oferecer. A primavera explodia nos campos e nos jacarandás da cidade mas
minguava nos corações dos que não se podiam tocar. Dois metros de distância,
era o mínimo.
Foi assim durante oito semanas.
Depois veio um tempo em que já era permitido sair de casa, colher flores nos
jardins do campo e almoçar em restaurantes.
Não coabitamos, disse ela ao
empregado do restaurante da primeira vez que foram almoçar à beira-mar. Ficaram
sentados em mesas separadas, a conversa fluindo com intermitências lúgubres.
Para segurança de ambos, ela sugeriu-lhe
uma quarentena de catorze dias, findos os quais retomariam a vida a dois. Cada
um na sua casa, claro. E então foi o império do skype e do zoom, as
temperaturas anotadas diariamente, nervos e palpitações sob o riso mudo das
noites.
Quando chegou o grande dia, as roupas
voando na atmosfera cálida do quarto, ela, de súbito, estacou de terror. Uma
temperatura desmesurada irradiava do corpo dele em ondas de choque traiçoeiras
e más. Aplicou-lhe o termómetro digital com visor de cristal líquido e beep sonoro: trinta e sete e nove. Ele
ficou embaraçado e protestou, que a temperatura era o resultado da excitação
sexual, nada mais que isso, havia casos desses cientificamente demonstrados, mas
ela levou a coisa a sério e não o quis ouvir. Rebobinou o filme e a roupa
voltou a assentar-lhe no corpo anteriormente nu. Depois, tiveram uma conversa
ponderosa, de decisões determinantes: mais catorze dias de afastamento até que
a relação se revelasse inócua.
Tristeza das tristezas! Hoje quem o
quer ver é aí pelas ruas a moer a solidão descomunal. Traz a roupa suja, os
sapatos torcidos, os olhos pisados de mágoa sobre a cabeleira hirsuta que
insiste em fugir à tesoura do fígaro. De vez em quando telefonam-se, diálogos
sem sentimento, e nem sabe ao certo quanto tempo falta para cumprir os catorze
dias, se é que não passaram já sem que a interdição cruel tenha sido levantada.
É agora um destroço humano, apenas uma
ténue luz lhe alumia o fácies. A negligência da máscara caída sobre os queixos
faz lembrar a viseira móvel dum elmo medieval. Cavaleiro da triste figura apeado
do seu rocim, de lança frouxa e sem dama, cruzando-se com os monstros eólicos
da pandemia. Assim como anda, algum dia infecta-se de verdade e, pensa, se calhar
é isso mesmo que ela espera.
terça-feira, junho 02, 2020
PINACOTECA
HIERONYMUS BOSCH, João em Patmos escrevendo o Apocalipse (1489)
«Quanto aos covardes, aos infiéis, aos corruptos, aos assassinos, aos imorais, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, o seu lugar é o lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte.» - Apocalipse, 21-8.
domingo, maio 31, 2020
quinta-feira, maio 28, 2020
FICÇÕES
A FÍMBRIA DO VESTIDO AZUL
O resultado do teste foi
inconclusivo, mas o alívio não veio. Continuava com a boca a saber a bafio, um odor que lhe subia às narinas igual ao que se sente quando se abre a
porta de um velho quarto há muito tempo fechado. De noite não conseguia descansar.
Crepúsculos roxos e amarelos atiravam-no para a cama onde o sono esquivo lhe moía
os ossos, o termómetro furtando-se a marcar a ponta de febre que lhe secava a
língua, e pela madrugada sonhava com mulheres nuas e tinha erecções violentas
como nos tempos distantes da juventude.
O médico colombiano que ouvia as
queixas soltou uma interjeição obscena em castelhano e mandou fazer segundo
teste.
Quando se dera o contágio? Ele
associava-o àquela manhã em que a mulher fizera a mala e saíra de casa. Descera
atrás dela até ao carro estacionado na
praceta a uns cinquenta metros do prédio. Implorara-lhe que não se fosse
embora, mas ela não o ouvira, estava decidida a romper com o confinamento a
dois. Com a precipitação de se furtar às súplicas, a fímbria do vestido azul ficara
entalada na porta do carro e ela tivera de voltar a abri-la quando já tinha
posto o motor a trabalhar. A última imagem que dela guardava era a da fímbria
do vestido azul, luzente e bela como o céu num dia bom. Encaminhara-se então para
o restaurante da rua em serviço takeaway,
a entrada trancada por uma mesa romba, e tomara um café em copo descartável. Fora
aí, pensava, que o vírus o fisgara, o danado esperando a vítima traiçoeiramente
refastelado no plástico do copo ou no papel do pacote de açúcar.
O médico colombiano deu uma
gargalhada sonora e anotou na ficha o resultado do segundo teste: não conclusivo.
As noites continuavam na mesma, o tropel de bacantes no alto das madrugadas, os
lençóis amanhecendo com manchas seminais de cor mostarda de Dijon.
Em desalento, tinha deixado de
cozinhar ou encomendar comida. A aparelhagem sonora da vizinha de baixo
desfiava em altos berros todos os fados da Rádio Amália. E passou a sonhar com
a vizinha da pior maneira: uma velha de carnes flácidas e seios descaídos com o
corpo esparramado sobre as suas carnes febris, os movimentos frenéticos ao som
do fado corrido, o suor atravessando-lhe a pele como uma lava impura.
O médico colombiano, leitor de
Gabriel García Márquez, lembrou-se de Florentino Ariza e dos grandes surtos
epidémicos da literatura. Receitou-lhe calmantes e paracetamol.
