domingo, outubro 06, 2019

LEITURAS

Aí vai um poema do engenheiro:

Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.

quarta-feira, outubro 02, 2019

LEITURAS DO DIA

«fui lírico demais / mas só quando me não vias / e escondias de mim / as minhas mãos / feridas // ninguém teve culpa // se nunca te disse amo-te / mesmo às escuras / foi porque não soube // puseram a cal / alinharam as testemunhas // para mim continuas viva»
p. 17.


terça-feira, outubro 01, 2019

FORMA E CONTEÚDO

Esta colectânea reúne vinte e quatro textos escritos entre 1947 e 1970. Alguns deles, publicados em jornais e revistas, foram entretanto remodelados para a edição definitiva em livro. Li hoje o texto com o título "Almanaque Literário", uma reflexão em 12 alíneas sobre a arte, a literatura e o trabalho de criação literária. Trata-se de uma escrita elegante como hoje pouco se vê. Cito umas passagens onde se aborda a questão do estilo e do fundo, que o mesmo é dizer da forma e do conteúdo, achas que foram para a  fogueira das velhas polémicas internas do Neo-Realismo:
«Farei hoje o elogio do estilo. Não ignoro que a "estratégia da glória", tão condicionada à pressa do "triunfo", gasta muito pouco tempo com estas ninharias: estilo, expressão, linguagem, quando não insinua mesmo que são óptimas desculpas para criadores vagarosos, regatos de água quase mortos no estio literário. Não me refiro, claro, aos rios tumultuosos por natureza, onde há uma limpidez profunda de torrente, mas aos charcos que se julgam a caminho do mar, à babugem turva que se toma já pela fosforescência da onda.» 
Em continuação:
«O interesse pelo tratamento da "forma" na obra literária ganha com frequência outra animosidade, a dos partidários do "fundo", que põem o problema no quadro esquemático duma luta mortal entre expressão e conteúdo. Considerar o romance, o poema, como bichos de duas cabeças é desfigurá-los. Entendo mal a incompatibilidade entre uma ideia ou uma imagem e a busca das palavras que as tornam cintilantes. "Procuro encostar as palavras à ideia", dizia Alberto Caeiro.»
E finalmente:
«Parece ocioso repetir que "fundo" e "forma" são indissolúveis, se determinam entre si no âmbito da linguagem.»

domingo, setembro 29, 2019


A ideia de Cristina, prima de Arturzinho Corvelo, sobre a leitura de romances: « É uma trapalhada, e depois são tudo mentiras... »



sábado, setembro 28, 2019

DELÍRIOS ECFRÁSTICOS


PRAIA DE BANHOS, PÓVOA DE VARZIM (1884), DE MARQUES DE OLIVEIRA

José Régio veio décadas depois
na nave redonda do Diana Bar.
Não a banhos, como as figuras
do quadro, mas para escrever
a confissão derradeira
no limiar da morte,
a luta perdida
nos corredores do tempo,
a moeda na boca para o sonâmbulo
barqueiro. 

--- Cadernos

quarta-feira, setembro 25, 2019

ANTÍGONA, DE SÓFOCLES

Um desafio ao poder iníquo. Com mais de 2400 anos.
ANTÍGONA para CREONTE: «Não nasci para odiar, mas para amar.»


segunda-feira, setembro 23, 2019

DELÍRIOS ECFRÁSTICOS


JULIO, Epitalâmio (1931), óleo sobre cartão, colecção CMVC.
O noivo regurgita um esgar
de dentes rombos e já a garra adunca
dentro da luva de cerimónia
cerimonialmente  avança
sobre o braço da eleita.

À noite, no suor do tálamo,
chupar-lhe-á os lábios,
os bicos dos seios
e sempre o sangue.

Uma terceira figura,
talvez do pai que lha passou,
assobia de mansinho
ao ar festivo.

Em fundo, a coluna
de volutas jónicas
ameaça desabar
sobre a convenção insana.

--- Cadernos 


domingo, setembro 22, 2019

EM DEFESA DO CLIMA

GRETA THUNBERG. «Grande é a poesia, a bondade e as danças... / Mas o melhor do mundo são as crianças, (...)»


sábado, setembro 21, 2019


«A vida vai muito mais longe que toda a literatura...»

