quinta-feira, julho 26, 2018

PINACOTECA

BALTHUS (Paris, 1908 - Rossinière, 2001), Nu avec chat (1949)

FEMME ET CHATTE

Elle jouait avec sa chatte,
Et c´était merveille de voir
La main blanche et la blanche patte
S´ébattre dans l´ombre du soir.

Elle cachait – la scélérate! –
Sous ses mitaines de fil noir
Ses meurtriers ongles d´agate,
Coupants et clairs comme un rasoir.

L´autre aussi faisait la sucrée
Et rentrait sa griffe acérée,
Mais le diable n´y perdait rien…

Et dans le boudoir où, sonore,
Tintait son rire aérien,
Brillaient quatre points de phosphore.

PAUL VERLAINE, Poèmes Saturniens


quarta-feira, julho 25, 2018

KZ

KZ, funcionário no Ministério das Finanças, um funcionário cansado como o do poema de António Ramos Rosa. « Então KZ abandonou tudo, e desapareceu. Deixou dito: Vou procurar um coelacanto. E nunca mais voltou, nunca mais voltará.» --- HERBERTO HELDER, Os Passos em Volta.


terça-feira, julho 24, 2018

segunda-feira, julho 23, 2018

PINACOTECA

Cortesã (1640), de JACOB ADRIAENSZ BACKER (1609-1651). Mestre na arte "do tirar polo natural" (retrato), este holandês que foi aluno de Rembrant tem obras expostas nos grandes museus europeus. Esta pertence ao Museu Nacional de Arte Antiga e está patente na exposição "EXPLÍCITA arte proibida?" a decorrer na "Sala do Tecto Pintado" até 28 de Outubro.

domingo, julho 22, 2018

DO TIRAR POLO NATURAL (Francisco de Holanda)

"Inquérito ao Retrato Português" --- Exposição no Museu Nacional de Arte Antiga até 30 de Setembro. 
MÁRIO ELOY (1900-1951), Retrato do Cineasta Roberto Nobre (1924). Óleo sobre tela. Colecção particular.
=Foto de 22-7-2018=


sexta-feira, julho 20, 2018

MOBY DICK

«Então surgiu do fundo do mar uma baleia enorme, com a cabeça e a corcova brancas como leite, e recoberta de patas de corvo e de rugas.» --- Moby Dick (1851), de Herman Melville, tradução de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves, edição da Relógio D´Água.

quarta-feira, julho 18, 2018

terça-feira, julho 17, 2018

RELEITURAS


Releitura da estupenda novela Adolescente Agrilhoado, de José Marmelo e Silva, versão de 1958 de Adolescente, narrativa publicada dez anos antes. Obra literária de cunho neo-realista, é portadora de uma densidade psicológica fora do comum. Numa escrita exemplar, o autor dá-nos nota do percurso de um adolescente entre a opressão sofrida num internato (seminário) e a difícil existência no seio da sua aldeia serrana. Em fundo, o trabalho do povo nas minas de volfrâmio e o cortejo de sofrimento e morte que lhe anda associado. A liberdade, o amor e os sonhos da juventude tragicamente contrariados por uma tríade de poderosos: proprietários, o prior e o mestre-escola.


domingo, julho 15, 2018

sábado, julho 14, 2018

INTERVALO

Esta tarde, no 4º piso da biblioteca Fábrica das Palavras, vendo passar uma embarcação tradicional do Tejo. 


sexta-feira, julho 13, 2018

INSTANTÂNEOS

12-7-2018
Pelo menos, deu para assistir ao ensaio da Sinfonia do Novo Mundo, de Dvorak. "Festival ao Largo", Orquestra Metropolitana de Lisboa.

quinta-feira, julho 12, 2018

JULIO, "A IMAGEM QUE DE TI COMPUS"

Livro da exposição de homenagem a JULIO (Júlio dos Reis Pereira) organizada em 2013 pelo CAM-Fundação Calouste Gulbenkian em colaboração com a Fundação Cupertino de Miranda. Edição belíssima com textos de Artur Santos Silva e Pedro Álvares Ribeiro, António Gonçalves e Patrícia Rosas, e Valter Hugo Mãe. Com reprodução das pinturas e dos desenhos expostos. A este artista ( JULIO como pintor e SAÚL DIAS como poeta) aplica-se bem a máxima de Simónides de Céos (séculos VI e V a. C.) citado por Plutarco: «A pintura é poesia muda e a poesia é pintura falante»; ou o sentido do verso 361 da Epistola aos Pisões, de Horácio: «Ut pictura poesis», isto é, «Como a pintura é a poesia».