Então foi a própria mulher que lhe
passou a aparecer nos seus delírios oníricos. Passeava-se com outros homens, insinuante
e bela, deixava-se possuir por eles... Escreveu-lhe uma carta enviada por correio
electrónico, pedia-lhe que voltasse para ficar à sua cabeceira nos dias de vida
que lhe restavam.
Foi visitar o médico pela terceira
vez. Obrigaram-no a pôr uma máscara, apontaram-lhe à cabeça uma
pistola-termómetro e ordenaram-lhe abluções com gel desinfectante. O colombiano
tinha vários livros em cima da mesa: Camus, Saramago e outros notáveis descritores
de epidemias várias. Marcou-lhe novo teste para o dia seguinte.
De manhã, estava ainda na cama, viu
passar no corredor a fímbria do vestido azul. Não era sonho, teve a certeza
disso, porque de seguida ouviu descarregar o autoclismo da casa-de-banho e
correr as persianas das janelas da sala. Ela tinha voltado.
À tarde foi fazer o terceiro teste cujo resultado deu negativo.
domingo, abril 26, 2020
TOPÓNIMOS
Em 2005, já lá vão 15 anos, escrevi um conto razoavelmente estrambótico em cuja acção entravam umas estudantes universitárias muito interessadas pela figura do Duque de Coimbra e pelo episódio histórico da batalha de Alfarrobeira. Feita a leitura da Chronica de El-Rey D. Affonso V, de Rui de Pina, foram as estudantes para o terreno à descoberta do local exacto onde se deu a batalha. Também eu lá fui, antes delas, tendo tomado como boa a ideia de que o dito local é o das actuais portagens da autoestrada em Alverca. O conto tem apontamentos de costumes modernos, apontamentos históricos, e até dá uma piscadela de olho ao género fantástico. Com uma revisão paciente, talvez se conseguisse fazer daquilo uma coisa medianamente decente. Enquanto não trato disso, deixo aí a foto da placa toponímica, tirada hoje durante uma fuga saudável do confinamento.
sábado, abril 25, 2020
COMEMORAÇÃO DO 25 DE ABRIL
Em Alhandra, «a toireira», como lhe chamou Garrett no Cap. I das Viagens. Na Praça 7 de Março (data alusiva ao nascimento, em 1843, do Dr. Sousa Martins), a comemoração possível do 25 de Abril. Máscaras e cravos, "Grândola, vila morena» e o hino da nação.
sábado, março 07, 2020
PINACOTECA
ÁLVARO PIRES D´ ÉVORA, Anunciação (c. 1430-1434), têmpera e ouro sobre madeira, MNAA. Faz parte de exposição temporária sobre o pintor quatrocentista até 15 de Março. Esta obra maravilhosa foi recentemente adquirida pelo estado português (Fevereiro de 2018) em leilão realizado em Nova Iorque. Preço, incluindo comissões da leiloeira: 349 mil euros.
sábado, fevereiro 22, 2020
LEITURAS
Cheguei à
estação de Davos-Dorf e subi para o Sanatório Berghof, cinco mil pés de altitude.
Até ao momento, apenas uma noite dormida no alto, a minha perplexidade é tão
grande como a de Hans Castorp. 80 páginas lidas de um total de 826. Lá
chegarei, espero, não será tão difícil como subir a montanha.
E lembrei-me
de Manuel Bandeira:
«– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o
[pulmão direito infiltrado.
[pulmão direito infiltrado.
– Então doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.»
segunda-feira, fevereiro 17, 2020
PINACOTECA
CÂNDIDO COSTA PINTO (Figueira da Foz, 1911 - São Paulo, 1976), Aurora hiante (1942), óleo sobre madeira.
domingo, fevereiro 09, 2020
sábado, fevereiro 08, 2020
sexta-feira, fevereiro 07, 2020
ESTADOS DE ALMA
Livro do Desassossego, "Primeira nota para uma regra de vida": «Precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente.»
Inteira verdade. E, por outro lado, não só de chefe para subordinado, também entre iguais. A tentativa de domínio é quase sempre o resultado de uma fragilidade. Quanto mais frágil, mais dominador - é uma questão de sobrevivência. E vem a terceira das regras enunciadas por Bernardo Soares: «Reduzir as necessidades ao mínimo, para que em nada dependamos de outrem.» A ideia tem parecenças de boa, mas não é fácil de se realizar.
quarta-feira, fevereiro 05, 2020
terça-feira, fevereiro 04, 2020
ESTADOS DE ALMA
Diz o tipo:
«Tenho andado inquinado da mente, desvinculado de ânimo, já a não posso ouvir quando fala a solo. Há uma noite de cinza que nos cerca, que nos trava a marcha até quando viajamos de carro, a cento e tal à hora, por auto-estradas com custo para o utilizador. Um dia destes dragamos o lodo e vamos mar fora, cada um por si, e seremos finalmente felizes. Entretanto, dói-me tudo. Mas ao contrário de Boris, sou capaz de o dizer.»
DÓI-ME O FLORETE(J´ai mal a ma rapière)
Dói-me o florete
Mas nunca tal direi
Dói-me o podão
Mas nunca tal direi
Doem-me as cerdãs
Doem-me os untadores
Dói-me a pernola
Dói-me a sacola
Mas nunca tal direi lá
Mas nunca tal direi
BORIS VIAN - Canções e Poemas, tradução de Irene Freire Nunes / Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim, 1997, pp. 234-235.
domingo, fevereiro 02, 2020
ARTE URBANA
Do artista BORDALO II, em prédio de Lisboa na esquina da Av. 24 de Julho com a Rua do Instituto Industrial. Arte composta a partir de lixo (componentes de automóveis, embalagens, etc.).
=Foto de 2-2-2020=
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