- Jaime Franco para Lelito em Os Avisos do Destino, de José Régio.

sexta-feira, setembro 20, 2019

NATÉRCIA FREIRE (1919-2004)


Uma das exposições em curso na Biblioteca Nacional sobre escritores nascidos há cem anos. Natércia Freire foi poeta, contista, romancista e jornalista cultural. Diz Teresa Sousa de Almeida, autora da folha da exposição: «O caso de Natércia Freire é muito particular, porque dirigiu o suplemento "Artes e Letras" do Diário de Notícias, entre 1954 e 1974, tendo sido a primeira mulher a fazê-lo, numa altura em que a instituição literária era sobretudo masculina, o que lhe deu uma grande visibilidade. Só muito mais tarde, em 1968, Maria Teresa Horta será convidada para dirigir o suplemento cultural de A Capital.» Sobre o livro de contos A Alma da Velha Casa (1945), há uma curiosa reacção de José Régio, autor do ciclo romanesco A Velha Casa (5 volumes publicados entre 1945 e 1966), em carta para o seu grande amigo Alberto de Serpa datada de Portalegre, 18 de Junho de 1945: «(...) Provas do primeiro volume de A Velha Casa, o qual se chama Uma Gota de Sangue (...) Não confies o título do romance. A Natércia Freire talvez se não tivesse lembrado de chamar a um seu livro A Alma da Velha Casa se o meu título geral se não tivesse espalhado tanto. E eu então, que nisto dos títulos sou duns zelos maníacos e ferozes! Já não lhe perdoo  tal abuso.»

segunda-feira, setembro 16, 2019

EXPOSIÇÕES



"SARAH AFFONSO E A ARTE POPULAR DO MINHO", até 7 de Outubro na Gulbenkian, comemora os 120 anos do nascimento da artista. Na imagem, A Estrela, óleo sobre tela de 1937.
=Foto de 15-9-2019=


sábado, setembro 14, 2019

ANO DE 1919


Escritores nascidos no ano:
= João José Cochofel (1919-1982)
= Natércia Freire (1919-2004)
= Joel Serrão (1919-2008)
com exposições na Biblioteca Nacional;
= Fernando Namora (1919-1989)
com exposição no Museu do Neo-Realismo;
= Sophia (1919-2004)
= Jorge de Sena (1919-1978)
e há certamente mais...

quarta-feira, setembro 11, 2019

GRANDE PLANO

ORNELLA MUTI, no papel de Odette de Crécy, em Un amour de Swann (1984) de Volker Schlöndorff. Adaptado de Proust, pois então.


terça-feira, setembro 10, 2019

PINACOTECA

YASUO KUNIYOSHI (1889-1953), Circus Girl Resting (1925). Pintura exibida na "Advancing American Art", em 1946, exposição que reuniu 79 pinturas a óleo de 45 importantes artistas norte-americanos. A exposição viajou depois de Nova Yorque para Paris e Praga, onde obteve grande sucesso e polémica. O presidente Harry Truman criticou a orientação artística dominante, tendo proferido a propósito deste quadro a célebre declaração racista e reaccionária: « If that is art, then I am a Hottentot.» 

sexta-feira, setembro 06, 2019

UM BANQUINHO...

«Pani Krysia, debruçada sobre a mesa de jantar, saia arregaçada, esticava os braços como se fosse uma cruz, fincando as mãos à toalha de renda. Com o peito espremido no tampo, erguia o queixo para o tecto como se visse o céu. Atrás dela, com os pés apoiados num banquinho, o presidente da Câmara trazia as calças pelos joelhos e dominava a beata puxando-a pelos atilhos do corpete
No capítulo seguinte é o escritor fictício que se pronuncia sobre a fabulação do seu relato: «O gajo não prestava, não valia nada! Um tipo daquele tamanho não chega aonde ele chegou sem se empoleirar. Há quem lhe chame canalhice, eu vi  ali um banquinho, qual é o problema? Tens um banquinho, tens uma história.»
Este é um romance em que a história narrada se confronta com as motivações da narração, as fontes, o poder da fabulação, a angústia da criação, o real e o imaginário. Um bom romance, prémio Leya 2017.

quarta-feira, setembro 04, 2019

ORDEEEEER!

NOT A GOOD START BORIS!, disse o incrível speaker John Bercow. Isto sim, vale a pena, não tem nada a ver com a pasmaceira enfatuada de S. Bento. 

CINEMA PARAÍSO

Uma fantasia americana de 1946 dirigida por Frank Borzage. Apesar da "implausibilidade do argumento" e das "grotescas interpretações dos protagonistas" (João Bénard da Costa), é um filme que engaja o espectador no delírio, no conto de fadas, na música de Rachmaninoff com um invisível Rubinstein ao piano. Uma Catherine McLeod fabulosa e o final feliz que cai sempre bem. Passou ontem na Cinemateca.