segunda-feira, julho 09, 2018

VOU LENDO


Marco Polo como viajante e Rustichello de Pisa como cronista apresentaram em finais do século XIII uma descrição tão minuciosa quanto possível dos reinos, cidades, línguas, religiões e costumes de uma vasta região do mundo compreendida entre o Próximo Oriente e os confins do Império Mongol. O relato detém-se em pormenores históricos da Europa como o comércio de Veneza com o Oriente e o longo período que demorou a escolha do sucessor do papa Clemente IV, falecido em Novembro de 1268. A passagem pela Arménia e a Geórgia dá lugar, no capítulo 21, a uma curiosa referência a «uma fonte de onde surge tanto óleo e em tal abundância que cem barcos se carregariam ao mesmo tempo», óleo esse que, não sendo «bom para comer, mas sim para queimar», traz «homens de muito longe» por sua causa. Se era assim no século XIII, que dizer então do que se passa nos dias de hoje?

quinta-feira, julho 05, 2018

Só uma vez fui verdadeiramente amado. Simpatias, tive-as sempre, e de todos. Nem ao mais casual tem sido fácil ser grosseiro, ou ser brusco, ou ser até frio para comigo.  Algumas simpatias tive que, com auxílio meu, poderia - pelo menos talvez - ter convertido em amor ou afecto. Nunca tive paciência ou atenção do espírito para sequer desejar empregar esse esforço.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.

domingo, julho 01, 2018

CASA DE ANTERO DE QUENTAL EM VILA DO CONDE

O autor de Odes Modernas e Causas da Decadência dos Povos Peninsulares viveu nesta casa de Vila do Conde entre 1881 e 1891. De construção recente é a escada de madeira que liga os diversos pisos da casa, materialização simbólica dos versos do soneto "Evolução", de Março de 1882:
Hoje sou homem - e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade...

=Fotos de 28-6-2018=



terça-feira, junho 26, 2018

PINACOTECA

JULIO (Vila do Conde, 1902-1983), Burguês e Prostituta (1931), óleo sobre tela, 78,5 x 63 cm.

domingo, junho 24, 2018

NO MUSEU DO FADO

Num dos painéis alusivos a figuras do fado, os poetas David Mourão-Ferreira, José Régio e Alexandre O' Neill cujos poemas foram e são cantados por renomados fadistas. Destaque para Régio que no ensaio António Boto e o Amor (1938) tece interessantes considerações sobre a canção nacional: «Várias são as modalidades do fado, conforme o meio em que se desenvolve: Assim há o fado dos lupanares, das tabernas, das alfurjas: o fado de salão, de palco, de retiro, de coreto de rancho popular estilizado; o fado das alfamas e mourarias de Lisboa; dos luares do Mondego e becos da Alta de Coimbra; das revistas chulas do Porto ou dos cegos das feiras dos subúrbios. Assim há o fado que arrota e o que põe água de cheiro, o que soluça e o que satiriza, o que pode refrescar a literatura e o que a envilece, o que vai barra fora em terceira classe, guardado numa caixa de guitarra como no coração dum búzio saudoso, e o que se embarca em discos ou navega em ondas sonoras enviadas pelas emissoras. Assim há o fado às vezes execrável e o fado às vezes tocante, - um e outro característicos através das suas modalidades.» Mais adiante, o poeta de Vila do Conde e Portalegre aponta como fontes de inspiração do fado a «paixão do solo pátrio», a «vontade de aventura», o «desgosto das injustiças sociais», o «exibicionismo da desgraça», o «amor filial» e o «amor maternal», a «sede de piedade» e as saudades de tudo, palavras de um verso de António Nobre. Penso que o Museu do Fado terá em arquivo este texto do poeta, mas não deixarei de perguntar da próxima vez que lá for. 

sábado, junho 23, 2018

PINACOTECA

 ANITA MALFATTI (1889-1964), Festa de São João com Guirlanda
DI CAVALCANTI (1897-1976), São João


sexta-feira, junho 22, 2018

LEITURAS TARDIAS

Ainda nos primeiros capítulos. Ismael, o narrador, professor rural oriundo de famílias distintas, embarca como marinheiro em qualquer navio sempre que se sente atacado por estados mórbidos. É, diz ele, a sua estratégia de luta contra o suicídio.

quinta-feira, junho 21, 2018

quarta-feira, junho 20, 2018

RECOLHA DE TEXTO E COLAGEM *

uma voz existe intersticial.
mole é contudo a espera
e tu jazes no chão.
passos na escada vacilante enganam.
é ela ou não ainda?
é ela quem sobe firmamente
é ela.
sem bater entrou 
correu beijou-te a testa os olhos e a boca
o lábio inferior dela no superior da tua boca
num instante de paz.
hoje não posso
problemas de fêmea.
autoirónica sorriu e tu sorriste:
que chatice.

* ALMEIDA FARIA, I Fragmento de Rumor Branco, 5ª edição revista, Lisboa, Assírio & Alvim, 2012.



domingo, junho 10, 2018


A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


quinta-feira, junho 07, 2018

MADAME HYDE (2017), DE SERGE BOZON


ISABELLE HUPPERT, foi por ela que me sentei na sala do Monumental. A transfiguração de uma professora de Física  perante uma classe de jovens descendentes africanos, árabes e magrebinos. Lycée Arthur Rimbaud, escola com nome de poeta maldito.  O rap insubmisso («Demasiado trabalho na escola, e depois da escola não há trabalho») e versos de “Les Phares”, de Charles Baudelaire. Um estranho caso, como o do Dr. Jekyll e Mr. Hyde. 


terça-feira, junho 05, 2018

TOPÓNIMOS



Domingo, 3-6-2018
Nenhum jasmim nestas escadas de luz e sombra em cujas pedras cresce uma árvore como uma alegoria verde. Árvores em flor em outros pontos da cidade. Nesta Lisboa, onde agora «a cor dos jacarandás floridos / se mistura à do Tejo, em flor também,» (Eugénio de Andrade).



segunda-feira, abril 09, 2018


Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma.
(...)
Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que há na terra. Passei já por cidades mais que as existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram , absolutos, sob os meus olhos contemplativos. Se viajasse, encontraria a cópia débil do que já vira sem viajar.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.

quinta-feira, abril 05, 2018

PINACOTECA

Praia de Banhos, Póvoa de Varzim (1884), de MARQUES DE OLIVEIRA (Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado).

José Régio veio décadas depois
na nave redonda do Diana Bar.
Não a banhos, como as figuras
do quadro, mas para escrever
a confissão derradeira
no limiar da morte,
a luta perdida
nos corredores do tempo,
a moeda na mão para o sonâmbulo
barqueiro.  
  
28-6-2017

quarta-feira, abril 04, 2018

VOU LENDO

PORTUGAL

O teu Produto Interno
é Bruto.

(p. 50)

--- Com uma epígrafe tirada de Mário de Sá-Carneiro, poema "Caranguejola":
Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras, / Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou. / Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras: / Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou. 

terça-feira, abril 03, 2018


A vida prejudica a expressão da vida. Se eu vivesse um grande amor nunca o poderia contar.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


terça-feira, março 20, 2018


Não o amor, mas os arredores é que vale a pena...
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.

segunda-feira, março 19, 2018

VOU LENDO


« – Falei-te uma vez de uma rapariguinha que conheci em Mira, lembras-te? Antes de entrar para a Faculdade…  – Ela assentiu com a cabeça. – Reencontrei-a há poucas semanas. Não aconteceu nada entre nós, mas já poderia ter acontecido, só não aconteceu porque nem eu nem ela quisemos, embora quiséssemos. – Observa-a em silêncio, como se pretendesse seguir os pensamentos da mulher. – Preferimos manter um futuro de reserva , não o gastar já no presente, entendes? Recorrer a ele apenas quando tudo o mais tiver falhado.» --- A superação do tempo linear e a plasticidade das personagens. Uma forma de narrar não tradicional. Cruzamento de planos narrativos, de vozes, avanços e recuos na linha da história.  A sugestão de ambientes, como os que nos são dados por uma câmara de filmar. Mais “aventura da escrita” do que “escrita da aventura”.  Ó meus caros amigos, isto está muito à frente do que agora nos é dado pelos escritores da moda.



quarta-feira, março 14, 2018

PINACOTECA

FERNAND LÉGER (1831-1955), Les Loisirs - Hommage à Louis David ou Le Beau est partout (1948-49). Musée national d´art moderne, Centre Pompidou, Paris. 

domingo, março 11, 2018


Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


quarta-feira, março 07, 2018

CARTOON XIRA

A CARTOON XIRA, retrospectiva dos melhores cartoons publicados em 2017, decorre este ano na FÁBRICA DAS PALAVRAS. Na imagem, o trabalho de Cristiano Salgado (n. 1977): Ida de Mário Centeno para presidente do Eurogrupo.


sexta-feira, março 02, 2018



Não se subordinar a nada – nem a um homem, nem a um amor, nem a uma ideia, ter aquela independência longínqua que consiste em não crer na verdade, nem, se a houvesse, na utilidade do conhecimento dela – tal é o estado em que, parece-me, deve decorrer, para consigo mesma, a vida íntima intelectual dos que não vivem sem pensar. Pertencer – eis a banalidade. Credo, ideal, mulher ou profissão – tudo isso é a cela e as algemas.
= Bernardo Soares, Livro do Desassossego.


quinta-feira, março 01, 2018

A DAMA DO OCULTO


«Decretado o divórcio, a dama do oculto estabeleceu-se com um homem mais novo sem papéis nem assinaturas. Uma espécie de toy boy, na sugestiva expressão que só a língua de Shakespeare e John Keats é capaz de nos dar. Mas não durou muito este casamento do diabo, expressão da Carta de Guia de Casados de D. Francisco Manuel de Melo: casamento de Deus, o dos noivos da mesma idade; da morte, o do velho com a jovem; do diabo, o que tem lugar entre o jovem e a velha. O toy boy não desistira de ser brinquedo de outras senhoras, e a dama do oculto, dona da casa que servia de cenário às brincadeiras do casal, demitiu-o das suas funções sem sobressalto ou angústia de qualquer das partes.»
--- Excerto duma narrativa inédita.